Implante
* 26
GERRY
Gerry acabara de voltar do almoço. Estava admirando a última obra de arte de Martha, um desenho feito com lápis de cera que acabara de pregar na parede de seu cubículo, quando anunciaram o telefonema de Gina. Ficou satisfeito por ser ela quem lhe estivesse ligando. A semana inteira Gina estivera estranhamente distante.
— Gerry, preciso de sua ajuda.
Não era um bom começo. Parecia nervosa.
— Claro. Qual é o problema?
— É sobre Duncan.
Gerry reprimiu um resmungo. De novo, não. Desejaria nunca ter falado com Gina sobre sua teoria de conspiração.
— O que tem ele?
— Ele colocou um implante tóxico no senador Marsden. Gerry não respondeu imediatamente. Não podia. Estava chocado demais para falar.
— Ele fez isso, Gerry. Eu sei. Finalmente, encontrando sua voz, Gerry disse:
— Gina, já passamos por isso antes. Testamos a solução, o "molho secreto" ou seja lá como você o chama, e vimos que ele é...
— Não estou falando do molho secreto. É alguma outra coisa. É uma droga da qual nunca ouvi falar.
— Como descobriu isso?
Gina ficou em silêncio por um instante.
— Descobri a droga numa das gavetas de Duncan.
— Ele a deixa onde qualquer um possa pegar? Outra pausa.
— Não, ele a deixa trancada.
— Então como você...—De repente, Gerry entendeu tudo. — Gina, não! Você não...
— Me perdoe, Gerry, mas precisei fazer isso.
— Gina, você usou a ferramenta do FBI para invadir o escritório de alguém?
— Gerry, você tem todo o direito de ficar zangado, mas, por favor, não fique. Não usei a ferramenta para invadir o escritório dele. Só para abrir a gaveta.
— Dá no mesmo. Você podia ter sido pega, presa, talvez pior.
— Olhe, eu sabia que você reagiria assim se eu lhe dissesse. Foi por isso que fiquei calada. Mas eu tinha de abrir aquela gaveta.
— Não acredito nisso. Você....
— Gerry, duas pessoas podem estar mortas por causa dele. Duas outras estão insanas. Esta droga causa reações psicóticas. Você assistiu ao vídeo do senador Vincent no primeiro dia da audição, não é?
— Claro. Quem não viu aquilo?
— Ele estava agindo de forma sã imediatamente antes de ter o ataque?
— Não, acho que não—admitiu Gerry, relutante. Pegou um lápis. — Qual o nome da droga?
— Dietilamida triptolínica.—Ela soletrou para Gerry.—DTP para encurtar.
— E essa coisa deixa as pessoas malucas?
— Segundo a FDA, deixa sim. A pesquisa foi interrompida porque a droga causou reações psicóticas em primatas.
— Então se Lathram está injetando essa droga nas pessoas, por que nenhum médico descobriu isso no organismo das vítimas?
— Porque ninguém está procurando por ela. Ninguém sabe que ela existe.
Gerry, milhares e milhares de compostos são testados todos os anos.
Talvez um dentre dez mil chegue a alcançar o público. Trata—se de uma droga experimental que foi descartada devido aos efeitos colaterais. É
isso. Tchau—tchau Sayonara. Que venha o próximo composto e não vamos mais pensar nisso.
— Então como Lathram soube sobre esse... — Olhou sua anotação. — DTP?
— Pelo irmão dele. Oliver trabalhava para a empresa que estava testando a DTP.
Gerry se empertigou e se inclinou sobre a mesa. Todas as velhas suspeitas que ele estivera tentando esquecer dançavam novamente dentro de sua cabeça.
— E você acha que ele injetou essa coisa em Marsden?
— Tenho certeza!
— Você o viu fazer isso?
— Não, mas vi o ferimento arredondado na coxa do senador. Gerry ouviu Gina contar como vira o frasco de DTP sobre a mesa de Lathram naquela manhã, junto com um implante e alguma coisa chamada trocarte.
— Mas Lathram não podia simplesmente ter lhe dado uma injeção ou qualquer coisa do tipo?
— Não ali. E Duncan jamais dá injeções. Ele manda uma enfermeira fazer isso. Estou dizendo, Gerry, o senador Marsden está deitado no fim do corredor com um implante cheio de DTP na coxa direita. Tenho de tirar aquilo!
— Certo. Relaxe por um segundo e me deixe pensar. — Ele se recostou na cadeira novamente, tentando permanecer calmo, conter a excitação que o envolvia. Isso era coisa pesada. Um cirurgião preeminente e bem relacionado e um senador americano muito famoso. Material para manchetes. Tinha tudo para se tornar um grande caso. Ou um grande embaraço.
Se apenas Gina tivesse realmente visto Duncan inserir o implante...
— Acha que Marsden está correndo perigo imediato? Gina hesitou por um segundo, mas finalmente disse:
— Não. Duncan vai passar o dia fora. Acho que ele quer escolher um lugar e um momento específicos. Lembre—se que tanto Allard quanto Vincent sofreram seus ataques diante de câmeras de TV Acho que Duncan vai esperar uma oportunidade como essa.
— Mas por que, Gina? Falta um motivo para isso. Por que ele está agindo assim?
— Ele odeia a Comissão de Diretrizes e o que ela está tentando fazer.
— Igualzinho a um monte de outros médicos. Mas eles não...
— Escute, Gerry. É uma questão pessoal para Duncan. Gina lhe contou sobre as matérias que lera noPost e noBanner, e lhe disse que Schulz participara da Comissão de Diretrizes original.
Bingo! Esse era o elo que ele estivera esperando para conectar os quatro congressistas. Ela também contou sobre o telefonema que dera para o Comitê de Ética Médica do Estado de Virgínia. Quando Gina terminou, ele estava convencido, mas isso não era o bastante. Ainda teria de convencer Ketter.
— Veja, como o senador não está em perigo imediato, dispomos de algum tempo para montarmos um caso.
— Gerry...
— Escute o que vou dizer. Mandaremos alguém vigiar a casa do senador.
Enquanto isso, não faça nada que possa alertar Lathram.
— Não se preocupe.
— Não lhe dê nenhuma chance de cobrir seu rastro. Quero que ele pense que tem tudo sob controle absoluto, que tudo está normal. E mantenha distância. Pare de bancar a Nancy Drew. Deixe o resto comigo.
Queria que Gina ficasse longe do perigo. Não havia como saber o que Lathram faria caso se sentisse encurralado. — Certo, mas tem certeza que o senador ficará bem?
— Gina, no momento não tenho certeza de coisa alguma. Quero dar início a esta investigação, mas não sou eu quem toma essas decisões. Preciso montar um caso e levá—lo ao meu supervisor, e ele pode ter de encaminhá—lo a um superior. E quanto mais cedo eu conseguir botar esta coisa para andar, melhor.
Gina comunicou—lhe o ano e os meses nos quais os artigos de jornal apareceram e em seguida falou:
— Mantenha—me informada, certo?
— Não se preocupe. Mas uma coisa que não pode ser mencionada, agora ou nunca, é como você abriu a gaveta de Lathram. Entendido?
— Entendido. E sinto muito, juro.
— Desculpas aceitas. Falo com você depois.
Depois que desligou o telefone, Gerry permaneceu sentado durante um bom tempo, fazendo anotações, organizando os fatos e consultando o computador para poder montar o caso do Dr. Lathram.
Gerry estava a toda. Sabia o que isso poderia significar para ele. Não deixaria que esse caso saísse de suas mãos. Era o seu bebê. A curto prazo, significava uma tonelada de trabalho extra, mas a longo prazo...
solucionar um caso dessa magnitude poderia fazer a carreira de um agente.
E tudo parecia muito sólido. O bom doutor tinha acesso e oportunidade.
Gerry precisava documentar seus motivos.
Ligou para o departamento de pesquisa. Queria todas as informações sobre o Dr. Lathram, com atenção especial para as ligações entre Lathram e os políticos vitimados. Queria estar com esses recortes à mão quando levasse o caso a Ketter.
Gerry ficou surpreso quando, menos de uma hora mais tarde, um envelope do departamento de pesquisa apareceu sobre sua mesa. Tão cedo?
Folheou rápido os papéis, principalmente as fotocópias dos velhos artigos de jornal com o nome de Lathram em destaque, junto com os de Lane, Allard, Vincent... e Schulz.
Ali estavam eles, vilão e vítimas, todos belamente conectados nas páginas doFost. A solução do caso ainda estava longe, mas esses recortes, mais a declaração de Gina sobre a neurotoxina, seriam suficientes para fazer as coisas funcionarem.
Dirigiu—se ao escritório de Marvin Ketter.
Ketter estava parado diante da janela, olhando para o tráfego congestionado na E Street. O cenho estava franzido em sinal de concentração, unindo as sobrancelhas felpudas numa linha contínua.
Gerry percebeu que ele estava tentando se decidir.
Homem cauteloso, esse Ketter. Cauteloso demais. Temia muito cometer erros. Mas Gerry não permitiria que Ketter deixasse esse caso escapar.
— Veja—disse Gerry, caminhando pela sala, procurando por uma forma de convencer o supervisor —, Lathram tem motivo, meios e oportunidade. Do que mais precisamos?
— É tudo circunstancial.
— Quatro membros da comissão antiga estão mortos ou inválidos. A Dra.
Panzella só não viu Lathram enfiar um desses implantes no senador Marsden. Quanto tempo devemos esperar?
— "Só não viu" não é o mesmo que ver. Você sabe disso, Gerry. E Marsden não foi membro da comissão original. Isso acaba com o motivo.
— Mas ele está presidindo a nova comissão. Gina está certa. Sei que ela está.
As sobrancelhas de Ketter alcançaram a linha do cabelo.
— Gina?
— ADra. Panzella. Fizemos o ginásio juntos.—Ele não queria que Ketter soubesse mais que isso.— Foi por causa disso que ela me procurou. Olhe, não me diga que não está sentindo nas entranhas que tem algo errado aqui.
Ketter olhou o monte de papéis que Gerry dispusera sobre a mesa — Acredite em mim, Gerry. Não há nada que eu gostaria mais que solucionar uma trama como essa. Seria bom para nós dois.
Foi a vez de Gerry caminhar até a janela, para olhar os carros. Ketter não saltaria a merda da cerca, mesmo sabendo que um caso como esse poderia fazê—lo subir de posto e deixar Gerry nesse escritório. Gina ficaria orgulhosa dele, o senador Marsden se sentiria grato e ele teria mais tempo de se dedicar a Martha. E a Gina.
Deus, como ele queria isso.
— Então o que fazemos? Esperamos até o senador Marsden enlouquecer?
— Se isso acontecer, pelo menos saberemos o que e onde procurar.
Gerry lhe dirigiu um olhar cético.
— Eu sei, eu sei. — disse Ketter. Isso não faria muito bem a Marsden.
Mas não quero correr o risco de me queimar e prejudicar o FBI.
Muito bem, pensou Gerry. Se apelar para a razão não estava funcionando, que tal uma ameaça?
— De uma coisa eu tenho certeza, Marvin. Se alguma coisa acontecer a Marsden, a Dra. Panzella vai nos culpar por isso. Ela está no gabinete de Marsden. Não acha que ela dirá à imprensa, ao Congresso e a quem quiser ouvir que avisou o FBI mas que a ignoramos? Se está preocupado com um embaraço, pense só nisso.
As sobrancelhas de Ketter se encontraram novamente no meio da testa. Ele coçou o queixo.
Estou quase chegando lá, pensou Gerry. Só mais um empurrão...
— Olhe, se houvesse uma forma de confirmarmos a existência deste implante sem deixar Marsden ou Lathram saberem o que estamos fazendo, eu assinaria embaixo — disse Ketter. — Mas essa coisa supostamente está na perna dele. O que podemos fazer? Tirar os sentidos de um senador dos Estados Unidos e o arrastarmos até um hospital para batermos uma chapa dele? Gerry deu as costas para a janela e fitou Ketter. Isso!
— O quê ? — perguntou Ketter.
— Acho que sei como podemos fazer!
* 27