Implante
* 15
GINA
Gina bocejou enquanto caminhava até a sala dos médicos. Uma noite atarefada no Lynnbrook. De vez em quando, podia tirar um cochilo durante o turno. Não dessa vez.
Não que fosse conseguir dormir muito mais se tivesse ficado em casa.
Sentia—se péssima. Pior do que quando esperara o resultado do concurso para residência. Quase tão ruim quanto os meses de espera para saber se fora aceita pela faculdade de medicina.
Encontrou novamente o Dr. Conway.
— Vejo que a Sra. Thompson finalmente foi para casa. Deve ter sido um alívio.
— Acho que sim. Os diretores estão felizes da vida comigo porque pensam que colaborei com eles. Na verdade, o crédito é da Sra. Thompson. Ela deu uma virada dramática, quase miraculosa. Num dia estava se arrastando, e no outro estava animada e exigindo ir para casa.
Um sinal de alerta soou no cérebro de Gina.
— Quando foi isso?
— Quarta—feira.
— Sabe, conversei com a Sra. Thompson na noite anterior — disse Gina, insegura.—Ela contou que ouvira comentários de que você estava tendo problemas por causa dela. Lembro que ela disse alguma coisa como "Não quero ser um faraó para ninguém. Estarei fora daqui antes do que você imagina."
Conway fitou Gina.
— Deus! Isso seria típico dela.
Ele pegou o telefone e ligou para a sala de registro. Anotou o número de telefone da Sra. Thompson e discou. E esperou. Discou e esperou novamente. Enfim desligou.
— Ninguém atende. Estou indo para lá.
— Ela pode ter saído — disse Gina.
— Às sete da manhã? Uma senhora de setenta e oito anos?
— Vou com você.
— Você está de serviço. Direi depois como foi.
Gina passou a hora seguinte imaginando o que Conway encontraria. Quando não se achava pensando nele, estava concentrada na comissão. Em dado momento pegou—se ligando para o seu apartamento, rediscando para ativar o modo remoto da secretária eletrônica.
— Que estou fazendo? —pensou e desligou.
Era cedo demais. Ninguém do escritório de um senador ligaria antes das dez. E era mais provável que acontecesse depois do meio—dia.
Estava prestes a sair quando um recado apareceu na tela de seu pager. O Dr. Conway estava requisitando sua presença na emergência.
Gina o encontrou parado ao lado da caixa de raios X, estudando uma chapa de tórax. Ela deu uma olhada no pulmão direito opaco e disse: — Espero que não seja o de Harriet. Conway balançou a cabeça de forma afirmativa.
— Encontrei—a à porta dos fundos da casa. Estava semiconsciente, com um punhado de migalhas de pão na mão. Acho que saiu para alimentar os pássaros ontem à noite e desmaiou.
— Ela ficou ao relento a noite inteira?
— É o que parece. Está em choque, hipotérmica e hipoxêmica. Além disso — ele deu um tapa na chapa do tórax —, está com três costelas fraturadas e possivelmente com um hemotórax. Liguei para Fielding. Ele vai intubar a Sra. Harriet e colocar—lhe uma máscara respiratória. Depois disso, é com a equipe da UTI. — Puxou o filme da caixa de raios X — Merda! Eu não devia tê—la mandado para casa!
— Ela lhe disse que estava bem. O que mais você poderia ter feito?
— Eu devia ter entendido a situação. Acreditei nela porque eu queria acreditar. Fiquei tão feliz porque isso tiraria o conselho do meu pé, que agarrei a chance de dar—lhe alta.
— Não seja tão duro consigo mesmo. Onde ela está?
Conway apontou com o dedão por sobre o ombro dela na direção das alcovas cobertas por cortinas. Gina não teve certeza em qual estava a Sra.
Thompson até ver Fielding, o pneumologista, sair de um dos cubículos e caminhar até o posto de enfermagem. Gina entrou no cubículo.
Harriet Thompson estava praticamente irreconhecível. O lado direito do rosto estava inchado e púrpura onde ela devia ter atingido o chão. Um tubo plástico saía do canto da boca, conectando—se por um tubo maior a um respirador que inflava e soprava. Os olhos estavam entreabertos mas não viam nada. Gina segurou—lhe a mão e a apertou.
— Agüente firme, Harriet. Está em boas mãos.
Gina não podia fazer muita coisa. Conway e a equipe de UTI cuidariam de tudo. Ao sair, Gina deu um tapinha nas costas do Dr. Conway e desejou boa sorte a ele e a Harriet.
Sentou—se à frente do volante de seu Sunbird e esfregou os olhos, que ardiam. Essa manhã ela ainda deveria assistir Duncan numa cirurgia.
Apesar da fadiga que estava sentindo, aquilo tinha um lado positivo: o tempo passaria mais rápido. Mas primeiro um banho.
Notou a luz de mensagens piscando na secretária eletrônica. Correu até ela mas o dedo hesitou, permanecendo paralisado sobre a tecla replay.
Gina foi tomada por uma ansiedade enorme. Seria agora? O grande "não"?
Balançou a cabeça. Estava ficando nervosa sem motivo. Não havia chance alguma de ser do escritório de Marsden.
Ela apertou o botão. Era Gerry. Gina foi invadida por uma onda de calor ao ouvir a voz dele. Ele se mostrara muito simpático no dia anterior.
Oi, Gina. Agora são quase onze horas. Esqueci que você estava no plantão noturno hoje. Deve ouvir esta mensagem amanhã de manhã. Por favor, telefone para mim assim que tiver alguma notícia do escritório de Marsden. Aposto que você vai saber cedo. Quando souber alguma coisa, ligue para mim. Estarei em casa até umas nove horas. Boa sorte. Mas será sorte deles se aceitarem você. Tchau.
Como é gentil, pensou Gina, sorrindo ao apertar a tecla de apagar mensagens. Gentil e inocente. Ela não receberia nenhuma notícia cedo.
Mas que engraçado, como Gerry parecia certo de que ela teria notícias cedo! E ele era tudo, menos inocente.
Gina estava saindo do chuveiro quando ouviu o telefone tocar. Ainda pingando, envolveu—se numa toalha e correu até o quarto para atender.
Era Alicia Downs.
— Você está dentro, Gina. Gina ficou afônica.
— Alô? — perguntou Alicia. —Ainda está aí?
— Sim, ainda estou. Apenas não consigo acreditar. Fui aceita?
— Foi. Ouvi Blair mandar uma das secretárias ligar para você e lhe dar a notícia. Estou fazendo isso no lugar dela.
— Mas como...
— Não me pergunte. Votei em você. Não sei quanto a Blair. Só sei que o senador tomou sua decisão em algum momento entre a noite de ontem e esta manhã. Você é a nova assistente legislativa na pasta de medicina.
Gina se sentiu fraca.
— Isto é... maravilhoso. Obrigada por ter ligado. E pelo seu apoio.
— Não me agradeça. Eu a acho brilhante e uma boa pessoa. Estou certa que fará um bom trabalho, mas a quero por outras razões. Você será um trunfo em relações públicas.
— Um trunfo. Uau. Alicia riu.
— Ei, você não é apenas uma médica, é uma mulher brilhante e atraente, que acaba de sair de seu treinamento em medicina. Você não é Washington. É uma estranha, sem conexões com a burocracia. Você é o agora. Sua presença demonstra que o senador tem uma mente aberta para idéias novas da profissão médica.
Gina de repente sentiu frio, e a causa não era a água escorrendo pelas pernas.
— Olhe, se estou entrando apenas para ficar na vitrina, você pode dizer...
— De forma alguma. Não com este senador. Ele quer você como uma especialista. Sou eu que estou preocupada com as aparências.
— Isso é um alívio. Acho. Ela riu de novo.
— Relaxe, Gina. Você está dentro. E está com um dos mocinhos. Eu já ganho a vida nesta cidade há quarenta anos, e o senador Marsden é o primeiro cara em muito tempo que restaurou minha fé no processo eleitoral. Não faz idéia como é agradável polir a imagem de um cara de quem você gosta realmente.
— É bom ouvir isso. É muito bom.
— Então você aceita?
— Claro.
— Ótimo. Nossa equipe se reunirá amanhã às dez em ponto. Espero que não tenha nenhum plano importante para o fim de semana.
— Bem, nada firme.
Ela estava pensando em se encontrar com Gerry.
— Bom. Com as audiências começando semana que vem, é bem provável que você tenha de trabalhar no fim de semana. Bemvinda a bordo. Vejo você amanhã.
Gina desligou e ficou parada no centro do quarto, rindo como uma boba, deixando cair a toalha enquanto se apercebia da realidade.
— Con... con... consegui! Ela socou o ar.
— Viva!
Enxugando o cabelo, começou a dançar pelo quarto e, com os olhos cobertos, saiu para a sala, girando como uma louca, ondulando os quadris ao ritmo da música de reggae que tocava no rádio.
Aqui está ela, senhoras e senhores! A última, a maior, a mais fantástica assistente legislativa na capital da nação, apresentando—se com seu nome artístico, Pizza Napolitana, em sua interpretação exclusiva da dança da Ratazana do Capitólio.
Gina abaixou a toalha do cabelo e se viu diante da janela da sala, parada de frente à Kalorama Road, nua como veio ao mundo.
— Ô!
Abaixou—se e correu de volta até o quarto. Enquanto abria a gaveta de calcinhas e sutiãs, viu—se no espelho de corpo. Virou—se para olhar o corpo mais de perto, virando—se para um lado e para o outro, de modo a obter ângulos diferentes dos seios e nádegas.
As nádegas eram um pouco mais generosas do que ela gostaria. Mas a barriga era bonita e plana. Correu os dedos sobre a cicatriz da antiga incisão, e percebeu uma linha fina de pêlos descendo até o emaranhado negro sobre o púbis. Hora de mais um pouco de cera depiladora.
Nada mal, pensou. Nada mal para uma quase balzaquiana.
Tinha duas carreiras agora. Por que não uma terceira como Pizza Napolitana, a dançarina do ventre? Não... havia outro termo para isso, uma palavra "ducaniana". Que era...?
Dançatriz surgiu em sua mente.
Certo. Regina Panzella: médica, assistente legislativa e dançatriz.
Uma dançatriz bem desajeitada.
Ah, bem.
Virou—se e começou a remexer nas roupas íntimas.
Depois de vestida, seu bom humor arrefeceu ao lembrar de Harriet Thompson. Gina ligou para a UTI do Lynnbrook Hospital e soube que o estado de Harriet se estabilizara. Bom.
Em seguida ligou para Gerry. Ele pareceu de fato feliz por ela, mas não tão surpreso quanto ela esperara.
— Viu o que eu disse? As vezes as coisas funcionam. Não vale a pena ser cínica o tempo inteiro. Trabalho duro e persistência ainda compensam.
— O tempo todo eu sabia que você era a pessoa certa para o serviço.
Agora acho que esse tal de Blair e o senador também sabem. Mas o que é realmente bom é que isso significa que você estará na minha vizinhança com mais freqüência.
— É verdade — não pensara nisso. — Estou feliz com isso também.
Gostava mais de Gerry a cada vez que falava com ele. Talvez um agente do FBI não fosse tão glamouroso quanto um clínico cheio de poder como Peter, mas sentia uma grande candura em Gerry. Se isso continuasse...
— Mas mudando de assunto, encontrei o atestado de óbito de Lisa Lathram no distrito de Fairfax.
Gina perdeu a respiração. Parte dela queria dizer—lhe que esquecesse, que era melhor deixar os mortos em paz. Outra parte não descansaria até que todas as questões tivessem sido respondidas. Tentou manter um tom de voz natural.
— Foi rápido. O que diz nele?
— Está chegando para mim. Telefono assim que receber.
— Obrigada, Gerry. Você está ficando indispensável.
— Tomara que sim.
— Acho que terei de reduzir algumas de minhas horas aqui.
Gina e Duncan estavam no meio de uma cirurgia abdominal. Gina estava com um retrator amplo enganchado em quinze centímetros de parede abdominal, posicionando—a onde Duncan poderia fazer uma recessão das camadas abundantes de gordura amarela. Ela não tinha planejado contar a ele até que a cirurgia estivesse terminada, mas Duncan começara a falar sobre uma cirurgia no dia seguinte, e ela não teve mais como fazer segredo.
— Oh? — disse ele. — E por que isso?
— Eu... eu consegui o trabalho no gabinete do senador Marsden. Pronto.
Eu disse.
Observou—o com cuidado, lembrando de sua explosão na outra vez. Como ele reagiria agora?
Seus olhos azuis levantaram—se para ela por um ou dois segundos, e em seguida retornaram ao campo cirúrgico.
— Congratulações. Quando começa?
Gina não respondeu imediatamente. Preparara—se para uma reação de raiva.
Esta aceitação pacífica era quase intimidante.
— Bem, neste fim de semana.
— Então você terá de nos deixar agora mesmo.
— Cassidy disse que pode me cobrir.
— Espero que você ainda tenha algum tempo para a medicina.
— Terei de reduzir um pouco minhas horas de trabalho, mas não pretendo desistir.
— Bom. Não quero perdê—la. Seu trabalho aqui tem sido excelente.
— Muito obrigada—respondeu, surpresa com o raro elogio.
— O Capitólio será educativo para você—disse Duncan. — Vai lhe dar uma chance de ver a caquistocracia funcionar. Testemunhará em primeira mão a corrupção desabusada dos sofistas congressionais. Eles irão...
— Ai, não. Lá vamos nós de novo — resmungou Marie, a anestesista.
Joanna olhou para Gina, fingindo raiva.
— Estava tudo tranqüilo até aqui. Tinha de provocá—lo?
— Desculpe.
— Tudo bem, tudo bem — disse Duncan, olhando em volta e sorrindo por trás da máscara. Apele em torno de seus olhos franziu. —A despeito de sua presunçosa insubordinação, eu as pouparei de uma palestra desta vez. Mas deixem—me dizer apenas uma coisa...
Marie resmungou de novo.
— Espere um pouco — disse Duncan. — Tudo que vou dizer é que quero que vocês ouçam e lembrem que ouviram isto aqui primeiro: Gina não suportará a corrupção e a hipocrisia do Capitólio por mais de um ano.
— Sempre há uma chance de acontecer isso — disse Gina, pensando em Joe Blair. — Mas sei que essas audiências serão interessantes. Mal posso esperar que elas comecem.
Duncan a fitou.
— Nem eu, meu bem. Nem eu.
Gina o fitou também. Alguma coisa naqueles olhos azuis e brilhantes...
alguma coisa quase selvagem, parecida com a sua expressão naquele dia na entrada do Capitólio, quando ela o vira com o deputado Allard. Gina sentiu um arrepio atravessando—lhe a espinha.
Gina deixou o escritório de Lathram cedo e, ao chegar ao seu apartamento, ligou novamente para a UTI.
— Ela está tendo alguns problemas de pressão — disse a enfermeira encarregada. — Problemas graves. O Dr. Conway está aqui. Quer falar com ele?
— Não. É melhor não incomodá—lo. Apenas lhe diga que telefonei para saber como ela estava.
Gina desligou. Merda. Aquilo não soara bem. Em seguida telefonou para seus pais. A mãe atendeu, e Gina contou—lhe as boas novas.
— É isso que você quer, Gina? — perguntou—lhe a mãe. Por que todo mundo lhe perguntava isso?
— Sim, mamãe — respondeu em tom paciente. — Pelo menos por enquanto.
— Então, que bom. Estou contente por você. Esperamos você às seis.
— Esperam—me onde?
— Aqui, claro. Vamos comemorar. Abriremos um vinho. E farei seus pratos favoritos: ravióli e lasanha aos três queijos.
Gina ficou com a boca cheia d'água. Mas estava cansada demais. E aquele era o tipo de comida que transformara a pequena Regina na grande e gorda Pizza Panzella.
— Sinto—me realmente exausta mãe. Eu estava para...
— Gina, Gina — disse ela naquela voz que sempre a comovia. — Há tanto tempo que você não aparece aqui... Vive a cinco minutos de distância e nunca visita a família. Vai esquecer sua mama epapai Gina reprimiu um suspiro.
— Que horas mesmo?
— Seu pai chegará em casa às seis. Durma um pouco e nos veremos a essa hora.
Gina caiu na cama e deixou—se levar pelo sono.