Implante
* 11
GINA
Gina acabara de checar um paciente com dor no peito na enfermaria Norte Três, no Lynnbrook Hospital. Não conseguia parar de pensar em Gerry e como fora agradável o tempo que passara com ele e Martha naquele pequeno Taco Bell. Um jantar no Palms não teria sido tão agradável. Ela odiou ter de ir embora.
Enquanto passava pelo balcão de enfermagem, Gina viu o Dr. Conway debruçado no balcão, prescrevendo medicamentos. Estava surpresa em vê—lo. Era quase meia—noite, e em geral Gina era a única médica de plantão àquela hora.
Ele levantou os olhos e sorriu, enquanto ela se sentava do outro lado do balcão. Ele deu um tapinha no prontuário à sua frente.
— Ei, Panzella, se soubesse que estaria de plantão esta noite, teria deixado este sujeito para você.
— Talvez devesse. Você parece abatido.—Ela não estava exagerando. O médico estava com olheiras. —Vá dormir um pouco.
— Vou embora assim que terminar este relatório de progresso. Gina viu o prontuário de Harriet Thompson e tirou—o da prateleira.
— Vejo que sua velhinha favorita continua aqui.
— Harriet?—Ele assentiu e suspirou.—Sim. E infelizmente ainda não está pronta para ir para casa. — Diz que se sente fraca como um passarinho.
Gina folheou o prontuário.
— Todos os exames dela parecem muito bons.
— Perfeitos.
— Acha que pode ser um problema secundário? Como de repente ela receber mais atenção aqui do que em casa?
— Não. Trata—se de uma senhora realmente independente. Odeia isto aqui.
Acho que ela está com algum tipo de astenia causada por infecção hospitalar. Já vi isso antes, especialmente depois de uma pneumonia como a dela. Não é possível ver nem tocar essa astenia, nem há qualquer teste de laboratório que a confirme. A maior parte do diagnóstico é por exclusão.
— A administração ainda está pegando no seu pé?
— Essa é apenas metade da história. — Ele balançou a cabeça, preocupado.
—A coisa está ficando feia. Eles trouxeram reforços. Tenho recebido telefonemas do chefe da seção de atendimento familiar e do próprio supervisor de equipe. Não disseram com todas as letras, mas deram a entender que eu talvez venha a ter um pouco de dificuldade em passar a trabalhar aqui em tempo integral se não provar que sei jogar em equipe.
Não era de admirar que ele parecesse abatido.
— Não dá para envolver nenhum parente dela?
— Telefonei para a filha dela em San Diego. Falei com ela pessoalmente.
Ela não pode vir para cá. Parece que não é um "momento bom" para ela.
— E então, qual é seu próximo passo?
— O de sempre. Eles que se danem. Ela fica até estar apta para ir.
Fechou o prontuário, deixou—o onde a enfermeira encarregada pudesse vê—lo e se afastou do balcão.
— Vejo você depois, Panzella.
— Estarei por aqui — disse ela, enquanto o via se afastar. Gina estava preocupada. Os problemas de Conway aumentariam se ele não cedesse.
Seus pensamentos vagaram de volta para Gerry e o que ele lhe dissera sobre os pacientes de Duncan. Lane, Schulz e agora Allard... Gerry parecia suspeitar de uma conexão. E o que ele estaria pensando agora se Gina tivesse lhe dito que vira Duncan na entrada do Capitólio naquela manhã, falando com Allard pouco antes dele cair?
Mas como ela descreveria o olhar assustador nos olhos de Duncan quando ele deu as costas ao deputado? A lembrança daquela expressão ainda a fazia sentir arrepios.
Aquilo era bobagem. Que conexão poderia haver entre o deputado Allard e a filha de Duncan? Ela morrera cinco anos atrás. Gina levantara o histórico pré—cirúrgico de Allard e estava absolutamente certa de que o deputado não conhecia Duncan antes de consultar—se com ele.
Mas, ainda assim... aquilo a incomodava. Prometeu a si mesma que quando tivesse algum tempo pesquisaria, por conta própria, a respeito da falecida Lisa Lathram.
Gina estava acabando de chegar ao primeiro andar quando recebeu outra mensagem pelopager. Foi telefonar da cabine telefônica na sala dos médicos.
— Ligação pessoal—disse a telefonista. — Interurbano. Quem, perguntou—se Gina, ligaria de outro estado para ela no hospital?
— Gina? — disse uma voz familiar. — Gina, é você?
— Peter! Como me encontrou aqui?
— Não foi fácil.
Ela sentou no banquinho da cabine e se recostou. Os olhos negros e as feições fortes e angulares de Peter Hanson flutuaram à frente dela.
— É tão bom ouvir sua voz.
— Sinto saudades de você, Gina.
— Oh, também estou morrendo de saudade.
Gina quase se sentiu culpada por ter jantado com Gerry e gostado tanto.
Eles eram dois tipos tão diferentes...
Mas por que estava pensando em Gerry enquanto falava com Peter ao telefone?
Ele falou sobre como seu velho apartamento parecia vazio sem ela, sobre como ele estava se sentindo solitário.
— Poderíamos realmente incluir outro médico em nosso quadro, Gina.
Alguém com seu talento e personalidade seria uma clínica geral extraordinária em três meses. Precisamos de você, Gina. Eu preciso de você.
Ser necessária... isso seria delicioso. Ninguém parecia precisar realmente dela ali em Washington.
Ela passara os dois últimos anos de sua residência com Peter. Ele se juntara a um grupo médico multidisciplinar em Baton Rouge. Gina recebera uma oferta do mesmo grupo mas a recusara. Optara por ir para Washington e quisera que Peter a acompanhasse. Os dois conversaram muito sobre o assunto, mas finalmente voltara para o leste, sozinha.
Ouvindo avoz do antigo namorado, percebia como sentia falta dele e de Lousiana, com seu ritmo mais calmo e a comida temperada e saborosa.
E agora, depois da recepção fria no escritório do senador Marsden, era tentador demais desistir de tudo ali e correr de volta para Nova Orleans.
Estava morrendo de vontade de ficar novamente com Peter, mas não poderia se permitir isso. Nem mesmo para uma visita.
Porque ela jamais conseguiria partir, nunca reuniria forças para dizer adeus outra vez.
— Peter, preciso ver se consigo entrar nessa comissão.
— Você não precisa de nenhuma droga de comissão. Você precisa clinicar.
Eles já haviam tido essa conversa dezenas de vezes, e ela sempre acabava da mesma forma: Peter com raiva e Gina transtornada.
Como diria isso sem magoá—lo?
Peter, ainda tenho sentimentos profundos por você, mas o poder aqui, a enormidade das decisões tomadas todos os dias... é um fluxo de adrenalina que não existe em nenhum outro lugar do mundo. E... bem... é facinante.
Ela optou pela velha tática de manter Peter esperando.
— Já conversamos sobre isto milhares de vezes, Peter. Ainda não estou pronta para me dedicar à medicina. Há algumas coisas que quero experimentar primeiro, e este é o único lugar onde posso fazer isso.
— Por quanto tempo devo esperar?—perguntou com um tom de voz já irritado.
— Eu também estou esperando, Peter. Estou quase enlouquecendo de tanto esperar.
Ele suspirou.
— Tudo bem. Eu continuo na geladeira. Conte—me quando souber o que vai fazer. Assim que souber o que irá fazer.
— Prometo. E sinto muito.
— Somos dois. Tchau, Gina. Ligue—me logo.
Ficou sentada na sala dos médicos por um longo tempo com o telefone pousado no colo, imaginando se seria possível que estivesse certa enquanto o restante do mundo estava errado. Seu pager bipou novamente antes de chegar a uma conclusão.
Queriam—na na Sul Dois.