Implante
* 14
NO CAPITÓLIO
Gina permaneceu na sala de espera do senador Marsden durante alguns minutos, até finalmente ser convidada a entrar.
A sala do senador era exatamente como ela lembrava—pastas de arquivo empilhadas, prateleiras abarrotadas de livros, e a miniatura de cesta de basquetebol sobre a lixeira.
Joe Blair estava lá, novamente de branco, camisa de mangas curtas, outra gravata também discreta e calças pretas. Gina estranhou quando Blair a saudou calorosamente, abrindo um sorriso sob o bigodinho, enquanto se aproximava para apertar—lhe a mão e conduzi—la à velha mesa do senador.
Gina não estava certa do que pensar sobre o cavalheirismo súbito de Blair. Estaria representando na frente do patrão? Era em homenagem a Blair que Gina estava usando uma saia mais comprida hoje.
O senador Hugh Marsden se inclinou sobre a mesa e estendeu—lhe a mão.
Tinha estatura mediana, cerca de sessenta anos, era calvo e corpulento, mas possuía uma presença imponente. Eram os olhos, decidiu Gina, intensos e de um azul penetrante. Aqueles olhos capturaram—na e a mantiveram cativada, enquanto o senador apertava—lhe a mão. Tinha a voz grave e igualmente imponente.
— Dra. Panzella. Seja bem—vinda.
Havia uma terceira pessoa na sala. Uma mulher baixa, compacta, com cerca de quarenta anos. Ela se apresentou.
— Olá, Dra. Panzella—disse a mulher, estendendo—lhe a mão. Tinha um sorriso caloroso e franco, e brilhantes olhos castanhos. Gina simpatizou com ela na hora. — Sou Alicia Downs. Assessora de imprensa do senador.
— Gina. Por favor, chamem—me Gina.
— Muito bem, Gina—disse o senador. — Puxe uma cadeira. Espero que não se importe se formos direto ao assunto. O senador Moynihan adiantou para as quatro e meia um compromisso que a princípio seria às cinco.
Portanto, estamos com pouco tempo.
Ele se sentou na cadeira de encosto reto atrás da mesa e empurrou para o canto três pastas que estavam à sua frente. Gina se sentou numa das duas cadeiras em frente à mesa. Alicia pegou a outra. Blair permaneceu em pé, pairando acima delas. Posicionando—se onde poderia olhar melhor as pernas dela, talvez?
— Não consegui evitar minha curiosidade com o fato de uma jovem médica com suas qualificações querer este posto—disse o senador. — Diria que você é superqualificada. O que espera fazer aqui?
Lavamos nós outra vez.
Começou seu discurso sobre como achava que o impacto da Lei das Diretrizes para a Ética e a Prática da Medicina seria importante para o futuro de sua profissão, e como não poderia simplesmente ficar parada sem tentar contribuir em alguma coisa.
— As diretrizes não poderão sufocar a individualidade—concluiu Gina.
—Você quer que todos os médicos façam exatamente a mesma coisa? Espero que não. É claro que deverá haver padrões mínimos de treinamento e atendimento. Mas o ideal seria permitir uma variedade em estilo de prática. Cada prática deve ter sua própria personalidade, porque do contrário a lei privará os pacientes de sua liberdade de escolha.
O senador estudou—a por um momento em silêncio, os olhos azuis fixos em Gina. Começava a sentir —se desconfortável quando ele finalmente falou.
— Sabe que este é um posto de meio expediente para o qual duvido que possamos pagar vinte mil dólares anuais, se tanto?
— Expliquei isso a ela, senador — disse Blair. Ele parecia vagamente ansioso. Embora não estivesse realmente se movendo, dava a impressão de estar marchando sem sair do lugar.
— O dinheiro não é importante—disse Gina.—Tenho o resto da vida para fazer dinheiro. Esta é uma oportunidade de fazer algo importante, de ser parte de alguma coisa que afetará o resto da minha vida profissional. Se eu já estivesse exercendo a medicina, pagando prestações de casa própria e criando filhos, eu provavelmente não poderia largar tudo e devotar meses de minha vida a esta comissão. Mas não tenho nenhum compromisso. Só tenho a mim mesma com quem me preocupar. Esta é uma coisa que quero fazer, algo que posso fazer... e fazer bem. E se eu não for agora, nunca farei. E... — deveria ousar dizer isso? — seu comitê será mais pobre sem a minha colaboração.
— É isso? — perguntou o senador Marsden com um leve sorriso nos lábios.
Com o canto do olho ela viu Blair morder o lábio superior e balançar levemente a cabeça.
Será que exagerei? pensou Gina.
— Pelo menos essa é a minha opinião.
— Sim, bem, o que você diz tem fundamento. Pode me dar um dia para chegar a uma decisão final?
— Claro.
E tenho escolha?
— Ótimo. — Ele olhou para o relógio, levantou—se e estendeu—lhe a mão.—Desculpe terminar isto tão rápido, mas é a reunião do orçamento, você sabe.
Gina sorriu, enquanto apertou a mão dele.
— Compreendo.
— Vou acompanhar você até a saída — disse Alicia.
Gina olhou para trás, enquanto saía, e viu Joe Blair debruçado sobre a mesa do senador, falando com ele em voz baixa.
— Acho que seu chefe de gabinete não foi com a minha cara —disse Gina, enquanto ela e Alicia passavam pelos cubículos de trabalho.
Alicia riu furtivamente.
— Joe é um babaca. Está puto porque disse ao senador que você não é adequada ao trabalho e o chefe insistiu em conversar com você pessoalmente.
— Então ele está lá atrás tentando dissuadir o senador de me aceitar?
— Talvez. Não veja isso como uma ofensa pessoal. Ele é um maníaco por controle. Ele quer que o gabinete seja dele... escolhido a dedo por Joe Blair.
— Isso é justo, acho—disse Gina, com um tom de voz surpreendentemente sereno.
— Pode ser, mas ainda assim ele é um babaca.
— Gina!
Estava quase chegando aos elevadores. Virou—se e viu Joe Blair correndo atrás dela.
— Ainda bem que a alcancei.
— O que aconteceu?—perguntou, observando—o de perto.
— Será que ele mudara de idéia?—Não conseguia acreditar que esse sujeito existia. E havia alguma coisa nos olhos dele...
— Apesar de minha recomendação pessoal, o senador ainda está indeciso. É mais uma questão de problema orçamentário do que com suas qualificações.—Ele desdobrou o pedaço de papel que segurava e passou—o para ela.—Mas precisamos pensar numa maneira de reagir quando ele vir isto.
Nós? Desde quando éramos um nós?
Ela olhou para a folha e reprimiu um gemido. Era uma xerox de um artigo que ela escrevera para o New Orleans Times—Picayune durante seu segundo ano de residência. Naquela época ficara particularmente irritada depois de ler uma série de artigos naquele jornal sobre o que estava errado com a medicina nos Estados Unidos. Gina escrevera uma carta longa exprimindo com veemência seu desagrado com a forma como tinham delineado os problemas e as soluções que haviam proposto. O jornal dissera—lhe que se ela aumentasse a carta, eles a publicariam como um artigo opinativo. Excitada com a perspectiva de ter um público, Gina disparara todos os seus canhões. Era uma invectiva da qual o próprio Duncan teria se sentido orgulhoso.
Mas... um artigo muito negativo, muito estridente, sem nenhuma intenção de apresentar um argumento equilibrado. Gina sentira arrepios ao relê—lo no dia que foi publicado. Se tivesse colocado aquele texto numa gaveta durante uma semana antes de remetê—lo, certamente teria atenuado alguns de seus comentários.
Ela não escrevera mais nada desde aquela época, e de repente ali estava o artigo, ressuscitado e parado diante dela.
— Essa não é exatamente a forma como penso—disse Gina.
— Estou certo que não. — Blair tocou—lhe a mão de forma solícita.—Mas poderíamos nos encontrar para analisarmos nossas opções, caso este artigo apareça à mesa do senador.
Ela recuou um centímetro e a mão dela rompeu o contato. Lá estava de novo: nós.
— O que sugere?
— Oh, que tal a minha casa? — disse Blair com naturalidade. — Esta noite. E vista algo bonito.
Gina sentiu as mãos fecharem—se em punhos. Teve vontade de socar o nariz de Blair e em seguida arrancar aquele bigodinho, um fio por vez.
— Desculpe — respondeu com calma, movendo a boca amplamente, de modo a não falar entre dentes cerrados. — Tenho planos para esta noite.
— Amanhã à noite, então. Não temos muito tempo.
Não temos nenhum tempo. Ela respondeu—lhe com frieza.
— Não. Desculpe. Estou ocupada. Esta noite, amanhã à noite, toda noite.
Blair olhou para ela, obviamente confuso. Então seus olhos se estreitaram, mas apenas por um segundo. Encolheu os ombros e deu—lhe as costas.
— Tudo bem—disse sobre o ombro. —Você é que sabe. Mas não diga que não ofereci ajuda.
— Não direi — replicou Gina, suavemente, enquanto levava um dedo trêmulo ao botão do elevador.
Enquanto esperava o elevador chegar, Gina tentou controlar a raiva e a humilhação que sentia. Não era para ser assim, não era para funcionar dessa forma.
Finalmente o elevador chegou. As portas fecharam—se atrás de Gina, e ele começou a descer. Sozinha, isolada no elevador, Gina quis gritar, chorar. Não fez uma coisa nem outra. Enxugou uma lágrima solitária no olho direito e sussurrou uma única palavra.
— Merda.
Encontrou Gerry a esperando no pátio. Ela forçou um sorriso e rezou para que os olhos não estivessem vermelhos.
— O que está fazendo aqui?
— Esperando por você. O que mais poderia ser?
Ele estava com uma ótima aparência. Mesmo no fim de um dia de trabalho, Gerry parecia bastante bem. Mas a empolgação que Gina sentira nas últimas duas vezes em que os dois tinham estado juntos ausentara—se hoje. Ela não queria estar com ninguém agora.
— Mas como você sabia?
— Você me contou. Lembra? Ao telefone? Há umas cinco horas?
— Tudo bem.
Sua mente não estava trabalhando direito naquele momento.
— E então, que tal uma bebida?
Uma negação educada começou a se formar em sua garganta, mas Gina a engoliu. Fora magoada e seus instintos a impeliam a correr para um canto e ficar sozinha. Mas aquilo seria o que Pizza teria feito.
— Claro. Eu adoraria.
— Ótimo. Conheço o lugar certo. Pegaremos um atalho. — Tomou—a pelo braço e conduziu—a à saída dos fundos do Edifício Hart. —Vamos beber para comemorar, espero.
— Não. Eu temo que não — disse lentamente.
— Está brincando. O quê...
— Vou lhe contar tudo.
Gerry fechava e abria os punhos sob a mesa, enquanto Gina contava sua história.
Estavam sentados numa mesa isolada perto da janela. Gerry levara Gina ao Sommelier, um pequeno bar de vinhos, porque descobrira que ela preferia vinho a licor, e em especial tintos italianos.
Ele gostava de uísque irlandês, de preferência Black Bush. Mas se vinho fosse a única opção, normalmente se contentava com um zinfandel branco.
Em geral, não ficava encantado com nenhum vinho.
Podia ver que Gina estava magoada. Ela falava lentamente, quase em tempo real, enquanto girava o copo de valpolicella e bebericava. Avoz estava calma, assim como as mãos. Parecia completamente controlada, mas Gerry sentia sua dor.
Quando Gina começou aparecer mais deprimida, ele desejou não tê—la levado ali. As superfícies polidas de bronze, cromo e mármore do Sommelier eram limpas e luminosas demais para a história que estava sendo contada. Deviam ter ido a um bar sombrio.
Não. Aqui é melhor. Limpeza e luz combinavam com Gina. Era apenas a terceira vez que estavam juntos, e já sentia uma necessidade em protegê—la. E muita atração também. Gerry não se sentia assim desde a faculdade, quando ele e Karen haviam começado um namoro sério. Um sentimento bom. Estava começando a pensar em Gina enquanto trabalhava.
Surpreendera—se pensando nela nos momentos mais inconvenientes, imaginando o que Gina estaria fazendo e se perguntando se também estaria pensando nele.
E agora Gerry estava compartilhando a raiva e a dor de Gina, que tinha expectativas melhores quanto a trabalhar no gabinete de um senador americano. Ela merecia coisa melhor.
Às vezes Gerry odiava essa maldita cidade.
— Washington é assim — sentenciou Gerry. — Não é apenas com você. Isso acontece com todo mundo.
— Quer dizer que eu não deveria levar isso para o campo pessoal? — Seus olhos faiscaram. — É isso que está dizendo?
— Sim e não — respondeu com lentidão. Precisaria escolher bem suas palavras. Não queria provocar uma explosão de fúria e raiva. —Você deve sentir—se ofendida, com raiva e até humilhada. Mas entenda também que Blair está simplesmente agindo da mesma forma que todos no Capitólio.
Está apenas jogando pelas regras que aprendeu.
— Rato do Capitólio — disse Gina, meneando a cabeça. — Puxa, nunca imaginei que esse termo caberia tão bem numa pessoa. — Mas não existem leis...?
— Sim, provavelmente escritas pelos próprios Ratos do Capitólio e creditadas aos seus chefes. Mas essas leis se aplicam a outras pessoas, aos constituintes. Elas não se aplicam ao Capitólio. Você acaba de entrar numa zona ética Além da Imaginação.
— Você parece encarar isso com tanta naturalidade...
Era mesmo? Ela estaria certa? Será que ele estava investigando corrupção política fazia tanto tempo, que coisas desse tipo pareciam naturais como o ar?
Talvez. E ele não gostava dessa resposta.
Mas Gerry não estava falando sobre corrupção explícita. Não, era uma atmosfera, um ambiente. Um conjunto diferente de valores.
— Não posso ver com naturalidade magoarem você.
Ela deu um pequeno sorriso. Ele adorava a forma como seus lábios se contraíam nas extremidades quando ela sorria. Os olhos de Gina diziam obrigado.
Gerry segurou a mão de Gina. Ela não recuou.
— Entenda, Gina, se quer fazer parte do esquema no Capitólio, terá de aprender a jogar pelas regras deles. As pessoas aqui em cima não vão mudar só por sua causa.
— Nunca esperei que fizessem isso, mas...
— Imagine que entrou na maior feira livre do mundo, onde tudo está àvenda, mas os preços não estão nas mercadorias. Amoeda corrente é a influência, e os melhores jogadores saem com as sacolas de compras mais cheias.
— É um quadro muito sombrio, Gerry.
— Gina—disse Gerry inclinando—se para a frente.—Tenho certeza de que está acostumada com o tráfico de influências na política hospitalar, mas aquilo não é nada em comparação ao que ocorre aqui. Você está agora na primeira divisão. Esse tal Blair exerce sobre o senador a influência necessária para conseguir o que você quer; você, por sua vez, tem alguma coisa que ele quer. Ele me parece um jogador muito experiente, que sabe agir de forma discreta. Essa conversa que vocês tiveram foi uma negociação. E não ache que ocorreu num corredor vazio por acidente. Não foi uma proposta equivocada, apenas uma oferta generosa em ajudá—la com um possível problema em sua entrevista. E sem testemunhas. Muito astuto.
— Você fala quase como se o admirasse.
— Admiraria meu punho na cara dele, se o encontrasse. Gerry foi recompensado com outro sorriso, dessa vez grande o bastante para revelar os dentes brancos e reluzentes de Gina.
— Não arranje problemas por minha causa.
— É uma boa causa.
— Isso significa que posso fazer uma requisição profissional?
— Profissional?
— Sim. Trabalho de detetive. Estou investigando a filha de Duncan Lathram.
Gerry sentiu as entranhas apertarem ao ouvir o nome de Lathram.
— O que tem ela? Está com algum problema?
— Não. Ela morreu num acidente há cinco anos.
— Que tipo de acidente?
— Uma queda. Em casa.
— Está suspeitando de alguma coisa?
— Não. Eu não estou suspeitando de nada. Só quero descobrir alguma coisa sobre ela. Ninguém fala nada.
— Pura curiosidade, então?
Pelo comportamento de Gina, ele percebia que não era apenas isso. Ela estava escondendo alguma coisa.
— Não sei realmente o que estou procurando. Só imaginei que você talvez pudesse conseguir uma cópia do atestado de óbito dela.
Isso era um pedido estranho. Mas nem um pouco difícil se você sabe para quem telefonar. E perfeitamente legal. Atestados de óbito são registros públicos.
— Sem problema. Só preciso saber onde ela vivia na época. O resto é moleza.
— Alexandria, acho. Virgínia do Norte, com certeza.
— Certo. Consigo para você daqui a um ou dois dias. — E ele conseguiria mesmo. Mas primeiro daria uma boa olhada no atestado. Agora quem estava curioso era ele. —A não ser que você esteja com muita pressa.
Observou—a com cuidado quando ela respondeu.
— Não. Sem pressa.
Terminado esse assunto, quase pôde vê—la afastar—se enquanto caía em silêncio. Ela suspirou.
— No que você está pensando?—perguntou Gerry. Seria em Lisa Lathram, nesse tal Blair ou em outra coisa?
— Talvez você e Duncan estejam certos. Talvez eu não tenha sido talhada para esta cidade.
Então... tínhamos voltado a Blair. Uma dor cresceu dentro de Gerry quando ele sentiu a decepção em sua voz e viu linhas de preocupação formarem—se em seu semblante. Tinha de fazer alguma coisa, só não sabia o quê.
— Não abra mão da esperança. As coisas sempre acabam funcionando.
— Talvez de vez em quando — disse ela. — Não desta vez. Ele bebeu seu zinfadel branco.
— Nunca se sabe, Gina. Nunca se sabe.
Gerry parou no corredor fresco e bem iluminado de um prédio do Watergate—at—Landmark, um condomínio luxuoso em Virgínia do Norte, e esperou que atendessem a campainha.
Ele sabia que Blair estava em casa—confirmara isso telefonando para seu apartamento e desligando quando ele atendera. Gerry torceu para que estivesse sozinho. Caso contrário, seria preciso improvisar. Mas de uma forma ou de outra, ele faria o crápula ver a luz. Assim que deixara Gina no carro dela, Gerry correra pela Pennsylvania Street até o FBI.
Checou Blair, mas não encontrou nenhuma ficha criminal. Pena. Isso teria facilitado as coisas. Portanto, teria de blefar.
Gerry mexeu os ombros para aliviar um pouco a tensão nos músculos. Esse tipo de visita oficiosa poderia colocá—lo em sérios problemas se Blair descobrisse que ele estava blefando.
Mas Gerry sabia como operavam esses Ratos do Capitólio bem pagos. Não podiam votar, mas muitas vezes detinham controle absoluto sobre os textos dos projetos de lei, o que poderia ser bem mais importante que o direito de dizer Sim ou Não. Os lobistas cortejavam— nos com viagens, presentes e honorários por discursos, exatamente como faziam com seus patrões. Gerry lembrava de um caso, ainda mencionado em tom reverente pelos Ratos do Capitólio. Dois assistentes políticos, John Michaels e BUI Patterson, tinham angariado um total de 28 mil dólares de um monte de lobistas em 48 horas.
Sem dúvida Blair sonhava bater esse recorde. O plano de Gerry era perturbar esses sonhos. Se Blair estava pensando em colocar todas as suas fichas de influência no projeto de lei das Diretrizes para faturar alto, a última coisa que desejaria era um agente do FBI observando cada movimento seu.
Mas Gerry não dispunha de muito tempo. A Sra. Snedecker concordara em ficar com Martha mais algumas horas. Ele precisava acertar os ponteiros com Blair bem rápido.
A porta do apartamento abriu, e um rosto pálido olhou para ele através da abertura. Como se tratava de um condomínio fechado, era muito raro ocorrerem visitas sem aviso prévio.
— Sim?
Gerry exibiu o mesmo distintivo que usara para passar pelo porteiro.
— FBI, Sr. Blair.
Blair abriu um pouco mais a porta para olhar melhor. Forçou os olhos para ler o distintivo.
— O que é? O que você quer?
Gerry fechou a carteira de couro do distintivo e deu um passo à frente, colocando discretamente o pé no vão entre a porta e a parede. Enfiou a carteira de volta no bolso.
— Não se preocupe. Não se trata de assunto oficial.
— Então o quê...
Gerry encostou a mão no peito de Blair e gentilmente empurrouo de volta para o apartamento. Havia momentos certos para a sutileza. Esse não era um deles.
— Você e eu, Blair. Vamos ter uma conversinha.