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F. Paul Wilson · Capítulo 28 de 36

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A QUEDA

 

Gina aguardou, andando sem parar entre a mesa e as salas de recuperação, checando os exames pós —operatórios daquela manhã. Não havia muito trabalho a ser feito hoje: duas rinoplastias e uma lipoaspiração. Ela bem que gostaria que houvesse mais a fazer. A espera a estava matando.

Olhou pela janela da sala de recuperação principal e reparou que o carro de Duncan sumira. Ao voltar, parou à mesa de Barbara.

— Não sei se ele vai voltar—disse Barbara. — Quase não o vi passar correndo por mim. Nem se despediu.

— Mas ainda não é nem meio—dia! Barbara deu com os ombros.

— Talvez ele tenha planos especiais para o fim de semana e queira começar mais cedo.

Gina ponderou sobre isso. Normalmente Duncan permanecia até tarde nas sextas—feiras, preparando tudo que precisaria quando as cirurgias começassem segunda pela manhã. Por que a mudança na rotina de hoje?

Suspeitava de alguma coisa?

Pare de pensar assim, disse a si mesma, esfregando os braços ao sentir um calafrio de apreensão. Não há nada diferente hoje. Não há motivo para suspeitar de qualquer coisa.

Ela adoraria ir embora também, mas precisava permanecer até que o último paciente fosse para casa. Assim, Gina permaneceu na clínica, seguindo a rotina habitual, comportando—se como se não houvesse nada errado. Essa não foi uma decisão muito difícil de tomar. O pensamento de permanecer sozinha em seu apartamento, esperando que o telefone tocasse, dificilmente era uma alternativa mais atraente.

A hora do almoço chegou e passou sem que Gina comesse qualquer coisa—não sentia o menor apetite. E Gerry não telefonou. A tarde se arrastou.

Nenhum telefonema. Gina estava ficando sem exames a fazer ou papéis para preencher. Ouviu Oliver trabalhando no laboratório. Poderia ter ido lá ajudá—lo, mas agora, depois de tudo que sabia, o pensamento de estar próxima daqueles implantes a repelia. Era melhor tentar parecer atarefada até Gerry ligar.

Por volta das três e quinze Gina ainda não tinha nenhuma notícia, e estava começando a ficar preocupada. Eles deviam ter recebido o resultado dos exames no meio da manhã. Por que então Gerry não telefonara ainda?

A não ser... Gina sentiu um aperto no coração só de pensar... a não ser que o exame de ressonância magnética tivesse acusado o rompimento acidental do implante. Nesse caso, eles teriam precisado levar às pressas o senador Marsden para a sala de cirurgia antes que uma quantidade grande demais de DTP entrasse em seu sistema circulatório.

Isso seria um pesadelo. Mas mesmo nesse caso Gerry teria telefonado.

Ela se levantou, foi fazer alguma coisa lá em cima, e depois voltou. Não podia esperar parada. O que estava acontecendo, afinal?

Gina pegou o telefone. Bastava de espera. Era hora dela mesma telefonar.

Discou o número do FBI e pediu para falar com Gerry. Depois de um momento esperando, Gina ouviu da recepcionista: — Perdão, mas o agente especial Gerry Canney não pode atender agora. A senhora quer deixar recado?

Não, ela não queria.

Gerry ainda não voltara? Como isso era possível? Gina sentiu seu nível de ansiedade subir. As paredes cobertas de prontuários pareceram fechar—se em torno de Gina.

Fique calma, disse a si mesma. Tudo está sob controle.

Gina discou para o gabinete do senador Marsden. Quando perguntou como ele estava depois do acidente, Doris, a recepcionista disse: — O senador está bem, Dra. Panzella. Quer falar com ele? Perplexa, Gina murmurou alguma coisa que pareceu vagamente um sim.

— Gina—disse o senador sem preâmbulos —, como eu queria que você estivesse comigo hoje! Se há um bom exemplo para a necessidade do projeto de lei das diretrizes, foi o fiasco que testemunhei esta manhã!

— O senhor está bem?

— Claro que estou! Não havia nada errado comigo. Mesmo assim, eles insistiram em me enfiar numa máquina de ressonância magnética e examinar minhas pernas. Aconteceu depressa demais. Enfiaram—me naquele tubo antes que eu tivesse uma chance de protestar.

— Estou certa de que houve um bom motivo...

— Não tinham motivo algum! Só estavam querendo arrancar dinheiro do meu plano de saúde! Estou furioso!

— Talvez tenha sido porque o senhor é um senador—disse Gina, tentando acalmá—lo. Não era sobre isso que ela queria falar. — Tenho certeza de que não fazem isso com qualquer um.

— Espere só até eu conseguir fazer passar essa lei! Espere só!

Gina deduziu que o senador tivera de esperar muito.

— Bem... eles encontraram alguma coisa? —perguntou Gina, e então segurou a respiração.

— Se encontraram alguma coisa? Mas é claro que não! Não havia nada para encontrarem! Desperdiçaram metade da minha manhã por causa de um motorista barbeiro!

Não acharam nada... será que não haviam dito a ele? Por que não? O que estava acontecendo?

Gina prosseguiu a conversa ouvindo apenas metade do que o senador dizia e respondendo com monossílabos. Acabou encerrando a conversa de forma pouco graciosa.

A cabeça começou a girar, Gina telefonou para o FBI, de novo, e de novo, Gerry não podia atender. Gina deixou seu nome e um recado para que ele ligasse para ela com urgência.

Então se levantou e saiu. Precisava pegar um pouco de ar fresco. Correu até o carro e ligou o aquecedor no máximo. Estava com frio, mas não era isso que fazia seu corpo tremer. O medo a envolvia como uma mortalha.

Em algum lugar, de alguma forma, alguma coisa estava terrivelmente errada.

A tarde parecia que não ia terminar nunca. Gina tomara banho, preparara um sanduíche que nem tocara e tentara assistir a programas de entrevistas. A espera a estava deixando doida.

Quando já passava das seis e ainda não tinha nenhuma notícia de Gerry, telefonou novamente para o escritório dele. Disseram—lhe que ele encerrara o expediente.

Por que ele não tinha telefonado? Será que Gerry não recebera seu recado?

Telefonou para a casa dele. Gerry atendeu ao segundo toque.

— Gerry. Graças a Deus!

— Gina. Olá. —A voz dele soou fria, sem vida.

— Tentei falar com você o dia inteiro. Estou quase enlouquecendo. Não lhe deram meu recado?

— Você está enlouquecendo? Essa é boa.

Gina sentiu um arrepio que logo tomou conta do seu corpo todo. Com o telefone sem fio pressionado contra a orelha, saiu do quarto e caminhou até a sala.

— Gerry? O que está errado?

— O que está errado? Gina... — suspirou ele, e então não disse nada. Os poucos segundos de silêncio pareceram aumentar a escuridão da noite que começava a cair. — Gina, não havia nada lá.

Não foi um choque absoluto. Parte do seu subconsciente devia estar esperando aquilo, mas não permitira que ela encarasse a possibilidade.

Agora Gina não tinha escolha.

Mesmo assim, não podia aceitar.

Suas palavras saíram num jorro: — Mas tinha de estar lá, Gerry. Eu vi! Menos de uma hora antes da cirurgia, vi o trocarte e um implante cheio de DTP sobre a mesa de Duncan! Saí da sala de recuperação durante alguns minutos e quando voltei havia uma perfuração na coxa do senador. Ela ainda estava sangrando.

— Examinamos essa "perfuração" no hospital. Era menor que uma arranhadura.

— Gerry, era...

— Mas não importa se era uma perfuração ou uma arranhadura na pele dele, Gina. Permanece o fato de que não havia nada sob a pele dele. A ressonância magnética não acusou um único vestígio de corpo estranho.

Nem na perna direita dele, nem na perna esquerda, porque verificamos ambas. Não havia nada sob a pele de Marsden além de gordura, músculo e ossos. Nenhum implante, nada!

— Gerry, não pode ser! Se não estava na perna do senador, então devia estar em algum outro lugar. Eu sei...

— O problema é esse, Gina. Você não sabia de nada. E não sabe agora.

Pensei que você soubesse. Eu nunca devia...—Ele engoliu as palavras.

— Gerry, sinto tanto... Eu tinha toda a certeza do mundo. Por que então Duncan preparou aquele implante pouco antes da cirurgia do senador?

— Não sei, Gina. — Ela sentiu um tom áspero na voz dele.

—Você me diz. Você é a única que viu... ou aquela coisa toda da DTE.

— Acha que imaginei tudo isso?

— Não sei mais o que achar. Olhe, sei que fui eu quem botou essa história na sua cabeça, mas eu devia estar louco, e deixei você um pouco louca também. Tudo que sei agora é que eu e Ketter somos motivo de riso na agência.

— Deus! Eu sinto tanto! Olhe, você parece muito cansado. Quando você e Martha vierem para cá, tomaremos um pouco de vinho. Você vai poder relaxar enquanto eu...

— Não acho que serei capaz disso, Gina. Não esta noite. Alguma coisa na voz dele fez Gina sentar— se na cadeira mais próxima. Ela mordeu um lábio.

— Gerry, o que está errado?

— Errado? Tudo, Gina. — Ela percebeu a mágoa e o desapontamento na voz dele. —Não estou com muita fome. E, com toda sinceridade, não acho que eu seria uma companhia muito agradável esta noite.

Gina sentiu lágrimas se formarem nos olhos.

— Gerry, eu sinto muito...

— Somos dois, Gina. Talvez você esteja trabalhando demais. Talvez esteja se esforçando além do normal. Eu não devia ter envolvido você na minha teoria da conspiração.

Ela sentiu como se tivesse levado um soco.

— Você acha que imaginei tudo isso! Acha que imaginei todos aqueles artigos de jornal?

— Eu lhe disse, Gina. Eu não sei mais o que pensar. Talvez este não seja um momento apropriado para discutirmos isso. Pelo menos sei que não é um bom momento para mim. Preciso fazer a janta de Martha. Conversamos depois, tá?

— Se conversássemos esta noite, talvez...

— A última coisa que preciso é conversar sobre Duncan Lathram.

Francamente, eu preferiria nunca mais escutar esse nome. Preciso mesmo é de um banho frio e esquecer o dia de hoje.

— Tem certeza?

— Sinto muito por cancelar nosso compromisso assim no último minuto, mas confie em mim, é melhor assim.

Ela não queria desligar, mas Gerry obviamente não estava com vontade de falar mais nada.

— Me liga amanhã?

— Ligo sim.

— Certo. Boa noite.

— Boa noite, Gina. E então ela desligou.

Estupefata, Gina se sentou e olhou pela janela para a Kalorama Road.

— Ele acha que estou maluca—sussurrou para o apartamento vazio.

Mas tivera certeza absoluta que Duncan introduzira um implante no senador Marsden. "Vira o implante na mesa pouco antes da cirurgia. Por que outro motivo o implante estaria ali?

Anão ser...

A não ser que Duncan tivesse armado uma armadilha para Gina.

Mas como? Ele não tinha nenhuma pista de que ela sabia. Fechara a gaveta da mesa dele, e apagara o arquivo da FDA no computador no último minuto. Não deixara nenhum rastro. Não havia nenhum motivo no mundo para Duncan suspeitar que ela tivesse a menor pista. Portanto, por que Duncan teria preparado uma armadilha para ela?

Talvez ele não tivesse. Talvez ele tivesse tentado injetar um implante na coxa de Marsden mas não tivera tido tempo de completar o serviço, deixando um ferimento na pele do senador.

E talvez Duncan não estivesse fazendo nada ilegal. Talvez Gina tivesse interpretado errado a coisa toda.

Seria possível? Será que acertara tão longe do alvo?

E pobre Gerry. Ele arriscara o pescoço confiando no que Gina lhe dissera. E aparentemente quase fora decapitado por causa disso. Gerry tinha todo o direito de estar magoado e furioso.

Mas eu também, merda.

Caminhou até a cozinha e viu o brócolis sobre o balcão, à espêra para ser preparado ao alho e óleo. O bastante para três ou quatro pessoas.

Não estava com a menor fome.

Estraguei tudo, não é mesmo?, pensou, enquanto retornava para perto da janela e se sentava no sofá.

As luzes da rua já estavam acesas. Gina olhou para os transeuntes: solitários e casais. Sentiu—se terrivelmente só. Mas não ia chorar.

Gerry se sentou com Martha no colo. Ficou com os braços em torno dela, apertando—a contra o corpo, enquanto a menina contava uma história. Era a versão de Martha Canney para. Madeline. Ela não sabia ler ainda, mas ouvira a história tantas vezes que a decorara.

E Gerry também. Sendo assim, sua mente vagava. Mas ele estaria distante de qualquer maneira, a despeito da história que Martha estivesse contando.

Que dia maldito. Se ao menos...

Sim. Se ao menos. Ele devia ter dito isso um milhão de vezes desde que o resultado da ressonância magnética dera negativo.

Porra! Se ao menos não tivesse sido tão precipitado. Se ao menos tivesse dedicado mais tempo para investigar a história de Gina. Mas não, eles não tinham tempo algum. Marsden supostamente estava em perigo.

Supostamente...

Comprara a história de Gina completamente. Se ao menos tivesse sido mais cético.

Estremeceu ao lembrar do momento excruciante em que teve de telefonar para Ketter e dizer—lhe que estavam com as mãos vazias. A pequena operação que poderia ter valido belas promoções tornara ambos a maior piada do FBI. E então Cavanaugh, um dos diretores assistentes, chamou—os ao seu escritório e passou—lhes um belo sermão. Gerry não conseguia lembrar de ter se sentido mais embaraçado e humilhado em toda a vida. Sentira vontade de se arrastar para debaixo de uma pedra.

Mas o pior de tudo era que, perdido em meio a todas as reprimendas, estava o fato de que a operação que Gerry planejara funcionara como um relógio. Tudo correra conforme o previsto, no prazo e abaixo do orçamento. O carro de Marsden sofrera a batida sem que o senador saísse sem um arranhão; ele fora levado até o hospital, examinado e devolvido ao seu gabinete sem a menor idéia de que todo o acidente fora tramado.

Pelo menos o FBI em si tinha sido poupado do vexame. Graças a Deus.

Mas ninguém lembraria de sua operação bem orquestrada. Apenas que não havia sido encontrada nenhuma pílula de veneno na perna no senador, e que Gerry Canney era o agente mais ingênuo do FBI.

Mas o que doía mais era saber que todas as esperanças que alimentava de ser promovido para um cargo de supervisor tinham ido por água abaixo.

Abraçou Martha mais forte.

É, garota, parece que a rotina da gente vai continuar a mesma. Vou continuar sendo apenas um pai ocasional.

— Papai, você está me apertando!

— Desculpe, meu bem. O que acontece em seguida com Madeline?

— Ela é operada.

— Me conte mais sobre isso.

A mente de Gerry voltou a vagar. E quanto a Gina? O que estava acontecendo dentro dela? Quem colocara essa fantasia na cabeça dela? Eu mesmo, droga. Mas ela levara a tese da conspiração longe demais...

Marsden... aquele trietil—sei—lá—o—quê d'água... e Gerry comprara aquela fantasia por causa da fé que depositava em Gina...

Olhando para trás, sabendo agora que tudo fora a proverbial tempestade em copo d'água, não conseguia imaginar como havia engolido aquilo tudo.

Talvez por causa de sua predisposição a pensar o pior do Dr. Lathram.

Ele queria que o dia de hoje jamais tivesse acontecido.

Gerry conteve um gemido ao fechar os olhos. Sabia que estava sentindo pena de si mesmo. Odiava autopiedade. Amanhã seria um novo dia. Iria abocanhar essa confusão toda, mastigá—la, cuspi—la e então voltar ao trabalho. Mas essa noite... essa noite Gerry se sentia terrivelmente abatido.

Seus pensamentos voltaram para Gina. Fora muito rude com ela. Não pretendera agir assim, mas quando se sentia amargo, Gerry precisava descarregar seu rancor ou pelo menos um pouco dele. Não poderia fazer isso com Ketter, que o apoiara totalmente, e decerto não poderia fazer isso com Martha.

Sobrava Gina.

Talvez ela estivesse precisando de alguma ajuda. Para ter imaginado esse implante em Marsden, Gina não devia estar completamente ligada à realidade.

Gina... Gerry sentia necessidade dela mas não queria estar próximo de Gina. Pelo menos não essa noite. Talvez ele superasse isso, talvez não.

O que fariam dali em diante? O fracasso de hoje poderia acabar com seu relacionamento.

Remexeu—se na cadeira. Chega de autocomiseração. Tinha alguém muito importante no seu colo. Era hora de se concentrar em Martha, e no problema da dor de barriga de Madeline.

Mas uma visão de Gina sentada sozinha em seu apartamento formou—se na mente de Gerry. Ele se perguntou se ela teria alguém a quem recorrer essa noite. Perguntou—se se Gina sabia que alguém estava pensando nela.

Duncan estava sentado diante de MacNeil/Lehrer, bebericando uísque com soda. Mal prestava atenção ao programa. Gina não lhe saía da cabeça. A raiva que sentira antes desaparecera. Agora Duncan estava imaginando o que ela estaria pensando.

Pobre menina. Ele queria poder sentir—se bem quanto a ter enganado a coitadinha, mas francamente, não fora difícil. Preparara tudo na manhã do dia anterior. Deixara a DTP, o trocarte e um implante cheio de solução salina sobre sua mesa, onde ela pudesse vê—los. Duncan pusera vinte miligramas de Lasixno café dela. O diurético alcançara o efeito desejado: ela teria de deixar Marsden por um instante para ir ao banheiro. E enquanto ela estava longe, Duncan entrou sorrateiro no quarto e, com a ponta do trocarte, aplicou rapidamente uma injeção em Marsden. Depois, tudo que teve a fazer foi esperar.

Essa preparação toda para ver até onde Gina sabia. Obviamente ela suspeitava de alguma coisa, mas de quanto?

Agora ele sabia.

Gina estava ciente de tudo. Pelo menos o bastante para procurar o amigo do FBI e convencê—lo a salvar seu querido senador das garras do maligno Dr. Lathram.

A informação que obtivera no hospital, a respeito do envolvimento do FBI, quase o tirara de si.

Duncan tomou um gole do uísque. Sentia—se bem mais calmo. Tudo estava novamente sob controle.

Mas a pobre Gina... Ela devia estar tão certa...

E nesse momento ela não devia estar com certeza de nada, exceto do fato de que o FBI a considerava uma fonte pouco confiável.

Duncan a neutralizara sem tocar—lhe num fio de cabelo.

Uma jogada brilhante.

Agora ela precisaria esquecer de tudo. Convencer—se de que aquilo tudo não passara de um sonho ruim e deixar as coisas retornarem ao normal. E se Duncan fosse esperto, encontraria uma desculpa para despedi—la. Iria sentir—se mais seguro sem Gina por perto.

Mas não poderia fazer isso. Ainda lembrava da menina magricela de cabelos negros, com os grandes olhos castanhos arregalados de medo, perguntando—lhe se ela iria morrer. Lembrava também de suas mãos na barriga da menina e do sangue jorrando entre seus pulsos enquanto lutava para conter o sangramento e emendar as artérias danificadas. Por mais que odiasse admitir isso, Duncan tinha saudade daqueles dias.

Sentia falta do fluxo de adrenalina deflagrado por emergências como aquela, quando precisava abrir um paciente e procurar a artéria hemorrágica, correndo contra a queda da pressão arterial, o decréscimo na contagem de glóbulos vermelhos e o colapso cardiovascular iminente.

Ou quando precisava operar um enorme aneurisma abdominal antes que ele explodisse e pintasse o teto de vermelho. Sentia saudade do tempo em que salvava vidas.

Mas McCready, Allard, Lane, Schulz, Vincent e o restante deles haviam impossibilitado tudo isso.

Duncan esfregou os olhos para afastar as lembranças mais amargas...

lembranças da pobre Lisa...

Lisa Lathram... um nome de pronúncia agradável. Muito mais plácido que a própria Lisa...

Lembrou dela como uma criança feliz. Podia ainda ouvir seu riso melodioso, ver os olhos azuis, o sorriso radiante—Deus, aquele sorriso... Lisa sempre sorria—para tudo e todos.

Quando Brad nasceu, Duncan também o amou, mas como um filho. Havia uma diferença aí.

Lisa continuava sendo a luz de sua vida. Em certos momentos tinha certeza que Diana sentia ciúme do relacionamento entre os dois. Quando chegava em casa vindo do hospital ou do consultório, Lisa era a primeira por quem ele procurava, e ela sempre vinha correndo ao som da voz dele. E como a mimava! Duncan sempre dava tudo que ela queria ou precisava — um piano, um cavalo, aparelhos de ginástica —, bastava ela pedir.

Mas os melhores dias da infância de Lisa esvaneceram quando a puberdade chegou, e Duncan veio a conhecer de perto a origem do mito da transmutação. A personalidade de Lisa acompanhava as mudanças de seu corpo. No início, ele e Diana creditavam o temperamento da jovem aos novos hormônios que pulsavam através dela. Afinal, o que a filha tinha para ser infeliz ? Com cabelos louros e compridos e silhueta esguia, Lisa estava apenas ficando mais bonita.

Ele e Diana continuaram torcendo para que sua fase de adolescente deprimida não durasse muito, mas depois de algum tempo ficou claro que havia mais alguma coisa funcionando dentro de Lisa do que simples hormônios. Ela perdeu interesse nos amigos, nas aulas de piano e em seu cavalo. As depressões tornaram—se mais profundas e longas, e nunca parecia haver momentos de ânimo, apenas instantes em que a depressão era mais branda.

E então ela engoliu metade de uma garrafa de Dalmane que pertencia à mãe. Foi preciso fazer uma lavagem estomacal na garota. O diagnóstico revelou uma severa depressão endógena. Lisa foi submetida a um tratamento com antidepressivos e seções de terapia. Nada funcionava por muito tempo. E então chegou aquela noite terrível em que Lisa se trancou no quarto e gritou de dor. Duncan arrombou a porta e a encontrou sentada no meio da cama, sangrando por um corte no pulso.

Eles a hospitalizaram por um mês e depois tentaram um medicamento novo, chamado Prozac. Lisa reagiu muito bem. No seu caso, o Prozac foi realmente uma droga miraculosa.

Duncan ainda lembrava do dia em que chegou em casa do hospital para encontrar Diana sentada na sala, chorando. Imediatamente seu coração disparou, esperando o pior. Então ele ouviu, flutuando da sala de estar, o som do concerto na 21 para piano, de Mozart. Lisa estava tocando novamente.

Ele e Diana caíram nos braços um do outro e choraram.

Mesmo agora a lembrança trazia lágrimas aos olhos de Duncan.

Depois disso, a vida de Lisa se iluminou, e as vidas de Duncan e Diana também. Duncan não se dera conta de como os problemas da filha haviam maculado toda sua vida familiar. Mas agora que ela estava voltando ao normal, os dias pareciam mais ensolarados. Os risos voltaram à mesa de jantar quando Lisa voltou a montar o cavalo e a passear com alguns dos velhos amigos. Suas notas subiram, e ela começou a namorar Kenny O'Boyle.

Namoraram durante meses, e Kenny se tornou o único assunto das conversas de Lisa. Ela e Diana ficavam conversando durante horas sobre o rapaz, e Diana disse a Duncan que estava preocupada, porque talvez Lisa estivesse se envolvendo demais. Era verdade que Lisa acabara de fazer dezoito anos, mas perdera muito de sua fase de amadurecimento.

Duncan não morria de amores por Kenny. Parecia um rapaz parvo e inculto, mas Duncan desconfiaria de qualquer um que se aproximasse da filha dele. Lisa o adorava, e, pela primeira vez em anos, ela estava feliz.

Assim, Duncan decidiu manter os olhos abertos e a boca fechada.

E então a comissão McCready mostrou sua cara feia.

Ele lembrou da manhã, havia cinco anos, em que tudo começou. Foi na sala dos médicos do Fairfax Hospital que alguém lhe mostrou a matéria da primeira página do Post. Ele acabara de sair de duas operações seguidas, a extração de um aneurisma abdominal e uma endarterectomia de carótida, isso depois de ter atendido a um chamado de emergência às três da manhã, para fechar uma artéria femoral num motoqueiro—ou "doador motorizado", como a equipe de emergência os chamava. Sentia—se cansado.

Mas não a ponto de não ficar furioso com a condenação pública, da parte do senador Vincent, da cobrança de meio milhão de dólares que fizera à previdência social no ano anterior.

O tempo inteiro ele ouvia falar de jogadores de beisebol ou basquete assinando contratos de cinco ou seis milhões por ano. Quantas vidas eles salvavam por ano? Barbra Streisand podia ganhar vinte milhões por duas noites de trinados, mas você, Duncan Lathram, seu sanguessuga fedorento, você cobrava demais.

Ele gostaria de ter tomado alguma ação legal, mas como se podia processar uma comissão do Congresso? E o que conseguiria além de atrair mais atenção?

O que isso importa?, lembrava ele de ter pensado. Aquela confusão toda sumiria em alguns dias.

Mas estava enganado.

Parecia que sua via crucis nas mãos da Comissão de Diretrizes não acabaria nunca. Aparentemente, os membros pensaram que haviam encontrado em Duncan Lathram um osso particularmente suculento e queriam roê—lo até o fim. Então o Alexandria Banner resolveu cobrir a história, seguido por um grupo de direitos dos pacientes, que exigiu uma investigação. Assim, o Comitê de Ética Médica se envolveu, e logo o governo mandou uma equipe de auditores chafurdar nos seus registros e invadir as salas de arquivo do hospital, à busca de irregularidades financeiras. Ao inferno com a privacidade dos pacientes. Aqueles malditos burocratas conheceriam os segredos de todas as pessoas que Duncan operara nos últimos anos. Mas o que isso importava? Instigado pela Comissão de Diretrizes, o governo àtclax&rdi jihad a Duncan Lathram.

Duncan estava furioso e constrangido, mas não muito preocupado. Seus registros médicos eram impecáveis, e estaria disposto a comparar suas taxas de mortalidade com qualquer outro médico do país. Deixe—os investigar. Sairia daquilo cheirando como uma rosa.

Duncan queria apenas que eles fossem rápidos.

Mas as investigações arrastaram—se. Nos meses seguintes Duncan começou a notar que estava sendo tratado com uma certa frieza por alguns de seus colegas no hospital. Estava recebendo cada vez menos pedidos de consultas cirúrgicas. Os outros médicos estavam preocupados com a culpa por associação. Estavam preferindo se manter a uma distância segura até as coisas se acalmarem.

Certo dia, quando ele iniciou uma das poucas consultas cirúrgicas que recebeu nesse período, aconteceu algo que foi um grande choque para Duncan Lathram. Quando ele entrou na sala de pacientes do hospital e se apresentou, o paciente sentou—se abruptamente na cama. Duncan ainda lembrava as palavras.

— Ah, não. Pode esquecer. Não vou ser operado por um médico sádico que só pensa em dinheiro!

Duncan ficou mortificado, com raiva suficiente para abrir um buraco na parede com um soco. Buscou consolo dizendo para si mesmo que provavelmente aquela crise chegara ao ápice. Não podia ficar pior. A única direção que poderia ser tomada daquele ponto seria para cima.

Mais uma vez, estava errado.

Toda aquela publicidade negativa na imprensa estava causando um efeito devastador em sua casa. O Dr. Duncan Lathram era a pessoa mais falada da cidade... inclusive nas escolas.

Relembrando agora, parecia inevitável que voltasse para casa uma noite para encontrar Lisa chorando nos braços da mãe. Ela e Kenny tinham brigado e rompido. A causa da briga? As coisas que os jovens estavam dizendo, pelas costas de Lisa, a respeito de seu pai. O baile de formatura de Kenny? "Esqueça a formatura! Esqueça tudo! Não vou mais andar por aí com a filha de um vigarista!"

Aquilo seria devastador para qualquer adolescente, mas para Lisa pareceu o fim do mundo.

Praticamente incapaz de falar entre os soluços, ela quis saber por que o pai não argumentara nada, por que ele não estava se defendendo.

Duncan lembrava a cena como se ela tivesse ocorrido um instante atrás.

Ele se ajoelhou diante da filha e segurou—lhe as mãos.

— Querida, são apenas mentiras contadas por bufões sequiosos por destaque na mídia. Da forma como essas coisas funcionam, quanto mais alto eu proclamar minha inocência, mais culpado vou parecer.

— Mas você não disse nada!

— Estou deixando meus registros falarem por mim. Não tenho nada a esconder, Lisa. Quando os burocratas terminarem a investigação, eu serei vingado. E eles serão os tolos.

— Mas enquanto isso eles estão fazendo você parecer um ladrão! E fazendo todos me odiarem! E você nem se importa!

— Claro que me importo!

Naquele momento Duncan percebeu que perdera o controle sobre a situação toda. Tratara aquilo como um interlúdio desagradável, mais uma das polêmicas passageiras levantadas pelo Congresso. E sendo o Congresso uma instituição notoriamente incapaz de se concentrar numa mesma coisa por muito tempo, não demoraria muito até que passassem ao tópico seguinte. Assim, Duncan não esboçaria nenhuma reação contra as acusações levantadas. Aquilo fora um erro.

Outro erro tinha sido pensar que as acusações abalariam apenas sua vida profissional. Devia ter previsto que o apedrejamento profissional teria um efeito devastador também em sua vida particular. Sempre cuidara para manter um distanciamento entre a medicina e a família, mas agora não havia mais como proteger uma dos ataques dirigidos contra a outra.

Compreendeu a dor de Lisa.

— Mas o que eu poderia ter feito, Lisa? O que posso fazer para melhorar a situação?

— Não sei, alguma coisa. Você poderia ter proposto um acordo ou seja lá como eles chamam isso. Alguma coisa, qualquer coisa para fazer com que eles calassem a boca e largassem dos nossos pés.

— Propor um acordo? — Duncan ficou estarrecido. — Inocentes não propõem acordos.

Lisa puxou as mãos, soltando—se de Duncan, e correu escadas acima, gritando:

— Obrigada! Obrigada por nada! Minha vida acaboul E tudo por culpa sua!

Eu não me importaria se estivesse com Aids!

Diana a seguiu, mas parou nos degraus para olhar para Duncan.

— Ela está certa, sabia? Você poderia ter feito alguma coisal Aquela era Lisa em sua essência, sempre levando tudo a sério demais, sempre vendo as coisas pelo pior ângulo. Contudo, com um histórico como o dela, aquele tipo de explosão não podia ser menosprezado como uma simples manifestação de rebeldia adolescente.

Eles intensificaram as sessões de terapia de Lisa e ficaram de olho nela, dia e noite. Mas uma semana depois, quando ficou claro, pelo menos para Lisa, que ela e Kenny tinham rompido definitivamente, a jovem desencavou um monte de pílulas velhas que vinha estocando havia anos—uma combinação potencialmente letal de antidepressivos como Elavil, Parnate, Desyrel, Sinequan, Norpramin, Trofanil, Nardil e lítio — e tomou todas de uma vez.

E então ela caiu. Sobre o corrimão da escada. Direto até o chão frio e duro da sala. Onde Duncan a encontrou.

E então ela morreu.

E Diana culpou Duncan.

E Duncan culpou a si mesmo.

Até então ele não sabia o significado da palavra dor, nem se imaginava capaz de lamentar a morte de um ser humano como lamentou a de Lisa. E sabia que era o culpado... a culpa era toda sua...

Até que as auditorias e investigações terminaram. Então ele entendeu quem eram os verdadeiros culpados.

Quando os auditores do governo chegaram ao fim da investigação, o pior que puderam descobrir foram alguns erros na codificação de certos procedimentos. Os inspetores de qualidade médica não constataram nenhum caso de cirurgia desnecessária —nenhum! Cada procedimento satisfazia ou superava as exigências do governo.

Contudo, Duncan não recebeu nenhum pedido de desculpas da comissão ou de McCready, o líder do bando. Eles estavam muito ocupados na perseguição de outras pessoas.

Fora alguns pacientes leais que escreveram cartas em defesa de Duncan, ninguém se manifestou a seu favor durante o pesadelo. Os colegas mantiveram as cabeças baixas o tempo todo, e até mesmo um membro da American Medicai Association declarou aos jornais que a quantia cobrada por Duncan era "excessiva".

Duncan aprendeu o significado da palavra solidão.

Os relatórios finalmente foram encaminhados ao Comitê de Ética Médica do Estado de Virgínia. As "irregularidades na codificação" não tinham resultado em nenhum lucro para Duncan — na verdade, ele perdera dinheiro —, mas ainda assim ele recebeu um aviso para ser mais cuidadoso no futuro. Como não havia nenhum indício de fraude ou negligência, ou de Duncan ter executado uma única operação desnecessária, ajunta dispensou—o.

Mas onde essa notícia foi publicada?

Num pequeno parágrafo perdido no meio do Banner. Mas o Washington Post, que publicara a matéria que desencadeara todo o pesadelo, jamais mencionou a inocência de Duncan.

O apedrejamento público acabara, não sem deixar marcas. Os clínicos gerais que costumavam encaminhar pacientes a Duncan haviam encontrado outros cirurgiões.

Sua carreira estava arruinada. As acusações contra Duncan haviam se provado infundadas, mas sua reputação permanecia manchada.

Duncan poderia não ter dado a mínima para tudo isso, se Lisa ainda estivesse viva e Diana permanecesse ao seu lado.

Mas Lisa estava morta. A querida Lisa, que partira sem dizer adeus, culpando—o por sua dor.

Diana, também, culpava—o. E logo o casamento de Duncan estava tão arruinado quanto a carreira dele.

Mas a culpa não era dele. Não fizera nada errado. Ela não percebia isso?

Era a comissão... aquela maldita Comissão de Diretrizes! McCready, e sua horda de bárbaros haviam saqueado tudo que ele possuía e prosseguido como se nada houvesse acontecido.

Duncan chegou mesmo a pensar em comprar um rifle e acabar com a raça de todos eles. Mas então McCready morreu, e a Comissão de Diretrizes se desfez, deixando Duncan sem nenhum alvo para a fúria monstruosa que coleava e sibilava em seu íntimo.

Mas conseguiu controlar sua fúria, ou pelo menos ignorá—la. Afinal, ainda tinha um filho — Brad ficara ao seu lado do início ao fim. E

Oliver, é claro. O fiel e prestativo Oliver. Sem eles... Bem, Duncan poderia ter metido um cano de arma na boca. Assim, ele recomeçou — um novo estado, uma nova especialidade, uma nova pessoa.

E tudo parecia bem até o presidente reviver a Comissão de Diretrizes.

Foi nesse momento que Duncan percebeu que sua fúria não desaparecera.

Como um câncer, ela se espalhara pelo seu organismo até habitar cada célula de seu corpo.

E ainda assim, Duncan poderia ter controlado sua fúria. Poderia tê—la controlado, se tantos membros da comissão, prevendo uma cobertura maciça da TV, não houvessem começado a procurar por um cirurgião para melhorar sua aparência... e vindo até ele, porque Duncan tinha os implantes...

A ironia era deliciosa.

Faça—nos parecer bem para as câmeras...

Duncan precisou se conter para não arremessar o copo contra a parede da sala. Não havia motivo para desperdiçar um bom uísque escocês.

Agora, cinco dos sete membros originais estavam mortos. McCready, de causas naturais, e quatro, graças a Duncan. Restavam dois. Os dois mais jovens, que dificilmente recorreriam a cirurgiões plásticos.

Estava quase terminado. A nova comissão encontrava—se num estado de confusão absoluta. O projeto de lei das diretrizes estava moribundo.

Mais um golpe, o maior de todos, e este sucumbiria.

Como Lisa.

E Duncan não precisaria se preocupar com a possibilidade de Gina interferir com o último alvo. Depois do que acontecera hoje ela devia estar se sentindo completamente perdida. Ademais, ela nem mesmo saberia sobre o outro paciente. Gina estaria em casa, gozando um dia de folga.

E então Duncan injetaria o último implante de DTP e esperaria pelo momento certo para dissolvê— lo.

O que lhe lembrava uma coisa: precisava encontrar outro lugar para esconder a DTP. Deixara a DTP na gaveta de cima da mesa, para o caso de Gina arrombá—la outra vez. Agora que os jogos estavam terminados, Duncan teria de encontrar outro esconderijo.

Duncan levantou o copo, num brinde.

Pax, Regina.

Cuide da sua própria vida e viveremos felizes para sempre Se não...

Gina estava deitada em meio à escuridão de seu quarto, ouvindo o tique—taque do velho carrilhão na sala. Aquela vinha sendo uma noite horrível. Gina estava precisando lidar sozinha com suas dúvidas e reorganizar seus pensamentos. Mas atravessara as chamas e emergira com uma nova perspectiva.

Não esperara reerguer—se tão depressa. Durante algum tempo, ficara completamente insegura, abalada pela forma como tanta coisa dera errado em um só dia. Mas agora Gina estava de pé novamente.

Não acabou, Duncan, disse ela à escuridão. Você é esperto... não, você é brilhante. De alguma forma, você previu todos os meus movimentos.

Provavelmente pensou que vencera. Mas sei o que vi, e sei o que sei.

Ainda não acabou.