Implante

F. Paul Wilson · Capítulo 10 de 36

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* 10

 

DUNCAN

 

Duncan e Brad saíram do II Giardinello para o ar sulfuroso da M Street de Georgetown. O trânsito estava engarrafado, e o monóxido de carbono dos carros misturava—se ao nevoeiro fino que se levantava do rio Potomac. A mistura pairava no ar como uma mortalha tóxica.

Dobraram a Leste e voltaram para o carro, passando por uma confusão de restaurantes, bares, bistrôs, lojas de roupas para obesos, joalherias, lojas de música alternativa e, sim, até mesmo uma loja especializada em camisinhas.

— O jantar não foi mal — disse Brad.

— Não, nada mal se você gosta da sua massa amolecida, da vitela praticamente crua, do ar carregado de fumaça, e de um ambiente tão ruidoso, que mal era possível ouvir os próprios pensamentos. O serviço foi, na melhor das hipóteses, vagaroso e indiferente. A decoração parecia saída de um pesadelo dos Bórgia, a carta de vinhos seria condenada por qualquer revista especializada e o café expresso...

— Duncan estremeceu. — Execrável. — Subitamente, sorriu. — Preciso lembrar de recomendar este lugar à sua mãe.

Brad sorriu para o pai e deu—lhe um soco de leve no ombro.

— Ora, vamos. Chega disso.

— Está bem.

— Aposto que não voltaremos aqui tão cedo.

— Claro que voltaremos. Assim que ele mudar de nome, proprietário e mestre—cuca.

Brad apenas balançou a cabeça, sorrindo.

Duncan amava esse jovem de vinte e poucos anos de rosto franco, olhos azuis expressivos, corpo comprido e esguio, e cabelo castanho e longo demais. Duncan amava a forma como ele jamais usava meias, não apertava a gravata até o fim e nunca abotoava o botão de cima da camisa.

As memórias dançaram ao seu redor como folhas começando a cair das árvores — lições de natação na escola primária, os trabalhos de ciência do segundo grau, o trauma de não ser escolhido para o time de basquete do segundo grau, todos os altos e baixos de se criar um filho.

De algum modo, pensou, saiu tudo bem com Brad. Não fomos os melhores pais do mundo, ainda mais com nossas preocupações com Lisa e todos os problemas dela, e sem contar meu próprio egoísmo. Mas, de algum modo, apesar de tudo, Brad deu certo. Um testamento da primazia da natureza sobre o ambiente.

Impulsivamente, Duncan jogou um braço sobre o ombro do filho e puxou—o para si. Não era chegado a demonstrações gratuitas de afeto, mas Deus, como amava esse rapaz.

— Obrigado por me aturar.

Brad pôs o braço em torno da cintura do pai.

— Alguém tem de fazer isso.

Cada um com um braço em volta do outro, cruzaram a Wisconsin e seguiram o declive suave da M Street na direção de Rock Creek.

— Então não está desapontado? — perguntou Brad.

— O que preciso fazer, tatuar isso na testa? — perguntou Duncan.—Não estou desapontado.

— Você não imagina como me sinto aliviado.

Brad lhe dissera que queria encontrar com Duncan para conversar sobre o futuro—seus planos para seu próprio futuro. Duncan sugerira que jantassem. No fim, Brad não falou tanto sobre o que queria fazer no futuro, e sim sobre o que não queria fazer.

E não planejava fazer faculdade de medicina.

Anos atrás, antes que a profissão médica fosse lapidada publicamente pelo Comitê de Diretrizes, e esmagada pelos tentáculos das empresas de saúde, Duncan teria ficado terrivelmente desapontado.

Mas essa noite se sentia quase eufórico. — — Por que eu ficaria chateado por você não querer passar mais oito anos queimando os miolos de tanto estudar apenas pelo privilégio de comparecer a audiências presididas por políticos? A única coisa que não mudará na medicina é que ela continuará representando garantia de trabalho.

— Sim, as pessoas sempre precisarão de médicos, eu acho.

— Precisarão sim. Mas o relacionamento entre médico e paciente esta desmoronando. Já houve um elo quase sagrado entre o médico e o paciente, um elo que ninguém podia romper. A sala de exames era o equivalente a um confessionário. Os segredos íntimos, que costumávamos registrar através de hieróglifos e guardar entre as paredes invioláveis de nossos consultórios, agora são abertos a qualquer político ou mercenário de companhia de seguros que queira vê—los.

— Portanto, é melhor eu ter cuidado com que digo ao meu médico.

— Todo o cuidado do mundo. E para seu bem ele precisa ter muito cuidado com o que registra em papel.

— Parece terrível. Mas nada disso pesou na minha decisão. O principal motivo é que não tem nada a ver comigo.

Duncan apertou gentilmente o ombro de Brad.

— E o que tem a ver com você, meu filho?

— Não sei, pai. Simplesmente não sei.

Duncan suspirou. Muitos dos membros da chamada Geração X pareciam não ter nenhuma idéia do que queriam fazer ou para onde estavam indo.

Duncan não conseguia compreender isso. A vida inteira ele quisera ser médico. Para alcançar esse objetivo, ele estabelecera um curso de vida desde criança. Não conseguia lembrar de nenhum momento de incerteza.

Talvez fosse esse o motivo que o fizesse sentir tanta afinidade por Gina. Ela era tão determinada a fazer as coisas da sua própria maneira quanto ele fora na idade dela. A forma dela não era a dele, mas poderia perdoá—la por isso—ela acabaria vendo o erro de seus atos.

Considerava—a uma filha. Talvez ele subconscientemente tivesse colocado Gina naquele local que Lisa deixara vago. Sim... como uma filha.

Afinal, de certo modo, ele lhe dera vida, colocando seu intestino devolta no lugar.

Mas não saber o próximo passo... isso devia causar uma ansiedade enorme.

Que incertezas atormentavam a mente de Brad quando ficava deitado na cama à noite, perguntando à escuridão para onde a vida o levaria?

— Pode contar com meu apoio, qualquer que seja sua decisão. A qualquer momento que você...

— Ei, bichas!

Duncan se assustou ao ouvir a palavra e virou—se para olhar. A sua direita, três homens estavam parados em poses predatórias, cada um com uma garrafa ou lata de cerveja na mão. A luz da rua refletia em seus escalpos nus. Duncan ficou imóvel.

— Skinheads — sussurrou Brad e começou a tirar o braço da cintura de Duncan.

Duncan segurou o pulso dele.

— Nem pense nisso.

— Pai, eles pensam que nós...

— Vamos deixar que eles sejam os árbitros de como um pai e um filho devem caminhar na rua?

— Conheço o lema de nunca lamentar, jamais explicar, mas esses caras são malucos.

Duncan levou a mão livre até o bolso do paletó e segurou com os dedos o cilindro de metal que guardava ali.

— Talvez eu seja mais maluco ainda.

A área entre a M Street e a Wisconsin Avenue sempre abrigara a vanguarda cultural de Georgetown. Um aglomerado de lojas de roupas caríssimas, bares, clubes e restaurantes de todos os tipos, variando desde comidas típicas até pequenas lanchonetes. As pessoas iam até lá em busca de diversão. Os cantores folclóricos, que haviam freqüentado os bares no começo dos anos sessenta, deram espaço aos hippies no fim dessa década.

As discotecas apareceram e sumiram nos anos setenta. E durante esse tempo todo, as pessoas das ruas de Georgetown tinham mantido uma nobre tradição de permanecer dissolutas, mas em geral amistosas.

Até recentemente. Caminhar pela área agora era como navegar por um bazar do Terceiro Mundo. As lojas de roupas eram freqüentadas por uma clientela menos requintada. Ninguém parecia falar inglês ou saber a utilidade de uma barra de sabão, e marginais infestavam as esquinas.

Osgrunges eram tão sujos quanto os hippies do passado, mas careciam de seu estilo e senso de humor. A atmosfera continuava tão estranha quanto antes, mas agora estava mais sombria.

A despeito de um novo shopping center e de novos postes de iluminação, a cena nas ruas de Georgetown estava mudando para pior. Assim como tudo mais.

Que mundo. Que porra de mundo.

Eles saíram da calçada e viraram à direita na 29th Street. Duncan estacionara a mercedes na colina que descia na direção do Canal C&O.

Estava virando a chave na fechadura quando alguma coisa passou zunindo pela sua cabeça e explodiu na calçada a alguns metros dele.

— Bichas!

A iluminação de rua não era boa como a da M Street, mas Duncan não teve nenhum problema em reconhecer os skinheads.

Três deles desciam correndo a colina. Deviam pertencer a alguma espécie de gangue, porque todos usavam jeans, casacos de couro preto e luvas de couro sem dedos. Um carregava uma lata de cerveja, outro estava com as mãos vazias, mas socava repetidamente o punho na palma da mão, e o líder carregava algum tipo de cano de ferro.

— Merda, pai! — disse Brad. —Vamos sair daqui.

A boca de Duncan ficou seca. Suas pernas ordenavam—no a correr, mas seus pés pareciam ancorados à calçada. Os marginais estavam perto demais e se movendo muito depressa. Não haveria tempo de entrar no carro, dar a partida e manobrar para fora do estacionamento. Seu coração começou a martelar, enquanto ele tirou o cilindro do bolso e segurou—o ao lado do quadril, fora de vista.

— É hora de fazer alguns bichabúrgueres! — gritou o líder, rindo ao levantar o cano e investir contra os dois. Os companheiros vinham logo atrás.

— Ei, ouça! — gritou Brad. — Não somos...

— Calado, Brad!

O polegar de Duncan encontrou o gatilho no topo do pequeno cilindro. Ele quase escorregou dos dedos umedecidos pelo suor. A mão tremia, enquanto ele levantou o recipiente e disparou um jorro de líquido no rosto do líder.

Errou. O jorro descreveu um arco acima do cano em riste, terminando sobre a garganta e o peito do homem que vinha atrás. Enquanto esse tossia e levava as mãos aos olhos e boca, Duncan ajustou o jorro e acertou o líder bem no rosto. Ele deixou cair o cano e tombou de joelhos, tossindo e esfregando os olhos. Enquanto isso, o terceiro skinhead tinha corrido até o segundo, que jazia no chão em posição fetal. O primeiro rolou pelo chão até se chocar contra o segundo.

— Sacanagem! É gás paralisante! — gritou o terceiro. Duncan o atingiu bem na boca com um jorro do líquido do cilindro. O skinhead se calou.

Duncan se encostou no carro, tossindo e ofegando, como se tivesse corrido uma maratona. Poderia sentir a cueca agarrada à pele pelo suor. Quanto tempo durara? Três segundos? Cinco? Parecia muito mais. Qualquer que fosse o intervalo, os três atacantes tinham sido reduzidos a montes de carne cega tossindo, gemendo e praguejando.

— Graças a Deus, papai! — exclamou Brad. — Não sabia que você carregava gás paralisante.

Na verdade era um spray de pimenta—com cinco por cento de capsicum.

Duncan nunca tivera oportunidade de usar antes. Estava impressionado, e quase eufórico de alívio. Levantou o cilindro para a luz.

— Sei que John Wayne não se sentiria orgulhoso — disse Duncan. — Mas como não sou exatamente um lutador de rua, achei que era o mais prudente a fazer. — Colocou o recipiente de volta no bolso. — Talvez devamos...

Um ruído de metal contra o concreto fez Duncan se virar. Um dos skinheads apanhara o cano e estava de pé, cambaleando na direção deles.

Seus olhos estavam cerrados, e lacrimejavam sem parar. Não via nada. Só podia estar se orientando pelas vozes. Duncan se esquivou ao ver o cano vindo em sua direção. O golpe acertou a carroceria do carro, perto do lugar onde Duncan estivera encostado instantes antes.

Duncan foi tomado pela raiva. Impulsivamente, segurou a ponta do cano e arrancou—o da mão do skinhead cambaleante. Em seguida empunhou—o como um bastão de beisebol e acertou o marginal no lado da cabeça. O marginal cambaleou para trás, caindo sobre os companheiros, que tinham conseguido ficar de gatinhas.

Duncan se viu parado diante deles, meneando o cano. Murmurou entre dentes:

— Seus... animais... —Acertou uma cabeça. —... desgraçados... —Atingiu uma costela—... sujos.... — esmagou um nariz —e fedorentos.

Então alguém segurou—lhe o braço, e uma voz familiar gritou em seu ouvido.

— Pai! Pelo amor de Deus! Pai!

Virou—se. O rosto de Brad estava a centímetros do dele, fitando—o com olhos grandes e assustados.

— Pai, você vai matá—los!

Duncan olhou para a pilha de atacantes ensangüentados. Deixou cair o cano e virou—se para o carro.

— Vamos sair daqui. —As chaves chocalharam—lhe na mão trêmula quando as pegou no bolso do terno. — É melhor você dirigir.

Os minutos seguintes se passaram como um borrão, um momento de confusão durante o qual ele se manteve vagamente cônscio de que o carro estava correndo para se juntar ao fluxo de tráfego na M Street. Permaneceu imóvel no banco do passageiro, tremendo devido aos efeitos colaterais da adrenalina que correra pelo seu sistema momentos antes. Foi trazido devolta por ruídos curtos e agudos.

Brad estava apertando os botões do telefone do carro.

— O que você está fazendo?

— Ligando para a emergência.

Duncan puxou gentilmente o telefone dos dedos do filho e o desligou.

— Nada de polícia. Deixe que eles se arrastem de volta até a caverna deles e lambam os ferimentos. Talvez isso os faça pensar duas ou três vezes antes de pularem em cima de outro "bicha".

— Não deveríamos comunicar...?

— Sabe o que vai acontecer se nos envolvermos? Nós seremos julgados por atacá—los. Essa é a forma como nosso sistema legal funciona.

Os dois dirigiram em silêncio durante algum tempo antes de Brad voltar a falar.

— Por que não disse a eles?

— Por que não disse o quê?

— Que não éramos gays.

Gay. Duncan odiava esse termo. Não conseguia imaginar nada "alegre"

quanto a ser um homossexual. E estava um pouco desapontado com Brad.

Ele não entendera o sentido da coisa.

— A questão aqui não é esta. Se quero abraçar meu filho no meio da rua, isso é da minha conta. Não preciso da permissão de ninguém além de você. Jurei não acatar ordens de mais nenhum troglodita, seja essa espécie das ruas ou aqueles acéfalos engomadinhos do Capitólio.

Depois que você abaixa a cabeça, não consegue mais levantá—la. Portanto, não abaixe a cabeça para ninguém.

— Mas o que aconteceu com você lá atrás, pai? Eu nunca tinha visto você agir daquele jeito.

— Porque eu nunca agira daquele jeito antes.

Ele estava perplexo com a volatibilidade da fúria ardendo em seu íntimo.

Havia muito estava ciente de sua presença, mas achava que conseguira focalizá—la para os alvos apropriados. Duncan não percebera que sua fúria ainda estava tão próxima da superfície, tão prestes a se libertar e arremetê—lo contra o alvo mais próximo.

— Você é um sujeito assustador, pai. Ele assentiu.

— Às vezes assusto até a mim mesmo.