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F. Paul Wilson · Capítulo 35 de 36

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* 35

 

NOITE DE QUINTA—FEIRA

 

Gina enfiou a cabeça para fora da janela do táxi e olhou para os dois sentidos da Connecticut Avenue.

— Ele já não devia ter chegado?

O motorista de táxi encostou—se contra o pára—lamas em frente ao capo aberto do seu veículo e deu uma tragada num pequeno charuto.

— Eu chamei. Ele vai chegar a qualquer minuto.

Ela se encostou novamente no assento do carro. Não queria ficar parada no meio da rua, avista de todos. Foi por causa disso que pedira ao motorista que chamasse outro táxi. Mas talvez devesse ter se arriscado e feito sinal para algum. A essa altura, dezenas de táxis já haviam passado. Se tivesse apanhado algum, já estaria na casa de Oliver.

Mas estava com os nervos à flor da pele desde que o telefone do quarto de hotel tocara... Tinha levado um susto terrível, derrubando a Coca—Cola e quase engasgando com uma batata frita.

Talvez tivesse sido engano—alguém ligando para o 533 ou o 432 —e talvez não. Ou talvez fosse Gerry. Talvez ela jamais soubesse.

Qualquer que fosse sua origem, o toque súbito do telefone desequilibrara Gina completamente. Durante algum tempo, ficara paralisada, olhando para o telefone, pensando que alguém a encontrara, e então fugira. Sem nenhum planejamento ou precauções. Nem mesmo esperara por um elevador. Descera correndo as escadas e atravessara o saguão a passos largos, direto até a rua.

Pensando agora, percebeu o quanto se mostrara imprudente. Mas tinha de sair dali, naquele momento, nem um segundo mais tarde.

O hotel que fora seu refúgio a tarde inteira subitamente se tornara uma armadilha.

Felizmente o saguão estava vazio quando ela passou. Aquela tinha sido sua sorte. Seu azar fora pegar um táxi que enguiçaria a alguns quarteirões do hotel.

— Ele está chegando — disse o motorista.

Gina colocou a cabeça para fora da janela e viu outro táxi Diamond parar ao lado do deles. Saiu, acenou em agradecimento para o motorista e cumprimentou o recém—chegado. Deu ao motorista o endereço de Oliver e foi jogada contra seu banco quando o táxi arrancou repentinamente. Gina sentiu uma pontada de dor na perna.

Tudo bem. Estava novamente a caminho. Não haveria mais imprevistos.

Realmente, quais seriam as chances de pegar dois táxis com defeito em seguida? ínfimas. Permitiu— se relaxar e começou a ensaiar como contaria tudo a Oliver.

Quando o táxi parou num sinal vermelho no Círculo Dupont, Gina olhou pela janela à sua direita. Um calafrio atravessou—lhe os ombros quando um capo preto, com o familiar ornamento da estrela de três pontas, entrou em seu campo de visão. Gina ficou sem respirar, enquanto olhava pela pontinha da janela do táxi.

Apenas uma mercedes preta, disse a si mesma. Havia milhares delas na capital.

Amercedes ganhou velocidade, ansiosa para já estar no sinal quando ficasse verde. Aos poucos, foi possível ver o pára—brisa, o volante e as mãos que o seguravam. Mãos de homem. Finalmente Ginaviu o motorista.

Gina tremeu e se apertou contra o assento.

Duncan.

Fique calma, fique calma. Ele não pode ver você.

Mas ele estava ali, apenas a alguns metros. Será que ficara no centro da cidade esse tempo todo? Meu Deus, ela poderia ter dado de cara com ele ao sair do hotel. A pessoa ao telefone devia ter sido Duncan. Mas ele não estava no saguão. Talvez estivesse ligando para todos os hotéis da cidade pedindo o quarto de Gina Panzella. Mas então por que estava se afastando do Tremont e não indo para ele? Aquilo não fazia sentido, nenhum sentido...

Gina ficou espremida no assento, rezando para o sinal abrir. Quando o sinal finalmente ficou verde, o táxi e a mercedes entraram juntos no círculo. Mas no meio do percurso, o carro de Duncan dobrou na Connecticut, enquanto o táxi de Gina permaneceu no círculo até chegar à P Street.

Gina relaxou. Estava segura. Mas para onde ele estava indo? A Connecticut não o levaria para casa. Aquele era o caminho para...

... o meu apartamento.

Gina considerou suas opções enquanto o táxi pegou a P Street e dali subiu a Wisconsin, na direção do subúrbio de Bethesda. Seu plano original fora telefonar do quarto de hotel para Oliver antes de ir até a casa dele. Mas fugira antes de poder telefonar. Talvez isso pudesse funcionar a seu favor. Talvez fosse melhor pegar Oliver de surpresa. E se ele falasse com Duncan enquanto ela estivesse indo até a casa dele?

Ela estremeceu. Seria melhor—mais seguro — bater à porta de Oliver e improvisar daí em diante.

Gina avistou o Observatório Naval à sua direita. Estava chegando.

O táxi dobrou à esquerda na Wisconsin, e logo Gina estava inclinada para a frente, atenta para qualquer sinal de uma mercedes preta na rua. Não podia imaginar como Duncan poderia ter chegado antes deles depois de entrar na Connecticut, mas ela havia aprendido da pior maneira a nunca ter certeza de nada quando esse homem estivesse envolvido.

Não havia nenhuma mercedes avista. Ela pagou ao motorista e correu até a porta. Tocou a campainha, temendo ver quem atenderia. Sua vida parecia ter virado um filme de Hitchcock. Ficaria apenas um pouco surpresa se fosse atendida por Duncan.

— Gina? — disse Oliver ao abrir a porta. — O que está fazendo aqui? — Ele abriu a porta de tela. —Vamos, entre.

— Espero não estar interrompendo nada—desculpou—se Gina, os olhos rapidamente vasculhando a sala de estar e o que podia ver da sala de jantar. —Você está com alguém?

Ele sorriu e fechou a porta atrás dela. Oliver estava vestindo um suéter em gola de V sobre a camisa branca usual, e usando chinelos.

— Não. Mas seria uma boa idéia. Sinto—me empolgado demais com o compromisso de amanhã para dormir. Estou feliz por você ter vindo.

— Você talvez não fique depois que tiver terminado o que tenho a dizer.

O sorriso de Oliver desapareceu.

— Alguma coisa errada?

— Sim — respondeu Gina, tirando o frasco do bolso e pressionando—o contra a mão de Oliver. — Isto.

Ele olhou para o conteúdo do frasco.

— Um implante?

— Sim. Eu o tirei da minha perna esta manhã Oliver a fitou com uma expressão desorientada.

— Quê? Como...?

Gina decidiu contar tudo de uma vez. Observaria com cuidado a expressão de Oliver. Se por um instante ele parecesse não estar chocado, ou se estivesse fingindo surpresa, Gina sairia correndo para a porta.

— Duncan enfiou esse implante na minha perna ontem à noite enquanto eu estava desmaiada. Ele passou o dia me perseguindo para tentar dissolvê—lo com ultra—som.

Os lábios de Oliver insinuaram um sorriso.

— É uma piada, não é? Você e Duncan...

— Não é piada, Oliver. Esta coisa está cheia de DTP.

— DTP?—disse Oliver, ainda sorrindo.—O que é...—Então seu sorriso esvaneceu.—DTP? Como você sabe a respeito da DTP?

— Dietilamida triptolínica. Duncan guarda um frasco disso no escritório.

— Impossível. é um composto extinto.

— Eu sei. Foi testado e descartado pela GEM Pharma, a empresa na qual você trabalhou.

— Isso mesmo. Eu tenho a última amostra.

— Mesmo? Onde?

— Guardo no porão. Venha, vou te mostrar.

Oliver conduziu Gina através da sala de jantar. Dali desceram uma escada até o porão.

— Este é o meu pequeno laboratório pessoal—disse ao ligar as lâmpadas fluorescentes.—Durante anos passei todas as noites da semana e cada momento de folga aqui.

Gina olhou em torno. O porão amplo abrigava mesas de trabalho com retortas, lamparinas, centrífugas e fileiras de outros equipamentos que ela não reconheceu, todos enferrujados pelo desuso.

— Foi aqui que...

— Hum—hum. Desenvolvi o implante membranoso. E ali... Acendeu mais luzes.

— Este é o meu "museu de cera". É aqui que guardo todos os compostos inúteis ou interrompidos nos quais trabalhei durante meus anos na GEM.

Guardo uma amostra de cada um.

Gina ficou estarrecida ao ver as fileiras de frascos que se estendiam de um lado a outro da parede. Ali havia centenas deles, talvez mil.

— São tantos. Como você consegue encontrar um específico?

— Fácil. Estão em ordem alfabética. —Abriu um sorriso tímido. —Não consigo evitar. Sou um metódico incorrigível.

Oliver correu um dedo ao logo das fileiras.

— R... S... T...—Ele olhou algumas garrafas, resmungou algumas vezes, e então virou—se para Gina. — E—eu... a DTP... não está aqui.

— Eu sei — disse Gina, apontando para o frasco de pílulas que Oliver ainda segurava na mão esquerda. — Um pouco está aí. Duncan está com o restante.

Oliver olhou para o frasco, e em seguida para Gina.

— Você só pode estar enganada. Duncan não faria uma coisa dessas. Que razão ele teria para isso?

— Porque eu sei a respeito dos outros.

— Outros?

— Vamos subir que explico tudo.

Sentaram—se na cozinha, Gina segurando uma lata de Pepsi e o frasco contendo o implante parado entre eles no centro da mesa. Oliver estava inclinado para a frente, ouvindo com atenção, uma expressão de horror crescente no rosto enquanto Gina expunha suas suspeitas sobre como Duncan matara ou invalidara os senadores Vincent e Schulz e os deputados Allard e Lane.

Gina tremeu de frio. Era a Pepsi ou estava ficando com febre? Sua força parecia estar sumindo.

— Está se sentindo bem?

— Minha incisão pode estar ficando infectada.

— Que incisão? —"" Como mostrar era melhor que falar, Gina se levantou, abriu o zíper da calça jeans e virou—se de lado, enquanto baixava a calça até os joelhos.

— Gina! — disse Oliver, virando o rosto por pudor, mas então viu o esparadrapo na coxa dela.

Gina puxou o esparadrapo e em seguida levantou um pouco a gaze para revelar a incisão. As bordas agora estavam ainda mais vermelhas.

— Meu Deus!—exclamou Oliver, aterrorizado. —Você fez isso? A si mesma?

Gina o deixou dar uma boa olhada; em seguida recolocou a gaze de volta no lugar e voltou a prendê —la com o esparadrapo.

— Como mais eu ia tirar isso, Oliver?

Oliver não disse nada. Simplesmente permaneceu ali, fitando Gina, os olhos cheios de espanto.

— Tem algum antibiótico em casa? — perguntou Gina, enquanto puxava a calça de volta à cintura.

— Tenho amoxicilina.

Não seria a primeira escolha de Gina, mas por enquanto bastaria.

— Posso tomar um pouco?

— Claro.

Ele saiu da cozinha e retornou um minuto depois com um frasco plástico.

Gina engoliu quatro cápsulas de 500 miligramas com água e guardou mais quatro no bolso, para mais tarde.

Oliver estava fitando o frasco com o implante, balançando a cabeça e falando mais para si mesmo do que para Gina.

— Eu... eu não posso acreditar que Duncan faria uma coisa dessas. Bem, talvez aos membros da comissão... Nisso eu posso acreditar... Quero dizer, depois que Lisa morreu ele ficou enlouquecido de raiva, fez todos os tipos de ameaças... mas você... ele quer todo o bem do mundo para você... ele jamais...

Pobre Oliver, pensou ela. A imagem heróica que fazia do irmão mais velho estava desmoronando diante de seus olhos.

— Duncan tem consciência de que represento uma ameaça para ele. E sabe que vou impedir a operação de amanhã.

Oliver levantou a cabeça de repente.

— Amanhã? Oh, não! Você não acha... ele não seria capás!

— Seria sim. Foi por causa disso que injetou o implante em mim. Para poder fazer o mesmo com o presidente.

Oliver se levantou.

— Preciso ver Duncan. Preciso impedi—lo. Tenho de falar com ele. Ele vai me escutar.

— Vai mesmo? Eu não contaria com isso.

— Ele terá de me escutar. Agora duas pessoas sabem. E logo mais pessoas saberão.—Pegou um casaco que estivera pendurado no encosto de uma cadeira. —Ele está derrotado. Mas ainda assim preciso vê—lo. — Os olhos de Oliver faiscaram de raiva.—Imagine usar meus implantes para uma coisa como essa! Eu devia...

Não terminou o pensamento. Em vez disso, apontou para o frasco sobre a mesa.

— Posso levar comigo?

Gina pegou—o e segurou—o com força.

— Não. Desculpe. Esta é a única prova que tenho de que não inventei esta coisa toda. Não vou perdê —lo de vista. E assim que você confrontar Duncan ele saberá que você descobriu onde estou. E como tenho a única prova contra ele, acho que deveria desaparecer por algum tempo.

— Boa idéia. É melhor nem me dizer para onde você vai, apenas para o caso...—Ele balançou a cabeça para afastar os pensamentos. —Como é que eu ia imaginar que um dia pensaria uma coisa dessas do meu irmão?

— Entendo como você se sente. Pode chamar um táxi para mim? Enquanto Oliver telefonava para a empresa de táxi, Gina sentiu outro arrepio que a fez bater os dentes. Definitivamente estava ficando com febre. Rezou para que aquilo que a estivesse infectando não fosse resistente à penicilina.

— Vão mandar um daqui a dez minutos — disse Oliver. — Vou ligar para Duncan.

— Não.

— Apenas para saber se ele está em casa. Não há motivo para eu ir lá se ele não estiver.

Ele discou, esperou um pouco e então disse: — Duncan, sou eu. Precisamos conversar. Por telefone, não. Pessoalmente.

Explicarei tudo quando chegar aí. Nos vemos daqui a pouco.

Desligou e caminhou apressadamente até a porta.

— Me deseje sorte — disse. — E feche a porta ao sair.

Gina estremeceu novamente quando a porta da frente se fechou atrás de Oliver. Estava quase terminado. Duncan estava em casa. Oliver se dirigia para lá. Um táxi estava chegando ali. Mas para onde ela iria?

Não para outro hotel. Não conseguia suportar a idéia de ficar em mais uma lata de sardinhas equipada com cama e TV.

A casa dos pais? O velho lar dos Panzella. O pensamento confortou—a.

Faria uma parada rápida em seu apartamento para mudar de roupas e em seguida iria para Arlington. Estaria a salvo lá. Sentiu mais um calafrio. E aquecida.

Onde estava o táxi? Olhou pela janela, mas a rua encontrava—se vazia.

Caminhou até o fundo do corredor e achou o banheiro de Oliver. Na prateleira de cima do armário de remédios encontrou um termômetro.

Lavou—o, agitou—o e colocou—o na boca. Depois de alguns minutos, checou—o: 39 graus.

Por isso sinto tanto frio, pensou. Estou ardendo em febre.

Bem, tinha dois gramas de amoxicilina atravessando sua corrente sanguínea. Era bom que ela funcionasse rápido. Como deixara seu antitérmico no hotel, pegou alguns do de Oliver.

Ouviu uma buzina de carro do lado de fora. Atravessou correndo a sala de estar e espiou por um canto da janela. Seu coração estava acelerado pela febre e pelo medo.

Se entrei num filme B, pensou Gina, haverá uma mercedes preta lá fora.

Mas não. Era o táxi. Saiu para a rua, pensando que se estivesse num filme de terceira categoria, encontraria Duncan atrás do volante, disfarçado de motorista. Mas um rosto negro apareceu na janela quando ela se aproximou. O motorista abriu a porta de trás para Gina entrar.

— Para onde?

Gina deu—lhe seu endereço e eles saíram. Ficou encolhida no banco traseiro, tremendo.

— Você poderia ligar o aquecedor?—perguntou Gina. Estava com tanto frio que seus dentes batiam.

Duncan estava sentado mudo, atônito. A chegada de Oliver o pegara completamente de surpresa. Nunca vira o irmão assim. Oliver irrompera na sala e iniciara imediatamente um ataque verbal implacável. Duncan não sabia o que o chocava mais — a fúria de Oliver ou o fato de Gina tê—lo procurado e contado tudo.

As palavras de Oliver saíam como de uma metralhadora, não deixando espaço para Duncan intervir. Contou como Gina abrira a própria perna naquele quarto de hotel e removera um implante com artigos comprados numa drugstore.

Duncan tinha de admirar a determinação inabalável e a fibra de Gina. Se seus papéis estivessem invertidos, Duncan duvidava que ele fosse capaz de fazer o mesmo. Mas estava satisfeito por não a ter subestimado. Até certo ponto, ele antecipara isso. A jovem não sabia o significado da palavra desistir. E ainda estava determinada a detê—lo.

E talvez conseguisse. O mundo de Duncan parecia a ponto de desmoronar.

Ao seu redor giravam visões de manchetes nos jornais, julgamentos e...

prisão. Tudo começava a desabar...

Procurou esquecer as visões. Teria de conseguir um acordo com Oliver.

Ainda era possível salvar a situação. Mas para isso Duncan teria de agir rápido. E antes de fazer qualquer coisa, precisaria neutralizar o irmão.

— O que ela lhe disse? O que foi que ela disse que removeu da perna? — perguntou Duncan.

— Um implante... um dos meus implantes... cheio de DTP. Duncan se levantou abruptamente da poltrona, adotando uma postura indignada.

— Evocê acreditou nessa história fantástica? Mas Oliver não recuou.

Fitou o rosto de Duncan.

— Gina estava com o implante ensangüentado num frasco. Ela me mostrou.

Tinha uma incisão recente na perna. Mostrou—me isso também. Ela sabe sobre a DTP, Duncan. Como ela poderia saber sobre a DTP se não a tivesse encontrado no seu escritório, como me contou? E no caminho de volta para cá, lembrei de nossa conversa a respeito do meu "museu de cera" no início deste ano, quando lhe falei sobre a DTP Você ficou muito interessado, quis saber tudo a respeito. E esta noite descobri que meu frasco com o medicamento não estava mais na galeria. Onde está minha DTP, Duncan?

Merda. Ele fora apanhado. Não havia como negar isso. Mas o pior de tudo era a expressão nos olhos de Oliver. O olhar de quase adoração sumira.

Em seu lugar havia apenas raiva... e medo.

Meu irmão está com medo de mim.

Aquilo doía. Mas era justificável.

Não tenha medo de mim, Oliver. Mesmo se eu não puder explicar a DTP.

DTP Essa era a base da argumentação de Gina. Duncan poderia descrever o restante que ela dissera ou fizera como resultado de uma doença mental.

Mas a maldita DTP. aquilo era verdade. E Oliver conhecia o composto melhor do que qualquer um. E ele já adivinhara que em visita à casa dele, Duncan descera até o porão e removera a última amostra de DTP

existente no mundo.

— Responda, Duncan—insistiu Oliver.—Onde está a DTP e o que você tem feito com ela?

Não adiantava negar que ele apanhara o composto. Ele deixou cair os ombros e suspirou:

— Está lá embaixo. — Virou—se e começou a se afastar. — Vou mostrar a você.

A confissão de Duncan exerceu uma mudança radical no comportamento de Oliver. De repente ele estava gentil.

— Você tem trabalhado demais, Duncan — disse, enquanto o seguia até o porão. — Eu lhe falei isso várias vezes. Você precisa de um longo repouso e de... talvez devesse conversar com alguém.

— Acha que preciso de psicoterapia?

— Bem, sim.

Oliver estava visivelmente constrangido ao dizer ao irmão, o médico, que ele precisava ver outro médico.

— Acho que poderia ser uma boa idéia. Tenho estado sob um estresse terrível ultimamente. E nunca me recuperei da morte de Lisa... de tê—la achado daquela forma.

— Eu sei, Duncan. Você sofreu muito.

Duncan acendeu as luzes. O porão da casa fora reformado, mas estava empoeirado e úmido. Os donos anteriores tinham transformado o porão numa sala de jogos, mas Duncan raramente descia ali. Conduziu Oliver até o centro da sala. Em seguida parou e olhou em volta, fingindo—se intrigado.

— Onde deixei mesmo? —Virou—se num círculo lento, e em seguida estalou os dedos. —Já sei! Espere aqui.

Correu até as escadas e galgou os degraus até o térreo, onde fechou a porta do porão e trancou—a. Ouviu Oliver subir correndo os degraus, forçar a maçaneta e bater do outro lado.

— Duncan! Duncan! Não faça isso! É loucura!

— Só tenho mais uma coisa a fazer, Oliver—disse Duncan, enquanto escorava a porta com uma das pesadas cadeiras da cozinha. Por precaução, colocou atrás da cadeira a mesa da cozinha. — Procure ficar à vontade aí embaixo. Deixarei você sair mais tarde, depois que eu terminar.

Lá embaixo não havia janelas, nem telefone. Oliver permaneceria neutralizado até que Duncan tivesse terminado o que tinha a fazer.

— Ela não está na minha casa, se é o que está pensando. Eu lhe disse para ir para um lugar seguro e nem sei que lugar é esse. Portanto, se você está pensando em encontrá—la e destruir a prova, esqueça. Nunca vai encontrá—la.

— Veremos isso — disse Duncan.

Havia uma boa chance de Gina passar pelo apartamento dela antes de se esconder. Especialmente se ela se sentia segura.

Duncan checou o bolso do casaco para ter certeza se estava com o transdutor em miniatura, e em seguida correu para a garagem.

Sim, como Oliver adivinhara, ele estava interessado em recuperar o implante que Gina extirpara da perna. Representava uma prova concreta contra ele. Mas não era o único.

Ainda bem que ele tivera a visão de colocar dois implantes na coxa de Gina.

Gina tinha a impressão de que seu apartamento estava cheio de água. Cada movimento que fazia era um esforço. O próprio ar ao seu redor pesava sobre os ombros. Fora uma provação terrível até mesmo arrastar—se até a cama, que estava desfeita desde a manhã, e puxar os cobertores sobre a cabeça.

Pelo menos pudera trocar de roupas. Um banho teria sido maravilhoso, mas ela não podia desperdiçar tempo. Tomaria um em Arlington e, para explicar sua aparência, diria aos pais que estava gripada ou coisa assim.

Estava se sentindo mais fraca do que nunca quando terminou de guardar mais roupas numa pequena bolsa de ginástica. Mas pelo menos o calafrio passara. Na verdade, estava começando a sentir—se aquecida. Até mesmo com calor. Talvez a amoxicilina estivesse surtindo efeito. Ou talvez o antitérmico estivesse anulando a febre. Ela estava realmente um pouco suada agora.

Mas sentiu um arrepio quando pensou ter ouvido alguém abrir a porta da frente.

A porta da frente?

Oh, não. Não podia ser.

Tremendo, sentindo—se mais fraca a cada batida de coração, caminhou até a porta do quarto e espiou a sala. Parecia vazia. Mas estava escura, cheia de sombras compridas projetadas pela luz de seu quarto. Deixara a luz da sala apagada, pois se alguma pessoa passasse pela rua não deduziria que houvesse alguém em casa.

Gina fixou o olhar na mesinha onde deixara o implante. Ainda estava lá.

Correu até lá e agarrou o frasco. Sim. Era a mesma garrafa. E ali estava o implante, a salvo em seu interior.

Subitamente o frasco estremeceu contra a pele dela. Gina observou aterrorizada quando o implante vibrou e se dissolveu numa poça de líquido. A membrana sumira, deixando apenas a DTP e alguns resquícios de sangue coagulado.

Ouviu um ruído atrás dela e Duncan estava lá, saindo das sombras, com opager na mão. Lágrimas corriam pelas faces dele. Tinha a expressão torturada, a voz embargada. Gina se virou para correr, para gritar por ajuda, mas não conseguiu. Estava com a boca seca, e sentia—se fraca. Sem tirar os olhos de Duncan, Gina esticou a mão trêmula e encontrou a beira do sofá. Dois passos foi tudo que conseguiu antes de tombar sobre as almofadas.

— Sinto muito, Gina. Você não me deixou nenhuma alternativa. Preciso fazer isso. Não é só para mim. É para todos nós.

Gina abriu a boca mas não conseguiu falar. O corpo dela estava banhado em suor. Ela podia senti—lo correndo por sua pele. Um zumbido ecoava em sua cabeça.

Duncan deu um passo para a frente e tomou o frasco dos dedos pegajosos e insensíveis de Gina.

— Sei que você jamais me perdoará, Gina, mas espero que algum dia entenda por que tive de fazer isto.

O zumbido ficou mais alto quando Gina tentou levantar—se do sofá para alcançar Duncan e atracar— se com ele, mas a sala já na penumbra ficou completamente escura, e o zumbido explodiu num rugido ensurdecedor. Gina percebeu que estava caindo para trás. Mas não chegou a perceber quando bateu no chão.