Implante
* 22
GINA
Gina não acordou na manhã de sábado. Não precisou porque não conseguira dormir.
Passara a noite inteira se virando para um lado e para o outro na cama.
Tentara tudo, menos calmantes. Não tinha nenhum em casa, e isso provavelmente não teria funcionado também. Sua mente estava correndo além do limite de velocidade e se recusava a parar no acostamento.
Alguma coisa vai acontecer ao senador Marsden.
Esse pensamento ricocheteara dentro das paredes de sua cabeça como uma bola de pingue—pongue. Gina tentara anulá—lo com todas as explicações que pudera imaginar. A melhor era que, a despeito do padrão ser aparentemente óbvio, todas as provas pareciam circunstanciais. Sim, a comissão deflagrara uma série de eventos que arruinara a vida profissional de Duncan, mas seria preciso mais que isso para que ele iniciasse uma série de assassinatos por vingança.
Ainda assim, cada vez que ela pensava que conseguira superar o medo, algum terror sombrio e informe emergia de seu rombencéfalo, aquela casa ancestral de instintos primitivos.
Assim, Gina agora estava sentada de frente para a janela olhando para a manhã de sábado silenciosa de Kalorama Road. Deus, o que ela faria?
Tinha de fazer alguma coisa.
Impedir a cirurgia? Como? Que razão ela daria? Não, teria de encontrar uma forma de acalmar a mente para não enlouquecer esperando que algo acontecesse.
Mas eu culparei Duncan por qualquer coisa ruim que venha a acontecer com Marsden depois da cirurgia, mesmo se ele for atingido por um meteoro enquanto estiver aparando a grama do jardim.
Gina podia encontrar uma resposta plausível para todas as questões, menos aquela sobre a gaveta na mesa de Duncan.
Tinha visto o frasco e o trocarte enorme. E não obtivera nenhuma explicação para eles.
O que havia naquele frasco? O que um trocarte estava fazendo ali?
Havia apenas uma maneira de descobrir. Mas ela ousaria fazer isso?
Gina correu até o quarto e se vestiu.
Gina entrou no centro cirúrgico pela porta dos fundos e digitou o código que desativava o alarme. Sentia—se mais que um pouco culpada pelo que estava fazendo. Afinal, Duncan confiara a Gina um conjunto de chaves e aqui estava ela invadindo a clínica para vasculhar a mesa dele.
Não é como se eu tivesse entrado aqui para roubar. Apenas vou conferir uma coisa.
Fechou a porta atrás de si, e em seguida preparou uma desculpa para estar ali. Não havia muita chance de alguém aparecer na clínica num sábado, e ela deixara o carro no estacionamento dos fundos, mas nunca se sabe. Assim, antes de mais nada, correu até a sala de registros e jogou o crachá sob a mesa. Caso alguém perguntasse, Gina entrara ali para procurar o crachá perdido.
Subindo novamente, entrou no escritório de Duncan. Notou que as mãos estavam suadas. E se Duncan aparecesse de repente e a visse ali? Pouco provável. Se ele mal podia esperar para sair nas tardes dos dias de semana, por que iria ali num sábado? Já Oliver era outra história. Mas ele mencionara que viajaria para Virginia Beach durante o fim de semana, de modo que também era pouco provável que ele aparecesse.
Através da janela do escritório de Duncan, Gina via o jardim de pedras.
Os arbustos impediriam que fosse vista por qualquer pessoa que passasse em frente à clínica, mas também bloqueavam—lhe a visão do estacionamento; assim, deixou a porta do escritório aberta para poder ouvir qualquer pessoa que abrisse a entrada particular.
Gina caminhou até a mesa de Duncan, rezando por encontrar a gaveta superior aberta.
Sem sorte.
Muito bem, mais uma oração para Duncan ter esquecido de trancá—la. Puxou o pegador. A gaveta não deslizou.
Merda! Deu um tapa no tampo da mesa. Invadira a clínica em vão.
Agachou—se em frente à mesa de Duncan e ficou olhando a gaveta. Um centímetro de madeira a separava da informação que finalmente a deixaria dormir ou que tiraria de vez seu sono. Observou a superfície cromada da fechadura. Tinha visto a chave de Duncan enfiada naquela fechadura, o que significava que ele a levava para toda parte. Mas talvez houvesse uma de reserva em algum lugar. '
Abriu e examinou cuidadosamente as outras gavetas e encontrou duas chaves. Nenhuma coube na fechadura. Gina usou um abridor de cartas para tentar abrir a gaveta à força mas acabou desistindo: aquilo não estava adiantando de nada, e estava evitando fazer muita força por medo de arranhar a madeira.
Se ela soubesse como arrombar uma fechadura... ou se conhecesse alguém capaz...
Antes fizeram amor.
Gerry chegou alguns minutos mais cedo e, por mais que Gina quisesse aprender como se abria uma fechadura, vê—lo parado dentro de seu apartamento espantou todos os pensamentos sobre gavetas trancadas.
Depois de três ou quatro palavras já estavam nos braços um do outro e deixando uma trilha de roupas entre a porta da frente e a do quarto.
Era mais agradável fazer amor numa cama que num sofá, e desta vez Gerry assumiu o comando. Ele correu os lábios em torno dos mamilos de Gina, e em seguida entre os seios; iniciou uma descida ao longo da cicatriz até o umbigo, circulou—o, e tornou a descer. Ela gemeu de prazer e apertou contra si a língua audaciosa do amante.
Depois, ficaram aninhados nos braços um do outro por algum tempo. Gina lutou contra uma necessidade de finalmente cair no sono. Levantou—se, vestiu um robe e abriu uma garrafa de merlot. Aconchegaram—se um no outro no sofá e ficaram bebericando o vinho.
— Foi maravilhoso.
— Para nós dois—disse Gina, fungando o pescoço de Gerry.
— A propósito, eu disse bom—dia? Gina riu.
— Foi uma cena indecente, não?
Gina estava se sentindo mal por haver mentido para Gerry, contando uma história sobre uma chave perdida. Ela apontou para o outro lado da sala.
— É aquele pequeno armário de carvalho. Nem sei por que o tranquei. E agora a chave sumiu.
Odiava mentir, mas não podia contar a Gerry o verdadeiro motivo. Ele era certinho demais para deixá—la conduzir seu plano sozinha.
Ela escolhera o armário porque sua fechadura parecia do mesmo tamanho que a da gaveta de Duncan.
— Não tem nenhuma chave de reserva?
— Acho que está lá dentro — disse em tom tímido. Isso, pelo menos, era verdade.
Gerry riu enquanto pegava o casaco e tirava uma caixa oblonga do bolso.
— Um kit de abrir fechaduras?
— Muito melhor.—Ele abriu a caixa e mostrou—lhe uma coisa que parecia uma chave de fenda em miniatura. — Uma gazua eletrônica. Funciona com bateria.
— É mesmo? Não sabia que esse tipo de coisa existia.
— Já há algum tempo. Este é o Electropick EPG—1. Pode abrir quase qualquer tipo de fechadura em menos de um minuto.
E quanto a arrombar fechaduras ao velho estilo?
— Vamos torcer para que isso não seja necessário—disse Gerry. —Nunca aprendi a fazer isso. Abrir fechaduras não é uma habilidade requerida pelo FBI.
— Então por que essa coisa eletrônica?
— Para quando estamos com muita pressa e não há nenhum chaveiro por perto.
Ele colocou vários pequenos instrumentos de metal preto no buraco da fechadura até descobrir um que se encaixava. Em seguida, afixou o instrumento na ponta do Electropick e começou a ajustar o botão no topo do aparelho.
— Depois de encontrar a ferramenta do tamanho certo, você ajusta o movimento para cima e para baixo. No caso de uma fechadura pequena como esta, o movimento precisa ser bastante curto. Depois coloque o aparelho na fechadura e o ligue.
Gina observou a ferramenta de metal começar a se mover rapidamente para cima e para baixo dentro da fechadura. Gerry moveu o Electropick para dentro e para fora algumas vezes, e finalmente o retirou.
— Certo. Todos os pinos estão em posição. Agora apenas insiro a barra de tensão— introduziu uma peça de metal em forma de L no buraco da chave — e girou. Ela ouviu um clique. Ele removeu a barra de tensão e gesticulou na direção da gaveta.
— Certo. Agora puxe.
A gaveta do armário abriu facilmente. Ela o beijou.
— Meu herói! Um homem de muitos talentos! Ele levantou o Electropick.
— Apenas eu e meu EPG—1 de confiança.
— Espere um pouco.
Ela procurou uma coisa na gaveta do armário.
— Aqui está a de reserva.
— Um lugar ótimo para guardá—la — disse Gerry com um sorriso sarcástico.
— Que tal passar a guardá—la embaixo do armário?
Boa idéia. Mas antes...—Ela enfiou a chave na ranhura e fechou de novo a gaveta. Em seguida pegou o Electropick. — Deixe—me tentar.
Gerry ficou hesitante, mas então mostrou a Gina como usar o aparelho.
Sob a orientação dele, Gina destrancou e retrancou o armário três vezes.
Gina precisava de um Electropick.
— Onde posso conseguir esse tipo de coisa?
— Não num supermercado, com toda certeza. Esses aparelhos custam uns duzentos ou trezentos dólares, mas se você quiser mesmo um posso conseguir o endereço de uma firma que atende pelo correio.
— Deixa para lá — disse Gina, desapontada. — Quero dizer, quantas vezes na vida precisarei de uma coisa assim?
E então era hora de jantar. Gina o levou a um restaurante tailandês na vizinhança, mas não conseguiu convencê—lo a experimentar estômagos de peixe ao molho de amendoim. Depois foram ver o novo filme de Kevin Costner. Gerry não adorou o filme, e a própria Gina não teria gostado se Kevin Costner não fosse o astro. Apenas ver e ouvir Kevin Costner compensava os milhares de defeitos do filme.
Finalmente voltaram para o apartamento para fazer mais amor. Dessa vez, com bastante calma.
— É estranho, não acha?—comentou Gina quando estavam deitados na cama, exaustos. Estava pensando que talvez quisesse ficar com Gerry para sempre. — Quanta coisa aconteceu com nós dois desde o colégio. Mal conhecíamos um ao outro quando nos encontramos naquele dia no mesmo prédio. E agora, depois de todos esses anos e dos quilômetros que nos separavam, nos encontramos numa cidade de milhões de habitantes como esta. Não acredito em destino, mas é preciso admitir...
— Destino — disse ele com suavidade. — Isso soa bem. Gerry saiu por volta da uma da manhã. Sem o Electropick.
Desesperada, Gina removera o aparelho antes de lhe dar o paletó.
Sentia—se um verme, mas se consolou com o pensamento de que estava apenas tomando emprestado.
Gina se sentia feliz quando adormeceu, decidida a passar a maior parte da manhã de domingo se tornando uma especialista com o electropick. A tarde tentaria abrir a gaveta de Duncan.
Mas a preocupação com o que descobriria ainda lhe perturbava o sono.