Implante
* 27
TRUQUES
Gerry levantou os óculos escuros quando um Lincoln Tovm Car prateado saiu da via de acesso e dobrou à direita. O senador Marsden estava atrás do volante. Gerry sentiu as borboletas baterem suas asinhas contra as paredes de seu estômago. Haviam flutuado ali durante a noite inteira. Muita coisa dependia dessa pequena operação. Pelos padrões do FBI, não se tratava de grande coisa em termos de recursos: alguns veículos, alguns agentes de campo, alguns civis. Mas para Gerry, era uma operação importante.
Borboletas? Pareciam mais uns galos de briga bicando uns aos outros.
Naquele trecho da McLean Road não havia muitos lugares onde se esconder.
A maior parte dos prédios eram casas baixas em centro de terreno. Mas Gerry conseguira achar uma fileira de carvalhos e estacionara o carro atrás deles. Dali pudera vigiar a casa do senador Marsden. Gina telefonara para o escritório do senador e descobrira que ele chegaria em algum momento entre as oito e as nove.
— Mesmo se Gerry não tivesse visto o rosto dele, a atadura branca na orelha esquerda teria confirmado a identidade. Marsden estava usando cinto de segurança. Ótimo. Um homem precavido. Gerry viu as horas: 8:05. Pontual também.
E como sempre, o próprio Marsden estava dirigindo. Na fase de planejamento, aquilo fora motivo de preocupação. Por menor que tivesse sido a cirurgia, sempre havia a possibilidade de o senador pedir que uma limusine fosse apanhá—lo em casa. Felizmente, não fizera isso. Um passageiro extra ou um veículo diferente poderiam ter complicado o plano.
Gerry apertou duas teclas no telefone celular, acionando um número pré—programado.
— Certo. Ele está a caminho. Usando o Lincoln. Manterei vocês informados.
Deu a partida no Ford da agência e seguiu Marsden, passando por estábulos e campinas até o bulevar Dolley Madison. Passaram em frente ao prédio da CIA e logo estavam em meio ao tráfego na George Washington Memorial Avenue. Gerry entendeu por que Marsden tomava essa rota. Ela era bonita. À sua direita passavam colinas e vales, que começavam a adquirir tons outonais, enquanto, à esquerda, o rio Potomac fluía pacificamente. Do outro lado do rio as torres da Georgetown University espetavam o céu.
A tensão de Gerry aumentou enquanto passavam sob a Ponte Key. Dali Marsden poderia escolher entre duas pontes: a Teddy Roosevelt ou a Arlington Memorial. Se tivesse tido mais tempo, Gerry poderia ter descoberto qual era a rota habitual do senador, mas haviam se passado menos de 24 horas desde a cirurgia. Gerry se preparara para ambas as rotas, mas estivera torcendo pela Memorial.
Ele e Ketter tinham feito serão na noite anterior tentando obter aprovações e requerendo agentes e equipamento, mas valera a pena. Hoje, às sete da manhã, tinham encontrado tudo no lugar, à espera.
Quando viu Marsden ignorar o desvio para a Teddy, Gerry relaxou um pouco. Mas só um pouco.
Digitou novamente as teclas do celular.
— Certo, pessoal. Ele está no curso. Está chegando à ponte Memorial agora. Preparem—se para entrar em ação assim que ele chegar à Constitution.
Gerry não desligou dessa vez, mantendo o canal aberto enquanto passava pelo Seabees Memorial e cruzava a entrada para a ponte, flanqueada por duas águias de cabeça branca de granito. O grande cubo de mármore branco do Lincoln Memorial apareceu à sua frente, enquanto o Monumento a Washington se avultava à sua direita. Marsden virou na Lincoln rumo à Constitution Avenue. Gerry o seguiu.
Quando o Monumento do Vietnã passou à sua direita, Gerry anunciou: — Está na Constitution. Vamos!
E agora os galos de briga em seu estômago estavam realmente agitados. A precisão seria um elemento crucial. Dispunham de alguns quarteirões para fazer o serviço, mas o motorista acrobático do FBI teria de esperar por uma oportunidade. Não tinha apenas de fazer contato, mas também precisava escapar.
Um Nova... ele estará dirigindo um velho Chevy Nova azul.
Enquanto ele e Marsden se misturavam aos motoristas que trafegavam pela Constitution Avenue ao longo do Potomac, Gerry voltava o olhar de um lado para o outro, de espelho para espelho. Enfim, avistou o carro, cortando o tráfego atrás deles. Gerry desviou para deixar o Nova passar. Ao olhar de relance para o interior do Nova, viu que a aba do boné do motorista estava abaixada, enquanto o blusão estava com a gola levantada. Gerry não pôde conter um sorriso nervoso. Trevor Hendricks parecia qualquer coisa, menos um agente especial.
— Não vacile, Hendricks — sussurrou Gerry. — Por favor, não vacile.
Gerry mordeu o lábio enquanto observava Hendricks aproximarse do carro do senador, procurando por uma oportunidade. Ele a encontrou na 19th Street, em frente ao Departamento do Interior. Marsden estava reduzindo a velocidade com o intuito de parar num sinal vermelho quando o Nova deu uma guinada abrupta e se chocou de lado com o carro do senador. Foi uma batida leve, mas violenta o bastante para amassar o pará—lama da roda dianteira esquerda. O Lincoln brecou; o Chevy cantou pneu e disparou a toda pela Constitution.
Gerry freou o carro diretamente na frente do Lincoln do senador e correu de volta até a janela do seu carro.
— Você está bem?
— Sim—disse Marsden, parecendo um pouco pálido e abatido, mas aparentemente sem um arranhão. —Viu aquele filho da puta?
Gerry olhou para a Constitution e viu o Nova dobrar na 17th Street.
Hendricks abandonaria o carro ali, se misturaria com os turistas no Monumento a Washington, e depois caminharia alguns quarteirões de volta até o FBI. O carro, uma propriedade sem registro, confiscada de um traficante, fora um presente do DEA.
— Vi a coisa toda—tirou um cartão do bolso. — Se precisar de uma testemunha... ei, o senhor não é o senador Marsden?
— Sim, sou sim.
Gerry estendeu o cartão pela janela aberta.
— Canney, agente especial do FBI. Vou informar isto.
Sem dar chance para Marsden responder, Gerry sacou o telefone celular, abriu—o e, dando as costas para o senador, fingiu ligar para a polícia.
— A polícia mandará alguém em um segundo — disse, voltando—se para o carro.—Tem certeza de que o senhor está bem?
— Absoluta. Veja, estamos bloqueando o trânsito. Acho que posso seguir em frente e ver se consigo sair da estrada.
Gerry olhou para trás e viu que haviam criado um pequeno engarrafamento ao reduzir as vias de acesso de três para duas. Mas não queria que o senador fosse a lugar algum.
— Não sei se é uma boa idéia, senhor. Deixe—me dar uma olhada nos danos — disse ele.
Caminhou até o pára—lama esquerdo e se inclinou sobre ele. Hendricks fizera um trabalho perfeito: o metal estava retorcido sobre o pneu.
— Acho que não poderá ir a parte alguma, senhor. Enquanto se levantava, Gerry viu Marsden começando a se afastar do carro. Gerry caminhou até ele e o conduziu gentilmente de volta ao assento do carro.
— Talvez o senhor ainda não deva se mover, senador.
— Estou perfeitamente bem. Foi só a lataria amassada. Gerry permaneceu firme, bloqueando a porta com o corpo.
— Ainda assim, senhor, acho que seria mais sensato se se movesse o menos possível até chegar ajuda.
— Não seja ridículo! Estou perfeitamente bem e completamente capaz de...
Um carro azul e branco se aproximou, tocando sirene, piscando luzes.
Atrás dele vinha uma ambulância e uma UTI móvel, todos guiados por agentes do FBI.
O senador recusou—se a ser levado ao hospital. Protestou vigorosamente, mas como seu carro não iria a parte alguma, os policiais e enfermeiros não pareciam dispostos a aceitar um não como resposta, e o GWU Hospital ficava apenas a seis quarteirões dali, Marsden finalmente cedeu.
Enquanto a ambulância se afastava, Gerry se encostou no Lincoln do senador e deu um suspiro de alívio. Aparte mais complicada acabara, e Marsden saíra sem um arranhão.
Pronto!
Deus, que sensação gostosa. Era quase como sexo. Se fumasse, Gerry estaria acendendo um cigarro.
Mas agora vinha a parte mais importante: encontrar aquele implante.
Gerry rezou para ser possível achá—lo. Porque seria um verdadeiro inferno se não o encontrassem.
Gina entrou na sala de registros e pressionou o aparelho contra a orelha para não deixar a voz de Gerry ser ouvida por outras pessoas.
Não desejara ir ao trabalho, mas Gerry achara que seria melhor que Gina não se desviasse de sua rotina.
— Muito bem—disse Gerry.—Estamos com o senador aqui na sala de emergência. Deixe— me repassar tudo novamente para termos certeza de que não cometeremos nenhum engano. Estamos preparados para fazer uma ressonância magnética da perna direita dele. É lá que está o que queremos, certo?
— Isso. Diga para se concentrarem na parte externa da coxa e para procurarem um ferimento arredondado que já deve estar cicatrizando. O
implante deve estar em algum ponto num raio de sete a dez centímetros da perfuração.
— Certo. Só perguntei para ter certeza.
— E Gerry... — Ela abaixou a voz até um sussurro. — Não deixe ninguém usar um ultra— som para encontrar o implante, certo? Às vezes usam ultra—som para localizar corpos estranhos no tecido macio, mas não deixe que façam isso. Não deixe ninguém nem mesmo se aproximar do senador com um ultra— som.
Os diagnósticos por ultra—som costumam empregar uma fração mínima da força da modalidade terapêutica — mas por que arriscar a sorte?
— Certo. Nada de ultra—som. Olhe, preciso correr. Devemos ter uma resposta logo.
— Ligue para mim.
— Assim que puder. Logo que identificarmos a coisa, vamos dizer a Marsden e convencê—lo de que o implante deve ser extraído imediatamente. Isso pode não ser fácil.
— Apenas sálve—o, tá?
— Estou dando o melhor de mim.
— Sei que está. Eu te amo.
Ele ficou em silêncio por um momento, provavelmente tão surpreso quanto a própria Gina por ela ter dito isso. De onde viera essa frase?
Do coração, acho, disse Gina a si mesma.
— Eu me sinto da mesma forma — disse ele, e ela teve de sorrir. Gerry provavelmente estava cercado por uma dúzia de agentes. —Vamos nos reunir depois da poeira assentar. Precisamos ter uma conversa.
— Acha que pode jantar comigo esta noite?
— Acho que isso pode ser arranjado. Quer que eu leve alguma coisa?
— SóaMartha.
— Martha?
— Sim. Não a vejo há um bom tempo.
— Ótimo.
— Ficaremos lá em casa Vou cozinhar de novo. Que tal linguine combrócolis?
— Martha vai adorar.
— Bom. Até logo.
Gina ficou sentada ali durante algum tempo, fitando o espaço. Não queria ficar sozinha à noite. Com Gerry e Martha como companhia, talvez não se sentisse tão mal com essa história toda.
Gerry parecera animado, mas também tenso. Gina apenas se sentia nauseada. Quando encontrassem o implante, o trabalho de Gerry estaria terminado. Ele mandaria o senador Marsden para os médicos que fariam a cirurgia de remoção e o caso para os promotores públicos.
Mas o envolvimento de Gina não acabaria aí. Em algum momento teria de encarar Duncan.
Estremeceu. Sentia—se uma cobra. Duncan salvara—lhe a vida, dera—lhe um trabalho quando ela cursava o ginásio, e outro depois de sua formatura.
Sempre fora muito generoso com ela, e era assim que Gina o pagava.
Mas como poderia permitir que ele continuasse o que estava fazendo?
Ela fizera a coisa certa. Ética, moral e legalmente, a coisa certa.
Então por que se sentia tão mal?
Depois de terminar as tarefas da manhã, Duncan permaneceu sentado no escritório, virado de costas para a mesa, com uma xícara de café do Quênia esfriando nas mãos. Olhava através da vidraça para o jardim de pedras, mas quase não percebeu que as folhas vermelhas do bordo anão começavam a ficar marrons. O outono estava chegando, mas no coração de Duncan já era inverno.
Gina, Gina, Gina... o quanto você sabe?
Ela sabia alguma coisa, e suspeitava de mais. E a julgar pela forma como ficara grudada no senador, Gina não tinha mais nenhuma dúvida.
Duncan pensou sobre a antipatia cada vez maior que nutria pelo senador Marsden. Até onde sabia, Marsden era um homem decente, ainda que estivesse envolvido na expansão da caquistocracia. Seria pessoal?
Talvez seus sentimentos tivessem sido acentuados pelo fato de Gina estar endeusando outra pessoa.
Havia uma questão mais crucial do que até onde iam os conhecimentos de Gina. Era o que ela pretendia fazer com esse conhecimento. Duncan não conseguira perceber nada em Gina durante a manhã... ela estivera estranhamente calada e distante. Em nenhum momento o fitara nos olhos.
Alguma coisa estava acontecendo...
O telefone interno tocou. Duncan girou a cadeira e atendeu.
— Um Dr. Melendez no zero—dois, querendo falar sobre o senador Marsden.
Um arrepio atravessou os membros de Duncan. Melendez? Quem era esse Dr. Melendez?
Ele apertou a tecla acesa.
Melendez, logo descobriu, era um dos médicos da equipe de emergência do GWU Hospital. Com um sotaque quase imperceptível, Melendez disse que Marsden se envolvera num pequeno acidente de carro pela manhã. Marsden mencionara que sofrera uma cirurgia no dia anterior. Melendez só queria checar se Marsden estava tomando algum tipo de remédio.
— Nada mais forte que ibuprofeno ou um analgésico. Ele está ferido?
— Nem um arranhão. A atadura da orelha nem escorregou.
— Bom.
— Se o senhor quiser, posso dar uma olhada sob a atadura depois que ele voltar da radiologia.
— Você não disse que ele não sofreu nem um arranhão?
— E não sofreu mesmo. Mas ele está sendo submetido a um exame de ressonância magnética. Os federais estão tratando dele como um bebê.
Acho que deve ser porque ele é um senador.
— Federais?
Uma larva de suspeita apareceu nas entranhas de Duncan. — É. Tem uns agentes do FBI aqui. Não entendi o motivo do estardalhaço. Acho que como ele não sofreu nada, esse exame de ressonância magnética é dispensável. Mas ora, sou apenas um médico.
— Um mero provedor de cuidados médicos—disse Duncan, tentando manter um tom de voz calmo.
— Isso mesmo.
— Bem, Dr. Melendez, agradeço pela cortesia de seu telefonema.
— Quando precisar, estou às ordens.
Duncan tamborilou os dedos no tampo da mesa. Ressonância magnética? Do quê? Da cabeça? Ou de uma perna? Ficara tão abalado que esquecera de perguntar a Melendez.
E aquele rapaz com quem Gina vinha se encontrando, não era do FBI?
Os dedos de Duncan pararam de tamborilar e se fecharam num punho.
Era muita coincidência.
Agarrou o telefone. Bob Rubistein trabalhava havia anos na radiologia do GWU Hospital. Duncan mandou Barbara tentar localizá—lo. Cinco minutos depois, ele estava na linha.
Depois do obrigatório papo furado entre amigos que não se viam havia muito tempo, Duncan abordou o assunto.
— Bob, estou importunando você porque soube que um de meus pacientes, o senador Marsden, sofreu um acidente hoje de manhã e está na radiologia.
Eu queria saber como ele está passando.
— Não sei nada disso. A ressonância magnética fica em outro departamento. Mas posso descobrir. Espera um pouco?
Duncan concordou e permaneceu durante algum tempo ouvindo música instrumental enquanto tentava acalmar a tensão. Rubistein voltou alguns minutos depois.
— Falei com Sal Vecchiarelli, o chefe do departamento de ressonância magnética. Conhece?
— Não.
— É um bom homem. E está puto da vida! O seu senador está muito bem, mas eles insistiram em fazer um exame de ressonância magnética nele de qualquer jeito. Parece que... olha, o que vou dizer é superconfidencial. Fica entre nós, tá?
— Pode confiar em mim.
— Certo. Parece que o FBI reservou ontem este horário para a ressonância magnética. Como se já soubessem que esse acidente ia acontecer. Muito esquisito, não acha?
Duncan estava suando frio.
— Com toda certeza.
— Queria saber qual é o motivo disso.
— Não faço a menor idéia. Operei a orelha dele ontem. Eles estão...?
— Não. Eles não estão interessados na orelha dele. O exame é na perna direita, acho.
Duncan fechou os olhos e engoliu em seco. Esforçou—se para perguntar: — Sabe o que estão procurando?
— Algum tipo de corpo estranho.
Duncan socou a coxa. Não! Droga, não! Forçou—se a se manter calmo.
— Os resultados já saíram?
— Nada ainda. O senador está agora no túnel do aparelho de ressonância.
Sal está cuidando dele. Ele está louco para liberar o aparelho para os pacientes que estão realmente precisando do teste.
— Não posso culpá—lo.
— Como o senador é seu paciente, ligo para você assim que souber do resultado.
— Não, obrigado, Bob—disse Duncan lentamente, enquanto sentia uma pressão aumentar no peito. — Não é preciso.
Eu já sei o resultado.
Duncan colocou o telefone no gancho com as mãos trêmulas. Olhou para os dedos. Por que estavam vibrando tanto? Seria raiva? Ou amargura?
Gina sabe.
Ele já imaginava isso, mas até aqui Duncan não fazia idéia do quanto ela sabia. De algum modo ela chegara ao quem e ao quando. Talvez até ao porquê.
Mas em vez de falar com Duncan, ela procurara o FBI.
Ele queria quebrar alguma coisa—abrir um buraco na parede com o punho, agarrar a cadeira e jogá —la contra a janela.
Mas não. Não era um maníaco. Estava se controlando. Contudo, olhando da perspectiva de Gina, ela devia considerá—lo um psicótico. Um paranóico.
Ele não tinha dúvida que imaginaria a mesma coisa se seus papéis fossem trocados.
Mas se os papéis estivessem trocados, Duncan teria procurado Gina antes.
Não a teria apunhalado pelas costas e a entregado à caquistocracia.
Gina, meu belo cisne... como pôde?
Ela o magoara profundamente hoje. Duncan não sabia se um dia seria capaz de perdoá—la. Mas aquela era uma questão para outra ocasião. Muito mais urgente era decidir o que faria agora..