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F. Paul Wilson · Capítulo 33 de 36

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* 33

 

MANHÃ DE QUINTA—FEIRA

 

Gina acordou com cola na boca, areia nos olhos e heavy metal nos ouvidos. Rolou da cama e caiu no chão com a mão esticada na direção do despertador. Sempre sintonizava a música do radiorrelógio numa estação de rock pesado. Isso nunca falhava em acordá—la. Não havia como ficar na cama com esse tipo de música tocando.

Só queria ter colocado o rádio em outra estação — em qualquer outra estação — antes de desmaiar na noite anterior. Essa manhã o ruído da música estava torturante. Abateria e as guitarras da banda pareciam soar dentro do seu cérebro. Um desses grupos devia se auto—intitular Torquemada.

Gina acertou com o punho a tecla COCHILO, e em seguida se levantou e virou—se para a cama. Olhou para baixo e reparou que dormira de vestido.

Merda! Estava todo amassado, com uma aparência péssima. E ela também devia estar.

Tombou como uma árvore na cama, o rosto batendo contra o colchão.

Por que se sentia tão mal? Não bebera tanto na noite anterior. Teria sido a combinação?

Independentemente do que fosse, não gostava disso. O estômago estava nauseado, e a cabeça... Deus, a cabeça.

Ela estava quase desmaiando de novo quando o uivo de uma guitarra encheu novamente o quarto. Dessa vez se levantou e desligou o rádio. Cambaleou até o banheiro, removendo o vestido no caminho. Olhou para si mesma no espelho.

Que. Horrível. Simplesmente horrível.

Abriu o chuveiro e despiu—se. Assim que a água estava quente, entrou e deixou—a correr pelo corpo.

Deus, como isso fazia bem.

Começou a se esfregar, começando com rosto e depois desceu pelo corpo. A água e a fricção começaram a reavivá—la. Estava retornando dos mortos, voltando ao mundo dos...

— Ai!

Virou—se e olhou para a parte externa da coxa direita. Sentira uma pontada de dor ao esfregar a área.

Passou a mão sobre o ponto e reparou num pequeno ferimento. Devia ter batido ontem contra a quina da mesa ao caminhar trôpega até a cama.

Mas espere... este ferimento ficava mais perto da parte de trás da coxa do que da parte da frente. Só poderia ter se machucado naquele local caminhando para trás.

Colocou o pé sobre a borda da banheira e olhou mais de perto. Parecia mais que um ferimento. A pele se rompera. Um pequeno corte semicircular no centro do ferimento. Quase como o que ela vira no... senador...

Marsden...

Os joelhos de Gina tremeram, e teve de se agarrar ao toalheiro para não cair.

Espere, pare, disse a si mesma enquanto o banheiro começava a girar em torno dela. Isto é loucura. Isto é impossível.

Mas quando olhou novamente, a pequena laceração permanecia lá.

Examinou—a. Pôde sentir um leve inchamento nas bordas. Era recente.

Apertou mais forte. Uma pequena gota de sangue apareceu no meio do ferimento. Apalpou em torno do ferimento, sentindo a gordura subcutânea, procurando por...

Os dedos congelaram. Seria sua imaginação ou havia algo ali? Macio como gordura, porém macio demais para ser gordura. Uma coisa oblonga, cilíndrica. Como um implante.

O banheiro começou a girar de novo. E mesmo com a água quente caindo sobre ela, Gina subitamente sentiu frio. E ânsia de vômito. Saiu do chuveiro e se inclinou sobre a privada. Não saiu nada.

A cabeça começou a latejar ainda mais ao deixar—se cair de joelhos.

Quando o banheiro parou de girar, examinou mais uma vez a coxa, dessa vez olhando ainda mais de perto. Tocou novamente o local, mas agora com delicadeza. Se realmente havia alguma coisa sob a pele e se fosse mesmo um implante, ela não queria... rompê—lo.

Mas como poderia ser um implante? Duncan a deixara em seu apartamento e ela fechara a porta.

Espere. Duncan estivera com as chaves. Ele abrira a porta para Gina e a deixara entrar. Em seguida ele saíra. Ele lhe devolvera as chaves? Não.

Ela o vira deixar as chaves? Não. Não tinha visto nada. Como a tranca da porta era automática, Gina não costumava fechá—la à chave. Tudo que queria era socar o travesseiro.

Levantou—se, envolveu—se com uma toalha e fechou a água. Estremeceu.

O café no escritório de Duncan na noite anterior. Duncan dissera que misturara licor no café, e Gina achara que ele estivesse amargo por causa disso. Mas poderia ter sido outra coisa. Como hidrato de cloral.

O velho truque da droga na bebida.

Ele estivera com as chaves dela. Poderia tê—las guardado, dirigido um pouco pelo quarteirão, entrado no apartamento de Gina e lhe injetado um implante na coxa enquanto estava adormecida.

Ainda molhada, Gina saiu do banheiro e caminhou até a porta da frente. O chaveiro não estava na fechadura, mas não lembrava de tê—lo deixado ali.

Onde estavam as chaves?

Olhou em torno e viu—as na mesinha de café.

Mas, obviamente, Duncan deixara as chaves para trás depois de ter—lhe aplicado a injeção. O que mais ele faria com as chaves?

Mas por quê? Por que Duncan faria isso com Gina apenas algumas horas depois de convidá—la a assisti—lo na cirurgia do presidente? Não fazia sentido. A não ser...

A não ser que ele achasse que Gina sabia demais. E se tivesse descoberto sobre o FBI, o acidente encenado e o exame de ressonância magnética feito na perna do senador Marsden? E se Oliver tivesse contado que Gina adivinhara a respeito do presidente? Nesse caso, pensaria numa forma de tirá—la do caminho antes de sexta. Ele teria...

O telefone tocou. A mão de Gina estava tremendo quando levantou o fone.

Quase gritou ao reconhecer a voz de Duncan do outro lado da linha.

— Como está se sentindo?

Controlando o terror e a mágoa, Gina se forçou a responder com calma.

— Bem. Com um pouco de dor de cabeça.

— Fico feliz em ouvir isso. Você estava muito tonta ontem à noite. Por algum tempo achei que...

— Duncan! — Incapaz de reprimi—las, as palavras saíram violentamente de sua boca. — Duncan, como foi capaz de fazer isso comigo?

— Fazer o quê?

— Sabe muito bem o quê! Você enfiou um implante em mim ontem à noite!

— Como? Espere um minuto.

Ele me deixou esperando, pensou Gina. Não acredito nisso. Estava prestes a bater o telefone quando ouviu um ruído suave e pressionou o fone de volta no ouvido.

— Gina, não estou entendendo. O que acha que eu fiz?

— Não se faça de idiota, Duncan. Sei de tudo. Você me drogou ontem à noite e inseriu um implante cheio de DTP na minha perna.

— Acha que invadi seu apartamento e fiz uma cirurgia em você? O que é DTP?

— Sabe muito bem que porra é DTP! Uma droga que causa sintomas psicóticos!

— Gina, escute. Se eu quisesse inserir alguma substância em você, por que precisaria de um implante? Por que não injetaria essa substância com uma seringa?

Aquilo a fez hesitar. Por que ele simplesmente não injetara DTP em seu sangue e acabara com isso de uma vez por todas? E subitamente ela soube.

— Porque você esteve comigo ontem à noite. Fomos vistos juntos. Você quer um intervalo entre a noite em que fomos vistos e o momento em que eu tiver um colapso nervoso.

— Temo que esteja tendo um agora, Gina.

— Exatamente o que você gostaria que as pessoas pensassem, não é verdade? Bem, então ouça, Duncan...

— Já ouviu o suficiente, Barbara?

E então Gina escutou a voz de Barbara, embargada pela piedade.

— Gina, você precisa se acalmar. Somos seus amigos aqui. Só queremos ajudá—la. Por favor. Precisa acreditar nisso.

Gina quase deixou o telefone cair.

— Meu Deus! Barbara! Ele está usando você!

Filho da puta! Duncan colocara Barbara na linha quando deixara Gina esperando. Agora tinha uma testemunha de que Gina estava fazendo acusações insanas antes de sofrer um colapso nervoso completo.

— Fique onde você está, Gina — disse Duncan. — Estou chamando uma ambulância para buscá—la. Vamos levar você até um lugar onde poderá receber toda a ajuda necessária.

— NÃO!

Bateu o telefone e correu para o quarto.

— Sou uma idiota! Como pude ser tão burra? Vestiu—se. Precisava sair dali. Podia ver tudo agora...

Duncan planejara tudo, e de forma brilhante. Gina devia ter deixado óbvio que suspeitava de alguma coisa. Ao fingir injetar um implante em Marsden, perfurando a coxa do senador com um trocarte vazio, Duncan a induzira a se passar por idiota. Agora sua sanidade e senso de julgamento estariam sob suspeita.

Mas como ele sabia o quanto ela sabia? Só se houvesse uma câmera de segurança no escritório.

Deus! Seria possível? Nesse caso, Duncan a teria visto arrombar a gaveta da mesa, e olhar atrás do livro. Ela gemeu. Não era de admirar que a quisesse fora do caminho.

Vestiu suéter, jeans e tênis, pegou a bolsa e caminhou até a porta.

Antes de sair, parou de repente.

Para onde estou indo?

Para casa? Esse seria o primeiro lugar onde a procurariam. Não queria envolver os pais.

Gerry? Ele tinha dúvidas terríveis a respeito de sua confiabilidade. Mas dessa vez dispunha de uma prova. Um implante repousando na camada de gordura da perna dela.

Saltou de volta para o telefone e discou para a casa de Gerry. Ele ainda estaria lá agora. Pelo menos era o que esperava. Quando o telefone começou a tocar, Gina se esforçou para controlar a voz. Queria soar racional enquanto explicava uma coisa insana. Precisava dizer tudo com o menor número de palavras possível. E fazer com que ele acreditasse.

Gerry tinha de acreditar.

— Gerry, é Gina.

Gerry sentiu uma pequena onda de alegria ao ouvir a voz de Gina; também uma pontada de culpa e, de certo modo, alívio. Vinha querendo falar com ela, mas estivera hesitante em telefonar. Fora muito rude com Gina na semana anterior. Estava satisfeito por ela ter tomado o primeiro passo.

Por outro lado, não podia evitar estar mais que um pouco apreensivo com o que Gina poderia ter a dizer, especialmente porque sua voz parecia tensa.

— Oi, Gina. Eu ia ligar para você.

— Não tenho muito tempo. Por favor, ouça o que eu tenho a dizer. Ontem à noite Duncan injetou um daqueles implantes na minha perna enquanto eu estava dormindo. O implante ainda está na minha perna.

Ele gemeu. De novo não.

— Gina, você realmente tem que... Gina o interrompeu.

— Me ouça um pouco, Gerry. Pelo amor de Deus. Isto não é fantasia. Há dois fatos que você pode checar. Um, obviamente, é o implante na minha perna. Sei que ele está aqui. Posso senti—lo. Basta fazer uma sondagem para provar isso, mas o que eu realmente quero é removê—lo. O segundo fato é a razão pela qual Duncan fez isso comigo: ele vai fazer uma cirurgia plástica no presidente amanhã de manhã.

Gerry fechou os olhos. Pobre Gina. Duncan Lathram ataca de novo.

Primeiro, o senador Marsden, agora, o presidente.

— Sei o que você está pensando, Gerry, e não posso culpá—lo. Mas apenas confira isso. Você deve conhecer alguém no Serviço Secreto.

— Sim. Conheço uns dois caras.

Bob Decker imediatamente veio à mente de Gerry. Ele trabalhava na Casa Branca. Se alguém estava a par de toda a agenda do presidente, esse alguém era Bob.

— Ótimo. Telefone para um deles. Telefone para todos. Confirme o que eu disse sobre a cirurgia. Depois de verificar isso, talvez esteja mais predisposto a acreditar que não estou completamente louca.

— Não acho que esteja louca—afirmou, rezando para estar sendo convincente.

— Você mente muito mal. Mas por favor não minta para mim. Verifique isso. Então poderemos remover esta coisa da minha perna e deter Duncan antes que ele faça algo catastrófico. Por favor, estou implorando.

O tom de desespero na voz de Gina derrubou todas as objeções racionais de Gerry.

— Certo. Vou telefonar para a Casa Branca.—Isso pelo menos poderia fazer. Que mal haveria nisso? —Mas posso demorar um pouco até obter uma resposta. Esses caras não ficam parados à espera de telefonemas. Se o presidente estiver fora da Casa Branca, estão com ele.

— Ainda é cedo. Talvez consiga falar com alguém.

— Vou tentar.

— Obrigada. Isso é mais do que eu poderia esperar.

Não parecia apenas assustada, mas perdida também, sem um amigo no mundo.

— Onde você vai estar? Em casa?

— Deus, não. Ele está vindo atrás de mim. Tenho de sair daqui.

Telefonarei para você daqui a pouco. Assim que estiver num lugar seguro.

Oh, Gina.

— Quer ficar na minha casa? Martha estará na escola. Você poderia ficar lá enquanto espero uma notícia dos meus amigos no Serviço Secreto.

Gerry queria que ela ficasse segura. O que faria com Gina? Tinha de conseguir ajuda. Talvez entrar em contato com os pais dela, contar—lhes que ela estava tendo um colapso nervoso.

— Talvez mais tarde. Depois que tirarmos esta coisa da minha perna, vou precisar de um lugar para descansar. No momento não posso ficar parada.

Gerry mordeu o lábio. Não queria pressioná—la, não em seu estado mental.

— Certo. Faça o que achar melhor. Mas permaneça em contato. Continue telefonando para mim.

— Pode contar com isso. — Ela se calou por um instante, e então acrescentou:—Gerry, você vai telefonar mesmo para os seus amigos? Não está dizendo isso apenas para me animar?

— Vou telefonar. Prometo.

— Obrigada, Gerry. — A voz de Gina parecia mais calma. — Obrigada por me dar o benefício da dúvida. Sei que isso não é fácil, depois do que aconteceu na sexta—feira.

— Está tudo bem.

Depois que Gina desligou, Gerry permaneceu sentado, olhando para o telefone. Não queria parecer um idiota ligando para Bob Decker e perguntando se o presidente sofreria uma cirurgia plástica no dia seguinte. Ainda estava sofrendo as mazelas do caso Marsden. Seus colegas ainda estavam brincando com ele, perguntando—lhe se queria comprar a ponte de Brooklyn.

Procurou o número do ramal de Decker na Casa Branca e telefonou. Ele e Decker haviam—se tornado amigos alguns anos antes, quando um caso de extorsão acabara se revelando um caso de falsificação, e o FBI recorrera ao Serviço Secreto. De vez em quando encontravam—se para tomar uma bebida.

Ficou surpreso como se sentiu aliviado quando lhe disseram que Decker não estava. Gerry deixou seu número para Decker ligar para ele.

Decker telefonou logo depois de Gerry chegar à mesa. Depois dos cumprimentos preliminares, Gerry respirou fundo e foi em frente.

— Escute, Bob. Estou ligando porque ouvi um boato de que o presidente fará uma plástica amanhã. Tem alguma verdade nisso?

Decker limpou a garganta.

— Plástica? Amanhã? Essa é boa. Onde ouviu uma bobagem dessas?

— Da forma usual. Alguém disse que soube de um primo de segundo grau que escutou isso numa lavanderia. Se for verdade, acho que você gostaria de saber que a informação vazou.

— Obrigado, Gerry. É muita gentileza sua.

— E então?

— E então o quê?

— É verdade?

— O presidente está indo para Camp David amanhã de manhã para passar um fim de semana longo e eu vou com ele.—Ele riu. — Deus, ele vai ficar puto quando souber disso. Eu sei que ele não gostaria que as pessoas achassem que vai fazer uma plástica. Como essas histórias malucas começam?

— Com pessoas malucas — disse Gerry com tristeza.

— Bem, obrigado por lembrar de mim. Pode desconsiderar esse boato, mas não deixe de me contar se souber de outro.

— Eu conto. Que maravilha, pensou Gerry ao desligar. O presidente nem vai estar na cidade.

Pelo menos, segundo Bob Decker. Mas Decker poderia estar cobrindo o presidente. Se Decker tivesse sido instruído a não contar a ninguém, faria exatamente isso, mesmo se o FBI perguntasse.

Em quem acreditar? Até uma semana atrás, Gerry não teria dúvida. Mas depois do fiasco com Marsden...

Gerry acertou um soco na mesa, derramando um pouco de café da xícara à sua frente.

Merda, o que diria a Gina?

E onde ela estaria agora? Correndo pela cidade em seu carro? Ou debruçada sobre uma xícara de café no fundo de algum restaurante barato?

Precisava ajudá—la. E depressa.

Gina tomou um gole do cappudno enquanto vigiava a rua. Estava a meio quarteirão de seu apartamento, numa lanchonete marroquina na Columbia Road, sentada a uma mesa da qual se via a esquina oriental da Kalorama Road. Se Duncan ou uma ambulância chegasse, dobrariam aquela esquina.

Até agora, nenhuma ambulância ou mercedes preta. Mas Duncan era ardiloso. Provara isso na semana passada. Como poderia saber se ele viria em sua mercedes?

Em vez de ficar correndo sem destino pela cidade, Gina deixara o carro estacionado em frente ao prédio, caminhara até ali e se sentara para observar. Duncan realmente chamaria uma ambulância ou viria pessoalmente? Deus, como queria saber. A única coisa da qual tinha certeza agora era que precisava ficar o mais afastada possível de Duncan Lathram.

Olhou o relógio. Hora de ligar para Gerry. Mas uma coisa boa sobre essa pequena lanchonete era a localização do telefone: ao lado da porta da frente. Poderia telefonar e continuar vigiando a esquina.

Gerry pareceu cansado ao dizer alô.

— Ligou para o Serviço Secreto?

— Sim.

— E?

Seu suspiro veio carregado de tristeza.

— Disseram que o presidente não vai ser submetido a nenhuma cirurgia amanhã nem qualquer outro dia. Para dizer a verdade, amanhã ele vai para Camp David, onde passará um fim de semana prolongado.

— Para se recuperar da cirurgia!

— Gina, segundo o Serviço Secreto, não haverá cirurgia.

— Mas como...? — Oh, Deus, como ela não pensara nisso? — Gerry, claro que eles vão negar isso. Será tudo às pressas. O presidente não quer que ninguém saiba que ele vai fazer plástica.

— Já pensei nisso, Gina. Olhe, não pode continuar com isso. É uma médica. Não vê um padrão aqui? O presidente não vai ser submetido a nenhuma cirurgia, assim como não havia nenhum implante na perna do senador Marsden.

— Bem, há um na minha! Eu posso mostrar a você!

— Gina, você precisa de ajuda. — Agora a voz de Gerry transparecia dor.

— Deixe—me entrar em contato com uma pessoa que nos ajuda aqui no FBI.

Talvez ele possa...

Lágrimas de frustração correram dos olhos de Gina.

— Não estou paranóica, Gerry. Duncan fez um trabalho belíssimo manipulando eventos para me fazer parecer paranóica, mas eu não sou. E

tenho o implante na minha perna para provar.

— Gina—foi tudo que ele disse.

— Muito bem. Agora basta. — Estava com raiva. — Se não acredita em mim, vou mostrar. Vou até aí agora mesmo provar que há um implante na minha perna. Pode avisar à sua secretária que você está me esperando.

— Não acho que seja uma boa idéia, Gina.

— Talvez não, mas é a minha única opção agora. Então, Gerry, pronto ou não, lavou eu!

— Gina...

Desligou o telefone na cara de Gerry e permaneceu na lanchonete, tremendo de raiva e medo. E se não conseguisse fazer ninguém acreditar nela? Percebia agora que devia ter falado como unqa louca. Precisava permanecer calma e parecer racional. Não convenceria ninguém se continuasse se descontrolando.

Mas estou assustada, merda.

E pior do que o medo era a questão que começara a bater com insistência na porta dos fundos de sua consciência.

Se todo mundo pensa que você está louca, talvez não deva descartar a possibilidade deles estarem certos.

Sentindo—se profundamente infeliz, encostou—se na porta, pressionando a têmpora direita contra o vidro frio. A cafeína e umas duas pílulas de analgésico haviam ajudado, mas a cabeça ainda latejava. E as dúvidas apenas intensificavam a dor.

Estou sã?

Poderia toda essa história ser simplesmente a criação de um cérebro desgovernado? Um cérebro que começara a sintetizar neuroquímicos imperfeitos ou a produzir neuroquímicos certos nas proporções erradas?

Em seus anos como residente, quantos paranóicos conhecera que eram convencidos da veracidade de suas afirmações absurdas? Tinham ouvido com seus próprios ouvidos, visto com os próprios olhos. Se não pode confiar nos seus sentidos e na sua habilidade de interpretar as informações que recebe, em quem ou no que pode confiar?

Gina esfregou delicadamente a coxa. Talvez essa marca não passasse de um ferimento. E talvez a ressaca dessa manhã fosse o resultado do excesso de amarone e licor. E talvez Duncan não tivesse convidado Gina para assisti—lo na operação do presidente.

Deus, o que era real?

Bateu a palma da mão contra o telefone público.

Não! Não estava louca!

É isso que todos eles dizem...

Alguma coisa preta e lustrosa chamou—lhe a atenção. A mercedes de Duncan—ou um automóvel idêntico—estava passando pela rua. Entrou na Kalorama.

Abruptamente todas as dúvidas sumiram e a fadiga e a dor de cabeça foram esquecidas. Voltou curvada até a mesa, deixou alguns dólares sobre ela e retornou para a porta. O carro sumira de vista agora. Ela saiu da lanchonete. O ar frio e úmido revigorou—a. Uma gota de água bateu—lhe na testa. Olhou para cima. Nuvens baixas e densas pareciam afundar por força do próprio peso.

Rogou que ainda demorasse alguns minutos para chover.

Atravessou correndo a Columbia e correu até a Kalorama. Parou debaixo do toldo de um prédio residencial na esquina e esticou o pescoço para observar a rua. Dali podia ver seu prédio.

Alinhadíssimo em seu blazer azul e calças pretas, Duncan caminhava até a entrada.

Gina o observou entrar pela porta da frente. A não ser que alguém o deixasse entrar — o que era improvável, porque todos trabalhavam no prédio — ele passaria alguns minutos esperando que ela atendesse ao interfone. Assim que ele saísse, Gina entraria correndo no seu carro e seguiria direto até o prédio do FBI.

Ela esperou. O que Duncan estava fazendo lá? Por que não saía?

Então Gina olhou para o terceiro andar e engoliu em seco. Havia um homem em sua janela.

Duncan! Ele tinha uma chave. Devia ter feito uma cópia ontem à noite.

Claro. Ele faz Barbara acreditar que Gina está agindo de forma irracional, e em seguida vai correndo até o apartamento dela, supostamente para ver o que pode fazer. Ele a encontra e dissolve o implante em sua perna. Depois declara que a pobre menina estava sentada ali babando e falando palavras desconexas quando a encontrou.

Surpresa, Duncan!, pensou Gina, enquanto sentia os músculos retesarem—se. Gina não está aí. E ela não vai deixar você chegar perto o bastante para ser atingida com o ultra—som.

Começou a chover. Apenas um chuvisco, mas frio.

Fantástico. Que mais daria errado? Vestia apenas jeans e uma velha suéter da Tulane University, e não estava com guarda—chuva. Imagine se meu cabelo e minhas roupas ficarem molhados, pensou. O quanto estarei convincente se eu parecer um rato molhado ao falar com Gerry?

No apartamento vazio, Duncan olhou para a rua, a mão direita segurando o transdutor de ultra—som que trazia no bolso.

O que estou fazendo aqui?

Odiava isso. Arrependera—se de colocar o implante com a DTP em Gina quase no momento em que fizera isso. Mas tomar essa atitude era como colocar fogo numa ponte atrás de você: uma vez feito, não havia caminho de volta. Era vital prosseguir o plano e dissolver o implante.

Tudo parecia estar escapando ao controle. Não era para nada ter acontecido assim, mas agora não havia como parar. Duncan teria de prosseguir até chegar ao presidente. Depois disso, nada mais importaria.

Seu plano atual também estava desabando: previra que Gina tivesse aparecido no centro cirúrgico pela manhã. Eles teriam desempenhado suas rotinas usuais, e então, em algum momento, por volta da hora do almoço, Duncan teria atingido a perna de Gina com uma rajada de ultra—som e ido para casa. Duncan estaria a quilômetros de distância quando Gina começasse a exibir os primeiros sintomas. Talvez sofresse algumas alucinações visuais, talvez auditivas, ou ambas. Ficaria desnorteada, incoerente, poderia até mesmo começar a arrancar os cabelos e gritar. Ou poderia apenas entrar em estado catatônico e ficar enroscada em posição fetal e babando num canto da sala de registros.

Porque você não ficou fora disso, Gina?

Era terrível ter de apertar o gatilho contra ela. Mas de alguma forma Gina descobrira o que ele lhe fizera na noite anterior. Portanto, agora tinha de caçá—la. Aquele implante era uma espada de dois gumes. Sabendo que ele estava ali, Gina poderia usá—lo contra ele—se conseguisse fazer alguém acreditar nela. Duncan precisava alcançá—la antes de Gina remover o implante.

Onde ela estaria agora? Não poderia ter ido muito longe. O carro estava estacionado na rua abaixo. Talvez estivesse lá fora, observando—o, esperando para ver seu movimento seguinte.

Assentiu lentamente. Sim... isso seria bem dela. Deixá—lo pensar que ela saíra e então retornar ao seu apartamento e ponderar calmamente o que faria em seguida enquanto ele girava em círculos.

Muito bem. Ele faria um círculo. Em torno do quarteirão para ver se poderia vê—la.

Deus, como odiava isso. A idéia toda provocava—lhe náuseas Queria acabar logo com aquilo.

E depois precisaria encontrar uma maneira de viver consigo mesmo.

Gina observou Duncan correr até o carro.

Para onde vai, Duncan? Um pouco preocupado, talvez, agora que seu pássaro voou?

Observou—o afastar—se. Esperou até que ele virasse na 18th Street, e em seguida correu até seu Sunbird. Entrou nele e ligou o motor.

O chuvisco aumentou gradualmente para uma chuva forte, enquanto Gina atravessava a Kalorama, na mesma direção tomada por Duncan. Só que não o estava seguindo. Ele provavelmente estaria voltando para Chevy Chase; Gina estava indo para o centro da cidade.

Olhou nos dois sentidos da 18th Street, possivelmente a rua mais colorida da capital. Nenhum sinal de Duncan. Virou à direita e desceu correndo a Florida Street, onde dobrou novamente à direita. Isso a levou diretamente até um sinal vermelho na Connecticut Avenue.

Olhou novamente para um lado e para o outro, mas não viu sinal de Duncan na Connecticut. Permitiu —se relaxar um pouco. Precisava esquecer Duncan durante algum tempo e encontrar uma forma de convencer Gerry que ela...

Gina saltou do assento ao olhar pelo espelho retrovisor. Através da chuva e da janela traseira ligeiramente embaçada, viu uma mercedes preta parando a dois carros atrás dela. Olhou para o párabrisas da mercedes, mas a chuva impediu—a de enxergar o motorista.

Engoliu em seco. Não podia ver a placa. Aquele poderia ser Duncan...

poderia realmente ser Duncan.

Mas por que estaria seguindo—a? Tinha de ser para mais alguma coisa do que simplesmente saber para onde ela estava indo.

O que ele tinha em mente? Obrigá—la a sair da estrada? Dificilmente.

Estava certa que a última coisa que ele queria era servisto perto dela.

Então o que ele queria? O que ele esperava...

Ultra—som.

A mão gélida de alguém pareceu pousar nas costas do pescoço de Gina quando lembrou da loja de eletrônica que Duncan visitara. Será que ele tinha um dispositivo capaz de emitir um pulso ultra—sônico até o carro dela e dissolver o implante? Não conseguia imaginar como. Segundo o pouco que sabia de física acústica, isso não era possível. Mas vários eventos ligados a Duncan não pareciam possíveis. Talvez ele tivesse uma forma de...

Outra olhada no espelho retrovisor.

Como seria conveniente se começasse a ter alucinações enquanto estivesse dirigindo! O Honda diretamente atrás dela buzinou polidamente. Gina olhou para cima e viu que a luz estava verde. Viu também uma placa de PROIBIDO VIRARÁ ESQUERDA. Uma forma de descobrir se aquela mercedes a estava seguindo...

O Sunbird de Gina virou repentinamente à esquerda, entrando na Connecticut. Viu a expressão assustada do motorista de um fusca amarelo vindo em sua direção. O fusca parou e buzinou furiosamente, enquanto Gina passava por ele. Sentiu a traseira do Sunbird derrapar um pouco no asfalto úmido, mas os pneus da frente mantiveram a aderência, e segundos depois estava correndo rumo ao centro da cidade.

Uma nova olhada para trás não revelou nenhuma mercedes — não dava para ver praticamente nada através da chuva e do vidro embaçado. O tráfego atrás dela era uma massa de formas cinzentas e borradas. Duncan poderia estar em qualquer parte.

O Círculo Dupont estava bem à frente. Ali, onde o trânsito era mais lento, seria o local perfeito para Duncan surgir de uma rua adjacente e...

Gina começou a costurar através do tráfego. Precisava atravessar o Círculo Dupont. Fez alguns movimentos ousados, recebeu mais algumas buzinadas furiosas, mas momentos depois estava atravessando o círculo.

Ultrapassou um sinal amarelo e em seguida reduziu a velocidade para decidir que direção tomar.

Ao fazer a curva, checou novamente o vidro traseiro e as janelas laterais. Nenhuma mercedes avista.

Recostou—se no assento e respirou fundo. Talvez não fosse Duncan, afinal. Havia muitas mercedes grandes e pretas nessa cidade. Os diplomatas as adoravam.

Saiu do Círculo Dupont, pegando novamente a Connecticut.

Muito bem, estava a caminho. Sentiu uma pontada de tristeza ao perceber que se encontrava a alguns quarteirões do Galileo. Parecia muito mais tempo, mas apenas cerca de dez horas haviamse passado desde que estivera jantando com Duncan, sentindo—se livre e feliz.

Agora estava correndo por sua vida. Ou se não por sua vida, por sua sanidade.

Pôs de lado essa memória dolorosa e se concentrou no agora. O edifício do FBI não estava muito distante. Precisava se acalmar. Não podia parecer tão tensa quanto se sentia. Precisava ser convincente.

Precisava....

Em seu espelho lateral... saindo da passagem subterrânea sob o Círculo Dupont, tal um demônio negro emergindo das profundezas... uma mercedes preta. E dessa vez pôde ver que a placa era do tipo especial para médicos.

Duncan!

Duncan evitara o Círculo Dupont passando por baixo dele. Agora estava praticamente grudado em Gina.

O coração de Gina acelerou mais rápido que o motor de seu Sunbird quando a mercedes de Duncan começou a bater contra seu pára—choque. Gina acelerou o quanto pôde e procurou passar com seu pequeno Sunbird por aberturas que seriam impossíveis para a mercedes, especialmente naquele asfalto molhado. Avançou todos os sinais, atravessando os cruzamentos como uma bala.

Estava funcionando. Aos poucos Gina aumentou a distância entre eles.

Mas estava chegando ao final da Connecticut. Avistou o sinal de trânsito da K Street; estava verde agora. O tráfego estava fluindo. Bom. Mas para onde iria agora? Normalmente seguiria pela Seventefinth Street até a Pennsylvania, passando pela praça Farragut, mas Duncan estava apenas dois carros atrás dela. E o sinal logo à frente estava ficando amarelo.

Mais uma vez, pendurada sobre o cruzamento, havia uma placa de PROIBIDO VIRAR À ESQUERDA.

Não funcionara antes, mas talvez dessa vez...

Mas então o BMW à sua frente parou para o sinal.

— Ai, não! — gritou em voz alta. — Veado!

Em vez de reduzir a velocidade, Gina empinou o queixo, pisou fundo, e virou o volante todo para a direita, ultrapassando o BMW e seguindo direto até o cruzamento. Ali virou o volante para a esquerda, para pegar a K Street.

Gritou ao passar por uma poça e sentir os pneus começarem a escorregar no asfalto molhado. Pisou no freio mas a velocidade do carro não diminuiu. Estava completamente fora de seu controle. Viu o meio —fio e a calçada aproximando—se dela.

— Deus, não!

Gina se abraçou para se proteger do impacto quando o Sunbird se chocou com o meio—fio. A roda direita traseira quicou na calçada e o carro inclinou, ameaçando capotar. A cabeça de Gina bateu contra a janela lateral quando o carro voltou a ficar sobre quatro rodas. Balançou a cabeça para clarear os pensamentos. A janela estava inteira e o carro, graças a Deus, parara sem atropelar ninguém.

Gina queria chorar, queria vomitar, mas não tinha tempo para isso. Afora um ferimento superficial na cabeça, sentia—se bem. Seu cinto de segurança a impedira de ser jogada para um lado e para o outro dentro do carro. Buzinas soavam ao redor dela, pedestres assustados olhavam—na, apontando dedos ou balançando punhos na sua direção.

E seu motor desligara. Deu novamente a partida e tentou voltar para o tráfego, mas as rodas estavam travadas. Não conseguiu girar o volante.

Gina saiu e correu até o outro lado do carro e engoliu em seco ao ver a roda da frente. O pneu tinha sido empurrado para fora do aro e a roda emperrara, estava enfiada debaixo do carro. Não sabia se isso significava um eixo quebrado ou o quê, mas tinha certeza de que seu pequeno Sunbird não iria a mais lugar algum sem que ela gastasse um bom dinheiro em reparos.

Gina estava no começo da praça Farragut, um quarteirão de grama, arbustos e bancos de praça com uma estátua do almirante Farragut no centro. Uma área aberta. Sentiu—se exposta. Olhou em torno e viu a mercedes de Duncan parar na calçada do outro lado da Seventeenth Street.

Soltando um pequeno grito, Gina se virou e correu para o centro da praça Farragut. Seus tênis derrapavam na grama molhada enquanto corria. Gina encontrou uma trilha pavimentada e retardou o passo o suficiente para olhar para trás. Nenhum sinal do carro de Duncan na calçada. Bom. Isso significava que ele não a estava seguindo a pé. Mas onde ele estava? Ela se sentiria melhor se soubesse. Mas não conhecia o alcance efetivo do aparelho portátil de ultra—som de Duncan.

A sua frente e à direita, em frente à Eye Street, Gina viu uma placa do metrô. Imediatamente sentiu— se animada. A Orange Line a deixaria a alguns quarteirões do prédio do FBI. Apressou o passo e atravessou o gramado na direção da entrada. Estava a menos de trinta metros quando uma mercedes preta parou e Duncan saltou dela.

— Não!

Ele parou diante da escada do metrô, e olhou em torno. Ao vê—la, começou a caminhar na direção de Gina com passos determinados. Gina deu meia—volta e começou a correr na direção da esquina da K com a Seventeenth. Um olhar sobre o ombro revelou que Duncan tinha mudado de idéia quanto a segui— la a pé. Estava voltando para o carro.

Gina desistiu de chegar até a K Tinha de sair da rua. Ali era alvo fácil. Avistou uma drugstore e entrou. Um esconderijo razoável. Amplo e cheio de outras pessoas abrigando—se da chuva.

Caminhou até a parede lateral onde estavam expostos os artigos de manicure. Fingiu estar comprando, mas o tempo inteiro os olhos estavam fixados nas portas da frente. Aos poucos, moveu—se na direção do fundo da loja, parando perto do balcão de artigos farmacêuticos. Ao ver Duncan, com seu guarda—chuva aberto, passar pelas janelas da frente, Gina se agachou atrás de um display de camisinhas. Ficou parada ali, com o nariz enfiado entre as caixinhas coloridas. Qualquer um que a visse imaginaria que tinha um programa e tanto planejado para a noite.

Quando achou que esperara tempo suficiente, levantou—se e começou a caminhar pelo corredor, na direção da fachada da loja. No meio do caminho, viu Duncan novamente na calçada. Só que dessa vez ele não passou pela loja: Duncan empurrou a porta e entrou.

Gina se agachou. Ficou amarrando e desamarrando o cadarço do tênis, para disfarçar, caso alguém estivesse observando. Olhou para trás. Ninguém parecia prestar atenção nela. Empertigou—se um pouco e olhou em volta. O coração disparou quando ela viu Duncan caminhando na sua direção, a cabeça movendo—se como um radar, enquanto ele passava pelos corredores.

Agachou—se perto do mostruário de doces para o Dia das Bruxas, tentando freneticamente pensar num plano. Podia correr — levantar—se e disparar para as portas e a rua, mas desse jeito se revelaria a Duncan. Ele não tinha certeza de onde Gina estava agora—podia nem mesmo saber que estava na loja. Se corresse, ele a veria. E pior, se saísse correndo a toda velocidade, os seguranças da loja poderiam segui —la. Se fosse detida, tudo que Duncan teria de fazer seria passar casualmente ao seu lado, disparar um pulso ultra—sônico e Gina seria a nova colega do senador Vincent na ala psiquiátrica.

Olhou para cima e reparou num dos espelhos convexos antifurto. Nele, Gina viu um homem bem vestido, segurando um guardachuva dobrado. Era Duncan, andando pelo corredor vizinho. A não mais de um metro de distância.

Cabeça baixa, Gina correu na direção oposta e parou em frente ao balcão de mostruário que dividia os dois corredores. Olhou novamente para o espelho. Duncan estava chegando ao fim do outro corredor, preparando—se para entrar no de Gina. Ela deu a volta e entrou no corredor do qual ele acabara de sair, caminhou por uns três metros e meio e cruzou os braços, mal respirando, enquanto fingia comparar os preços das várias larguras e comprimentos de esparadrapo e fita adesiva.

Não ousou olhar para o espelho novamente. Ainda não. Se conseguira ver Duncan nele, ele poderia facilmente vê—la. Finalmente recuou e espiou, cautelosa, por trás de um display de esparadrapos. Levou um momento para localizá—lo. Agora estava perto da frente da loja. Atravessando a porta.

Saindo.

Mas não estava deixando a área. Ficaria ali, caminhando de um lado para outro e vigiando a entrada do metrô e as ruas próximas. Sabia que ela estava em algum lugar ali, e não iria embora. Tentar passar por ele seria perigoso demais, especialmente à luz do dia. Precisava de um lugar para se esconder até escurecer.

Gina cerrou os punhos em frustração. Sentia—se tão vulnerável com esta... esta coisa na perna. Queria livrar—se dela para poder caminhar até Duncan e empinar o nariz ao passar por ele. Se ao menos...

Olhou para a fita e os esparadrapos que estava segurando.

E tomou uma decisão.

Onde diabos ela está?

Duncan abriu o guarda—chuva e olhou para os dois sentidos da K Street, enquanto a chuva ficava mais intensa. O clima combinava com seu estado de espírito.

A situação não estava nada boa.

Tentou ver o lado bom: pelo menos o aguaceiro estava mantendo as pessoas em suas casas. Aquilo tornaria ainda mais óbvia qualquer pessoa que estivesse andando pela rua. Gina seria mais fácil de ser vista se resolvesse sair da praça correndo. Obviamente, estava escondida em uma das lojas desse lado da rua. Não tivera tempo de cruzar até o outro lado antes dele chegar.

Estava ali. Desse lado. E tinha de sair em algum momento.

Mas e se o seu amigo do FBI estivesse a caminho para encontrála aqui e agora?

Isso poderia significar um problema. Mas não um problema intransponível.

Tudo que tinha a fazer seria aproximar—se de Gina, pressionar um botão no transdutor e a DTP entraria na corrente sangüínea dela.

Mas se tratava de uma situação arriscada. Era muito melhor encontrá—la antes que a cavalaria chegasse, se a cavalaria chegasse.

Duncan suspirou. Teria de vasculhar essas lojas uma a uma. A maioria delas era pequena. Não demoraria muito.

Reparou num Burger King no fim do quarteirão. Um esconderijo perfeito.

Ela poderia sentar—se no fundo e ficar bebendo um refrigerante e ninguém a expulsaria. Começaria por lá.

Segurando firme a sacola com as compras, Gina olhou pela janela e checou o melhor que pôde a rua e a calçada. Duncan não estava onde pudesse ser visto. Mas isso não significava que não se encontrasse em algum lugar lá fora, vigiando.

Seus joelhos tremiam. As mãos enrolavam e desenrolavam a sacola plástica. Não queria sair. Queria ficar ali onde estava seca e segura, onde Duncan já havia procurado e provavelmente não olharia de novo. Pelo menos por algum tempo.

Mas não poderia ficar ali. Não havia como arrastar—se até um buraco e jogar terra por cima da cabeça. Teria de pensar numa forma de sair dessa situação. Não podia ficar ali como um pato à espera de ser abatido.

Olhando para o outro lado da rua, Gina pôde ver um banco, uma loja de fotocópias e uma marquise suja na qual se lia The TYemont. Aquele pequeno e velho hotel era uma parte da solução. Os conteúdos da bolsa de papel, outra. O restante cabia a ela.

Observou o tráfego lá fora, esperando que ele parasse por um instante...

O tráfego finalmente parou. Cerrando os dentes, saiu correndo da drugstore, atravessando a rua e seguindo direto até a entrada do The Tremont.

Depois de passar pela porta giratória, virou—se e olhou para a K Street.

Nenhum sinal de um homem de blazer azul e guardachuva vindo correndo para interceptá—la. Mas isso não significava que ele não chegaria logo.

Enquanto caminhava apressada até a recepção, observou a glória decadente do hotel. Os metais precisavam de polimento, os espelhos estavam manchados e o tapete aparentava sua idade. Mas ainda havia dignidade na mobília talhada à mão e no papel de parede verde—escuro. Um velho estabelecimento independente que se recusava a ceder à era das cadeias internacionais de hotéis.

— Quero um quarto de solteiro, por favor — disse à jovem negra atrás do balcão. — Só para esta noite.

— Claro — respondeu a mulher, colocando um formulário sobre o balcão. — Por favor, preencha isto.

Gina hesitou um instante. Não queria colocar seu próprio nome, mas quanto tinha em dinheiro? Trinta dólares? Talvez quarenta? Isso não chegava nem perto da diária de um quarto no coração da capital. E se iria usar dinheiro em vez do cartão de crédito, o hotel pediria que pagasse pelo menos uma noite adiantada.

Relutante, escreveu "Gina Panzella" e entregou o cartão de crédito junto com o formulário de registro.

— Alguma bagagem?

— Vou receber algumas mais tarde.

Estava tentada a inventar de onde suas malas viriam e a contar uma história para justificar por que estava sem elas, mas decidiu ficar calada. Essa mulher não estava se importando com isso, e se Gina falasse demais poderia dar a entender que estava escondendo alguma coisa. Era inexperiente na arte, mas achava que as mentiras, assim como os relatórios médicos e as tabulações de pesquisa, funcionavam melhor quando a regra da simplicidade era observada.

Cinco minutos depois Gina estava num quarto estreito no último andar com uma cama de casal e uma vista para um beco.

Perfeito.

Fechou a porta à chave, deixou—se cair na cadeira em frente a uma mesa de trabalho e fechou os olhos. Tão bom sentir—se segura! Temporariamente segura. Pelo menos ali dentro não precisava se preocupar em fugir de Duncan.

Gina olhou para o telefone e pensou em ligar para Gerry, e dizer—lhe que ela chegaria atrasada. Talvez devesse lhe dizer por quê: devido à sua insistência em apresentar provas objetivas.

Bem, ia dar—lhe sua maldita prova objetiva.

Era melhor não telefonar para Gerry. Ele apenas tentaria detê—la.

Fechou os olhos de novo. Por que simplesmente não podia ficar ali?

Hibernar por uma semana ou um mês. Pedir serviço de quarto e ficar assistindo a filmes o dia inteiro na TV a cabo. Qualquer coisa, menos sair novamente e escapar de Duncan para poder provar a Gerry que não estava louca.

Sua vida parecia agora um caso perdido. Por que não simplesmente...

Levantou—se da cadeira. Nada disso. Precisava agir. E tinha de ser agora. Precisava acionar o piloto automático. Não poderia pensar sobre o que estava exigindo de si mesma. Tinha de lutar contra a náusea, a repulsa e o medo. Tinha de manter o impulso. Se parasse para pensar, poderia não ser capaz de levar seu plano até o fim. E quanto mais tempo esperasse, maiores seriam as chances de Duncan descobri—la ali.

Pegou o balde de gelo e atravessou o corredor até a sala, onde rapidamente encheu—o com cubos. Voltou ao quarto, trancou novamente a porta, puxou as cortinas e ligou a TV Apertou o botão de canais no controle remoto até encontrar wmgame show barulhento, e aumentou o volume. Não alto demais, mas o suficiente para mascarar qualquer ruído incidental. Foi até o termostato e o colocou em 24 graus.

Ligou a luz do banheiro. Claro, limpo, com azulejos brancos, banheira e balcão de mármore. Verificou se o ralo estava aberto e em seguida abriu a água da banheira. Enquanto esperava a temperatura ficar confortavelmente quente, esvaziou o conteúdo da bolsa da drugstore no balcão de mármore. Tirou uma sacola menor de dentro da maior. Abriu o frasco de analgésico extraforte e tomou quatro pílulas com um copo de água. Em seguida, abriu o frasco de pastilhas de um anti—ácido. Teria preferido um tubo de ensaio, mas esse frasco serviria. Jogou as pastilhas na privada. Em seguida começou a dispor o restante das compras. O unguento de bacitracina, as gazes, o esparadrapo, a fita adesiva e o peróxido de hidrogênio foram para o fundo do balcão; na frente deles dispôs o frasco sem as pastilhas e o pequeno estojo de costura; ao longo da borda, alinhou a bolsa com bolas de algodão, as pinças, a garrafa de álcool isopropílico, o isqueiro e o pacote de navalhas de barba.

O último objeto era uma bolsa térmica. Encheu—a com os cubos de gelo e colocou—a na borda da banheira. Desabotoou a calça, tiroua e pendurou—a no toalheiro. A pele estava um pouco avermelhada na altura das coxas e sob o elástico da calcinha.

Embebeu uma das bolas de algodão com o álcool e em seguida começou a esfregá—la na coxa, firme mas não muito vigorosamente, na área do ferimento. Não queria romper nada embaixo da pele. Em seguida, derramou álcool sobre a superfície de contato da bolsa térmica e pressionou—a sobre o ferimento. Isso causoulhe mais vermelhidão na pele.

Olhou para cima. O banheiro não tinha nenhuma lâmpada direcional. Pena.

Isso ajudaria.

Segurando a bolsa de gelo entre a coxa e o balcão de mármore, pegou a caixa preta e amarela de navalhas de barba. "LÂMINAS SMITH", dizia a tampa. No lado: "Adequadas para todos os tipos de barbeadores. Para uso superficial."

Aquilo a fez sorrir. Uso superficial? Hoje não.

Pegou uma das lâminas na caixa, segurou—a com a pinça e em seguida a expôs à chama do isqueiro até o metal ficar vermelho. Em seguida, deixou—a esfriar no topo do balcão de mármore. Tirou a suéter e jogou—a na direção da calça jeans.

Agora uma lâmpada direcional seria realmente útil.

Ainda mantendo a bolsa de gelo pressionada contra a coxa, Gina sentou—se na ponta da banheira com os pés na água morna que saía da torneira. Mais dez minutos e a área resfriada na coxa estava entorpecida. Esfregou a área novamente com álcool, e em seguida derramou um pouco sobre as mãos.

Pegou a lâmina.

E começou a tremer.

Não posso fazer isso.

Mas outra parte dela disse que poderia. Disse—lhe que precisava. Tinha de fazer agora, antes que o efeito entorpecedor do gelo cessasse.

Mas a primeira parte de seu cérebro gritou. Espere!

E se toda essa situação fosse outro dos esquemas maquiavélicos de Duncan? Ele já havia abalado a credibilidade de Gina e feito Gerry parecer um idiota. E se ele estivesse planejando acabar de vez com sua credibilidade? E se tudo isto fosse a dose de reforço? E se ele colocou uma droga no café, roubou as chaves e invadiu o apartamento dela apenas para, enquanto estava inconsciente, espetála com um trocarte vazio? Quem esperaria que ele fizesse o mesmo truque duas vezes?

Nesse caso, ele estaria contando que ela fosse correndo até Gerry, afirmando que o grande e mau Duncan injetara um implante cheio de droga na perna dela. E quando, ou se, ela finalmente convencesse Gerry a checar a perna, eles receberiam outro resultado negativo do exame de ressonância magnética.

E tudo que ela dissesse depois disso seria considerado delírio de uma mente enlouquecida.

De qualquer modo, não podia ir a Gerry com as mãos vazias — ou, neste caso, com as pernas vazias. E além disso, tinha de saber.

Se ao menos dispusesse de uma seringa e de um pouco de anestesia.

Lidocaína! Lidocaína! Meu reino por um pouco de lidocaína!

Mas não havia lidocaína. Apenas gelo.

Gina pegou uma toalha de rosto que estava sobre o balcão e enfiou—a entre os dentes. Em seguida usou a mão esquerda para esticar a pele sobre o ferimento enquanto segurava a lâmina com a direita.

Não muito profundo, disse a si mesma. Não vá cortar o implante.

Respirou fundo e, com um movimento rápido, investiu o lado cortante da lâmina contra a pele, a um centímetro e meio do ponto focal do ferimento, e em seguida puxou—a em sua direção.

Gina dobrou o tronco, o grito abafado pela toalha em seus dentes.

Tremendo de dor, segurou com a mão livre a barra de segurança e pressionou o rosto contra os joelhos. Os olhos encheram—se de lágrimas e a pele foi coberta por um suor frio.

E então, depois de uma pequena eternidade, a dor deixou de aumentar. Os músculos de Gina relaxaram — ligeiramente. Empertigou—se, cuspiu a toalha e começou a arfar. Quando recuperara o fôlego, inclinou—se para olhar o ferimento.

O ferimento de cinco centímetros na coxa estava sangrando. Espessas gotas de sangue espalhavam— se sobre os azulejos impecavelmente brancos e tingiam de vermelho a água da banheira. Gina se sentiu tonta. Por um instante achou que tropeçaria para trás, mas conseguiu manter—se equilibrada até o banheiro parar de girar ao seu redor.

Permitiu—se um sorriso. Considerava—se acostumada a ver sangue. Mas ver o sangue dos outros não era o mesmo que ver o próprio.

Tocou a borda do ferimento e puxou a mão de volta. Estranhamente macio.

Aquelas pontas cortadas de nervos estavam gritando. Foi então que ela percebeu que realmente teria sido maravilhoso usar um pouco de anestesia.

Colocou a toalha novamente entre os dentes e voltou a tocar as bordas separadas do ferimento. Devido ao sangue, a gordura subcutânea estava vermelha, e não amarela, como era natural. Delicadamente, Gina sondou a gordura com o mindinho. Era uma sensação estranha, curiosa e ligeiramente nauseante, mexer entre suas próprias células adiposas.

Estava doendo, mas não era a dor que a estava deixando nauseada. Nunca havia tocado gordura humana com as mãos nuas. Era como mexer com tapioca amanteigada.

A dor aumentou, enquanto Gina enfiava o dedo mais fundo, procurando por uma abertura, uma depressão, um canal, qualquer pista do curso seguido pelo trocarte.

Repentinamente, a ponta do dedo afundou um pouco mais na área da gordura. Ela estremeceu. Poderia ser? Sondou mais fundo, mas gentilmente, sentindo a gordura abrir passagem para seu dedo. Sim, alguma coisa seguira este caminho antes dela. E recentemente. E então Gina tocou com a ponta do dedo em alguma coisa macia, porém mais firme e lisa que gordura.

Gina não sabia se ficava aliviada ou aterrorizada. Pelo menos não imaginara tudo isso. Havia mesmo um implante em sua perna, e apenas um homem poderia tê—lo implantado ali.

E o implante teria de sair. Agora. E tinha de removê—lo sem parti—lo. Se o rompesse, ou mesmo se causasse um pequeno vazamento, estaria poupando trabalho a Duncan.

Mordendo atoalha, enfiou o dedo mais fundo na gordura. Tentou não pensar na dor enquanto contornava o implante, precisava pegálo por trás.

Gentilmente... gentilmente...

Gerry bateu o telefone no meio das instruções de Gina para deixar uma mensagem depois do sinal. Já deixara duas na secretária.

Onde está ela?

Olhou novamente para o relógio. Para que, não sabia. Apenas meio minuto se passara desde a última vez que vira as horas.

Esticou o pescoço para aliviar a tensão crescente no ombro. Gina já devia estar ali a essa altura. As visões de Gina, tonta e confusa, perambulando pela capital, voltaram à sua mente. Ou pior ainda, agachada atrás de uma lata de lixo em algum beco, escondida de inimigos imaginários.

Merda. Não conseguia se concentrar em nada. Só podia pensar em Gina. A forma como ela falara ao telefone... como se seu mundo estivesse chegando ao fim.

Havia apenas uma coisa a ser feita. Sair e procurar por ela.

Gerry pegou as chaves do carro e ligou para a telefonista. Deixou instruções para se uma Gina Panzella ou uma Dra. Panzella telefonasse, ou qualquer pessoa ligasse com alguma notícia sobre ela, ou se ela aparecesse em pessoa, que a passassem para o telefone de seu carro.

Pensando na possibilidade de Gina estar escondida no apartamento dela, com medo de atender ao telefone e recusando—se a abrir a porta, levou o Electropick. Só para uma eventualidade.

Pegou o carro no estacionamento subterrâneo do FBI e tomou a Pennsylvania na direção da Casa Branca, tentando seguir a rota mais lógica para Gina se ela estivesse vindo agora de Adams Morgan. Teria de vir pela Connecticut, mas depois disso, era pura especulação.

Ao atravessar a K Street, viu alguns tiras parados diante de um carro de polícia na borda da praça Farragut. Estavam observando um gari varrer vidro quebrado do chão. Gerry mostrou a identificação do FBI e perguntou o que havia acontecido. O mais velho dos dois, um gordo de bigode, inclinou—se sobre a janela do carro de Gerry. Seu hálito fedia a café velho.

— Um acidente com um carro só. Ninguém se machucou. O motorista derrapou e saiu da rua.

Como estava decidido a não ignorar nenhuma possibilidade, Gerry perguntou:

— Sabem a causa do acidente? O tira deu com os ombros.

— Não. O carro havia sido rebocado quando chegamos aqui. Mas eles estão verificando a placa. Pode ser alguém que você esteja procurando?

— Dificilmente. Só perguntei por curiosidade.

Ao se afastar da praça, Gerry fez uma anotação mental do local. Se não conseguisse encontrar Gina, mais tarde procuraria a polícia local para checar o registro do carro.

Virou na Connecticut. Talvez o melhor lugar para começar a procurar Gina fosse o apartamento dela.

Tossindo e tremendo, Gina se encostou contra a parede atrás da banheira.

Com a dor diminuindo de excruciante para meramente brutal, abriu a mão e olhou para o pequeno cilindro pousado na palma.

Achei!

Estava segura. Mesmo se Duncan banhasse o hotel inteiro com ultra—som, não conseguiria fazer— lhe mal. Mas ainda não conseguira sair da floresta. Estava com um corte amplo e profundo na perna. Precisava fechá—lo.

Mas primeiro: salvar a prova.

Inclinou—se sobre o balcão e pegou o frasco sem as pastilhas. Usando a tampa, desgrudou cuidadosamente o implante pegajoso da palma da mão. Ela já aprendera da pior maneira o quanto essas coisinhas ficavam mais frágeis depois de implantadas. O implante deslizou morosamente pelo interior do frasco, como uma espécie de lesma vermelha, e finalmente pousou no fundo. Gina tampou—o e voltou a atenção para a incisão na perna.

_ O sangramento diminuíra de forma considerável. O sangue que começava a coagular em torno do ferimento era espesso, parecia um xarope. Pegou o conjunto de costura e começou a enfiar uma linha na agulha. O tremor da adrenalina causada pela dor e pelo estresse fizeram—na errar nas primeiras tentativas. Estava começando a temer jamais conseguir costurar, mas finalmente enfiou a linha através do buraco da agulha.

Pensou em esterilizar a agulha com o isqueiro, mas descartou a idéia.

Não poderia esterilizar o fio daquela maneira, e o ferimento já se achava terrivelmente contaminado. Estava protegida contra tétano, mas precisaria de um antibiótico — uma cefalosporina de espectro amplo, de preferência—para combater a inevitável infecção que se seguiria a esse pequeno procedimento cirúrgico sem assepsia.

Para desencargo de consciência, esquentou a agulha e embebeu o fio com peróxido de hidrogênio. Colocou a agulha ao lado e mordeu novamente a toalha. Em seguida limpou o sangue coagulado do ferimento, derramou o peróxido diretamente sobre ele. A toalha em sua boca impediu—a de gritar de dor. Um pus rosado saiu da abertura do ferimento. Gina estava sentindo uma dor agudíssima, como se tivesse enfurecido abelhas aprisionadas dentro de sua coxa.

Quando isso passou, Gina enxugou o suor e as lágrimas dos olhos, pressionou as bordas do ferimento uma contra a outra, e iniciou a sutura. Começou a costurar de cima para baixo, considerando que seria mais fácil trabalhar assim.

Estremeceu ao forçar a agulha através da pele. Era doloroso, mas nada comparado ao que já havia passado. A agulha era bastante afiada, mas fora planejada para tecido, não para a dureza da pele humana. E era reta, o que tornava o trabalho bem mais difícil. Esqueça a lidocaína, pensou. Agora eu me contentaria com um hemóstato e uma agulha curva.

Algumas suturas subcutâneas e um reparo vertical teriam sido ideais, mas isso estava fora de questão sem linha cirúrgica e uma agulha curva.

Teria de se contentar com uma costura simples.

Amarrou a primeira sutura com cuidado, com medo de puxar forte demais e romper o fio. Comprara o mais grosso que havia na loja, mas mesmo assim isso não era feito de seda ou náilon, apenas fio de costura. Se queria que este reparo agüentasse, teria de fazer suturas bem próximas, com um intervalo mínimo de distância uma da outra.

Terminou o primeiro nó e cortou as extremidades livres com as pequenas tesouras do estojo de costura. Pronto. Terminara uma sutura. Faltavam quatorze ou quinze.

Meia hora depois, Gina finalmente terminara. Limpou o sangue da pele com peróxido e examinou seu trabalho. Dezesseis suturas alinhadas. Enxugou o ferimento, passou um pouco de unguento sobre ele, e em seguida cobriu—o com gaze. Segurou—a no lugar com alguns pedaços de fita adesiva, e em seguida fez uma bandagem de pressão enrolando a coxa com o esparadrapo largo. Por fim, tirou as pernas da banheira e se levantou.

Quase caiu quando pontos pretos explodiram em sua visão e um rugido de motor diesel encheu—lhe a cabeça Apoiou—se no balcão até o banheiro parar de girar à sua volta.

Pressionou a testa contra o mármore frio e reuniu todas as suas forças.

Fraca. Ela tinha previsto que depois estaria fraca, mas não tanto. Pegou a sacolinha menor que trouxera da drugstore e tirou um pacote de barras de chocolate. A boa e velha Pizza Panzella sempre sofria de ataques de chocolate em momentos de estresse, e não conseguira resistir a todos aqueles doces do Dia das Bruxas. Sentia—se satisfeita por ter cedido a Pizza. Precisava de algumas calorias extras para se recuperar e de um pouco de glicose para obter energia. Outra coisa que sabia que precisava era de fluidos. Depois de comer três barras de chocolate, encheu o copo com água fria da pia e bebeu. Tomou mais quatro analgésicos com um segundo copo de água.

Sentiu—se um pouco melhor, mas ainda não estava pronta para a estrada.

Esforçou—se para ficar reta e, mantendo a mão na parede para se apoiar, caminhou até a cama. Desligou a TV ao passar por ela. Deitou—se e se acomodou entre as cobertas frias. Estremeceu. Estava precisando mesmo de algum repouso. Sentia—se segura agora. Apenas um cochilo por uma hora ou duas, e então telefonaria para Gerry. Tinha o implante. Ela agora tinha provas físicas. Gerry teria de acreditar. Todos teriam de acreditar.

Depois de algum sono...