Implante
* 18
GINA
Sexta—feira Gina estava de volta ao consultório de Lathram. Passou a maior parte da manhã assistindo Duncan em uma ritidectomia composta particularmente complicada, na qual todos os tecidos faciais encobertos são esticados como uma só peça. Normalmente, depois de uma operação tão longa, os tecidos faciais levam de cinco a seis semanas para desinchar.
Mas com a ajuda dos implantes de Oliver, esse distinto senhor de 62 anos voltaria às rodas sociais de Washington bem antes desse prazo.
Duncan estivera animado durante a cirurgia, cantarolando e fazendo piadas.
— Hoje não haverá sermões sobre o estado lastimável da nação, senhoras — dissera ele, em tom de desculpas. Ninguém reclamara.
Mais tarde Gina entrou no laboratório de Oliver com uma xícara de café, para matar um pouco de tempo antes de iniciar seus exames pré—cirúrgicos para os casos da semana seguinte. Reparou que Oliver estava com uma bandeja de implantes maiores sobre o balcão. A seringa vazia e a garrafa de uma solução salina normal colocada ao lado da bandeja explicava por que os implantes pareciam cheios.
Ela se inclinou sobre a bandeja para olhar melhor. Seriam os modelos novos mencionados por Oliver? Eram iguaizinhos ao modelo antigo.
— Olá, Gina.
Gina olhou para cima. Oliver estava passando pela porta, empurrando um carrinho.
— O que é isso aí?
— Uma unidade de ultra—som.
Gina olhou mais de perto. Não era do tipo usado para diagnósticos em casos de gravidez. Esse tipo era destinado a tecidos subcutâneos profundos. Em termos de potência havia muita diferença: enquanto a do outro era medida em megahertz, a deste aqui era em watts.
— Está pensando em iniciar uma carreira paralela como fisioterapeuta?
Ele riu.
— Não. Apenas testando a última fornada de implantes.
Gina ficou confusa.
— Com ultra—som?
— Claro. Apenas me dê um segundo para arrumar tudo que mostro a você. — Colocou o aparelho no balcão, ligou—o, ajustou alguns botões e em seguida segurou o cabo. — Preste atenção.
Oliver separou o implante do fim da fila, colocando—o no balcão a uns dois metros de distância da bandeja. Posicionou o cabeçote do ultra—som sobre o implante e pressionou o botão do cabo. O implante logo começou a tremer; um instante depois ele estava dissolvido, tendo deixado uma poça no balcão.
Oliver colocou outro implante na poça e recuou o cabeçote do ultra—som.
O implante dissolveu—se, e a poça de solução salina aumentou.
Refez isso várias vezes. Cada vez recuava mais o ultra—som, e cada vez aumentava a poça. Finalmente a solução salina alcançou a borda do balcão e começou a escorrer.
Gina observou, espantada.
— É incrível.
Caminhou até o balcão para olhar melhor. Apenas alguns fragmentos minúsculos de membranas de implantes permaneciam flutuando na poça.
— Como funciona?
— Alterei a matriz de proteínas cristalizadas — disse Oliver, enquanto desligava a unidade de ultra —som.—Tbrnei—a mais estável e resistente às enzimas dos tecidos corporais, mas fiz com que os cristais vibrassem e se dissolvessem ao ser atingidos por determinada freqüência de ultra—som. O resultado é que a membrana—implante se desfaz, liberando seu conteúdo.
— Brilhante.
— Na verdade, foi idéia de Duncan.
Em algum lugar no fundo da mente de Gina, um alarme soou uma nota aguda.
— De Duncan?
— Sim. Ele quer ter mais controle sobre o momento em que os implantes se dissolverão. Como ele diz, por que deixar a decisão a cargo das enzimas cutâneas e dos caprichos do sistema circulatório? Vamos desenvolver implantes que esvaziem quando desejarmos.
Gina lembrou o que dissera a Gerry depois da audiência da Comissão de Diretrizes, no começo da semana. E essa toxina miraculosa não apenas seria capaz de fazer tantas coisas diferentes, mas Duncan precisaria de uma espécie de controle que lhe permita determinar quando ela surtirá efeito.
Naquele momento isso soara absurdo, mas os meios para esses fins agora se achavam bem à sua frente.
— E... Duncan já está usando esses implantes?
— Ainda não. A FDA deu—nos sua aprovação para testes clínicos apenas com os implantes originais.—Ele abriu um sorriso. — A Receita Original, por assim dizer. Teremos de passar mais uma vez por todo o processo de aprovação para a membrana nova.
— Ah. Então essas são o último modelo.
Que alívio. Duncan não poderia ter usado os novos implantes se ainda não existiam na época da cirurgia. Mas o alívio durou pouco.
— Na verdade, não. Venho trabalhando nessas há quase um ano. E ainda não estão aperfeiçoadas.
Gina engoliu em seco.
— Para mim, estão funcionando perfeitamente.
— Mas ainda não tão bem para Duncan. Ele quer uma membrana mais estável, uma que durará quase indefinidamente até ser atingida pela freqüência certa de ultra—som.
— Você vê algum propósito clínico nisso? Oliver balançou a cabeça.
— Não. Mas o médico não sou eu, e sim Duncan. Ele sabe o que quer.
Gina ajudou Oliver a enxugar a solução salina com toalhas de papel, mas o tempo todo seus pensamentos ficaram girando em círculos loucos. Ela tentou contê—los, impedi—los de continuar fluindo. Tinha de tentar uma abordagem lógica, como se estivesse fazendo um diagnóstico complicado.
Delinear primeiro os fatos e depois encontrar as conclusões.
Muito bem: Duncan tinha os meios para implantar algum tipo de toxina dentro dos pacientes e liberá —la quando quisesse.
Não, quando quisesse, não. Ele precisava atingi—la com som de uma freqüência extremamente elevada. Para ser o responsável pelo que acontecera ao senador Vincent, Duncan teria de ter entrado na sala de audiências empurrando uma máquina de ultra—som e tê—la apontado para o senador.
Ridículo.
Ainda assim, a demonstração do ultra—som deixara Gina intrigada.
Ela foi procurar Duncan. Esquecera de perguntar a ele se poderia fazer algumas horas extras até que as audiências recomeçassem. E precisava conversar com ele para se tranqüilizar.
— Ele já saiu—disse Barbara a Gina quando ela bateu à porta do consultório de Duncan.
— Com o misterioso Dr. V, suponho?
— Não. O Dr. V já não aparece há algum tempo. O Dr. D. disse que estava indo para o campo de golfe.
— Droga. Queria falar com Duncan antes dele sair.
— Ele não vai demorar muito. Posso tentar ligar para o telefone do carro dele.
Barbara digitou alguns números, esperou um pouco e desligou.
— Ninguém atende. Posso mandar uma mensagem para o pager dele.
— É melhor não. Não quero que ele saia do campo de golfe apenas para falar comigo. Não é tão importante assim. Qual é o número do clube?
Talvez ele ainda esteja na sede.
— Quer que eu ligue para você?
— Não. obrigada. Eu mesma ligo.
Barbara procurou o número e o anotou no papel.
Gina usou o telefone da sala de registros. Primeiro tentou o restaurante do clube, mas ele não estava lá. Em seguida, tentou o setor de esportes. Talvez conseguisse pegá—lo antes do início da partida.
— Dr. Lathram? — perguntou o caddil chefe. — Ele não reservou o campo.
— Talvez esteja jogando com outra pessoa.
— Poderia ser, mas não vejo o doutor há meses.
— Tem certeza?
— Moça, estou aqui quase todo dia. O Dr. Lathram é membro do clube desde que recordo, mas já faz uns bons seis meses desde a última vez que coloquei as bolsas dele num carrinho. Mas se quiser, dou seu recado quando o doutor aparecer.
— Não — disse Gina. — Deixe para lá. O que significava isso? pensou Gina ao desligar. Quando não estava atacando a caquistocracia, Duncan falava sem parar de suas tacadas, de seus pontos, e sempre reclamava das condições do campo.
O que então ele vinha fazendo às quartas?
Obviamente, não estava jogando golfe. Sobre o que mais vinha mentindo?
Gina se sentiu inquieta. Não gostava da idéia de Duncan mentir, para ela ou para qualquer outra pessoa.
Por impulso, subiu as escadas e voltou ao escritório de Duncan.
— Deixei alguns papéis sobre a mesa dele — disse a Barbara, enquanto passava por ela.
Que maravilha, pensou ao abrir a porta. Agora também estou mentindo.
Tensa e culpada, sentindo—se uma ladra, Gina caminhou até a mesa de Duncan e puxou a gaveta superior. Esta não abriu. Trancada. Merda!
Deixou—se cair na cadeira de Duncan e ficou movendo—a para frente e para trás, enquanto pensava no que fazer.
O que, em nome de Deus, estava acontecendo ali? E o que ela poderia fazer? Aliás, deveria fazer alguma coisa?
Talvez não fosse nada demais, mas teve de se perguntar: Duncan tinha alguma relação com o que acontecera com aqueles quatro congressistas mortos ou inválidos?
Provavelmente, não. Suas mortes, acidentes e doenças não estavam realmente relacionadas... tudo era apenas uma sucessão daquelas coincidências esquisitas que acontecem de vez em quando... o tipo de coincidência que gera as teorias de conspiração.
Ainda assim, por que estava mentido sobre para onde ia depois do escritório nas tardes de quarta? E será que isso era realmente importante?
Mas ela observara um frasco de injeção de alguma coisa na gaveta superior da mesa de Duncan; também algum tipo de trocarte. Por que estavam ali? O que havia naquela garrafa? Por que ele mantinha a gaveta fechada?
Merda! Odiava duvidar de Duncan daquele jeito. Mas por que ele não estava onde dizia estar? Onde estaria ele?
Duncan removeu as bandagens do rosto de Kanesha e estudou o trabalho realizado. Segurou—a pelo queixo e gentilmente virou—lhe a cabeça para frente e para trás.
A menina, através de reflexo, levou a mão ao rosto para esconder a área da cirurgia.
Duncan empurrou gentilmente a mão da menina e pressionoua contra seu quadril.
— Não precisa mais fazer isso, Kanesha.
A camada grossa e comprida de tecido cicatrizado, que antes dividia a parte esquerda da boca, sumira. Havia agora um par de incisões finas como fios de cabelo e um ângulo de boca de aspecto normal. Duncan parecia satisfeito, mas precisava fazer o teste mais importante.
— Sorria para mim, Kanesha.
Mais uma vez a mão subiu ao rosto para cobrir o canto da boca. Ela olhou para a mãe. Sua expressão dizia me tira daqui.
— Vamos, Neesh—disse a mãe.—Sorria para o Dr. Duncan. Duncan empurrou novamente a mão da criança para baixo e se levantou, permanecendo parado ao lado dela. Virou—a para o espelho na parede.
— Olhe para aquela menina ali. O que pensa dela?
Kanesha olhou para si mesma em silêncio durante um momento, e então se inclinou para olhar mais de perto. A mão esquerda dela apareceu de novo, dessa vez não para cobrir, mas para tocar, para confirmar que o que via era real.
Duncan a observou, torcendo por um sorriso. O sorriso era importante. A cirurgia de Kanesha fora bem mais difícil do que ele previra. O tecido cicatrizado era mais profundo que o usual. Não apenas precisara retirar todas as camadas subcutâneas, como também fazer uma reconstrução parcial da musculatura externa. Um sorriso era a única forma de saber o quanto ele fora bemsucedido.
— E então? — instigou Duncan. — Não me mantenha em suspense, menina.
Kanesha Green tem algum motivo para sorrir ou não?—perguntou.
Ele cutucou as costelas da menina para fazer—lhe cócegas. Ela deu uma risadinha, que se tornou um sorriso. Um enorme sorriso, radiante e até simétrico.
Parou de rir e olhou para si mesma. O sorriso sumiu por um segundo, enquanto se inclinou para a frente, olhos bem abertos, e então retornou com força total.
Virou—se para Duncan, sorrindo. Felicidade e assombro dançavam em seus olhos negros. A mãe irrompeu em lágrimas e caminhou até a filha. Mas Kanesha fez o inesperado. Inclinou— se para a frente, jogou os braços em torno do pescoço de Duncan e o abraçou. Um instante depois a mãe também chorava abraçada a Duncan.
— Oh, muito obrigada, Dr. Duncan! Muito obrigada! A situação estava ficando um pouco embaraçosa.
— Calma, calma, senhoras — disse ele, desembaraçando—se do emaranhado de braços.— Demos um grande salto, mas ainda não terminamos.
— Não terminou?—perguntou a mãe, enxugando os olhos. — Ela está linda!
— Claro que está. Mas ainda não está completamente crescida. E parte da cicatriz pode reaparecer nos tecidos mais profundos. Daqui a alguns anos posso querer fazer mais uma pequena operação. Eu a quero perfeita.
— Ela parece perfeita agora! Oh, Dr. Duncan, se eu puder fazer qualquer coisa para recompensar o senhor, qualquer coisa mesmo, é só...
Duncan pousou a mão no ombro de Cindy Green.
— Apenas mantenha esse sorriso.
— Não, falo sério.
— E eu também. Mantenha sua filha segura, proteja sua saúde e seu sorriso. Filhas são... — Sua voz embargou. Ele limpou a garganta.—Filhas são preciosas. Não quero descobrir que fiz esta cirurgia em vão.
— Vou protegê—la—prometeu, segurando a mão de Duncan. —Eu juro.
— Bom! — Duncan se empertigou e colocou Kanesha no chão. —Ao saírem, falem com minha secretária. Ela lhes entregará uma pasta medicamentosa e dirá como usá—la. Quero ver Kanesha na próxima semana.
Cindy Green estava chorando novamente.
— Dr. Duncan...
— Orávamos, orávamos — disse ele, guiando—as até a porta. — Vocês estão perdendo tempo. Leva —a para casa e deixe Kanesha mostrar seu sorriso para todos.
Isso vai ensiná—las a não duvidarem de mim, pensou, enquanto as observava sair.
— Muito bem, Marge—exclamou Duncan. — Chame o próximo. Precisamos nos apressar.
Não tinha o dia todo.
Começou como um capricho, evoluiu para uma compulsão, e pelo meio da tarde Gina estava na seção de periódicos da Biblioteca Pública de Alexandria.
Lisa Lathram... tinha de haver mais alguma coisa sobre Lisa Lathram. E onde melhor encontrar isso do que na cidade onde ela tinha vivido e morrido?
Para sua decepção, o obituário do Alexandria Banner era idêntico ao doPost. Mas um breve comentário a respeito de sua morte mencionava que o pai dela estava sendo investigado pelo Comitê de Ética Médica do Estado de Virgínia.
Gina ficou rígida na cadeira. Duncan? Investigado? Por qual motivo?
Começou a passar os olhos pelos exemplares microfilmados do Banner.
Felizmente era um jornal pequeno e com poucas páginas. Sempre que encontrava alguma menção a Duncan, Gina fazia uma fotocópia da página e colocava—a ao lado. Quando as referências a Lathram pararam, Gina reuniu as cópias e leu—as em ordem cronológica.
A primeira matéria apareceu cerca de três meses antes da morte de Lisa.
Metade da primeira página do Banner dedicava—se a Duncan, acusando—o de haver apresentado à previdência social, durante o ano anterior, custos pela realização de cirurgias vasculares que somavam mais de um milhão de dólares. Um editorial na mesma edição categorizava—o como um exemplo perfeito da "cobiça desenfreada na profissão médica."
Gina balançou a cabeça, estupefata. Um milhão... um monte de dinheiro, mesmo para um cirurgião vascular. Mas apresentar ao governo uma conta de um milhão não significava que se receberia um milhão. A previdência social só pagava uma fração do que era cobrado. E mesmo se pagassem tudo, e daí? Observara como Duncan trabalhava quando era cirurgião vascular. Se cobrava um milhão era porque merecia um milhão.
O artigo a seguir descrevia como um grupo pelos direitos ; dos pacientes estava circulando petições por uma investigação do Dr.
Lathram para determinar quantas — não se, mas quantas — cirurgias desnecessárias ele realizara. As petições foram apresentadas ao Comitê de Ética Médica do Estado de Virgínia. Logo o Banner estava anunciando na primeira página que o Dr. Duncan Lathram estava sendo investigado pelo Comitê por suspeita de conduta indevida e fraude. Em seguida, veio um artigo revelando que a unidade de apuração de fraudes da previdência social estava conduzindo uma auditoria dos arquivos do consultório de Duncan.
Deus, que coisa horrível, pensou Gina. Como era humilhante ter todos esses investigadores remexendo os seus arquivos, provavelmente enquanto havia pacientes na sala de espera. E então, a morte de Lisa. E depois daquilo... nada.
Onde estava o final? Onde estavam as conseqüências? Não conseguiu achar uma única menção em qualquer parte. Teria Duncan perdido a licença em Virgínia? Teria sido por isso que ele estava agora em Chevy Chase?
Só havia uma forma de descobrir. Ela olhou o relógio. Ainda havia tempo de ligar para o Comitê de Ética Médica de Virgínia.
Depois de quatro telefonemas, Gina finalmente conseguiu achar a secretária executiva, a Sra. Helen Arnovitz. Perguntou se Duncan Lathram ainda tinha permissão de clinicar naquele estado; e caso afirmativo se ele sofrera qualquer tipo de punição disciplinar.
Helen a deixou esperando e retornou um minuto depois.
— Sim, ele ainda tem a licença e não recebeu nenhum tipo de punição. Mas lembro bem desse caso. O comitê conduziu uma investigação pela possibilidade de fraude na cobrança de atendimento médico à previdência social e pela realização de cirurgias desnecessárias.
— E...
— As acusações foram consideradas infundadas. O comitê foi obrigado a investigar devido a algum tipo de publicidade negativa que o Dr.
Lathram estava sofrendo, mas não descobriu nenhum sinal de conduta indevida. Quando os resultados da auditoria da previdência social voltaram limpos, nós o isentamos completamente.
— Então foi uma tempestade em copo d'água.
— Para nós, sim, mas não para o pobre Dr. Lathram. Gina enrijeceu.
— Mesmo? Por que não?
— Sua clientela diminuiu tanto, que ele teve de fechar o consultório.
Soube que ele está indo muito bem agora em Maryland, mas foi uma pena nosso estado ter perdido um grande cirurgião vascular.
— Tenho certeza que foi. Obrigada.
Gina desligou, recostou—se na cadeira, fechou os olhos. Seu coração doía por Duncan.
Humilhação pública, a morte da filha, o fechamento do consultório, divórcio... tudo no mesmo ano. Por que isso tinha acontecido? O que começara tudo isso? Era o bastante para deixar qualquer um... ... louco.
Não. Isso não era justo. Duncan era tudo, menos louco. E nada disso tinha qualquer conexão com Schulz, Lane, Allard e Vincent. Pelo menos nenhuma conexão que ela conseguisse ver.
Então por que se sentia aliviada?
Era mais do que isso. Tinha de ser. Mas onde procurar?
Não havia tempo para isso agora. Tinha plantão em Lynnbrook essa noite.
Esperara que essa pequena viagem de pesquisa a tranqüilizasse, mas acabou deixando—a mais tensa.
Só uma coisa para fazer. E ela se odiava por fazer isso.
Gerry estava no cubículo que lhe servia de escritório, olhando para o desenho feito por Martha de um cavalo amarelo — sem dúvida um eqüino de cor diferente. Ele devia estar arquitetando uma forma de pegar o tio do senador Shulz como cúmplice na lavagem de honorários. Em vez disso, estava pensando sobre a morte de três membros da mesma comissão. Quais seriam as possibilidades disso ter acontecido por acaso? Especialmente quando todos eles haviam realizado cirurgias com o mesmo médico.
O telefone tocou. Era a recepcionista da área de visitantes.
— Tem uma Dra. Panzella querendo ver o senhor. Ele quase deixou cair o telefone.
— Quê? Dra. Pan... ela está aí? Agora?
— Sim. Está aqui bem na minha frente.
— Vou já para aí.
Gerry pegou o paletó do terno e correu até os elevadores. Pressionou o botão de descer, mas como o elevador não chegou imediatamente, decidiu ir pelas escadas. Apenas três andares. Moleza.
Chegou correndo na sala de espera e deparou com Gina. Parecia tensa.
— Gina? Alguma coisa errada?
— Aqui. Isto é o que você queria.
Ela entregou—lhe um pacote — alguma coisa dentro de uma sacola de papelão.
— O que eu queria?
Atônito, enfiou a mão dentro da sacola e tirou um tubo de ensaio cheio de um líquido transparente. Havia também uma folha de papel impressa em computador.
— Não entendi.
— É isso que Oliver Lathram coloca nos implantes do irmão.
— Espere aí, eu não...
— Analise isso, Gerry. Satisfaça sua curiosidade, resolva suas suspeitas e depois me diga o que achou. Aí está uma lista do que supostamente há na solução. Veja se as análises combinam.—Estava rígida, com um olhar triste.
— Gina, o que há de errado?
— Não gosto do que estou fazendo, Gerry. Não estou sentindo nenhum orgulho por ter tirado isso do laboratório de Oliver.
— Mas você não precisava. Eu estava apenas...
— Você me fez começar a pensar. Deixou—me preocupada. Agora também quero saber.
— Sinto muito.
Ela ia começar a dizer alguma coisa e então pareceu mudar de idéia.
Parecera que ia falar e deve mesmo, mas Gina acabou dizendo: — Tudo bem. Você só está fazendo seu trabalho. Ele ofereceu—lhe o tubo.
— Se quiser pode levar de volta. Ela balançou a cabeça.
— Agora é tarde demais.
A tensão entre os dois estava tão intensa que Gerry imaginou que não haveria como abrandá—la.
— O jantar naquela noite foi ótimo. Você é uma grande cozinheira.
— Estou contente por você ter gostado.
Nenhuma reação positiva. Ele teria de usar todos os seus trunfos.
— Martha adorou. E ela te ama.
As feições de Gina relaxaram. Finalmente.
— E eu a amo—disse Gina. Em seguida apontou para o tubo de ensaio. — Mas me conte sobre essa coisa assim que descobrir algo, Gerry. É muito importante para mim.
— Não se preocupe. Te ligo assim que souber alguma coisa. Mas no meio tempo, que tal jantarmos esta noite?
Ela meneou a cabeça.
— Tenho plantão noturno no Lynnbrook. —Virou—se e começou a sair. — Me dirá mesmo assim que souber, não é?
Gerry levantou três dedos no estilo do juramento dos escoteiros.
— Prometo.
Claro que prometo, pensou. Porque posso ver que você ficará muito tensa até eu fazer isso.
Enquanto subia para pegar um formulário de requisição de laboratório, Gerry não soube se deveria se sentir eufórico ou deprimido. Tinha uma amostra da solução de Lathram, mas também deixara Gina terrivelmente irritada. O prêmio valeria o sacrifício? Se a análise revelasse uma toxina, como diria isso a ela?
Mas ele deveria. E iria tirá—la da clínica de Lathram tão rápido, que os ouvidos de Gina zuniriam.
Gina encontrou o Dr. Conway na sala dos médicos do Lynnbrook Hospital.
Ele estava de saída. Cumprimentou—o com um aceno de cabeça. Gina não parava de pensar no molho secreto de Duncan e Oliver; Conway quase já havia passado por ela quando Gina percebeu que não o via desde a morte de Harriet Thompson.
— Soube da morte de Harriet Thompson. Sinto muito.
— Sim—respondeu com um suspiro. Parecia deprimido. — Eu também. Mas há algum advogado na cidade que parece realmente feliz com isso.
— Ai, não! Você está sendo processado? Ele assentiu.
— Por negligência médica. A filha dela, aquela que não podia sair de San Diego para ficar com a mãe durante alguns dias, contratou um advogado tão logo chegou à cidade. Deve ter ligado para o "Disque—Processar Médicos." Ninguém perde a oportunidade de faturar um pouco, não é mesmo?
Gina não pôde entender a calma dele.
— Por que ela não processou o conselho do hospital?
— Você não sabe? Os conselhos hospitalares são imunes a processos por negligência. Só restava eu.
Gina ficou tão embaraçada quanto furiosa. Sem saber mais o que fazer, colocou a mão sobre o ombro de Conway.
— Não se preocupe. Você vai vencer.
— Claro — disse ele. Não havia humor em seu sorriso. — Aposto que você mal pode esperar para começar a clinicar.
Ele saiu.