Implante
* 21
CONSULTAS
A Sra. Jablonsky queria diminuir o tamanho do busto. Nua da cintura para cima, estava sentada na mesa de exames, levantando os seios grandes e flácidos e deixando—os cair... levantando e deixando cair...
— Tenho sessenta e oito anos — disse a Duncan. — Tenho esses peitos desde os quatorze anos. Antes eu sentia orgulho deles, mas agora são literalmente um peso na minha vida. Eles me puxam para baixo, fazendo—me andar curva, e me dão dor de coluna. Quero acabar com eles.
— Decerto não quer isso.
— Não, claro que não, doutor. Apenas com parte deles. Se caírem um pouco mais terei de amarrar essas malditas coisas na cintura.
Duncan riu.
— Isso não parece muito confortável. Vamos deixá—los num tamanho mais prático para você. Mas o quê... ?
Ele notara um grande número de lesões brancas e rosadas cobrindo todo o tronco da mulher. Tocou uma, em seguida outra. Tinham a aparência de efeitos colaterais de criocirurgia.
— Ah, essas manchas. Isso é trabalho do Dr. Sauer. Sabe... o dermatologista? Ele está removendo minhas lesões.
— Suas lesões?
— É como ele chama essas porcarias. — Apontou uma área de um centímetro de ceratose seborréica no antebraço.—Ele diz que não são cancerosas mas que podem mudar a qualquer momento.
— Essas coisas? Ele disse que podem ficar cancerosas?
— Sim. E tenho montes delas.
Duncan sentiu que estava cerrando os dentes.
— Quantas dessas "lesões" ele removeu?
— Oh, pelo menos umas cinqüenta. Ele me mandava voltar todas as semanas para tirar mais algumas. Estamos quase acabando. Tem sido uma penúria, mas é um alívio enorme saber que não precisarei mais me preocupar com câncer.
— Deve ter custado uma fortuna à senhora.
— Oh, não. Ele cobra da previdência social. Ele aceita planos de saúde, sabe? Não é como o senhor.
— A senhora tem toda razão, Sra. Jablonsky. Não sou como o Dr.
Sauer.—Ele abaixou a voz e murmurou: — Ele deve ser exaluno da Ingraham.
— O que o senhor disse?
— Nada.
Duncan rangeu os dentes. Que charlatão. Extirpando ceratoses absolutamente benignas e cobrando pela remoção de lesões cancerosas.
Que mundo! Um médico precisava apenas clinicar de forma correta e ética para ter um estilo de vida decente. Mas isso não bastava para as hienas famintas que deixavam uma trilha de carniça pela profissão. Aquilo fazia Duncan subir pelas paredes.
Os congressistas não detinham exclusividade sobre a cobiça. Havia médicos que também mereciam implantes.
Os pensamentos de Duncan começaram a percorrer um novo caminho. Imaginou se haveria uma forma de...
Balançou a cabeça para afugentar os pensamentos. Não havia sentido em deixar as coisas saírem completamente dos trilhos.
Marcou uma cirurgia para a Sra. Jablonsky e saiu para atender o próximo paciente. O formulário de admissão do novo paciente estava numa ficheira na porta da sala de exames. Enquanto levava a mão à maçaneta, Duncan olhou para o nome do paciente... e congelou. Hugh K Marsden.
Seria possível...?
Seu olhar saltou algumas linhas na direção da lacuna de profissão: senador dos EUA.
Duncan continuou segurando a maçaneta. Aquilo era demais. O dirigente da comissão em pessoa?
Seria possível... que alguém o estivesse investigando? Seria possível que estivessem preparando uma armadilha para ele?
Mas jamais usariam um senador dos Estados Unidos como isca para pegá—lo.
Ainda assim.... era difícil acreditar que a presença de Marsden se devia ao acaso.
Bem, teria de fingir não reconhecer Marsden e ver como a consulta transcorreria.
— Sr. Marsden—disse Duncan, entrando e estendendo a mão. — Dr. Lathram.
Marsden apertou a mão de Duncan com firmeza e não repreendeu o médico por não ter se dirigido a ele como senador.
— É um prazer conhecê—lo. O senhor foi muito bem recomendado.
— Sempre é bom ouvir isso.
Duncan fingiu passar os olhos pelo histórico médico na ficha de admissão que ele já lera antes de entrar.
— A julgar pelo seu histórico, o senhor está com uma saúde excelente—disse ele. — O que podemos fazer pelo senhor aqui?
Marsden virou a cabeça e tocou o topo da aurícula da orelha esquerda.
— Um colega seu me disse que examinasse isto. Duncan se aproximou e viu o nódulo rosado em questão. Tocou—o: era macio e firme. Pegou uma lupa iluminada na gaveta e inclinou—se sobre Marsden para enxergar melhor.
Pequenos capilares cruzavam—se na superfície opalina. Positivamente, um efeito Tyndall causado pela luz. Apalpou novamente a aurícula, pressionando as bordas. Era maior do que pensara a princípio.
— Esse meu colega parece ser um excelente profissional. O senhor está com uma formação de carcinoma nesta região. Não ; há risco de que as células se espalhem, mas continuarão se multiplicando e isso acabará formando uma úlcera na aurícula. Aconselho que extirpe a formação agora, enquanto é pequena.
— Foi por isso que vim aqui. Duncan colocou a lupa sobre o balcão.
— Desculpe. Não faço cirurgias terapêuticas. Apenas operações plásticas.
Mas posso recomendar...
— O senhor foi recomendado.
— Não vou discutir isso, mas não faço o tipo de trabalho de que o senhor precisa.
— Mas eu preciso de uma operação plástica. Não quero nem uma cicatriz na orelha.
— Isso me envaidece, mas...
— ADra. Panzella me disse que o senhor é o melhor.
— Gina? Ela mandou o senhor aqui?
Por que ela fez isso? Duncan se perguntou, irritado. Ela sabe que não atendo esse tipo de caso.
— Na verdade, não. Parece que temos algo em comum: ela trabalha para nós dois. Foi ela quem viu esta coisa na minha orelha., chamou—a de "lesão"... e disse que eu deveria mandar examinála. Como muitos de meus colegas no Capitólio falam muito bem do senhor, e como Gina parece admirá—lo tanto, achei que o senhor seria a pessoa mais indicada.
A mente de Duncan começou a dar voltas. Mas isso explicava a presença de Marsden: Gina era a conexão.
Muito bem. Talvez esse fosse o momento de parar de se fingir de completo idiota e se passar por um quase idiota.
— Marsden...—disse Duncan lentamente.—Meu Deus, o senhor deve ser o senador Marsden. Espero que me desculpe, mas não liguei o nome à pessoa. Claro. O senhor está dirigindo... — ele estalou os dedos. — a...
— Comissão de Diretrizes.
— Isso. A Comissão Mista de Diretrizes para a Ética e a Prática da Medicina.
Marsden sorriu.
— Você sabe o título inteiro. Quase ninguém sabe.
— Leio muito. Seu grupo teve alguns problemas recentemente.
— Sim. O pobre Harold. Temo que esteja muito doente.
— Alguma idéia de quando e se ele voltará?
— Não. Definitivamente, ainda não sabemos nada.
Marsden estava agindo com muita discrição, não revelando nada. Como deveria fazer. Duncan procurava avaliar seus sentimentos quanto a esse homem. Não tinha nada pessoal contra Marsden. Se ele não estivesse presidindo uma comissão que não tinha o direito de existir, Duncan talvez até mesmo gostasse dele.
— Vocês estão com um pouco de má sorte, não é verdade?
— Mais que um pouco. É como se algum tipo de maldição tivesse caído sobre nós.
— Tem certeza que nenhum dos seus membros invadiu a tumba de um faraó?
Marsden abriu um sorriso triste.
— Quase dá para pensar na possibilidade.
— Isso significa que o senhor agora vai deixar as Diretrizes de lado?
— Só durante algum tempo. Estou fazendo o possível para ocupar os lugares vazios. Espero que em breve estejamos trabalhando novamente.
— É mesmo? — disse Duncan, contendo—se para não alterar a voz. — Que interessante.
— Mas voltemos ao assunto que nos interessa—disse Marsden. — Gostaria que o senhor fizesse a cirurgia. E, com toda sinceridade, o motivo é estético. Pelo que sei, o senhor tem um método que permite uma cicatrização muito mais acelerada do que a cirurgia normal. Preciso disso.
— Precisa?
— Sim. Dependendo do presidente, podemos estar realizando novamente as audições numa questão de semanas. Não quero aparecer em rede nacional com uma orelha inchada, ou que pareça ter levado uma mordida. Sabe como é a imprensa. Haverá muita especulação em torno do assunto. E assim que descobrirem, farão uma série de matérias sobre meu câncer de pele.
Depois haverá especiais de TV sobre câncer de pele e como evitá—lo.
— Não vejo nada errado nisso.
— E não há, mas não quero que a imprensa se concentre em minha pequena doença. Eles devem se concentrar na Comissão de Diretrizes e no que estamos tentando fazer.
E exatamente o que estão tentando fazer?, teve Duncan vontade de perguntar.
Marsden prosseguiu: — Com sua famosa habilidade e suas técnicas de cicatrização acelerada, acho que é o homem certo para o trabalho.
E sou mesmo, senador, pensou Duncan. Sou o homem certo.
— Muito bem, senador. Por causa de sua conexão com a Dra. Panzella...
que fala muito bem do senhor, diga—se de passagem... farei uma exceção.
Mas não abrirei exceção sobre não lidar com nenhuma empresa de planos de saúde. O senhor terá de pagar meus honorários exorbitantes do próprio bolso. Em troca terá a melhor cirurgia plástica do mundo, com total discrição. Nosso relacionamento será de paciente e médico. Não envolverá a previdência social, ou qualquer outra empresa de planos de saúde. Não preencherei formulários, não falarei com comissões de utilização ou de controle de qualidade, nem aceitarei uma segunda ou terceira opinião. Falarei com o senhor e o senhor falará comigo. Não haverá outras partes envolvidas.
A expressão de Marsden refletiu fascínio em vez de consternação.
— Vejo que o senhor não participa do sistema de planos de saúde.
— Está olhando para uma espécie em extinção, senador.
— Se quiser, posso tentar colocá—lo na lista de proteção do Departamento do Interior.
— Tarde demais, acho.
— Bem, a venda da minha empresa deixou—me com algum dinheiro. Acho que posso gastar um pouco com minha orelha.
— Bom. Passarei o senhor para a minha secretária, que cuidará da parte burocrática. Como está seu tempo na semana que vem?
— Quinta—feira seria um dia excelente.
— Verei o que posso fazer. Mas se quiser usar os procedimentos de cicatrização acelerada, terá de assistir a uma fita de vídeo e assinar uma pilha de formulários. No momento, os implantes que emprego estão sob a supervisão da FDA.
— Como quiser.
— Excelente.
Enquanto Duncan o conduzia para o corredor, viu Gina passando.
Ela olhou na direção dele, e então exibiu uma expressão de surpresa.
— Senador Marsden!
Por um segundo, uma expressão estranha apareceu no rosto de Gina.
Aconteceu em um momento entre a surpresa em encontrar o senador e um sorriso de saudação. Seria medo, preocupação ou terror?
Independentemente do que fosse, era evidente que Gina não estava feliz em ver o senador ali. Porquê? Ela não tinha visto nada além de bons resultados — resultados excelentes — durante seu período ali. Por que então deveria ter a mínima preocupação com o fato de o senador ser operado por Duncan?
A não ser que...
Não. Como poderia suspeitar?
Tinha de ser outra coisa. Talvez Duncan tivesse interpretado mal as expressões de Gina.
Mas ele não acreditava nisso. Havia algo ali, alguma coisa muito próxima ao medo.
Duncan tentou esquecer essa sensação mas não conseguiu. Por que a visão dele com o senador Marsden provocaria terror em Gina?
Pensamentos inquietantes passaram pela cabeça de Gina enquanto ela estava observando o senador Marsden assinar os formulários de consentimento. Pensamentos sobre três membros da comissão de Marsden, todos pacientes de Lathram, todos mortos, aleijados ou enlouquecidos...
Esforçou—se para permanecer calma.
— Que surpresa encontrar o senhor aqui—disse—lhe depois que Duncan saíra.
Ele levou a mão à orelha.
— Bem, parece que há uma unanimidade sobre eu ter de operar. E você não disse que ele é o melhor?
— Sim, mas nunca quis dizer que o senhor deveria vir aqui... Quero dizer, ele não costuma aceitar casos como o seu.
— Ele disse que abriria uma exceção em meu caso.
Gina sentiu o estômago embrulhar. Duncan jamais fazia exceções.
— Sinceramente, estou surpresa.
— Talvez devesse se sentir lisonjeada. Ele disse que foi por sua causa.
— Deu um tapinha no braço de Gina. — Sabe, eu sabia que estava fazendo a coisa certa quando a contratei.
Espero que sim, senador, pensou Gina. Fazendo o que esperou ser uma saída graciosa, pôs— se a caminhar de forma apressada. Tinha um lugar para ir.
Gina se sentou na seção de periódicos da sede da Biblioteca Pública de Washington, na G Street. Lembrara algo que Oliver dissera uma vez sobre a Comissão de Diretrizes... logo depois de Duncan ter ficado furioso com Gina por ela estar procurando por um posto na comissão.
... anos atrás ele teve alguns problemas... Problemas com a Comissão de Diretrizes? Há quantos anos? Oliver não dissera. Talvez encontrasse a resposta em microfilme. Ela estava examinando os exemplares do Washington Post do ano da morte de Lisa, procurando por qualquer menção a Duncan. A menção mais antiga estava datada de 7 de maio, cerca de uma semana antes do primeiro artigo criticando Duncan no Alexandria Banner.
Primeira página, coluna direita.
Gina sentiu o estômago embrulhar quando leu a manchete: "Comissão Acusa Cirurgião de Superfaturamento."
Correu os olhos pelo artigo até localizar o nome de Duncan, e então começou a ler do início.
De sua cadeira ao lado do dirigente da comissão, o senador Harold Vincent disse que sua equipe descobrira um caso de "abuso do sistema atual, bem aqui em nossa cidade". Ele acusou o Dr. Duncan Lathram, um cirurgião vascular de Alexandria, de haver coletado mais de um milhão de dólares da previdência social no ano anterior. "Esse homem é um exemplo perfeito dos profissionais de saúde que enchem os bolsos com milhões de dólares dos contribuintes. Se um dia alguém duvidou que os profissionais de saúde precisam que lhes sejam impostas diretrizes, essa dúvida foi derrubada por homens como o Dr. Lathram."
Gina ficou rígida na cadeira diante do leitor de microfilme, chocada não apenas pelas palavras, mas pelo seu orador. Senador Vincent... Duncan o operara havia apenas algumas semanas, e eles tinham conversado animadamente na sala de audiências da comissão momentos antes do senador sofrer um ataque. E embora ele tivesse atacado Duncan em publico alguns anos antes, nenhum dos dois mencionou isso. Teriam ambos esquecido?
Não. Duncan, não. Vincent, talvez. Ele tinha um quarto de século no Capitólio, e aquele fora simplesmente mais um de uma série infindável de comentários preparados por um de seus auxiliares e jogado na lata de lixo depois de lido.
Mas Duncan... aquelas palavras sem dúvida tinham ficado marcadas em seu cérebro. Jamais esqueceria algo assim. E jamais perdoaria.
Ela leu o artigo desde o começo. Vincent atacara Duncan de sua cadeira da Comissão de Diretrizes para a Prática da Medicina — a comissão original, sob a direção do senador McCready. O artigo listava os outros membros daquela primeira comissão. Além de Vincent e McCread, havia também Lane, Allard e Schulz.
Schulz! Schulz estivera na comissão original. Gina não sabia disso.
— Oh... meu... Deus — sussurrou Gina. Essa era a conexão entre os quatro congressistas mortos ou inválidos — todos tinham sido membros da comissão McCready.
Encontrou outra menção a Duncan, na parte interna do jornal, numa edição da semana seguinte. Dessa vez era o deputado Allard censurando esse cirurgião corrupto e classificando—o como "a ponta do iceberg". Alguma coisa precisava ser feita em nível federal. Exigiu que o Ministério da Saúde fizesse uma auditoria do consultório de Duncan.
Gina se recostou. Então fora assim que o inferno de Duncan começara: graças a uma fagulha da primeira Comissão de Diretrizes. Ele devia odiar esses homens... embora houvesse operado quatro deles.
E esses quatro agora estavam mortos ou hospitalizados.
Tudo poderia ser apenas uma série de coincidências infelizes. Os quatro homens tinham sofrido problemas diferentes, e nenhum tribunal aceitaria as provas disponíveis... mas ainda assim, apenas um idiota poderia negar que havia um padrão em tudo isso. Um padrão assustador.
Mas qual era a conexão com Lisa?
E isso importava?
Naquele momento, não. O que importava era que o senador Marsden estaria sob a faca de Duncan na semana seguinte Ela lembrou dele assinando os formulários de consentimento a alguma horas. Não havia uma expressão sobre assinar com o próprio sangue?