Implante
* 31
TERÇA—FEIRA
— Muito bem, Oliver—disse Gina. — Chega de segredo. Você precisa me dizer por que aqueles homens estavam passeando pelo prédio ontem.
Era cedo. Vestindo luvas e máscaras cirúrgicas, Gina e Oliver estavam no laboratório dele, enchendo, sob condições assépticas rigorosas, os implantes que seriam usados nas operações do dia. Gina passara a metade da noite desafiando seu cérebro a encontrar uma forma de descobrir a identidade do Dr. V e dos engravatados misteriosos.
— Não posso contar, Gina. Duncan me mataria.
Uma escolha de palavras infeliz, Gina pensou, com um arrepio. Duncan não mataria qualquer um. Ela acreditava nisso agora. Precisava acreditar nisso.
— Não seja tolo. Ele é o seu irmão. — Ela piscou. —Além disso, ele precisa dos implantes.
— Obrigado — disse Oliver com um suspiro. — Isso faz maravilhas pela minha auto—estima.
— Estou falando sério. Estou ficando doida de curiosidade. Vi esse Dr. V entrando e saindo daqui umas três vezes, e tenho certeza de que o conheço de algum lugar. Apenas me diga quem ele é. Não o que ele está fazendo aqui, só o nome dele. Diga —me apenas isso e prometo não perguntar mais nada.
— Gina, desculpe, mas eu...
— Vou espirrar nos seus implantes.
— Não, você não faria isso. Ela fungou.
— Epa, acho que está vindo. Acho que vou espirrar tão forte que a máscara não vai conter.
— Gina, por favor, não brinque como uma...
— Lá vem.. Ah... ah...
— Tá bem, tá bem! Gina balançou a cabeça.
— Ora, vejam só! Eu já melhorei. Pelo menos por enquanto. E agora, quem é o Dr. V?
— Eu não devia falar nada. Prometi a Duncan que não diria uma palavra.
Ela fungou de novo.
— Oliver...
— Muito bem. Só o nome dele. E se o nome não significar nada para você, paciência. Concorda?
— Concordo.
Oliver se inclinou para a frente, e Gina percebeu em seus olhos que ele estava morrendo de vontade de contar a alguém. Agora ela dera—lhe uma desculpa.
— OnomeéVanDuyne. Dr. JohnVanDuyne. VanDuyne... Gina conhecia aquele nome. Estava correndo pelos
cantos da mente, tentando escapar dela. VanDuyne... JohnVanDuyne...
De repente Gina lembrou. Um dos palestrantes de uma série de seminários sobre política a que ela assistira na Tulane University. Médico, ele viera de Washington e parecera pouco à vontade ao falar sobre seu papel no governo. John VanDuyne, um dos figurões do Departamento de Saúde e Serviços Humanos... mas ele era mais alguma coisa. Ela lera um artigo ou ouvira alguma outra menção sobre ele. Dr. John VanDuyne...
— Deus do céu! — gritou ela. — Duncan vai operar o presidente!
Oliver arrancou a máscara e se deixou cair na cadeira. Correu dedos nervosos pelo cabelo ralo.
— Não! Eu estraguei tudo!
— Estou certa, não estou?
Ele assentiu de forma resignada, com uma expressão atônita no rosto.
— Não acredito que você tenha conseguido associar tudo tão rápido.
Apenas a partir de um nome. Como conseguiu?
Quando ela lembrou que VanDuyne era o médico pessoal do presidente, subitamente ficou óbvio que os homens que haviam estado com ele no dia anterior pertenciam ao Serviço Secreto. E a forma como tinham examinado tudo, estudando entradas e saídas, espiando pelas janelas... por que mais fariam isso se não estivessem avaliando a segurança do local?
Mas ela não sentiu nenhum triunfo pelo brilhantismo de sua dedução. O que Gina estava sentindo era um peso cada vez maior no estômago.
O presidente dos Estados Unidos entraria na faca nas mãos de Duncan.
Depois de ontem, devia sentir orgulho de Duncan por ele ter sido escolhido para operar o presidente. Mas Gina estava aterrorizada.
— Ele vem na sexta?
Oliver assentiu mais uma vez. Parecia magoado. Isso explicava a folga remunerada.
— O que ele vai operar?
— As pálpebras — respondeu Oliver, enfiando as pontas dos indicadores sob os óculos e tocando as pálpebras inferiores.—Ele quer se livrar das olheiras. Duncan vai aproveitar para esticar as pálpebras superiores também.
— Mas aquelas olheiras tornaram—se a marca registrada dele O que os chargistas vão fazer sem elas?
Oliver encolheu os ombros.
— Parece que os assessores de imprensa e os médicos particulares do presidente chegaram a um acordo de que as pálpebras dele estavam mais caídas e que isso está fazendo as pessoas acharem o presidente cansado e envelhecido.
— Esse é um risco que os presidentes dos Estados Unidos correm.
— Mas eles querem os votos dos jovens. Foram eles que o elegeram da primeira vez. Não querem que um candidato de aparência mais jovem roube seu eleitorado. Acham que as pálpebras do presidente são culpadas por sua aparência cansada e envelhecida.
— Isso é ridículo. Ainda falta mais de um ano para a eleição.
— Mas não para as primárias. Como ele está esperando uma concorrência forte, quer estar com uma ótima aparência em New Hampshire.
— E por que Duncan?
— E por que não? Ele é o melhor. — Oliver apontou para a bandeja.—Especialmente por causa disso.
Gina precisava admitir que Oliver estava certo.
— Mas por que todo esse segredo?
— Não é óbvio? O presidente não quer que ninguém, especialmente a imprensa, descubra isso. Ele chegará na sexta—feira ao amanhecer. Assim que estiver se recuperando, será levado às pressas para Camp David, onde passará um fim de semana longo, que será emendado com mais alguns em viagens. Usará óculos escuros durante o fim de semana, e quando retornar, haverá evidências mínimas de que sofreu uma cirurgia. Qualquer descoloração leve que persistir poderá ser coberta com maquiagem. Um esquema à prova de falhas, concorda?
— Sim — disse Gina, lentamente. —A prova de falhas. Mas seria à prova de Duncan?
Pare! Não devia estar pensando assim.
— Mas com toda a equipe fora, como ele vai operar?
O anestesiologista do Besthesda Naval Hospital e o Dr. VanDuyne vão assistir Duncan.
— E os agentes do Serviço Secreto ficarão de guarda no corredor, suponho.
— Exatamente. Isso não é emocionante?
— Sim. E muito.
Mas Gina estava mais ansiosa que empolgada. Sabia o que Duncan pensava sobre o paciente. Quantas vezes falara mal do presidente dos Estados Unidos?
Ainda assim, Duncan concordara em fazer uma cirurgia plástica nas pálpebras... concordara em executar um procedimento de emergência que concederia ao presidente um pequeno impulso na direção da reeleição.
Não fazia o menor sentido. Por que Duncan faria qualquer coisa para ajudar esse homem?
Apenas por que ele era o presidente e havia pedido? Possivelmente. Esse cargo exercia um poder mesmerizante sobre as pessoas.
Vejam só Oliver — estava radiante como um fã que tivesse apertado a mão de seu ídolo. Ele não podia contar isso a ninguém, mas estava completamente embevecido com a idéia de seus implantes serem usados no presidente dos Estados Unidos.
Será que ela estava se preocupando sem necessidade? Mesmo se Duncan quisesse tentar alguma coisa, como poderia fazer isso com o Serviço Secreto observando cada movimento seu?
Mas na sala de recuperação... eles ficariam de guarda lá dentro?
Provavelmente, não.
Por que ela estava pensando dessa maneira? Precisava parar com isso.
Ontem Gina vira um lado de Duncan que pensara não existir mais.
Prometera a si mesma reavaliar sua impressão sobre Duncan. E teria sido bem—sucedida nisso se não fosse por aquele maldito frasco de DTP
Será que continuava no lugar onde Duncan o escondera?
Só havia uma forma de descobrir. Era agora ou nunca.
Gina queria poder ligar para Gerry e falar com ele a respeito disto, mas veja só o que acontecera da última vez que o procurara com uma suspeita.
A resistência do relacionamento deles fora testada até o limite. Ou talvez Gerry já tivesse declarado o fim do namoro sem contar a Gina. Ele não telefonava desde sexta.
Duncan saíra para almoçar, Barbara não estava em sua mesa. Gina entrara sorrateiramente no escritório de Duncan e fora direto até a estante de livros. Lembrava que ele escondera o frasco na prateleira superior, lado esquerdo. Mas a prateleira era alta demais para alcançá—la.
Olhou em torno em busca de uma cadeira na qual subir e encontrou uma escadinha de alumínio ao lado da pia. Conveniente. Nunca notara aquela escadinha antes. Talvez por que nunca tivesse procurado uma coisa na qual subir. Puxou—a até a estante e subiu nela até ficar no mesmo nível da prateleira superior.
Lembrou—se da noite de domingo, quando ficara parada lá fora, no frio, espionando Duncan. O livro era baixo e grosso, de capa verde. E aqui estava ele, bem na frente dela. Puxou—o da prateleira e olhou pela brecha escura. Moveu o ombro, dando passagem para a luz do sol, que se refletiu no vidro do frasco de injeção, um frasco dolorosamente familiar.
Lá estava o frasco, a alguns centímetros de distância. E agora, o que faria?
Por que não roubá—lo? sussurrou uma voz. Pegue o maldito frasco, arranque a tampa e derrame o conteúdo dele na pia. Duncan poderia passar dias, semanas, tentando imaginar o que acontecera com a DTP, mas e daí?
Ele estaria sem a DTP e você não teria de pensar mais nisso.
A não ser que ele tivesse outros frascos de reserva.
Mas de que importava isso? Esse era o frasco que ela conhecia. Era esse que tinha de sumir.
Gina estava enfiando a mão pela brecha entre os livros quando uma voz gritou às suas costas.
— Deus!
Gina levou um susto e quase perdeu o equilíbrio ao se virar.
Barbara estava parada no meio do escritório, as palmas pressionadas entre os seios.
— Você quase me mata do coração! — disse Barbara.—Dra. Panzella, você tem de me avisar quando entrar aqui!
— Desculpe — disse Gina, torcendo para não parecer tão abalada e constrangida quanto realmente estava. —Você não estava na sua mesa e eu precisava ver uma coisa.
— Só dê um jeito de fazer com que ele saiba que você esteve aqui.
— Como assim?
— Ele gosta de tudo no lugar. Se quiser pegar emprestado alguma coisa, é melhor pedir primeiro ao Dr. Duncan, senão sou eu quem acaba ouvindo depois.
Isto não vai funcionar, pensou Gina. Ela levantou o livro verde.
— Certo, Barbara. Veja! — Com um pequeno floreio, Gina recolocou o livro no espaço. — Voilà! De volta ao lar.
— Ótimo. Sabe como ele é detalhista.
Gina desceu e colocou a escadinha na posição original.
— É isso que faz dele um grande cirurgião. É louco por detalhes.
Barbara colocou alguns papéis sobre a mesa de Duncan e as duas saíram juntas. Ao sair, Gina olhou rapidamente para trás, na direção do livro verde na prateleira superior. Teria mais uma chance com ele no dia seguinte.
A não ser que Duncan o trocasse de lugar novamente.
Isso não!
Duncan pôde sentir todo o calor abandonar—lhe o corpo quando viu a tela.
Sentiu um arrepio.
A fita de vídeo mostrava Gina entrando no escritório às 12:17, levando a escadinha de alumínio até a estante de livros e tirando o livro que escondia a DTE Não hesitara por um segundo. Gina sabia exatamente em que estante e em que prateleira Duncan escondera o frasco.
Mas como ela sabia?
Sentiu um impulso de ir até a estante — ficava a apenas alguns metros de distância—e verificar se ela tirara o frasco, mas não conseguiu mover—se. Ficou parado onde estava, congelado, olhos fixos na tela.
Observou—a olhar o espaço e viu—a enfiar a mão por ele. Então Barbara entrou na sala.
Graças a Deus por Barbara.
Foi difícil entender as vozes, mas pôde compreender a desculpa de Gina e os comentários de Barbara sobre o quanto Duncan era exigente. Em seguida o livro estava de volta no lugar e as duas estavam saindo. Mas viu que Gina olhou de volta para a prateleira ao sair.
Ela vai voltar. Merda, ela vai voltar.
Viu o restante da fita na velocidade acelerada, mas Gina não retornou.
Aquilo era um alívio. Apertou o botão de retrocesso e se levantou para olhar atrás do livro. Sim, o frasco continuava no lugar. Mas como, como Gina sabia onde ele estava?
Ela me espionou.
Claro. No dia anterior seguira—o até o D.C. General. Provavelmente o estava seguindo desde que fracassara na sexta.
Virou—se e olhou através da janela para o jardim. Se o estivera seguindo na noite de domingo, poderia muito bem ter ficado lá fora, acocorada entre os arbustos na escuridão. Podia ter observado cada movimento dele.
Súbito, imaginou que ela poderia estar vigiando—o exatamente naquele instante.
Mas não. Desde que eles haviam se encontrado no dia anterior no D.C. General que ele estivera de guarda, observando com cuidado pelo retrovisor, o que fizera com tanta freqüência que quase causara vários acidentes. Ninguém o seguira hoje.
Mas por que ela olhara o livro hoje e não ontem? Teria acontecido alguma coisa hoje que reacendera suas suspeitas?
Ele acelerou a imagem até o ponto em que Barbara e Gina estavam saindo da sala e deu pausa no último olhar de Gina para trás. Viu ansiedade na expressão dela. Sem dúvida, alguma coisa a estava deixando apreensiva.
Deus do céu! Se ela descobrira sobre aquilo, poderia tomar alguma atitude radical, alguma atitude catastrófica.
Pegou o telefone e discou o número do irmão.
— Oliver, Gina mencionou alguma coisa com você sobre o nosso caso especial na sexta? — disse Duncan, procurando não identificar o presidente no telefone.
— O—o q—que você quer dizer?
A hesitação na voz de Oliver causou um arrepio em Duncan.
— Ela tem alguma idéia de quem será nosso paciente?
— Bem... ela sabe. Ela adivinhou.
— Mas como...?
— Ela reconheceu o Dr. VanDuyne, e então deduziu que os homens que o acompanhavam pertenciam ao Serviço Secreto. A partir daí, foi uma questão de somar dois com dois, acho.
— Você confirmou?
— Bem, o que mais eu podia fazer?
— Droga, Oliver! Droga!
— Duncan, eu a fiz jurar que não contaria a ninguém. Sabe que pode confiar em Gina. Não acha que era melhor confirmar as suspeitas dela do que deixá—la conjeturando e fazendo perguntas?
— Bem, talvez.—Ele refreou a raiva que estava sentindo pelo irmão.
Oliver não tinha nenhuma idéia da importância de manter Gina fora disso.
— Quando vocês tiveram essa conversa?
— Hoje de manhã. Umas onze horas. Por quê?
— Nada. Nos vemos na quinta.
Desligou o telefone e começou a caminhar para um lado e para o outro pela sala, parando apenas para apertar o botão de retrocesso no videocassete.
A oportunidade de uma vida. O próprio presidente. O comandante geral da caquistocracia estaria adormecido sob o efeito de anestésicos logo ali no fim do corredor. O homem que fora o responsável pela ressurreição do projeto de lei de Diretrizes, que insistira em incluir ética médica em seus artigos, e que estava pressionando a comissão para que fizesse todo seu trabalho sujo.
Mas e daí? perguntou—se Duncan. Esse homem não tinha nenhuma relação com a morte de Lisa. Por que não deixá—lo ir embora e ficar satisfeito com o que conseguira até então?
Porque eu não posso. Ainda não.
Estava perdendo o controle e sabia disso. Sentia—se como um trem desgovernado descendo uma colina. McCready começara isso, e Duncan terminaria. Não podia perder essa oportunidade. Nunca teria outra como essa. Imporia uma simetria em toda essa loucura... e fecharia o círculo com o presidente.
Mas Gina Panzella arruinaria tudo. Podia ver isso no rosto da jovem, e sentir nos próprios ossos. Ela iria se meter novamente. E não podia permitir isso. Não dessa vez.
Com um zumbido, o videocassete ejetou a fita. Duncan a tirou e olhou para ela.
Sua fúria aumentou e sentiu uma pressão na cabeça. O peito ameaçava explodir. Ela estava deixando —lhe apenas duas alternativas: recuar agora ou neutralizá—la de alguma maneira.
Duncan grunhiu. Ela o encurralara num canto, e a única opção que lhe restava era atacá—la. Teria de ferir Gina.
E se odiaria por isso.
Com um grito, arremessou a fita de vídeo ao chão e esmagoua com o pé.
— Gina, sua maldita!