Implante
* 5
DUNCAN
Eram as primeiras horas da manhã, e o Dr. Duncan Lathram estava entre os clientes no balcão de auto —serviço da 7—Eleven na Rua E Aquele não era exatamente seu ambiente natural. Sentia—se um pouco deslocado vestindo blusa azul—clara, blazer azul e calças compridas marrons, mas ninguém parecia se importar muito com ele.
Observou a fileira de copos parcialmente cheios à sua frente.
Aqui eles deixam a chaleira sobre a boca do fogão, pensou Duncan. Isso é barbárie.
Fazendo uma careta, pegou uma xícara de tamanho médio ostentando o emblema azul e verde da empresa, e serviu—se com um pouco de café sol—disant.
Considerando a cor do café — tinha certeza de que poderia ler o jornal da manhã através dele se a xícara fosse transparente — concluiu que a empresa estava economizando, pondo muita água nos cafezinhos. O aroma—ou melhor, o cheiro acre — indicava que o líquido ficara tempo demais sobre a boca do fogão.
Sempre tomava o café preto e, mesmo sabendo que se arrependeria disso, não estava disposto a mudar de hábito agora. Soprou o vapor da superfície escura, provou...
E fez uma careta. Tinha gosto de... de...
As palavras escaparam—lhe.
Ao lado de Duncan, um homem com camisa de flanela azul clareou seu café com meia medida de leite, e em seguida acrescentou três colheres de açúcar.
— Isso não mata o sabor?
O homem virou—se para Lathram, aparentemente surpreso por alguém estar falando com ele.
— É, acho que sim. Para ser sincero, não gosto de café, mas preciso disso para ficar acordado pela manhã.
— Entendo. Mas quanto a mim, sou abstêmio em tudo, exceto em café. O que não fazemos para ficar cafeinados, não é verdade?
Entrou na fila do caixa, seguido por Camisa de Flanela. A frente dele, Duncan viu uma mulher esteatopígica, com rolos prendendo os cabelos tingidos de louro, descarregar três latas de Arizona Iced Tea e vinte bombons no balcão, e em seguida pedir dois maços de Parliament — caixinha, por favor.
Virando—se para Camisa de Flanela, Duncan comentou: — Sempre acreditei ser possível vaticinar a sina de uma civilização a partir da observação da culinária nativa, concorda?
— Quê? — redarguiu Camisa de Flanela.
— Exatamente.
Então chegou a vez de Duncan pagar.
— Mais alguma coisa? —perguntou o rapaz, natural do Oriente Médio, atrás do balcão.
— Não, obrigado — disse Duncan. — Meu médico não permite que eu beba mais de uma xícara média de querosene por dia.
— Sim, senhor — disse o homem, pegando o dinheiro de Duncan. — Tenha um bom dia.
Do lado de fora, Duncan caminhou para o sul, cruzou a Constitution e seguiu pelo Mall a passos largos, bebericando com cautela a substância preta na xícara, enquanto se aproximava do Capitólio. Era quarta—feira, dia sem cirurgias. Deveria sentir—se relaxado, mas um leve tremor na mão agitava a superfície do café. Sabia que não era por causa da cafeína.
Admita, disse a si mesmo. Você implodiria se estivesse um pouco mais tenso. Mas por que não estaria? Este era um dia importante. E ainda mais importante para um certo congressista.
Distraiu—se admirando o cenário.
Hoje em dia ele raramente ia ao centro da cidade. Pena. Chovera na noite anterior, e agora uma névoa fina pairava no ar, e o gramado reluzia aos primeiros raios de sol. Ouvia—se o canto de estorninhos, apesar do barulho cada vez maior da manada de funcionários públicos chegando ao trabalho. Esquecera como o Mall podia ser bonito antes da chegada dos turistas.
Duncan se arrependera na última vez que se aventurara ir ao centro da cidade. Isso ocorrera em maio, durante a invasão anual de ônibus abarrotados de estudantes de segundo grau, oriundos de cada cidadezinha a leste das Rochosas. Duncan encontrara a Galeria Nacional cheia de baterias de hormônios descontrolados, embrulhadas em peles salpicadas de sardas e espinhas, para quem a epítome da arte verdadeira e da expressão dos sentimentos era pichar nomes de grupos de heavy metal em muros.
Na época, uma das peças centrais em exibição na Galeria Nacional fora um mural enorme, de três metros de altura, seis de comprimento, todo impecavelmente branco, exceto por uma faixa vertical bege de sessenta centímetros ao longo da borda esquerda.
Talvez os garotos considerassem tanta brancura um desperdício e quisessem pichar Megadeth Reina no quadro.
Duncan não ia ali desde então.
Logo depois, um homem sujo e de barba por fazer aproximou—se dele, vestindo uma sacola de lixo preta com um barbante amarrado em volta da cintura; a cabeça e os braços saíam de buracos abertos de forma estratégica no plástico.
— Tem um trocado para um velho soldado? — perguntou o maltrapilho.
Duncan parou e enfiou a mão no bolso.
— Em qual você esteve?—perguntou o homem.
— A guerra da Coréia, como chamam agora aquele conflito.
Não era verdade. Na época ele estava na faculdade — cursando a escola preparatória de medicina. Mas queria ver o que o "veterano" diria.
— Eu também. Duncan teve de sorrir.
— E se eu tivesse dito Vietnã?
— Estive nessa aí também. Sou o Soldado Desconhecido. Duncan imaginou que o maltrapilho quisera dizer Soldado Universal, mas era bem provável que ele nem lembrasse o próprio nome.
— Bem bolada a sua roupa de chuva, soldado. Parece bem eficiente.
— Dá pro gasto.
Duncan lhe deu uma nota de vinte dólares. O homem olhou para ele por um instante, antes de conseguir falar.
— Deus, homem! Obrigado! Um milhão de obrigados.
— Por que não? Espero que este seja um bom dia para mim. Talvez seja um bom dia para você também.
O mendigo começou a se afastar, provavelmente para colocar uma boa distância entre os dois antes de Duncan mudar de idéia.
— Vou gastar com sabedoria, moço. Pode acreditar. Duncan riu.
— Tenho certeza que vai.
— E tenha um bom dia.
— Garanto que vou. Um dia muito bom.
Se tudo correr de acordo com os planos desta vez.
A ansiedade fazia seu estômago arder. O mais importante seria agir com precisão, mas com tantas variáveis fora de controle, a sorte também seria um fator a considerar. E Duncan odiava depender da sorte.
Continuou caminhando até ver a equipe de filmagem se instalando em frente à Casa de Representantes, na base dos degraus que conduziam à entrada oeste do Capitólio.
— Alguma coisa grande acontecendo?—perguntou Duncan.
— Só uma entrevista — respondeu um cameraman barbudo. — Com um congressista.
— Qual?
— Allard.
— Allard! O Kenneth Allard? Aqui? Exatamente aqui? — Duncan bateu palmas. — Ele é um dos meus favoritos!
O câmera sorriu para o operador de som.
— É a primeira vez que vejo alguém falar assim.
— Oh, ele é um grande estadista. Um intelecto maravilhoso. Uma gota de probidade num mar de venalidade.
— Se você diz.
Era óbvio que o cameraman perdera todo o interesse em falar com Duncan.
Não que Duncan pudesse culpá—lo.
Veja se a câmera está funcionando bem, pensou Duncan. Você está para registrar o fim da carreira de um político.
Galgou os quatro lances de degraus de granito que levavam ao Capitólio.
Precisava chegar ao deputado Allard antes que ele estivesse na frente da câmera de TV
Na noite anterior, Duncan ouvira um comentarista de TV anunciar que entrevistariam o deputado Allard a respeito da revitalização da Comissão Mista de Diretrizes para a Ética e a Prática da Medicina.
Duncan decidira chegar cedo. Era uma oportunidade rara demais para perder.
Chegou ao alto dos degraus do Capitólio e, voltando—se, admirou o verde do Mall. A dois quilômetros e meio dali, depois do chafariz do Capitólio, as torres do Instituto Smithsoniano, os museus e as galerias que margeavam o Mall, o obelisco do Monumento de Washington brilhava como uma lança de ferro ao sol da manhã, projetando uma sombra estreita na direção do retângulo branco do Lincoln Memorial atrás dele. No céu, um jatinho descia na direção da pista de pouso do Washington National.
Flanqueando o Mall à esquerda e à direita, as avenidas Pennsylvania, Constitution e Independence Avenue estavam engarrafadas de veículos vindo para o Capitólio.
E ao redor dele um fluxo contínuo de homens e mulheres — a maioria homens —vestidos em ternos é carregando valises ou pastas de documentos, subindo de forma apressada os degraus. Obviamente não eram turistas — nada de bermudas, câmeras e bonés Washington" — e Duncan sabia que não se tratava de senadores, deputados ou auxiliares. As pessoas que trabalhavam ali, que pertenciam a esse lugar, que se moviam sem parar entre os edifícios do Senado e da Câmara de Deputados, eram lobistas. Munidos de seus talões de cheque, eram eles que engraxavam as engrenagens do Congresso.
A caquistocracia estava em sessão.
Duncan suspirou ao vê—los subir, com pressa e confiança, na direção das câmaras dos deputados e dos senadores. Deus, eram tantos!
O Congresso dos Estados Unidos, pensou ele com um sorriso triste. O melhor governo que o dinheiro podia comprar.
Lá embaixo, na base dos degraus, o operador de som assentiu, enquanto a repórter checava o microfone. Bom. Eles já estavam prontos. Tudo preparado, à espera do deputado federal Kenneth Allard. Duncan estava esperando por ele também.
E então o viu. Allard saiu do lado da câmara de deputados acompanhado por três de seus auxiliares. Tinha mais de sessenta anos, altura média, e ostentava, sobre a protuberância que passava pela cabeça, um tufo de cabelos marrom—escuros que já haviam pertencido a outra pessoa. Allard tinha uma barriga discreta. Fora bem maior antes de Duncan trabalhar nela com o tubo de lipoaspiração. Antes protuberante e trêmula, a barriga agora estava achatada e firme.
Nada mal meu trabalho, pensou, enquanto Allard começou a se mover na direção dele, através do pátio de granito.
Mas com um rosto que apenas um bacteriologista poderia amar.
Um grupo de lobistas sorriu respeitosamente e acenou para Allard enquanto passava. Ele era uma espécie de lenda no Capitólio, admirado, quase reverenciado, pelos colegas na caquistocracia, devido à tática inovadora em relação a fundos de campanha, que empregara na época em que trabalhava na Comissão de Energia e Comércio. Há duas campanhas, quando o deputado Allard ficou ciente que seus fundos de reeleição estavam reduzidos até seu último milhão ou dois, e os lobistas não estavam chegando com dinheiro novo rápido o bastante, ele apresentou uma série de projetos de lei que teriam causado um impacto devastador nas indústrias de carvão, petróleo, gás e madeira. De repente, os lobistas das empresas de energia e das associações de comércio madeireiro, para não mencionar os sindicatos associados que seriam duramente atingidos pelas novas leis de Allard, estavam ao redor dele com talões de cheques abertos. Ele coletou oito milhões de dólares em três meses — parte deles provavelmente pagou sua cirurgia. Depois de saciado monetariamente, Allard retirou os projetos de lei da comissão.
Desde então, esse procedimento tem sido muito imitado por seus colegas.
Mas nada daquilo tinha qualquer relação com o motivo pelo qual Duncan estava ali hoje.
Ele observou Allard acenar com a cabeça para alguns dos lobistas. Mas o deputado parecia mais interessado em conferenciar com seus auxiliares; parecia um zagueiro ao lado do treinador, só que todos estavam vestidos de terno.
Duncan se perguntou se ele era a única pessoa no Capitólio usando alguma coisa que não fosse um terno executivo.
— Bom dia, Kent—disse Duncan, ao se aproximar do grupo.
Allard levantou os olhos ao ouvir seu apelido e fitou Duncan. Um instante de desorientação—Duncan quase pôde ouvi—lo pensar mas quem droga — e então o reconhecimento. — Doutor...—ele engoliu a palavra.—Duncan! Que está fazendo aqui em cima? Bem—vindo ao Capitólio.
— Parecia mais preocupado que satisfeito em vê—lo.
Não quer me chamar de Dr. Lathram. Deve temer que alguém me reconheça e queira saber que melhoramentos fiz nele.
Duncan estendeu a mão e disse suas falas.
— Estou esperando alguns parentes de fora da cidade. Prometi mostrar—lhes os pontos turísticos... vou me transformar num guia turístico. Você conhece a rotina, tenho certeza.
Suas obturações brilharam ao sol.
— Com toda certeza.
Casualmente, Duncan enfiou a mão no bolso do blazere tocou o volume oblongo dopager. Sentiu o suor concentrando—se nas axilas. Estava perto agora, mas queria ficar mais perto ainda. Só para ter certeza.
— Está com ótima aparência, Kent. As câmeras lá embaixo vão amar você.
—Mas nem de perto tanto quanto você as ama.
Não se preocupe, deputado, pensou Duncan. Não comentarei sobre sua lipoaspiração.
Mas ele não podia resistir a torcer um pouco mais o parafuso.
— O que faz você parecer tão jovem?
O sorriso de Allard retornou, mas agora visivelmente forçado.
— O sono dos justos. Seu filho da puta.
— Devo experimentar isso uma hora dessas.
Ambos riram. Duncan ligou o pager e ele começou a apitar. Tirou—o do bolso. Um modelo antigo, maior que os mais recentes. Olhou para a tela de mensagem em branco, tentando lutar contra o tremor da mão.
— Parece que alguém está me chamando no meu trabalho. Preciso encontrar um telefone e ver o que querem.
Passou entre Allard e os auxiliares, ficando a alguns centímetros do deputado.
Isso é o mais próximo que vou conseguir chegar, pensou.
Seu dedo achou outro botão no pager. O botão especial. Mas ele hesitou.
Depois que o pressionasse não haveria volta.
Velhos questionamentos assaltaram—no outra vez. Estaria indo longe demais? Aquilo valia realmente o risco? E se me pegassem? E o mais perturbador de tudo: essas eram as ações de um homem com pleno domínio sobre suas faculdades mentais?
Então lembrou do que Allard participara havia cinco anos... e de seu comentário sobre o sono dos justos.
Duncan pressionou o botão.
Dessa vez opager não emitiu som algum, mas Duncan o sentiu vibrar na palma da mão.
Allard tremeu e esfregou a coxa esquerda.
— Boa sorte com o pessoal da TV, Kent—disse Duncan. — E pense numa jovem de dezoito anos chamada Lisa.
— Perdão? — disse Allard.
— O nome dela era Lisa. Não se esqueça disso. Quero que esse seja seu último pensamento coerente.
Ele se virou e quase esbarrou numa jovem de cabelos negros.
— Gina!
Gina tentou falar, mas a voz ficou presa na garganta. Não apenas devido ao choque de ver Duncan nos degraus do Capitólio, mas do olhar no rosto do médico quando ele deu as costas ao deputado Allard. Olhos frios como gelo, duros como cobalto, cheios de uma fúria e um ódio tão intensos, que Gina achou que saltariam de suas órbitas. Nunca na vida Gina vira uma expressão intensa como aquela. Por um instante achou que estava encarando um estranho, um selvagem.
De repente a expressão desaparecera. Assim que ele falou o nome de Gina, seu rosto mudou, metamorfoseando—se no Duncan Lathram que ela conhecia.
E então Gina pôde falar.
— Duncan! Você é a última pessoa que eu esperava ver aqui. Ele encarou—a durante alguns segundos. Quando finalmente falou, a voz estava fria, distante.
— Eu poderia dizer o mesmo sobre você... até ontem. Há quanto tempo está parada aqui?
Ela chegara no começo da manhã ao Edifício Raybur para a reunião e soubera que o deputado Allard se atrasaria um pouco devido a uma entrevista que daria à TV Em vez de esperar, Gina optara por atravessar a avenida Independence para assisti—lo ao vivo.
Mantendo uma distância discreta do grupo de congressistas, Gina reparara num homem parecido com Duncan, mas não pôde ter certeza porque ele estava de costas, e além disso, o que Duncan estaria fazendo ali? Ela se aproximara e estivera quase em cima dele quando ele se virara e os dois tinham ficado frente a frente.
Fazia quanto tempo estava parada ali? A resposta parecia muito importante para ele. Muito importante.
O bastante para ouvir você dizer uma coisa muito estranha, pensou ela.
— Apenas alguns segundos. Mas o que você está fazendo aqui?
— Eu? —Ele olhou em volta.—Eu adoro aárea do Capitólio... o Mall... os monumentos... é tudo muito bonito.
— Sabendo o que você pensa dos políticos...
— Digamos apenas que considero o Capitólio uma bela mansão infestada de cupins e toda sorte de vermes. — Seus olhos fixaram—se nos dela. — E você? O que está fazendo aqui?
A pergunta que ela estava temendo.
— Eu... bem, tenho uma reunião marcada com o deputado Allard esta manhã.
Ele fez uma careta.
— Você quer trabalhar no gabinete dele?
— Trabalharei no gabinete de qualquer um. Quero participar dessa comissão de qualquer jeito.
Duncan a fitou novamente.
— Sim. Sim. Estou vendo que quer. Por que não mencionou isso antes?
— Você não me deu chance.
Ele fez um suave som gutural e olhou para o velho pager na mão — umpagerjurássico, com pelo menos quinze centímetros de comprimento.
Estranho, pensou ela. Não notara Duncan carregando umpager. Ele não costumava atender chamados de emergência, mas ela achava que sempre havia a chance de uma complicação pós—cirúrgica.
De repente Duncan pareceu apressado. Ele começou a falar rápido.
— Quero conversar uma coisa com você, Gina, mas tenho de dar um telefonema, e esta não é a hora nem o local. Vejo você no meu escritório depois do almoço esta tarde. Pode estar lá?
... uma coisa para conversar com você... Ela não gostou da forma como ele disse isso.
— Acho que sim.
— Bom. Vejo você depois.
Ele se virou e caminhou até uma das portas na ala sul. Gina o observou durante alguns segundos e então voltou a atenção para onde o deputado Allard continuava conferenciando com os auxiliares. As idades somadas dos três homens provavelmente excediam em muito pouco a de Allard, mas eram eles que falavam o tempo todo. Penteados impecáveis, ternos caros, rendas com seis algarismos ou quase isso para muitos dos auxiliares mais experientes, e uma aura de "estamos onde o dinheiro está".
Muitos dos ratos do Capitólio que ela conhecera pareciam adotar esse jeito depois de alguns anos no trabalho. Gina prometeu — jurou — que aquilo jamais aconteceria com ela.
Sem dúvida, estavam repassando seus comentários antes de Allard ficar diante da câmera.
Enfim ele pareceu preparado. Assentiu para os auxiliares, arrumou a gravata, ajustou o paletó, ajeitou o topete e começou a descer os degraus.
Gina chegou um pouco para a direita, de modo a ter uma ampla visão dos degraus. Observou Allard descer num ângulo na direção da câmera e do repórter, que o aguardavam. Seus movimentos foram suaves e fluidos durante os dois primeiros lances da escada. Súbito, Allard parou.
Esfregou os olhos, balançou a cabeça como se para clarear os pensamentos, e prosseguiu. No alto do último lance de escada, Allard parou novamente.
Um sinal de alerta soou no cérebro de Gina. Algo estava errado.
Allard se apoiou no corrimão de bronze e pressionou a mão sobre os olhos. Mesmo dali Gina pôde ver que a mão dele estava tremendo.
Ele abaixou a mão e começou a cambalear. Segurou o corrimão e se virou para olhar o Capitólio. Sua expressão era de terror. Parecia perdido, confuso, como se não soubesse onde estava. Tentou dar um passo para a esquerda, mas cambaleou para trás.
Deus, ele vai cair.
Allard agitou os braços em busca de equilíbrio, e os auxiliares gritaram e correram até ele. Mas Allard já estava tropeçando. Conseguiu se voltar para a frente mas não evitou a queda. Bateu contra os degraus de granito e começou a rolar.
Houve gritos da equipe de TV, enquanto a repórter corria até Allard. O cameraman seguiu— a, sem deixar de gravar um único instante. Dois policiais do Capitólio vieram correndo da outra extremidade dos degraus.
Gina já estava descendo quando o deputado Allard atingiu a base dos degraus e permaneceu parado ali, braços estendidos, o topete desgrenhado tapando a orelha esquerda. Vindos das três direções, os auxiliares, a equipe de TV e os policiais aproximaram—se dele.
Gina alcançou o grupo de curiosos que já se reunia em volta do deputado e forçou a passagem entre eles.
— Sou médica! Deixem—me passar!
As pessoas abriram caminho, e logo Gina estava ajoelhada ao lado de Allard. Ele caíra de costas, o rosto todo ensangüentado. Gina afundou os dedos indicador e médio no lado da garganta, procurando a carótida.
Encontrou—a, pulsando rápido, mas forte e regular. Viu que o peito do deputado subia e descia e pequenas bolhas de saliva saíam dentre os lábios ensangüentados, enquanto o ar fluía para dentro e para fora.
Pulso e respiração normais. Bom, mas parecia estar em choque.
— Tudo bem—anunciou ela aos curiosos. — O coração dele está batendo e ele está respirando. Não é preciso ressurreição cardiopulmunar. Mas se afastem. Ele pode ter sofrido dano vertebral. — Ela olhou em volta. — Alguém está chamando uma ambulância?
Um dos policiais do Capitólio apontou para um parceiro, que gritava no rádio.
— Está a caminho — disse ele.
Gina voltou a atenção para Allard. Não podia fazer uma avaliação neurológica ali, mas se tivesse de apostar, investiria num ataque cardíaco. Talvez ele tivesse empurrado um êmbolo até o cérebro.
Levantou a cabeça e viu uma pessoa parada na balaustrada ao longo do portal oeste, olhando para baixo. Gina piscou. Era Duncan. Não conseguiu decifrar a expressão dele. Ele ficou parado ali por um momento, então se virou e desapareceu de vista.
Duncan?, pensou ela. Não vai ajudar?