Implante
* 30
SEGUNDA—FEIRA
— Pronto, doutor.
O homem gorducho, com camisa do Guns n'Roses, estava de pé numa escadinha de alumínio no canto do escritório de Duncan. Apesar de exibir os primeiros sinais de calvície, Harry usava os cabelos presos num rabo—de—cavalo. Estava disfarçando o sensor que instalara na prateleira de cima da estante. Ao terminar, desceu e apontou para o aparelho.
— Conseguiria adivinhar que está ali?
Duncan examinou a prateleira. O sensor era uma pequeno retângulo marrom do tamanho de uma caixa de cigarros. Ele se mesclava perfeitamente com a madeira da estante, parecendo como se fizesse parte dela. As lentes da câmera pareciam algum tipo de bibelô de vidro.
Duncan assentiu, aprovando: — Apenas se eu soubesse onde procurar.
— Legal. Agora, fique parado um pouco. — Ligou o transformador na tomada à direita da pia.— Muito bem. Mova os braços.
Duncan moveu os braços e viu uma lâmpada vermelha piscar no sensor.
— Sorria, você está na câmera indiscreta — disse Harry.
— E aquela luz ali?
— Significa que o aparelho captou movimentos. Você ativou o circuito.
— Sim, mas a lâmpada aparece. Quero uma vigilância invisível, Harry.
Elimine a luz.
— Sem problema.
Duncan tomou o café matinal, enquanto Harry subiu novamente a escadinha de alumínio e começou a assobiar alguma coisa enquanto abria o detector de movimentos.
Harry parecia amar seu trabalho. Por que não? Duncan estava pagando—lhe muitíssimo bem para que se divertisse com seu passatempo preferido.
Duncan lembrou como Harry ficara empolgado quando ele o desafiara a miniaturizar um transdutor de ultra—som. O trabalho levara semanas, mas os honorários que Duncan pagara haviam sido mais que compensadores.
Em compensação, essa pequena tarefa era uma moleza.
Duncan dissera a Harry que estava desconfiado de que um de seus funcionários estivesse cometendo furtos. Dissera que tinha idéia de quem era o responsável, mas queria pegá—lo em flagrante. O que era verdade.
Queria ver se Gina tentaria de novo.
Harry comentou que aquilo era engraçado. Sim, o que há com as relações de trabalho hoje em dia, que você precisa pegar alguém com a mão na massa antes de mandá—lo para o olho da rua?
A solução de Harry: uma câmera de vídeo ativada por um detector de movimento.
— Perfeito — disse Harry, descendo novamente da escada.
—A lâmpada está desativada. Agora, lembre—se que você só quer que esta coisa ligue quando você não estiver na sala. Se esquecer de desligar o detector, terá que se assistir todos os dias durante horas, sentado à mesa, fazendo café ou qualquer outra coisa. " — Provavelmente qualquer outra coisa. Em geral trabalho quando estou aqui.
— Legal—disse Harry, enquanto pousava um dedo sobre o transformador.
—Veja estes dois botões. Este desliga, este liga. Quando sair, deixe ligado. Isso armará o sensor. Daí em diante, qualquer movimento que ocorrer na sala será captado pelo sensor, que ligará a câmera. Quando você assistir à fita, a hora que ocorreu a gravação aparecerá no canto da imagem. Fixei lentes grandes—angulares na câmera, para que você possa ver tudo que aconteceu na sala.
— Legal—disse Duncan.
— Sabe, se você decidir que esse equipamento deva ficar aí de vez, posso conectar a câmera diretamente a um videocassete e...
— É só temporário, Harry. Pode ter certeza disso. E aqui está seu cheque.
Harry olhou a quantia, disse "legal" pela última vez, guardou as ferramentas e saiu.
Muito bem, meu lindo cisne, pensou Duncan, fitando o olho cego da câmera de vídeo. O próximo passo é seu.
Olhou as horas. Tudo corria como planejado. Harry chegara cedo e fizera o trabalho rápido, deixando Duncan com alguns minutos livres antes de se aprontar para a primeira cirurgia do dia.
Hoje os compromissos eram poucos: a maioria, pequenas cirurgias. O Dr. Van—Duyne chegaria ao centro cirúrgico por volta do meio—dia, e Duncan queria tudo em ordem quando fosse conduzi—lo junto com os demais numa visita guiada.
Apertou o botão de "liga", moveu um bule vazio na frente do transformador, e se dirigiu para a porta. Ao dar as costas para a câmera, os pêlos de sua nuca se eriçaram com o conhecimento de que acabara de acionar o sensor; sua saída estava sendo gravada.
Gina estava fazendo seu trabalho de transcrição o mais rápido que podia, para que pudesse seguir Duncan quando ele saísse. A julgar pela forma como ele parecera apressado ao realizar as operações da manhã, Duncan parecia decidido a acabar cedo. Mas depois de terminadas as cirurgias, não pareceu interessado em ir a lugar algum.
Gina estava descendo e subindo as escadas, ficando de olho no consultório de Duncan, preparada para pegar o casaco assim que ele desse sinal de que sairia. Mas Duncan parecia estar matando tempo. Em uma de suas rondas de vigilância, ela olhou para o estacionamento e viu o misterioso Dr. V e outros dois homens saindo de um carro cinza.
Então é por causa disso que ele ainda está aqui.
Vinte minutos depois, Duncan desceu com o trio para mostrar—lhes o primeiro andar.
— E estas são as regiões baixas. O laboratório de meu irmão e a nossa sala de registros.
Dr. V, o bonitão, parecia relaxado, mas os dois amigos engravatados eram tão tensos e sérios quanto bem vestidos. E eram intrometidos, também.
Ficaram o tempo todo examinando cada armário, cada compartimento, fazendo perguntas em voz tão baixa, que Gina não pôde escutá—los.
— Só estou mostrando nossas instalações a estes cavalheiros — disse Duncan a Gina ao passar com os três homens. — Não pare o que estiver fazendo por nossa causa.
Duncan não se deu ao trabalho de fazer apresentações.
Ela acompanhou o grupo até o segundo andar e observou os dois engravatados apontarem para as portas e janelas enquanto conferenciavam um com o outro. O que eram eles? Advogados? Contadores? Consultores de segurança?
Então os quatro, mais Oliver, entraram no escritório de Duncan e fecharam a porta.
O que estava acontecendo? Tinha certeza absoluta de que Duncan não estava à procura de novos sócios. Estaria ele vendendo o prédio? Ele não mencionara nenhuma intenção de se mudar. E por que esse Dr. V parecia familiar?
A curiosidade estava comendo Gina viva. Daria praticamente qualquer coisa para ser uma mosca e entrar naquele escritório agora.
Quarenta e cinco minutos depois os cinco saíram juntos. Durante algum tempo, ficaram no corredor, trocando cumprimentos. Os engravatados pareciam tão mal—humorados quanto antes. Duncan e o Dr. V estavam sorridentes, e Oliver quase não se continha de tanta felicidade. Depois que os visitantes se dirigiram para o estacionamento, Duncan retornou ao escritório, e Oliver veio caminhando apressado pelo corredor na direção de Gina.
— Isto é maravilhoso—disse ele ao se aproximar. As lâmpadas fluorescentes no teto refletiam nos óculos e na cabeça lisa de Oliver.
Estava sorrindo como um homem que tivesse acabado de ganhar na loteria.
—É tão maravilhoso!
— O que é, Oliver? O que está acontecendo?
— Não posso contar — disse ao passar por Gina. — Gostaria muito, mas não posso. Talvez outra hora.
Gina o observou desaparecer na escadaria e descer até o laboratório.
Nunca o vira daquele jeito. Teria ele fechado algum grande contrato para os implantes? Começou a seguir Oliver. Estava certa de que poderia arrancar algo dele.
Mas nesse momento Gina viu Duncan parado diante da mesa de Barbara, vestindo o casaco esporte. Estava falando, enquanto Barbara fazia anotações e balançava a cabeça. Em seguida Duncan saiu.
Gina correu até o vestiário, pegou o casaco e a bolsa e saiu correndo atrás dele. Deixaria para interrogar Oliver mais tarde.
— Ei, grandes notícias! — disse Barbara quando Gina passou por sua mesa.
— Teremos um fim de semana de três dias!
Gina retardou o passo.
— Quando?
— Esta semana. Estaremos fechados na sexta. O Dr. Lathram acabou de me dizer que todos teremos folga remunerada. Não é fantástico?
— É sim — disse Gina, voltando a andar depressa. — Fantástico.
Folga na sexta. Normalmente presumiria que Duncan tinha algum lugar para ir no fim de semana e queria um dia extra. Mas a decisão parecia ter sido tomada logo depois da reunião com o Dr. V e os engravatados. Por quê?
Não foi surpresa quando a mercedes de Duncan tomou uma direção contrária à do clube de golfe, mas Gina estava completamente despreparada para o rumo que ele seguiu através da cidade. Leste, em seguida descendo a Connecticut, passando pelo bairro Adams Morgan até o Círculo Dupont.
Dali ele pegou a Massachusetts Avenue.
Ele está indo para o Capitólio, pensou Gina, mas Duncan passou direto pela Union Station e continuou na direção da região sudeste. Ali, a Mass Avenue era ladeada por casas de dois ou três andares, pintadas de vermelho, amarelo, azul, verde e até laranja. Era uma vizinhança degenerada. Em algumas esquinas, Gina viu maltrapilhos bebendo de garrafas em bolsas de papel. Gina receou parar nos sinais vermelhos. E
ela estava num carro usado, um modelo compacto americano de três anos.
Ali, a mercedes de Duncan se destacava como um iate de luxo em meio a uma frota de canoas. Mesmo assim, ninguém parecia importunar nenhum deles.
O que estava acontecendo? Duncan era tão esnobe, que Gina não conseguia imaginá—lo ali, entre os pobres.
Então chegaram ao final da Mass Avenue e, ao avistar o D.C. General Hospital, Gina compreendeu tudo. Seguiu Duncan ao longo da autopista sinuosa até o complexo de cerca de uma dúzia de prédios de tijolo e estuque, passou em frente ao centro de tratamento e chegou a um estacionamento privativo — "Restrito a Pessoas Autorizadas" alertava a placa. Enquanto Duncan entrava no estacionamento privativo, Gina seguiu até o estacionamento de visitantes, ao lado. Havia guardas uniformizados por toda a parte. Ali, a segurança parecia ser uma prioridade.
Viu Duncan caminhando apressado até a entrada dos médicos — um buraco retangular na parede de tijolos de um dos prédios. Como ela entraria?
Gina não pertencia à equipe. Mas podia fazer parecer que era.
Pegou o estetoscópio de reserva no porta—luvas, colocou o cordão com o crachá do Senado em volta do pescoço e seguiu Duncan.
Já demonstrara curiosidade em conhecer o D.C. General. O prédio de tijolos à sua frente era grande e com uma aparência de tribunal. Tinha oito andares na ala frontal, e seis na dos fundos. Era como se ele tivesse começado consideravelmente pequeno e sido aumentado aos poucos — uma ala aqui, mais alguns andares extras ali. Seria fácil perder—se naquele lugar.
Gina manteve o passo acelerado ao passar pelo guarda sentado numa cadeira ao lado da entrada. Sorrindo e acenando com a mão que segurava o estetoscópio, torceu para que o guarda não reparasse que seu crachá com foto não pertencia ao D.C. General.
O guarda sorriu de volta e assentiu com a cabeça. Em seguida voltou a ler o jornal.
Gina viu Duncan quinze metros à frente dela, descendo o corredor.
Aumentou ainda mais o passo para diminuir a distância entre os dois.
Sabia que se perdesse Duncan de vista, nunca o encontraria novamente naquele labirinto.
Seguiu—o por um curso tortuoso que terminou diante de uma fileira de elevadores.
Gina diminuiu o passo, hesitante. Se não entrasse naquele elevador com Duncan, iria perdê—lo. Nem sabia que andar procurar.
Só havia uma coisa a fazer. Gina guardou o crachá no bolso e dirigiu—se até ele.
— Duncan!—disse ela, cutucando—o no ombro.—O que está fazendo aqui?
Duncan se virou e se assustou ao vê—la. Algum sentimento brilhou em seus olhos. Surpresa? Raiva? Suspeita? Gina não estava certa. Talvez as três coisas. Independentemente do que fosse, o brilho sumiu num instante.
Ele sorriu.
— Gina! Jamais esperaria vê—la aqui!
O que não responde a minha pergunta, pensou ela. Sentiu o coração acelerar. O que ele faria agora?
— Vim visitar um colega de faculdade que é residente na hematologia. E você?
Duncan suspirou com tristeza, esfregando o queixo.
— Bem, eu não queria que ninguém soubesse disto. Se as pessoas começarem a comentar...
Meu Deus, Gina pensou. Ele está doente. Diagnósticos terminais, como câncer e Aids atravessaram— lhe o cérebro.
Ele suspirou novamente.
— Acho que é mais fácil explicar tudo a você.
Uma surrada porta de elevador se abriu à esquerda deles. Duncan empurrou Gina com gentileza, guiando—a na direção do elevador vazio.
— Vamos.
Duncan a levou até a clínica maxilofacial. Ali, enfermeiras cumprimentaram—no com sorrisos e pacientes sentados na sala de espera fitaram—no com olhos arregalados, sussurrando entre si enquanto apontavam para ele. Gina se sentou com Duncan numa sala de exames e observou maravilhada enquanto ele avaliava novos pacientes e inspecionava seu trabalho em consultas de acompanhamento.
O que mais impressionou Gina foram os pacientes que haviam sido operados por Duncan. Alguns agradeciam—no efusivamente, outros mal conseguiam expressar sua gratidão, mas todos o veneravam, quase se ajoelhando diante de Duncan para agradecer—lhe o que fizera por eles.
Finalmente o último paciente saiu, e Gina ficou sozinha com Duncan naquela sala apertada, observando—o redigir um relatório de progresso.
Então era aqui que ele vinha quando dizia que estava jogando golfe. Gina estava estarrecida.
— Duncan, por quê?
— Hum?—Ele levantou os olhos do último prontuário e fechou—o.
— Por que está aqui? Ele deu de ombros.
— Eu tinha algumas horas ociosas para preencher. É tedioso fazer apenas cirurgias embelezadoras. Gosto de fazer alguma coisa diferente de vez em quando.
— Mas esta é uma clínica gratuita, e você é Duncan "Pague adiantado e Eu Não Aceito Nenhum Plano de Saúde" Lathram.
Duncan abriu um sorriso triste. Ele meneou a cabeça.
— Nunca fiz isso por dinheiro. Nunca fiz pelo dinheiro.
— Então pelo que você faz?
— Algum dia vou lhe contar. Ainda não estou preparado. Gina engoliu sua frustração.
— Certo, então por que guarda segredo? Ele deu de ombros novamente.
— Quando abri meu centro cirúrgico proclamei aos quatro ventos que me limitaria apenas a cirurgias supérfluas e não aceitaria nenhum tipo de plano de saúde. No início isso foi agradável, mas logo se revelou limitante. —Ele olhou para outro lado. —A despeito de meus esforços homéricos, não pude resistir à necessidade de direcionar minhas habilidades para uma aplicação um pouco mais significativa.
— Um pouco? Duncan, isto que você está fazendo é maravilhoso. Estou orgulhosa de você.
Duncan olhou para Gina, e mais uma vez ela percebeu alguma coisa nos olhos dele. Algo diferente, agora. Quase como dor.
— Não se orgulhe tanto, Gina. Esta não é uma rua de mão única. Também tiro algum benefício disto.
Naquele momento Gina se sentiu muito próxima a ele. Lágrimas ameaçaram formar—se no canto dos olhos, mas foram inibidas pela vergonha. Como ela podia ter suspeitado que Duncan seria capaz de ferir alguém?
Queria abraçá—lo.
— Preciso ir—disse ela quando pôde confiar em sua voz.
— Vou levar você.
Duncan a guiou de volta até os elevadores. Ao descer, ela não pôde resistir a fazer mais uma pergunta.
— Então, quem eram aqueles homens a quem você estava mostrando o centro, hoje?
— Apenas algumas pessoas que queriam dar uma olhada.
— Está vendendo o lugar?
— Na verdade, não.
— Remodelando?
— Apenas queriam dar uma olhada.
— Oh, muito bem. Isso esclarece tudo.
Ele colocou o braço sobre o ombro de Gina e riu.
— Gina. Gina. Gina. Você sempre acha que precisa saber tudo. a vida é cheia de pequenos mistérios. E este é um deles, certo? —Ele riu novamente.
— Certo.
Ele conduziu—a até o carro dela, abriu a porta e acenou quando ela saiu.
Gina se viu dividida por emoções conflitantes. Sentia—se uma nadadora num mar de correntes caprichosas e violentas. Onde estava a terra?
Depois de pensar o pior de Duncan há poucos dias, agora descobria Duncan recuperando sua posição como seu herói. Era quase como... ela buscou uma comparação... quase como o Zorro. Para a maior parte do mundo ele se mostrava um esnobe, como o almofadinha Don Diego; mas para as pessoas pobres e desfiguradas da clínica maxilobucof acial do bairro mais miserável de Washington, era o ousado Dr. Duncan—Dr. Zorro —, que com sua lâmina prateada consertava o que estava errado.
Duncan provavelmente se divertia com o paradoxo: o indiferente e ganancioso cirurgião plástico dos ricos e poderosos que em segredo tratava os pobres e sem—teto numa clínica gratuita. Mas o que impressionava mais Gina era o segredo. A maioria das pessoas alardeava sua caridade. Duncan a mantinha oculta, como se isso o embaraçasse.
Encantador.
Duncan estava quase de volta ao seu pedestal de semideus. Quase. Estaria no pináculo do panteão pessoal de Gina se não fosse por aquele frasco de DTP escondido no escritório.
Aquele maldito frasco.
Afinal, tudo acabou saindo muito bem, pensou Duncan caminhando para o carro.
Mas ainda assim a situação era perturbadora.
O fato inescapável era que Gina o seguira até ali e ele não tinha a menor idéia de que ela estava em sua pista. A pergunta agora era: fazia quanto tempo ela estava em sua pista?
Não que isso realmente importasse. O que alguém poderia descobrir seguindo—o? Ele levava uma existência extremamente monótona, jamais se afastando muito de casa. Ele quase sentia pena de alguém que tivesse passado dias a espioná—lo.
Mas Gina ainda estava desconfiada o bastante para dedicar uma tarde inteira a segui—lo até o D.C. General, e isso era perturbador. E Duncan não tinha dúvidas de que ela o seguira. Não engoliu nem por um segundo aquela história sobre um velho amigo de faculdade, o tal residente de hematologia. O D.C. General não ficava numa vizinhança que atraísse visitantes ocasionais.
Ele sorriu enquanto saía do estacionamento para retornar para Chevy Chase. Mas há males que vêm para o bem. Como era o velho ditado? Quando alguém lhe der um limão, faça uma limonada.
Quando Gina o cutucou no ombro em frente ao elevador, Duncan lutara contra o impulso de deflagrar um ataque verbal contra ela, acusando—a de o estar seguindo, de estar invadindo sua privacidade. Uma parte mais sábia dele sabia que uma reação como essa seria prejudicial. Em vez disso, por que não contar a Gina o seu segredinho? Ele considerara que, como era tarde demais para expulsá—la dali, o melhor seria levá—la consigo.
E como tinha funcionado! Gina ficara completamente desarmada. Podia ver isso em seus olhos quando ela viu as fotos de "antes" e os "depois"
vivos que entraram no consultório.
E por que não ficaria desarmada? Faço um trabalho muito bom.
Bom trabalho... e boas ações. As pessoas não costumam ser recompensadas por suas boas ações? Até aqui havia sido assim. Ele encontrara satisfação em remover cicatrizes e consertar erros da natureza em pessoas que de outra forma não teriam chance de um tratamento adequado.
Mas hoje recebera uma recompensa inesperada. Sua participação altruísta na clínica amortecera, se não completamente anuviara, as suspeitas de uma jovem muito brilhante e muito intrometida.
Talvez o bem que os homens fazem não seja enterrado com seus ossos.
Mas não podia baixar a guarda. Ainda não. Não até depois de sexta.
E isso o fez lembrar da câmera de vídeo em seu escritório.
Duncan estava sozinho no escritório. O prédio encontrava—se vazio, o que era exatamente o que ele queria. Tirou a fita, colocoua no videocassete e apertou o botão de retrocesso. A máquina zumbiu e parou quase imediatamente. Bom sinal.
Apertou PLAY, e em seguida FFWD. Uma imagem distorcida, gravada com lentes grandes— angulares, apareceu na tela. Duncan se viu no escritório, saindo e fechando a porta. Depois Barbara entrou apressada e deixou alguns papéis sobre a mesa; em seguida, ela fez o mesmo com a correspondência; depois novamente com mais papeis. E então Duncan se viu, entrando na sala, folheando as cartas e papéis sobre a mesa. Era estranho observar—se em velocidade acelerada. Parecia um policial daquelas velhas comédias mudas da Keystone. Então se aproximou da estante, abaixo do campo de visão da câmera, esticou a mão e...
A tela escureceu. Aquele fora o momento em que desligara a câmera.
Muito bom, pensou, enquanto rebobinava a fita. Nenhum sinal de Gina.
Ninguém espionara seus pertences nem tentara novamente abrir a gaveta de sua mesa.
Torceu para ver resultados semelhantes sempre que assistisse a essa fita.
A última coisa que queria no mundo era machucar Gina.