Implante
* 24
ANTES DA CIRURGIA
Duncan se serviu da segunda xícara de café e colocou o bule sobre a mesa. Gostava de passar as manhãs de quarta entre as paredes silenciosas de sua clínica, especialmente quando, como hoje, poderia chegar cedo e ter o lugar todo para si. Sem nenhuma cirurgia marcada, podia dar—se ao luxo de beber lentamente o café, saboreando o aroma e o silêncio, enquanto observava a superfície do lago koi oscilar lentamente, em torno do jardim de pedras. Era o momento mais adequado para fazer o relatório e amarrar as pontas soltas dos procedimentos de segunda e terça. Depois, poderia ter o restante do dia para si mesmo.
Talvez ligasse para Brad e o convencesse a matar suas aulas da tarde — precisaria de cerca de
dez segundos para isso. Talvez pudessem jogar uma partida de golfe Não jogava golfe fazia milênios.
Pegou o controle remoto e o apontou para a TV do outro lado da sala.
Mudou da CNN para o Today, daí para o GoodMorning America e o This Morning, e por fim de volta para a CNN. Aparentemente, nada de importante acontecera no dia anterior, e os programas da manhã pareciam interessados apenas em astros e estrelas de cinema. A C—SPAN exiba imagens de arquivo de senadores fazendo longos discursos para uma câmara vazia em apoio ou em oposição a algum projeto de lei inconseqüente.
Era hora de ditar seus relatórios cirúrgicos. Tirou a chave do bolso e inseriu—a na fechadura. Ela não girou. Tentou novamente, empurrando a chave para a frente e para trás, para cima e para baixo. Verificou se era a chave certa, e então tentou de novo e reparou que a chave não estava indo até o fim. Havia alguma coisa errada com a fechadura. Por algum motivo, estava emperrada.
Mas que diabo acontecera? Ela não vinha prendendo ou dando qualquer sinal de que havia alguma coisa errada. Droga, que mundo! Ninguém fazia nada para funcionar a vida inteira.
Foi até a mesa de Barbara e agora gostaria que ela já estivesse ali.
Teria de chamar um chaveiro para abrir aquela porcaria. Poderia ligar ele mesmo, mas provavelmente era cedo demais. Pegou uma caneta e deixou um bilhete sobre a mesa de Barbara para ligar para um assim que pudesse.
Enquanto se virava, Duncan notou o manual do banco de dados da FDA sobre a mesa de Barbara. Provavelmente Oliver precisara dele. Pelo menos alguém estava usando—o para alguma coisa.
Saiu à procura de outro gravador.
Gina sentou—se de repente na cama.
— Ai, meu Deus!
Estivera deitada havia algum tempo, torcendo para conseguir relaxar e dormir. Não fizera nenhum plantão na noite anterior, não tinha nenhuma cirurgia marcada para hoje, nem compromissos com o senador até a tarde.
Seria uma manhã longa.
Mas as revelações da noite anterior tinham sobrevoado sua cama como urubus famintos.
O trocarte... a DTP... a informação sobre a FDA... pensara nessas coisas a noite inteira, tentando encontrar algum sentido nisso tudo... um sentido que inocentasse Duncan. Repassando mentalmente o que descobrira, lembrou—se de que baixara o arquivo da FDA. O arquivo "RFP"
que criara no disco rígido.
Não o apagara.
Gina saltou da cama e começou a vestir as roupas. Poderia escovar os cabelos no carro, mas não teria tempo para tomar banho. Tinha de chegar ao escritório e apagar aquele arquivo. Se Duncan o encontrasse, ou se Ohver o visse e falasse a respeito com Duncan, ficaria claro que Gina abrira a gaveta.
Pegou as chaves do carro e saiu correndo.
— Muito bem, doutor — disse o chaveiro. Ele era magro, aparentando ter uns quarenta anos, fedia a tabaco e tinha o nome Bill bordado na camisa de trabalho. — Está tudo direito.
— Excelente — disse Duncan, sem convicção. O homem demorara uma hora para fazer um trabalho de quinze minutos.
Não fora fácil, mas depois de vinte minutos de resmungos e imprecações murmuradas, Bill finalmente conseguira abrir a gaveta. Duncan ficara de olho nele o tempo inteiro, e assim que o homem abrira a gaveta, Duncan removeu o frasco de DTP e o trocarte e colocou—os em um dos armários do outro lado da sala. Nenhum dos dois objetos faria qualquer sentido para o chaveiro, mas Duncan queria mantê—los em segurança e fora de vista.
Quanto ao restante dos pertences que havia na gaveta, colocara—os sobre a mesa.
Bill levou a gaveta vazia para o caminhão, esclarecendo que poderia trabalhar melhor lá. Duncan imaginou que lá ele também poderia acender um cigarro.
E então, depois de um período interminável, Bill estava de volta.
— Tive de pôr uma nova fechadura.
— Qual foi o problema com a antiga?
— Eu quis saber a mesma coisa. Tive de tirá—la para descobrir. Um pouco estranho.
Por que o homem estava hesitante?
— Como assim?
Ele enfiou a mão no bolso e pegou um pedaço de fita Scotch. Deixou—o cair sobre a mesa em frente a Duncan.
— Isto estava nele.
Duncan pegou a fita, um único pedaço, dobrada. Entre as duas superfícies grudentas havia uma pequena farpa de metal.
— Como isso foi parar na minha fechadura?
— Alguém deixou nela.
— Espere aí, como...?
— Não de propósito. Parece a ponta quebrada de uma barra de tensão.
— Uma barra de tensão?
— Você sabe. Uma coisa que se usa para abrir fechaduras. Não, Duncan não sabia. Ficou olhando para Bill, enquanto sentia o coração começar a bater mais depressa. Deixou cair a fita, e então a tirou da mesa. Esse homem tinha dito...?
— O quê?
A expressão de Duncan deve ter sido feroz, porque Bill começou a gaguejar.
— Não posso ter certeza, claro, mas foi a primeira coisa que pensei quando vi esse pedaço de metal cair do cilindro.
— Mas isso é ridículo!
Duncan percebeu que elevara a voz. Não fora sua intenção fazer isso.
— Ei, tudo bem — disse Bill, fazendo movimentos conciliatórios com as mãos. Não fique nervoso. Para mim não faz diferença. Se não perdeu nada, então acho que estou errado. Mas isso realmente parece a ponta de uma barra de tensão.
A mente de Duncan repassou uma lista do conteúdo da gaveta. O frasco de DTP, o trocarte, a foto de Lisa, o gravador e um monte de bobagens.
Tudo estava lá quando abrira a gaveta.
Duncan modulou o tom de voz.
— Bem, não estou sentindo falta de nada. E não guardo aí nada que valha a pena roubar. Acho que isso significa que a fechadura não foi arrombada.
Bill deu de ombros, evitando encarar Duncan.
— Talvez. Pode ser também que a barra de tensão tenha se quebrado e o fragmento tenha emperrado a fechadura antes da pessoa conseguir abrir a gaveta.
Duncan estremeceu. O homem estava certo. Mas quem poderia...?
— Sim, mas como nada está faltando, acho que vou apenas esquecer o assunto. Mas estou muito satisfeito por você ter trazido o fato à minha atenção.
— Ora, não foi nada.
Quando Bill saiu, deixando um jogo de chaves para a nova fechadura, Duncan foi até o armário e examinou o frasco de DTP. Não memorizara o nível de fluido no frasco, mas parecia inalterado. O trocarte ainda estava embalado em plástico transparente. Colocou os dois objetos de volta na gaveta e trancou—a. Em seguida recostou—se na cadeira e sentiu o coração bater mais devagar enquanto ele se acalmava.
Muito bem. Sejamos racionais. Muito estranho. E muito perturbador. Mas onde estava a razão lógica para qualquer um tentar pegar isso na gaveta—e, principalmente, arrombar a fechadura?
E havia algum motivo real de preocupação? Mesmo se alguém tivesse descoberto sobre a DTP, o que poderia fazer com esse conhecimento? A pessoa não teria como saber que substância era essa. A DTP era um composto órfão e abandonado. O único registro de sua existência estava nos arquivos mortos da GEM Pharma, e nos bancos de dados cavernosos da...
FDA.
Deus!
Duncan saltou da cadeira e correu para a recepção.
— Barbara! Você usou o banco de dados da FDA ontem?
— Não, eu...
— Vi o manual sobre sua mesa hoje cedo.
Ela recuou um pouco, olhando estarrecida para Duncan. Sem querer, ele falara com Barbara num tom ríspido.
— Eu... eu o emprestei à Dra. Panzella ontem. Ela me pediu o manual e o entreguei a ela.
Duncan estava estupefato. Gina?
— Não há nenhum problema nisso, há, Dr. Duncan? Gina?
— Quê ? Não há problema nenhum.—Era hora de um pouco de controle de danos.—Eu estava apenas procurando por ele. Preciso usá—lo... preciso de alguns dados da FDA.
Barbara entregou o manual a Duncan e ele retornou ao seu escritório, balançando a cabeça. Imagine só, Gina tentando arrombar uma fechadura!
Absurdo. Ridículo.
Mas mesmo assim...
Certamente tinha acesso e oportunidade. Mas, por que faria isso? Não, era impossível.
Mas, mesmo assim...
A fechadura aparecendo danificada e Gina pedindo o manual da FDA... as duas evidências se encaixavam bem demais.
Duncan retornou para a escrivaninha e ligou o terminal do computador.
Talvez houvesse alguma forma de descobrir o que ela estivera procurando no banco de dados da FDA.
Gina empertigou—se atrás do volante ao ver o carro de Duncan no estacionamento. Não que fosse incomum ele estar ali numa quarta de manhã, mas Gina estivera torcendo e orando para que Duncan já tivesse ido embora a essa altura.
Bem, não podia deixar que isso a detivesse. Saltou do carro e correu para a entrada dos fundos.
Se alguém perguntasse por que estava ali, Gina teria de usar a velha desculpa, embora ainda não usada, de "esqueci meu crachá do Senado". O
procedimento levaria dez segundos: acessar o disco rígido, deletar o arquivo com os dados da dietilamida triptolínica e sair correndo como uma doida.
Simples.
Deus, era melhor que fosse.
Duncan acessara o banco de dados da FDA, mas isso não o ajudara em nada.
Não havia como saber o que Gina fizera. Ele até mesmo telefonara para a FDA, mas três atendentes diferentes não tinham a menor idéia de como ajudá—lo.
Muito frustado, ele saiu do programa e se recostou na cadeira, olhando para o C—prompt do computador. Não havia como saber... mas e se não houvesse nada para encontrar? E mesmo se Gina tivesse procurado pela DTP, provavelmente não achara nada. Anos atrás, o próprio Duncan tentara e penara muito até conseguir. E ele sabia onde procurar. Além disso, se Gina encontrara o arquivo e simplesmente lera a informação na tela, não haveria nenhum rastro a seguir. Só se tivesse baixado o arquivo...
Duncan se empertigou na cadeira.
Ela pode ter baixado o arquivo! Nesse caso, Gina deve ter criado um novo arquivo. É preciso nomear os dados que se deseja receber antes que possam ser gravados no disco rígido. Duncan digitou DIR/O:D e deu enter. O conteúdo inteiro do disco rígido, cada diretório e arquivo livre, subiu pela tela a uma velocidade ilegível. Sem problema. Se Gina tivesse baixado diretamente para o arquivo rígido, ele o encontraria ali, em algum lugar próximo ao fim da lista. Se ela tivesse enraizado o arquivo em um dos diretórios, Duncan teria de procurá—lo diretório por diretório. E se ela tivesse apagado o arquivo... então Duncan estava apenas perdendo tempo.
E como reconheceria esse arquivo, afinal? Será que ela o teria nomeado DTP? Dificilmente.
E de repente lá estava ele, no fundo da tela. O último arquivo, "RFP", seguido pela data do dia anterior.
Regina E Panzella. Ele esquecera o que significava o E, mas isso não vinha ao caso. O que estava no arquivo?
Ele digitou TYPE RFP e observou as linhas subirem pela tela. Quando o arquivo parou de subir, ele leu a última linha.
CONDIÇÃO ATUAL: Investigações adicionais da dietilamida triptolínica descontinuadas.
Não! Duncan cerrou os olhos. Não queria ter visto aquilo.
Deslizou com a cadeira para longe da escrivaninha, levantou—se e caminhou pela sala, virando—se para um lado e para o outro com movimentos ríspidos. Não conseguia ficar parado. Era como se houvesse uma força invisível nas suas costas, impelindo—o pelo escritório. Gina arrombara sua gaveta! Como ela tivera coragem? Porque fizera isso?
Essa era a questão mais enervante. Porquê? Não tinha como suspeitar de nada. Ele tomara todos os cuidados. Ele usara um sistema ainda em estágio experimental para introduzir uma droga cuja existência ninguém conhecia. O motivo tinha de ser outro.
O quanto ela sabia?
Obviamente ela sabe sobre a DTP. Mas o que mais?
E como descobrir? Ele não podia simplesmente chamar Gina e perguntar a ela.
Sua peregrinação levou—o até a porta e ele ouviu Barbara despedir—se de alguém. Subitamente, ele teve de saber quem. Sua privacidade fora violada. Sua pequena fortaleza havia sido invadida. Ele queria o nome, posto e número de série de qualquer um que entrasse em sua clínica.
Enfiou a cabeça pelo vão da porta.
— Quem era? Barbara se voltou.
— A Dra. Panzella.
— É mesmo?—Ele manteve um ar de calma enquanto alarmes soavam—lhe na cabeça. — Eu não sabia que ela estava aqui.
— Ela acaba de chegar. Veio pegar alguma coisa que esqueceu ontem.
Seu conjunto de ferramentas? Duncan se perguntou enquanto meneava a cabeça. Fechou a porta.
O que Gina estava fazendo agora? O que ela estava fazendo ali em seu dia de folga? Espionando mais algum assunto confidencial?
Duncan cerrou os punhos.
Atraiçoado. Por Gina.
Ele queria socar alguma coisa.
Salvei sua vida, menina.
Como ela pudera? E o que estava fazendo agora?
Um pensamento ocorreu a Duncan. Retornou ao seu terminal e rodou novamente um DIR no disco rígido. O diretório subiu pela tela rápido como antes, mas acabou num ponto diferente.
Nenhum arquivo "RFP".
Ela devia ter lembrado que deixara o arquivo no disco e voltara para cobrir as pistas. A pequena ingrata. O que ela queria? E o quanto ela sabia!
Precisava obter respostas. E logo. Antes da quinta—feira.