Implante
* 6
CAFÉ
Gina só voltou ao centro cirúrgico quando já era quase meio—dia. Ficara ao lado do deputado Allard até os paramédicos chegarem. Observou—os cobrir o rosto de Allard com bandagens, amarrá—lo numa maca e colocá—lo na ambulância antes de saírem com a sirene até o G. W. Medicai Center.
Gina passou no gabinete de Allard para comunicar o que acontecera, e depois de dar todos os detalhes, ficou passeando pela área do Capitólio, pensando, pensando...
Duncan agira de forma muito estranha naquela manhã, e não mostrara a menor preocupação com o estado do congressista, que não era um desconhecido, mas um de seus pacientes.
E quem era a tal Lisa de quem ele falara para Allard? Aquilo parecera um contra—senso.
Pegou a Red Line do metrô até Friendship Hights e prosseguiu o restante do caminho a pé, ainda pensando, ainda imaginando.
Assim que chegou ao centro cirúrgico, Gina ainda não tinha uma resposta.
— Ele disse que queria me ver — disse a Barbara ao parar na mesa da recepção.
— Ele mencionou isso, mas no momento está tendo uma reunião com outro médico. Ordens estritas para não perturbar.
— É mesmo? Alguém que conhecemos? Barbara encolheu os ombros.
— Tudo que ele me disse foi para não ser interrompido durante meia hora, enquanto ele estiver com o "Dr. V.". Agora você sabe tanto quanto eu.
Mas o "Dr. V." é muito atraente. —As sobrancelhas de Barbara oscilaram enquanto a voz adquiria um tom parecido com o de Mae West. — Esta é a segunda visita dele, e espero que não seja a última.
Por que tanto mistério quanto ao nome? Um médico interessado em submeter—se a cirurgia plástica, talvez? Gina deu de ombros. Não era de sua conta.
— Diga—lhe que estou aqui.
— Vou avisá—lo.
Minutos depois Gina estava sentada no laboratório do subsolo, de frente para a mesa de trabalho de Oliver, observando—o preparar cerca de uma dezena de implantes para a cirurgia do dia seguinte. Ela já chegara ao trabalho com dor de cabeça, e agora o cheiro residual de solventes, somado ao brilho das lâmpadas fluorescentes, conspiravam para torná—la ainda pior. Ela deveria estar trabalhando com Oliver, aprendendo sua técnica, mas não conseguia concentrar—se.
Ela estava com o queixo pousado nas mãos e os cotovelos apoiados na mesa preta. Sentia— se tonta, como se alguém tivesse sugado toda sua energia... a ressaca dos acontecimentos da manhã, mais a certeza de que Duncan iria despedi—la.
— Ele não vai despedir você — disse Oliver.
Gina olhou para ele. Oliver estava parado, com os cotovelos apoiados na mesa, enquanto enchia os implantes com as mãos gorduchas. Ela sentiu simpatia sincera no rosto redondo e pálido e nos olhos azuis por trás das lentes grossas com aro de tartaruga. Era difícil crer que ele e Duncan compartilhavam da mesma herança genética.
— Como pode ter tanta certeza?
— Ele tem estado irritadiço ultimamente. Desde que reabriram aquela comissão.
— Qual é o problema entre ele e a comissão?
— Bem, anos atrás ele teve alguns problemas...—Oliver perdeu subitamente a voz.
— Que tipo de problema?
— Nada. Esqueça que falei isso.
Gina não esqueceria coisa alguma. Principalmente depois dos eventos daquela manhã. Mas uma questão em particular não lhe saía da cabeça.
— Tudo bem. Diga—me uma coisa, então: Quem é Lisa?
— Lisa?
— Sim. Hoje de manhã ouvi Duncan mencionar alguma coisa sobre Lisa.
O implante que Oliver estava enchendo desmanchou de repente.
— Eu... Eu não sei. Duncan tinha uma filha chamada Lisa.
— Tinha?
— Sim, bem...
O telefone tocou. Oliver atendeu.
— Ela está aqui — disse, passando o telefone para Gina. A voz de Duncan: — Gina, por favor, venha ao meu escritório. Gina sentiu a boca ficar seca.
— Certo.
O telefone foi desligado do outro lado. Aquilo em si não indicava nada — Duncan raramente dizia alô ou até logo ao telefone — mas aquilo deu um nó nas entranhas de Gina.
— Ele me chamou.
Oliver sorriu.
— Está vendo? Ele já está calmo.
— Eu não teria certeza absoluta disso.
— Se você quiser, falarei com ele.
— Obrigada, mas prefiro lidar sozinha com isso.
Com os nós nas entranhas ainda mais apertados, Gina se levantou e caminhou até o escritório de Duncan. A coisa era séria. Ela já estivera no escritório dele muitas vezes, mas em geral muito rápido, antes de uma cirurgia, para discutir algum problema importante com um dos pacientes. Essa era a primeira vez que realmente a chamava para ir até o escritório dele.
Ele vai me demitir.
Em termos financeiros, aquilo não seria uma catástrofe. Duncan não lhe pagava nenhuma fortuna, e ela sempre podia fazer um turno extra como plantonista no Lynnbrook. Mas ainda assim...
Engoliu em seco.
Demitida... sempre seria difícil ser demitida por qualquer um de qualquer emprego. Mas ser chutada por Duncan Lathram...
Devastador.
Mas ela não voltaria atrás. Não enquanto estivesse convicta de que fazia a coisa certa. Mas como explicar isso a ele? Pelo que podia ver, os dias em que os médicos poderiam se concentrar apenas em seus pacientes e ignorar o que acontecia em Washington eram passado. Estavam extintos, como os dinossauros.
Para o bem dos pacientes, e também o seu, os médicos precisavam envolver—se no processo. E qualquer médico que pensasse de forma diferente seria um dinossauro, já extinto, mas ignorando o fato.
Claro, pensou ela. Era isso. Diga a Duncan que ele é o melhor cirurgião vivo, mas que é um dinossauro. E que ela não será igual a ele.
Gina forçou um sorriso ao se aproximar da mesa de Barbara.
— Ele está me esperando.
— Eu sei — disse Barbara. — Ele me avisou que não atenderia nenhum telefonema.
Oh, fantástico.
Gina hesitou à porta, e então a abriu.
O escritório de Duncan era espaçoso, com uma grande janela de vidro ocupando a parede do fundo quase inteira. Lá fora, os últimos raios do sol da manhã ainda banhavam o jardim oriental de pedras e o lago koi.
Pouco se via do branco das paredes; os locais onde não havia estantes de mogno, cheias de livros de medicina e periódicos médicos, estavam cobertos com placas, diplomas e certificados de especialização. Na frente da janela havia uma mesa grande e velha, quase uma antiguidade.
Um tapete persa de aspecto glorioso cobria parte do assoalho de tábua corrida.
No lado direito da sala havia um armário feito sob medida para caber no canto. Duncan estava parado diante do armário aberto, de costas para ela, concentrado em alguma coisa.
Ao ouvir a porta bater, virou—se um pouco para Gina.
— Ótimo. Você chegou na hora certa. —Acenou para ela. — Venha ver isto.
Um pouco aturdida pelo cumprimento casual — parecia um desconhecido desde aquela manhã—e mais que um pouco insegura, Gina obedeceu. Ao se aproximar, ouviu um ruído contínuo, como de um moedor elétrico. Quando chegou ao lado de Duncan, Gina ficou estupefata ao ver o que ele estava fazendo.
Café moído.
— Acabei de receber estes aqui. La Minita Tarrazu da Costa Rica. Uma excelente safra de grãos.
Derramou o café moído na abertura aberta de um funil de cromo no topo de uma jarra de vidro.
Gina não viu nada branco dentro do funil.
— Esqueceu o filtro.
— Não se preocupe. Está aqui. Uso filtro de malha de ouro. O papel absorve muitos dos óleos que conferem paladar ao café. Lembre—se disso.
Sempre use um filtro de ouro. E aqui está mais uma coisa para lembrar.
—Abriu o pequeno forno de microondas à esquerda e removeu uma xícara de meio litro, cheia de água quente. Pegou duas colheres de sopa de água e verteu—as pelo funil.
"Sempre lave os grãos antes. Dê—lhes trinta segundos para inchar e depois acrescente o restante da água. Mas não água fervendo.
Você não quer café escaldado. Leve a água para ferver e deixe—a assentar durante um minuto. Em seguida, derrame a água sobre os grãos úmidos. Mas não qualquer uma. Use água mineral. Não aquela porcaria cheia de química que sai da pia.
Esvaziou a xícara no funil e então esfregou aos mãos em antecipação.
— Prepare—se para uma verdadeira experiência, Gina. Possivelmente a melhor xícara de café do mundo. —Voltou—se para ela. —Alguma notícia do escritório de Marsden?
— Não. Eu não estou tão enlevada quanto às minhas chances. — Enlevada?
Ela nunca tinha usado essa expressão. Devia ser influência de Duncan.
—Acho que não lhe disse, mas minha entrevista não foi com o senador Marsden, e sim com chefe de gabinete dele. Mas nós não nos afinamos.
— Barrada pelo sátrapa do senador, hein? E aposto que você também não teve chance de impressionar Allard.
— Não. Ele sofreu uma queda horrível. Teve sorte de estar inteiro quando bateu na calçada.
— — Bem diante das câmeras de TV A CNN não passou outra coisa a manhã inteira. Coitado.
Coitado? Ele estivera lá, observando, e não ajudou. Ou ele não queria admitir isso?
— Ele sofreu algumas lacerações faciais graves. Há uma boa chance de ele fazer uma plástica com você.
— Ele pode economizar os centavos dele. Você já deve ter percebido que não opero pessoas que precisem de cirurgia, apenas as que queiram isso.
A propósito, desculpe por minha explosão ontem de manhã. Você não merecia aquilo.
O mesmo que: Oh, a propósito, desculpe por quase ter—lhe causado um ataque cardíaco.
Mas o alívio foi imediato. Os músculos tensos dos ombros e da parte de trás do pescoço de Gina começaram a relaxar.
— Quer dizer que não estou despedida? Ele riu.
— Deus do céu! Claro que não! Mas preciso ter uma conversinha com você.—O sorriso de Duncan sumiu.—Quero saber por que uma jovem talentosa e brilhante como você quer se envolver com os Harold Vincents e Kenneth Allards da vida. Oh, Deus, ela pensou ao respirar fundo.
Lavamos nós.
— Alguém tem de fazer isso, Duncan. Quando os políticos querem saber o que está acontecendo com médicos e saúde, veja a quem perguntam: companhias de seguros, executivos da American Medicai Association, médicos da rede pública, médicos aposentados, quem estiver disponível.
Duncan fez uma careta de desgosto.
— Ou pior ainda: Samuel Fox.
Gina assentiu, lembrando do quanto rira com os amigos residentes dos comentários asnáticos de Fox durante um debate com Donahue há alguns anos. Mas seu talento para as relações públicas garantira aos seus livros e press releases alarmistas uma posição de credibilidade perante o Congresso.
— Isso mesmo. O congresso coleta informações com médicos que não exercem a medicina.
— Faz sentido — disse Duncan. — Os médicos de verdade estão nas trincheiras. Eles têm muitas pessoas doentes nas mãos para dispor de tempo de passear pelo Capitólio.
— Verdade. Mas isso precisa mudar. Duncan levantou o queixo ao olhar para Gina.
— Porquê?
— Porque o governo está de olho no atendimento médico. O grande pacote de reformas não decolou, mas isso não significa que o governo tenha desistido. Elevai continuar tentando aos poucos, o velho método de fatiar salame. Nada vai detê—lo.
Duncan suspirou.
— Sim, eu sei disso. Não me entenda mal. Não me oponho a todos terem algum tipo de cobertura. Odeio pensar que qualquer pessoa, em especial uma criança, possa não ser tratada com competência. Mas abomino a idéia da caquistocracia planejar e administrar o programa, impondo diretrizes para as decisões médicas que deveriam ser discutidas apenas entre médico e paciente. — Sua voz assumiu o tom de um anunciante de TV — "E agora, dos mesmos realizadores dos escândalos de Watergate e Irã—contras:Atendimento Médico!"—Ele balançou a cabeça. — Eu não acho. Não faz sentido padronizar os cuidados e custos médicos por todo o país?
Seu olhar foi duro como aço.
— Não acha que temos muitas diretrizes para seguir? Gina lembrou da velha Sra. Thompson no Lynnbrook Hospital.
— Bem...
Esse projeto de lei será apenas um livro de receitas para os médicos. O verdadeiro propósito de toda essa legislação não é o controle de qualidade, e sim o controle de custos. Eles economizarão alguns trocados, mas os custos humanos serão imensos.
— Não precisa ser dessa forma. Nós... Duncan olhou para a jarra e levantou a mão.
— O café está pronto.
Ele tirou o funil da jarra e pousou—o na pequena pia cromada ao lado do microondas. Em seguida, encheu duas xícaras de tamanho normal com o café fresco e fumegante. Passou uma xícara para Gina.
— Isto, sim, é café. Prove.
Gina cheirou — o aroma era fabuloso — e então bebeu um gole. Normalmente ela bebia café preto com pouco açúcar. Aquele não precisava de açúcar.
O sabor era profundo, e rico, e...
É... — Esforçou—se para encontrar palavras. — É como se eu nunca tivesse tomado café de verdade antes. É extraordinário.
O rosto de Duncan se iluminou.
— Vale o trabalho, não acha? Um anódino paraweltschmerz. Vou moer alguns grãos para você levar para casa. Mas use—os logo. E se usar uma cafeteira comum, nunca... nunca mesmo... deixe o bule aquecendo. Sempre decante o café imediatamente antes numa jarra. Mesmo o melhor café fica amargo quando superaquecido.
— Obrigada. Lembrarei disso.
Gina não fazia idéia que Duncan era um connoisseur em matéria de café. Os rituais, as regras... parecia religião. Mas o resultado era excelente.
Os dois beberam em silêncio por um momento. Gina deixou os olhos vagarem pela enorme janela de vidro e admirar o lago koi, o jardim de pedras e as árvores anãs que o cercavam. Prosseguiu a observação passando para a mesa de Duncan. A gaveta superior estava aberta. Dentro, havia um frasco de injeção cheio de um líquido âmbar. Alguma outra coisa também.
Algo metálico, quase como um grande trocarte...
De repente Duncan estava ao lado dela, fechando a gaveta.
— Estava dizendo?
— Onde eu estava? Bem, o que estou querendo dizer é que se eu conseguir integrar o gabinete de um membro da comissão, procurarei fazer com que ele obtenha dados precisos sobre a forma como essas diretrizes afetarão os cuidados médicos. E valerá a pena se eu puder influenciá—lo um pouco, não acha?
Duncan a fitou, balançando lentamente a cabeça.
— Durante algum tempo fiquei preocupado, achando que você não tinha ambição. Receava que você fosse fazer uma carreira como médica de plantão noturno e assistente de cirurgia. Agora eu quase queria que esse fosse o caso.
Ele realmente esúvera pensando no meu futuro?
— Talvez eu simplesmente me rendesse à lexicomania. Duncan pareceu hesitar. Será que ela conseguira pegá—lo dessa vez? Lexicomania — a tendência a usar palavras obscuras e incomuns. A ironia seria fantástica. Como seria maravilhoso pegálo numa palavra que o descrevia. Duncan riu.
— Onde encontrou essa?
— Não foi fácil, acredite.
— Muito bem. Declaro—me culpado por meu grandiloqüismo compulsivo, e por minha tentativa quixotesca de impedir sozinho que a linguagem inteira caia na banalidade.
Droga. Ele sabia.
— Pois acho que não está dando certo — disse ela.
— O que é lastimável.—Fitou—a com um sorriso.—Léxico— mania... que maravilha! Como posso ficar zangado com você por muito tempo? Mas, falando sério, Gina, você foi treinada para um tipo de trabalho bem superior a ser auxiliar legislativa de algum cabeça—de—bagre pretensioso. Odeio vê—la desperdiçar seus talentos.
Por um momento ficou surpresa como Duncan estava lembrando—lhe Peter.
Ele falara quase exatamente a mesma coisa quando Gina revelara que deixaria Lousiana para se envolver em política médica.
Concentrando—se em Duncan, Gina mordeu a língua e pensou: eu poderia dizer o mesmo sobre suas plásticas.
Como se estivesse lendo a mente de Gina, Duncan abriu um sorriso torto e disse:
— Não que eu seja a pessoa mais indicada para falar sobre desperdício de treinamento.
Por um instante houve dor sincera em seus olhos. Gina sentiu um aperto no coração.
— Duncan... o quê...
Ele levantou a jarra de café.
— Mais?
— Não, obrigada. Posso perguntar?
— Não a invejo, Gina. — Obviamente Duncan Lathram não queria falar sobre Duncan Lathram. — Eu não gostaria de me iniciar na medicina hoje, enfrentando o terreno que a espera.
— Mais um motivo para que os médicos se envolvam. Por que ele não conseguia ver isso?
— Mas o que você espera conseguir? Qual é o seu objetivo lá no Capitólio?
— Diretrizes justas. Diretrizes realistas com as quais todos possamos viver.
— Nunca acontecerá—sentenciou Duncan. Ele suspirou. — Espero que saiba o que está fazendo, Gina.
— Já pensei muito no assunto.
— Mesmo? Eles são um bando de chacais, Gina, e...
— E eu sou influenciável?
— Não. Longe disso. Acontece que, bem, nós médicos somos de uma raça diferente. Nossos valores são outros. Não falamos a mesma linguagem que as outras pessoas. Nãopensamos como elas.
— Isso parece um pouco elitista. Ele deu de ombros.
— Talvez. Mas de vez em quando penso que o peso das decisões de vida e morte separa os médicos do restante da humanidade. Quando você sente ávida de alguém escapando pelas suas mãos, e sabe que é seu dever costurar essa pessoa e mandá—la de volta para sua casa e família, isso provoca uma certa mudança em você. Você vê coisas que as pessoas comuns jamais verão e faz coisas que elas jamais pensarão em fazer. Você encontra as pessoas quando elas estão mais vulneráveis, quando estão despojadas de todas suas pretensões. Você aí torna senhor da vida e da morte, e isso muda você. Isso faz com que você fique sempre a um passo de distância do restante da humanidade.
Durante seu período de residência, Gina esbarrara muitas vezes com essa postura de deus— que— anda.
— É hora de nos livrarmos desse complexo de deus, não acha? — propôs Gina. — Não somos deuses, e estimular esse tipo de reverência é danoso para nós e para os nossos pacientes. Fazemos coisas extraordinárias, coisas aparentemente milagrosas. Mas não somos deuses. Apenas pessoas.
Taciturno, Duncan bebericou o café em silêncio.
— Acho que nunca vamos pensar igual, não acha? — disse Gina, enfim.
— Parece que não.
— Podemos concordar em discordar, então?
— Não acho que eu tenha muita escolha.
— Você poderia me despedir.
— Não quero fazer isso. Mas não espere minhas bênçãos.
— Nunca esperei. —Mas eu quero, droga. Gostaria de não querer suas bênçãos, mas quero. — Acho que nem mesmo vou conseguir o emprego. Mas se der certo, terei de ajustar meu horário para...
— Cassidy pode cobrir você. Daremos um jeito.
Gina sentiu uma onda de calor correr pelo corpo. Isso era um tipo de bênção, não era? Se não era, ela consideraria que sim.
— Obrigada, Duncan. Eu não esperava...
— Quero mantê—la por perto... onde poderei ficar de olho em você.
A onda de calor tornou—se um arrepio. O que ele queria dizer com isso?
— Apenas não se esqueça de nós, Gina—disse ele, seus olhos azuis fitando intensamente os dela. — Não nos traia.
Duncan manteve o olhar frio por mais um instante e então se virou.
— Estou satisfeito por termos tido esta conversa, Gina. A primeira de muitas, espero. Mas tenho certeza que você está atrasada com seu trabalho.
— Estou, sim. Mais tarde nos veremos.
— Assim que souber qualquer coisa de Marsden, me conte. Quanto a mim, estou fora do circuito.— Tirou uma chave do bolso e trancou ostensivamente a gaveta. — Cirurgia amanhã às oito.
Perguntando—se por que ele se dava ao trabalho de trancar uma gaveta, Gina se despediu com um aceno e saiu. Aquele estava sendo um dia muito estranho.