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F. Paul Wilson · Capítulo 34 de 36

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* 34

 

TARDE DE QUINTA—FEIRA

 

Gerry estava começando a entrar em desespero.

E não sem razão. Algumas horas atrás passara no apartamento de Gina e não vira o carro dela na rua. Depois de bater várias vezes à porta, usou o Electropick para entrar. Encontrou o lugar deserto. Nenhum sinal de luta, nenhum bilhete, nenhuma indicação de que ela não saíra essa manhã para um dia rotineiro de trabalho.

Gerry até mesmo telefonara para o centro cirúrgico de Lathram. A recepcionista informara que Gina não se encontrava lá e que não era esperada hoje. Achou que percebera alguma coisa estranha na voz dela, como se ela quisesse dizer mais, mas isso poderia ter sido apenas imaginação.

Gerry checara todos os prontos—socorros da capital e até mesmo alguns em Virgínia e Maryland. Não tinham recebido Gina Panzella ou qualquer mulher não identificada que se enquadrasse em suas descrições. O mesmo ocorrera com os departamentos da polícia local. Nenhuma mulher chamada Panzella ou parecida com Gina nos relatórios de prisão.

E então Gerry lembrou do acidente na praça Farragut. Ele telefonara para a polícia de Washington e agora estava à sua mesa, esperando que telefonassem de volta. Não tinha muita esperança de descobrir alguma coisa aí, mas não estava ignorando nenhuma possibilidade.

O telefone tocou.

— Agente Canney? — disse uma voz anasalada.—Temos a identificação do veículo naquele acidente de um só carro sobre o qual você queria saber.

Pertence a uma Regina Panzella, residente na Kalorama Road.

— Droga!—disse Gerry. Deveria ter checado isso horas atrás.

— E o relatório diz que ela deixou a cena do acidente?

— O relatório diz: "Veículo abandonado por motorista."

— Nada mais?

— Testemunhas dizem que viram uma mulher de cabelos escuros, e que era a única ocupante.

A descrição correspondia à de Gina.

— Obrigado. Muito obrigado.

— De nada.

Então onde ela estava? Gina batera com o carro e fugira. Para onde?

Chovera a manhã quase toda. Até onde ela poderia ter ido a pé na chuva?

Gerry pegou o casaco. Era melhor ir até o local do acidente, examinar a cena. Mas outro pensamento lhe ocorreu enquanto saía. Ligou para a central de dados e mandou que pesquisassem as fontes de crédito de Regina Panzella. Pediu que descobrissem quais cartões ela usava e se alguma despesa fora creditada no nome dela hoje — e em que local.

Quem sabe? Talvez Gina tivesse alugado um carro. Ou comprado uma moto.

Quem poderia prever o que ela faria em seguida?

Gerry saiu para a praça Farragut. Sem saber o número do cartão de Gina ou mesmo qual era a sua companhia de crédito, isso demoraria um pouco. A informação estaria à sua espera quando voltasse.

Rezou para que não precisasse dela.

Duncan estava extenuado, frustrado, tenso... e amedrontado.

Mas pelo menos parara de chover.

Essa era a única coisa boa que Duncan podia dizer sobre aquela tarde.

Estava parado na Seventeenth Street, na beira da praça Farragut, vigiando todos os transeuntes. Agora que estava ficando mais tarde, eram bem mais numerosos. Levantou os olhos para a estátua homônima da praça.

Apropriadamente, uma gaivota estava pousada no chapéu do almirante.

Estava quase desistindo. Ele patrulhara a área durante horas a pé e de carro, movendo—se para o norte até o Círculo Scott e para o sul até a Casa Branca, e não encontrara um único sinal de Gina.

Era o medo que o impedia de voltar para casa. Ou para o centro cirúrgico.

E se Gina tivesse convencido o namorado do FBI de que estava com um implante na perna? E se tivessem conseguido removêlo? A situação poderia ter virado contra Duncan enquanto ele estivera passando a tarde ali. Seu papel já poderia ter mudado de caçador para caça.

Era melhor descobrir.

Duncan olhou o relógio. Barbara ainda estaria no trabalho. Pegou seu celular e discou o número do centro cirúrgico.

— Você a encontrou? — foram as primeiras palavras de Barbara.

— Ainda não tive sorte. Estou ligando apenas para saber se você tem alguma notícia de Gina.

— Nada. Mas ligaram para ela...

— Quem?

— O cara com quem ela vem se encontrando. Gerry Canney. Duncan estremeceu. O homem do FBI? Isso não era bom sinal.

— Quando ele ligou?

— No fim da manhã. Estava procurando por ela.

— Lembrou o que eu lhe disse para falar, certo?

— Sim. Que ela não estava e que não a esperávamos hoje.

— Excelente. Precisamos proteger Gina até podermos descobrir o que está errado com ela e conseguir alguma ajuda.

— Sim. Mas é que ele pareceu tão preocupado...

— Todos estamos, Barbara.—Especialmente eu. —Alguém telefonou para mim?

— Algumas pessoas para marcar consultas. O Sr. Covington ligou para reclamar sobre você ter cancelado todas as cirurgias dessa manhã. Ele disse que a esposa estava histérica.

— Ela já tem aquele nariz há quase cinqüenta anos. Sobreviverá a mais uma semana com ele. Ninguém mais? Nenhum visitante?

— Não. Hoje foi tudo bem calmo aqui.

Aquilo era um alívio. Nada de telefonemas ou visitas de homens da lei à procura do Dr. Lathram. Uma boa indicação de que Gina ainda precisava convencer alguém.

Talvez houvesse tempo.

Tempo para o quê? Ele não podia ver muita utilidade em continuar patrulhando a área. Precisava encarar os fatos: Gina fora embora. Ela apanhara um táxi, conseguira passar por ele e entrara no metrô ou simplesmente tinha ido embora andando. A essa altura poderia estar em Virgínia ou em Maryland. Ou no prédio do FBI. Se ela ainda estivesse ali, Duncan já a teria visto.

Enfiou a mão no bolso para pegar as chaves do carro e encontrou o transdutor de ultra—som disfarçado empager. Emoções conflitantes assaltaram—no. Se Gina passasse por ele agora, Duncan usaria o transdutor, sem hesitação, não por maldade mas pelo impulso mais básico que existe: a autopreservação. Mas, ainda assim... uma parte pequena dele sentia—se quase satisfeita por Gina haver escapado.

Encontrou as chaves. Hora de ir. Mas para onde? Para casa, onde ficaria sentado à espera do carrasco? Mesmo se ninguém viesse algemá—lo, seus planos para o presidente no dia seguinte teriam de ser mudados.

Simplesmente faria a cirurgia e esqueceria do implante. Destruiria a DTP, e então seria a palavra de Gina contra a dele.

Exceto por aquele implante na perna dela.

Merda, merda, merda! Suas opções ficavam mais restritas a cada hora.

Subitamente Duncan viu um carro de quatro portas encostar no meio—fio a uns dez metros dele, parando em frente a uma placa de proibido estacionar. Um alarme soou em seu cérebro. Duncan se virou e cruzou a Seventeenth Street, mantendo o rosto virado até alcançar o outro lado.

Enquanto imiscuía—se na multidão de pessoas saindo do trabalho, Duncan olhou por sobre o ombro e viu um homem jovem e de boa aparência examinando a praça. Parecia à procura de alguém.

O terror tomou conta de Duncan, mas resistiu ao impulso de correr. Vira aquele homem antes — com Gina durante a audição da Comissão de Diretrizes. Canney, o agente do FBI.

Ele está me procurando?

Fique calmo, disse a si mesmo. Como poderia ser? Passou de carro bem ao meu lado. E além disso, por que, de todos os lugares possíveis na capital, ele me procuraria aqui?

O agente devia estar à procura de outra pessoa.

Gina.

Duncan foi tomado por uma empolgação repentina enquanto recuava para uma parede a fim de continuar observando o agente Canney.

Ainda estou seguro, pensou. Se o agente do FBI ainda não conhece o paradeiro de Gina, então ninguém sabe—pelo menos ninguém que faça diferença.

Observou Canney atravessar o gramado, passando entre os arbustos e bancos da praça Farragut. Observou—o vasculhar todo o perímetro, parando onde o carro de Gina batera contra o meiofio. Seus movimentos foram rápidos e eficientes, mas Duncan detectou neles uma certa ansiedade e incerteza.

Duncan poderia ter—lhe dito: está perdendo tempo, rapaz.

Observou Canney terminar de vasculhar a área e então entrar no carro e ir embora. E com a saída do agente, Duncan recobrou o ânimo. Não iria para casa. Ainda não.

Ficaria ali um pouco mais. Pelo menos até escurecer.

Gina acordou confusa, com dor. Virara sobre seu lado direito e sentira uma dor aguda na coxa, como se alguma coisa a estivesse mordendo.

Estava febril e banhada em suor. O sutiã e a calcinha estavam grudados à pele. Livrou—se das cobertas. Estava escuro. Onde...?

Piscou até reconhecer o quarto do hotel. Tudo voltou à sua mente. Como se preparara na banheira para se cortar...

Sentou—se e experimentou apenas um instante de tontura. Sem dúvida, o descanso fizera—lhe bem, mas durante quanto tempo dormira? Virou o radiorrelógio: 17:05.

Deus do céu, dormi a tarde inteira!

Levantou—se e caminhou até o banheiro, cambaleando um pouco. Precisava vê—lo, tinha de saber se ainda estava ali.

Estava. O frasco continuava onde ela o deixara, sobre o balcão de mármore. Abriu a torneira da pia e bebeu três copos sem tirar os olhos do implante que repousava no interior do frasco. Agora ele adquirira uma cor amarronzada, devido à coagulação do sangue que o envolvia.

Pegou o frasco e retornou para a cama. Ainda fraca, mas sentindo—se bem melhor, Gina se sentou cuidadosamente na beira da cama. Era hora de ligar para Gerry. Hora de encontrá—lo e mostrar—lhe o que Duncan implantara nela.

Digitou o número do escritório dele. A telefonista do FBI disse que ele não se encontrava no momento. Ela gostaria de deixar recado?

— Quando ele vai voltar?

— O agente Canney não disse. Posso saber quem está falando, por favor?

— Tudo bem. Mais tarde ligo de novo.

Talvez Gerry tivesse ficado cansado de esperar e ido para casa.

Telefonou para a casa dele, mas apenas a secretária eletrônica atendeu.

Talvez ele estivesse no trânsito. Teria de esperar até Gerry pegar Martha e ir para casa... se ele estivesse indo para casa. Imaginou se Gerry estaria preocupado, ou mesmo pensando nela. Seria confortante saber que alguém além de Duncan estava à sua procura.

Puxou o esparadrapo da perna para expor a gaze. Notou que estava começando a escorrer sangue da atadura. Gentilmente, limpou o sangue. O unguento antibiótico impedia que a gaze desgrudasse. A incisão parecia boa; o fio estava resistindo. Mas ao olhar para o ferimento e em seguida para o frasco contendo o implante ensangüentado, Gina foi tomada por um desespero avassalador.

Gerry não vai acreditar em mim.

Essa conclusão abalou Gina. O que Gerry pensaria ao ver aquela coisa ensangüentada no frasco? Ninguém vira Gina removê—la. Não havia nenhuma testemunha da operação. Quem poderia dizer que ela não se cortara e untara o implante com sangue para convencer os outros de seus delírios?

Era comum ocorrer automutilação em casos de psicose. Ou talvez seria diagnosticada como portadora de uma variante da síndrome de Munchausen.

Ela tomara uma atitude extrema, radical, que pareceria bizarra e, bem, insana, pelo menos para alguém que não pudesse entender completamente a ameaça que o implante representava para ela.

Em suma, mostrar a Gerry aquele implante ensangüentado e dizer—lhe que ela havia cortado a perna apenas confirmaria os piores temores de Gerry quanto à sua sanidade. Seus delírios paranóicos tinham chegado agora à automutilação.

Pressionou as mãos contra o rosto. A voz saiu embargada, e ecoou pelo pequeno quarto.

— Que vou fazer?

Tinha de encontrar alguém que acreditasse nela, que não pensasse que Gina assistira a episódios demais de Além da imaginação...

Oliver.

Claro. Oliver tinha de acreditar nela. Ele era a única outra pessoa no mundo que sabia a respeito da DTP e dos implantes. Entenderia por que ela havia se cortado para remover a DTP.

Mais um pensamento, um pensamento aterrorizante: e se Oliver estivesse envolvido?

Não. Ela não podia acreditar nisso. Oliver era o homem mais confiável do mundo. Ficaria arrasado ao saber que seus implantes tinham sido usados para ferir em vez de curar. E se Oliver estivesse envolvido de alguma forma, ele nunca teria lhe dito o nome deVanDuyne.

Era isso. Apresentaria o caso a Oliver, e assim que ele estivesse convencido, os dois procurariam Gerry e o Serviço Secreto ou qualquer um que pudesse deter Duncan.

Levantou—se bruscamente, e em seguida se sentou de novo, sentindo—se fraca. Talvez devesse comer alguma coisa antes. Não comera nada de manhã nem na hora do almoço... apenas algumas barras de chocolate. Ela estaria à procura de problemas se não ingerisse algumas calorias bem depressa.

Pegou o cardápio do serviço de quarto e pediu hambúrguer, fritas e uma Coca—Cola—proteína, carboidratos e cafeína. Isso a manteria com energia durante algum tempo.

Levantou—se outra vez, de forma um pouco mais deliberada dessa vez, e voltou para o banheiro. Cobriu a incisão com gaze limpa e prendeu—a novamente com mais esparadrapo. Em seguida, colocou a suéter e com cuidado vestiu a calça jeans. Gina estava parecendo bastante normal quando o rapaz do serviço de quarto bateu à porta.

Gina estava olhando pela janela, enquanto o garçom posicionava o carrinho e descobria a comida. Virou—se, atraída pelo aroma. Não percebera que estava com tanta fome. Anoitecia Gina comeria e então esperaria até que ficasse completamente escuro. Então sairia para a rua, pularia no primeiro táxi que passasse e seguiria direto até a casa de Oliver. Ele vivia na extremidade noroeste da cidade. Ela estivera lá certa vez, para um jantar. Uma casa com jardim numa vizinhança agradável, mas nem de perto tão elegante quanto a de Duncan.

Provavelmente, não teria de esperar até ficar escuro. Duncan devia ter desistido de procurá—la havia muito tempo.

Rastrear o cartão de Gina demorou mais do que Gerry previra. Teve de telefonar para a Sra. Snedecker e pedir que ela ficasse com Martha mais algumas horas e lhe desse algo de comer. Gerry pedira para falar com Martha e, quando lhe dissera que chegaria mais tarde, foi acalmado por um animado "Tudo bem". Era uma sorte Martha gostar tanto da Sra. Snedecker.

O resultado do rastreamento do cartão de Gina chegou alguns minutos mais tarde, acusando uma conta em seu cartão de crédito a ser paga ao Hotel Tremont, na K Street.

A K Street! Deus, ele estivera lá agora mesmo! Por que ela estava no Tremont? Estaria escondida?

Mais tenso do que nunca, pegou o número com a telefonista, ligou para o hotel e disse à recepção que queria falar com a Sra. Panzella. Deixou o telefone tocar uma dezena de vezes, quase desligou, e então ouviu mais uma dezena de toques.

Onde ela estaria? Se já tivesse fechado a conta, o rapaz da recepção não teria passado a ligação para o quarto dela. Ela estava com medo de atender o telefone?

Gerry pegou o casaco e saiu.

A noite cobriu a capital com uma mortalha escura, e as luzes dos postes acenderam, iluminando a neblina que pairava no ar. Duncan decidiu desistir. Obviamente ela não estava em lugar algum. Era bobagem continuar ali por mais tempo.

Mas o que aconteceria em seguida? Para onde iria agora? Não podia desistir ainda. Muita coisa estava em jogo. Ao caminhar até o carro, fez um último esforço, tentando um pouco de exercício mental.

Se eu fosse Gina, e se eu ainda estivesse nas redondezas, para onde eu poderia ir? Onde eu teria me escondido todo esse tempo?

Repassou a pergunta na mente enquanto caminhava ao longo da extremidade norte da praça. Estava virando a K Street quando a marquise do TVemont Hotel chamou—lhe a atenção.

Reduziu o passo, balançou a cabeça, caminhou mais um pouco e então parou na beira da calçada e olhou para o hotel. Ele o notara antes, mas...

Ela poderia ter alugado um quarto de hotel? Não era provável. Ele poderia ver a possibilidade de ela ter corrido até ali, alugado um quarto e o usado como um local seguro para encontrar seu homem do FBI.

Mas, obviamente, se ela tivesse feito isso, o agente Canney não teria andado pela praça Farragut como uma alma perdida ainda há pouco. E

Duncan não conseguia imaginar Gina passando a tarde inteira lá em cima, vendo televisão.

Mas ainda assim... esse era um local que ele não checara. Não levaria muito tempo. O que significavam mais alguns minutos somados a todo o tempo que já havia perdido?

Entrou no saguão do hotel e caminhou até a recepção. O jovem no balcão sorriu para ele. Duncan pensou como poderia perguntar sobre Gina, e então concluiu que nenhum hotel decente forneceria o número do quarto de um hóspede.

Sorriu em resposta para o rapaz, cujo crachá identificava—o comoitoy.

— Os telefones do hotel?

Roy apontou para o fundo do saguão.

— Atrás do vaso de plantas depois dos elevadores. Duncan balançou a cabeça para agradecer. Encontrou a fileira de telefones e discou "0" no mais próximo.

Quando a telefonista atendeu, ele disse: — O quarto de Panzella, por favor.

Duncan ficou abismado quando a telefonista mandou—o esperar um pouco e conectou—o.

Estarrecido, ele ouviu o telefone tocar, perguntando—se o que diria.

Decidiu não dizer nada. Não podia deixá—la saber que a encontrara.

Desligou o telefone e se encostou na parede.

Ela estava ali.

Provavelmente Gina passara o dia inteiro ali. Mas o que ela fizera esse tempo todo? E por que se registrara com o próprio nome? Seria uma coisa estúpida de fazer, e Gina era tudo, menos isso.

Não importava. Nada importava. Só o fato de que a encontrara. Tudo que precisava agora era do número do quarto dela. Olhou para o balcão da recepção. Roy estava sozinho ali. Será que uma nota de cem dólares...

E então as portas giratórias moveram—se e o agente especial Canney entrou no saguão. Assustado, Duncan ficou parado onde estava, o coração batendo acelerado.

Não! Logo agora que estou tão perto!

A planta dentro do vaso era alta, e Duncan se escondeu atrás dela.

Espiou entre os galhos. Canney estava mostrando sua identificação para o homem da recepção e falava depressa. Parecia agitado. Gina devia ter entrado em contato com ele. Mas nesse caso, por que estava mostrando sua identificação?

Que importava? Duncan percebeu que a solução estava se apresentando. Os elevadores ficavam apenas a alguns metros de distância. Canney subiria até o quarto de Gina e a traria para baixo, ou talvez a chamasse para descer e encontrá—lo. De qualquer modo, ela teria de passar por Duncan.

Retirou o transdutor do bolso. Gina estaria no perímetro de ação do aparelho. Sentiria uma pontada na coxa, mas seria tarde demais. A DTP

provavelmente só faria efeito depois que Gina chegasse ao prédio do FBI.

Tudo o que Duncan tinha a fazer era esperar. Ele esperara o dia inteiro.

Poderia esperar um pouco mais.

— Quero o número do quarto dela, e quero a chave, e quero agora). — disse Gerry.

O rapaz chamara o gerente —Joel Heinrich, segundo seu crachá. Um homenzinho irritadiço com um bigodinho fino.

— Tenho certeza que você precisa de um mandado para esse tipo de busca.

Não estou autorizado a invadir o quarto de uma hóspede...

— A Dra. Panzella não vem passando bem ultimamente — disse Gerry, improvisando. — Ela não está atendendo ao telefone. Pode estar inconsciente.

— Doente? — O gerente irritadiço evaporou. — Quer dizer que essa moça pode estar com algo contagioso?

Gerry abaixou a voz e se aproximou do gerente para o golpe de misericórdia.

— Não sabemos. Esperamos que não. Aconteceu alguma coisa no laboratório.

Nós a queremos de quarentena com o menor alarde possível, se é que você me entende.

Heinrich entendeu perfeitamente. Assentiu e pegou o telefone.

— Muito bem. Deixe—me checar o quarto dela pelo menos uma vez.

Ele digitou o número, ouviu por um momento e então desligou.

— Pode ter saído para comer alguma coisa.

— Vamos torcer que sim—disse Gerry, mas não estava sendo sincero. Queria encontrar Gina e arrumar toda aquela bagunça. — Se for esse o caso, ficarei aqui até ela voltar.

Heinrich abriu o armário de chaves, selecionou uma e em seguida apontou para o saguão.

— Os elevadores ficam ali.

Alguns minutos depois chegaram ao quinto andar, e Heinrich bateu à porta do 532. Gerry estava ansioso para entrar no quarto, mas receava o que poderia encontrar.

— Dra. Panzella? Dra. Panzella, é o gerente. Nenhuma resposta.

Por favor, Deus, nada trágico, pensou Gerry quando Heinrich colocou a chave na fechadura. Por favor.

Assim que o gerente abriu a porta, Gerry empurrou—o para o lado e entrou no quarto.

— Espere aqui.

As luzes estavam acesas. Num carrinho de serviço, ao lado da cama desarrumada e vazia, havia um hambúrguer pela metade e fritas nadando no conteúdo de uma lata de Coca—cola virada.

— Gina?

Entrou no banheiro. Um punho de aço apertou seu coração quando Gerry viu a lâmina ensangüentada na pia. Aproximou—se e viu a mancha vermelha na banheira. Gemeu. A porcelana estava completamente manchada de sangue.

Meu Deus, que aconteceu aqui?

Apoiou—se na parede enquanto movia o olhar da banheira para o balcão da pia. Viu a lâmina suja de sangue, as garrafas de álcool e peróxido, linha e uma agulha... ensangüentada.

Primeiro alguma fantasia sobre o presidente ser operado, agora... isso.

Independentemente do que fosse.

— Ai, Gina — sussurrou. — Gina, Gina, o que você fez? Recuou e encontrou Heinrich parado no meio do quarto, parecendo confuso.

— Alguma coisa está errada? Ela está aqui?

Gerry passou por ele e verificou o armário. Vazio. Um olhar na cama lhe disse que não havia espaço para se esconder debaixo do colchão.

— Ela saiu — disse, empurrando Heinrich para o corredor. — Olhe, quero este quarto lacrado. Ninguém... ninguém — pode entrar aí. Nem a faxineira, nem a arrumadeira, nem você nem ninguém. Está claro?

— Mas por quê?

— Por enquanto estou tratando isto como uma cena de crime. Portanto, se alguém entrar neste caso, prenderei você por obstrução da justiça e invasão de local interditado. Estamos entendidos?

— Sim. Claro.

Heinrich pegou a placa de NÃO PERTURBE na maçaneta de dentro da porta e colocou—a do lado de fora. Em seguida fechou a porta e testou—a para ter certeza de que estava trancada.

— Vou avisar que o quarto 532 estará interditado até segunda ordem.

— Bom.

Sim, tudo bem. Heinrich sabia o que tinha a fazer. Mas qual seria o próximo movimento de Gerry? Estava terrivelmente preocupado. O que ela fizera a si mesma naquele banheiro? E onde estava agora?

Tinha de encontrá—la. E depressa. Se já não fosse tarde demais.

Alguma coisa está errada.

Duncan ficou tenso e desapontado quando Canney retornou para o saguão sem Gina. A julgar pela expressão preocupada e pelos modos agitados do rapaz, ele não encontrara o que esperava no quarto do hotel. Ou teria encontrado mais do que esperava?

Duncan queria ter a chave daquele quarto. O que Canney vira? Ele só queria dar uma olhada.

— Alguma pergunta? — ouviu Canney dizer ao gerente. — Está com a descrição dela e tem meu cartão. Se alguém avir, telefone imediatamente para mim. Está claro?

O gerente assentiu e murmurou alguma coisa que Duncan não entendeu. Não parecia essencial. O que importava era que Gina não estava ali. Ela havia saído sem fechar a conta. E Canney não a esperava de volta logo, senão ficaria ali.

Duncan observou Canney sair, mas permaneceu atrás do vaso de plantas mais um pouco, dando ao agente tempo suficiente para chegar ao seu carro. E dando a si mesmo tempo para planejar seu próximo passo.

Gina estava se revelando terrivelmente imprevisível. Duncan sentia os nervos mais tensos a cada hora que passava sem que a encontrasse.

Perguntou—se o quanto mais disso seria capaz de suportar.

Quando ela alugara o quarto? Quanto tempo estivera lá? E onde estava agora? Teria voltado para casa?

Duncan suspirou. Onde mais poderia procurá—la? Teria de voltar ao bairro Adams Morgan e verificar se ela estava lá. Caso contrário, não via nada que pudesse fazer além de ir para casa e aguardar.

Se não a encontrasse logo, teria de mudar os planos para o dia seguinte.

E Duncan não queria fazer isso.