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F. Paul Wilson · Capítulo 2 de 36

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NO CAPITÓLIO

 

Enquanto subia pela escada rolante do metrô até o nível do solo da Union Station, Gina se pegou mastigando uma unha. Enfiou a mão no bolso do casaco. Estava agitada. Café em excesso e nervosismo puro e simples. A hora seguinte poderia decidir o curso de sua vida profissional.

Olhou em volta. Com toda certeza, o metrô fora o maior avanço em Washington desde seu tempo de menina. Claro, os monumentos e a Estátua da Liberdade no topo do Capitólio tinham sido restaurados, mas como Gina crescera logo depois do rio, as paisagens que atraíam milhares de turistas eram como papel de parede para ela. Mas o metrô... esse era progresso. O percurso de apenas cinco quilômetros desde seu apartamento no bairro Adams Morgan podia às vezes levar 45 minutos, mas pelo menos não precisava se preocupar com engarrafamentos ou com a dificuldade em conseguir vagas em estacionamentos. Bastava dar uma caminhada curta de seu apartamento até a Connecticut Avenue, pegar a Red Line perto do zoológico, e alguns minutos depois estaria na Union Station.

O ar na rua estava quente e pesado. A sua esquerda viu um mendigo sentado num banco de madeira, matraqueando num telefone celular. Gina duvidou que o telefone estivesse funcionando mesmo, mas teve de admitir que aquilo era um adereço perfeito para quem tivesse uma tendência a falar sozinho.

Lembrou de ter estado ali quando criança. Ela e a mãe tinham ido pegar o pai dela depois de uma das viagens regulares dele até Nova York, para visitar a avó de Gina. Ela sentira medo. Naquela época, a Union Station costumava ser um lugar frio e ermo, uma cavernosa tumba de granito cheia de esquinas sombrias. Era um lugar perigoso depois do anoitecer.

Agora se transformara num shopping center com dezenas de lojas de roupas, restaurantes, uma farmácia e até mesmo uma B Dalton. E a vizinhança era segura, tendo o Museu Postal de um lado e o Centro Federal de Justiça do outro. Todas as sombrias casas com fachadas de pedra ao longo da Massachusetts pareciam ter sido convertidas em restaurantes.

Que mudança.

Mas ela sabia que a magia não se estendia por toda Washington. A alguns quarteirões dali, a leste, fora da vista dos turistas, dos políticos e suas equipes, persistiam as casas em ruínas, os prédios abandonados, a pobreza e o crime dos velhos dias.

Ela passou pelo monumento de Colombo na praça semicircular em frente à estação, contornou os ônibus de turismo estacionados — mesmo numa manhã mormacenta de segunda—feira, a área da estação estava repleta de turistas — atravessou a Massachusetts Street e chegou a um dos pequenos parques que margeavam o aclive no caminho para o Capitólio. Esse tinha uma atmosfera irreal: gramado perfeitamente aparado, nada de lixo espalhado, fileiras arrumadas de árvores, cada uma rotulada com seu gênero e espécie.

Bem—vinda à Federalândia.

Gina subiu em diagonal, desviando—se de funcionários públicos engravatados e turistas com camisas coloridas, e saiu na First Street Consultou o mapa desenhado à mão—estivera muitas vezes na área do Capitólio quando criança, mas jamais num prédio de escritórios do Senado. À direita via o Edifício Russel, à esquerda, o Edifício Dirksen. Atravessou a passos largos o estacionamento florido do Edifício Dirksen, onde numa placa estava escrito: "Reservado a Funcionários Públicos" — com sorte, em breve teria uma vaga ali — e chegou à Constitution Street. Passou por uma fileira bem organizada de mensageiros de motocicleta, todos aguardando os chamados em seus walkie—talkies. O destino de Gina era uma construção toda em mármore branco, o Edifício Hart.

No saguão, também em mármore branco, Gina se apresentou ao guarda de segurança uniformizado e assinou o livro de registro. Foi instruída a colocar a bolsa numa esteira rolante. Esta foi engolida por uma caixa de raios X Gina passou por um detector de metais. Tudo igualzinho a um aeroporto.

Mais mármore branco depois dos guardas—o prédio inteiro parecia ser feito desse material. Uma breve caminhada ao longo de um corredor margeado por canteiros, e ela estava no amplo átrio central do Edifício Hart.

Gina parou, abismada pela visão da enorme escultura de metal escuro que dominava o espaço. Uma série de balcões em mármore preto, contrastando com o ambiente branco ao seu redor, estendia—se para cima, na direção da clarabóia cristalina no teto. Entre os balcões flutuava um mobile gigantesco, com discos igualmente pretos.

Montanhas e nuvens pretas numa sala branca. Arrebatador. Mas a tensão impedia—a de concentrar— se no quadro. Precisava mover—se, prosseguir, chegar até o gabinete do senador Marsden.

Enquanto atravessava o átrio, Gina percebeu que um homem a encarava.

Vestido num terno cinza, poderia ser qualquer um dos milhares de auxiliares de senadores trabalhando no Capitólio.

Contudo, era bonito. Tinha uns trinta anos, era alto, com cabelos louros e curtos, olhos azuis, queixo quadrado. Mas por que a estava fitando daquele jeito? Não se vestira de nenhuma forma que a destacasse das outras mulheres que passavam pelo átrio. Não havia nada especial em suas roupas. Elas primavam pela sobriedade: uma saia na altura do joelho e um blazer justo. Então por que ele a fitava como se ela estivesse de minissaia e blusa decotada?

Aquilo a estava incomodando. Ficou aliviada ao avistar o hall dos elevadores. Dobrou a esquina e colocou entre os dois uma daquelas paredes de mármore branco.

Em cima da porta do último elevador havia uma placa com os dizeres: "Exclusivo para senadores." Gina entrou num dos elevadores. Saltou no sétimo andar e começou a procurar pela sala SH— 752— escritório do senador Marsden.

Os escritórios ocupavam o perímetro do Edifício Hart. Os corredores na verdade eram sacadas ao longo das paredes internas. Dali, Gina pôde ver o átrio e a escultura. Notou que o mobile estava coberto por uma camada de pó cinzento. As nuvens precisavam de uma boa espanada.

Gina reparou num homem imóvel no centro do átrio, enquanto todo mundo passava correndo ao seu redor. Era o mesmo homem, aquele do terno cinza, e continuava olhando para ela.

Qual é o seu problema, cavalheiro?

Desviou os olhos e prosseguiu. Gina logo avistou a sala 752 no fundo do corredor. Numa simples placa preta na porta de carvalho estava escrito: Sen. H. Marsden. Persianas verticais bloqueavam—lhe a visão através das paredes de vidro que flanqueavam a porta. Gina parou diante da porta.

Isto é ridículo, pensou, enxugando na saia as palmas úmidas. Passei pelo curso preparatório, a faculdade de medicina, o meu período de residência hospitalar. Eu trouxe pessoas de volta dos mortos, fiquei suja de sangue e tripas até os cotovelos, e aqui estou, nervosa como uma caloura à porta do gabinete do diretor.

Segurou a maçaneta e entrou no escritório. Conheço ela.

Gerald Canney continuou olhando para o local, no passadiço do sétimo andar, onde avistara a morena atraente pela última vez.

Mas de onde?

Orgulhava—se de sua capacidade de lembrar de rostos e combinálos com nomes. Parte disso provinha de um talento natural, parte de seu treinamento na Academia do FBI em Quântico. Os agentes especiais precisam saber identificar rostos por baixo de perucas, óculos escuros e qualquer tipo de disfarce.

Só que aquela garota estava sem nenhum disfarce. O rosto estivera bem na frente dele, desafiando—o a reconhecê—lo. Mas por que não conseguira?

Estaria ligada de alguma forma ao caso? O falecido e respeitável senador Richard A. Schulz tivera um escritório no Hart. Ou ainda tinha, de certa forma, até que seu sucessor fosse nomeado. Gerry viera agora mesmo de lá, onde estivera vasculhando os arquivos do senador.

Suspirou. O caso Schulz era uma espécie de embaraço para o FBI. Tinham recebido uma denúncia de que o bom senador estava tirando proveito de sua influência. Como Gerry era ligado à unidade de corrupção pública, fora designado para a equipe responsável por investigar o caso.

Schulz era suspeito de várias outras atividades de legalidade questionável. A equipe de corrupção começara a fechar o cerco quando o senador saltara para a morte da sacada de seu apartamento.

Caíra ou fora empurrado? O FBI não sabia ainda. Tinham quase certeza que ele estava sozinho no apartamento quando passou pela balaustrada do balcão.

Como caíra? A balaustrada tinha um metro e vinte centímetros de altura.

Ele teria de escalá—la para depois cair, e não havia razão lógica para fazer isso — nenhuma planta que precisasse de água, nenhuma decoração suspensa que requisitasse atenção.

Isso reduzia as possibilidades a um salto. Será que ele soubera das investigações e decidira que não suportaria a humilhação? Improvável.

Gerry entrevistara as duas amantes do senador—nenhuma sabia da outra.

Uma estava listada em sua folha de pagamento como assistente, recebendo 41 mil dólares anuais. Ninguém na equipe sabia como era a cara da mulher—nunca tinha ido ao trabalho. A outra era lobista de uma associação de comércio de componentes eletrônicos. Muitos membros do Congresso poderiam ser acusados de estar na cama — figurativamente — com certos interesses políticos. Schulz, aparentemente, levava a expressão ao pé da letra. Nenhuma das duas mulheres disse ter notado o mais leve sinal de estresse ou apreensão no senador nas semanas que antecederam a morte dele. Mesmo seu fisioterapeuta, que o submetera a um tratamento de ultra—som nas costas apenas uma hora antes da morte, disse que o senador estivera com um humor excelente.

Então o que acontecera ao senador Schulz?

Gerry não sabia. E esse era o motivo para ele ter estado no escritório de Schulz nessa manhã. Aquele escritório ficava exatamente no mesmo corredor no qual a garota misteriosa estivera havia um momento. E Schulz fora um mulherengo, um tremendo mulherengo.

Mas essa garota não trabalhava ali. Gerry sabia disso pela forma incerta como ela caminhara pelo átrio, olhara boquiaberta para a escultura e procurara pelos elevadores. Essa era a sua primeira vez no Edifício Hart.

Então, quem era ela?

Isso era fácil de descobrir. Bastava examinar o registro de visitantes na entrada da Constitution Street. Mas isso seria trapaça.

Ei, sou um agente especial treinado, disse a si mesmo. Posso resolver O Mistério da Gata Morena Estranhamente Familiar sem olhar o registro de visitantes.

E assim, o agente especial Gerald Canney permaneceu parado no centro do átrio, folheando seus arquivos mentais. Depois de cinco minutos dirigiu—se até o portão dos visitantes e mostrou sua identificação aos guardas.

— Eu gostaria de ver o registro dos visitantes desta manhã.

A mulher empurrou uma prancheta sobre a mesa. Gerry correu os olhos pelos nomes, atento para os femininos. Se visse um nome familiar, saltaria aos seus olhos.

Passou por um nome e pulou de volta para ele.

Regina Panzella.

Regina Panzella... por que esse nome tocava sinos em sua cabeça?

Panzella soava familiar, mas não com aquele primeiro nome... Não Regina... não Gina... O que rimava com Panzella?

Pizza.

Deus do céu! Pizza Panzella. Não podia ser. De forma alguma. Pizza era... bem... era redonda. Daí o apelido. Pizza era quase obesa. E com toda certeza aquela garota não era gorda.

Mas...

Havia alguma coisa em seu rosto... afine as faces arredondadas, faça alguma coisa com o cabelo desgrenhado, e então poderia ser. Fazia dez anos ou mais que a vira, mas sim, poderia ser mesmo Pizza.

Gerry viu as horas. Precisava voltar ao escritório para conversar com Ketter sobre o caso Schulz, mas eles não tinham marcado um horário definido para a reunião. Talvez ficasse ali durante algum tempo para dar outra olhada na moça.

Pizza Panzella... era quase impossível de acreditar.

— Certo—disse Joe Blair, o chefe de gabinete do senador Marsden. —Já falamos muito sobre o trabalho. Vamos falar de você.

Mesmo?, pensou Gina. Finalmente vai parar de falar de si mesmo e começar a me entrevistar? Será que consegue?

Blair tinha mais ou menos a idade dela, com cabelos castanhos começando a rarear, olhos castanhos, pele clara e um bigode fino. Usava blusa branca de mangas curtas, gravata discreta e calça azul— marinho. Parecia jovem demais para ser o chefe de gabinete de um senador dos Estados Unidos, mas considerando as histórias que contara—todas estrelando um certo Joseph Blair — ele deveria estar no Capitólio havia oito anos, desde que se formara em ciências políticas na Cornell. Esse era o terceiro senador para quem ele trabalhava, e pelo que Joe dizia, ele fizera mais leis que qualquer um deles.

Que sujeito! Lembrava a Gina alguns ortopedistas residentes naTulane University.

Pensara que seria entrevistada pelo senador Marsden em pessoa.

— O senador está no andar — dissera—lhe Joe Blair. Gina olhou em volta.

— Como?—perguntou.

— Isso significa que ele está no Senado — disse Blair, com um sorriso condescendente. —No andar do Senado.

— Entendo — esforçou—se para esconder a decepção.

— Além disso, o senador não cuida das admissões e demissões. Eu faço isso.

Fantástico. A decepção foi varrida por uma onda de apreensão. Tinha certeza que Blair não gostava dela.

Blair conduziu Gina por um passeio pelo gabinete. Ela já vira a pequena ante—sala com os dois recepcionistas — uma moça e um rapaz—e sua atmosfera anti—séptica de consultório dentário. O espaço posterior era muito maior e mais desorganizado, parecendo realmente um local de trabalho, com escritórios modulares, mesas entulhadas de papel, estantes entupidas de livros, monitores de computador, xícaras de café vazias, documentos e folders caídos em cada superfície horizontal disponível. E telefones. Telefones por toda parte, cada um portando um pequeno selo do Senado dos Estados Unidos.

O escritório ocupava dois andares, que se comunicavam através de uma escadaria central. O duplex oferecia mais espaço que a maioria dos senadores dispunham, mas Marsden representava um dos estados maiores, e Gina sabia que "espaço proporcional à população" era um dogma no Capitólio.

O segundo andar se parecia muito com o primeiro, exceto por uma pequena sala de espera e a central de computadores que abrigava o processador central dos terminais do escritório. O que mais chamava atenção no segundo andar era a sala de correspondência com seus fardos— muitos fardos de cartas. Segundo Blair, a equipe de correspondência lia, classificava, arquivava e respondia entre dez e quinze mil cartas por semana.

Decidiu entrevistá—la na sala do senador. Gina ficou surpresa com a decoração espartana. Esperara revestimento de carvalho nas paredes, tapetes felpudos, iluminação indireta, uma enorme cadeira de couro, uma mesa grande e impressionante exibindo um selo do Senado dos Estados Unidos e flanqueada por bandeiras do país e do estado — o usual.

Aparentemente, Marsden não se deixava impressionar pelos paramentos do cargo. A mesa e cadeira reclinável eram de alguma madeira indiscernível, parecendo simples e ligeiramente puída ao sol da manhã que entrava pelas janelas. Havia pastas de arquivo empilhadas na mesa e no assoalho. Algumas placas e diplomas adornavam as paredes, assim como fotos de família Aúnica estante não podia comportar mais nenhum livro.

Acima da lixeira havia uma miniatura de cesta de basquete.

Naquele momento Gina teve quase certeza de que gostaria do senador Marsden.

Mas primeiro teria de passar pelo chefe de gabinete dele.

Gina e Blair se acomodaram em lados opostos da mesinha de centro na área de reuniões da sala. Blair passou mais uns bons dez minutos falando.

Enquanto discorria sobre seu talento em ajudar a guiar os projetos de lei do senador através das muitas armadilhas do processo legislativo, Blair alternava o olhar entre as pernas e os seios de Gina. Gina puxou a saia para mais perto dos joelhos.

Tinha pernas decentes e usava sutiã 42. O que mais ele queria saber?

Talvez ela devesse ter ido de calças compridas.

Finalmente ele começou a examinar o currículo de Gina.

— Impressionante. Mas não vejo nada aqui sobre filiação a partidos.

— Sou uma independente — disse Gina.

Ele levantou os olhos para Gina como se ela tivesse arrotado. Limpou a garganta.

— A filiação a partidos é um dado muito importante. Precisamos saber em quem podemos confiar.

— Se eu for de sua equipe, você poderá confiar em mim. Se quiser uma resposta direta, eu a darei. Se não souber a resposta, eu descubro.

Blair fitou Gina.

— Não sei... o senador ficou impressionado com o fato de uma médica praticante, especialmente uma jovem, ter—se candidatado a uma posição de assistente legislativa no projeto de lei das Diretrizes. Diga —me: O que você acha que pode oferecer à comissão mista que já não tenhamos?

Finalmente a pergunta que Gina estava esperando.

— Posso oferecer muita coisa. Em primeiro lugar...

— Você conhece a história da comissão mista, não é verdade? — perguntou.

Gina conhecia, mas isso não faria Blair se calar. — Bem, quando você ainda estava estudando, antes que um programa nacional de saúde e um sistema de cobertura universal se tornassem os assuntos do momento, o senador McCready, que era membro dirigente da Comissão de Trabalho e Recursos Humanos, apresentou ao Senado seu projeto de lei de Diretrizes para a Prática de Medicina. Nessa mesma ocasião, o deputado Allard apresentou um projeto de lei muito parecido na Câmara. Numa rara demonstração de cooperação política, uma comissão mista foi formada. O senador McCready presidiu as audiências mas morreu antes que o projeto de lei pudesse ser enviado para cada câmara. Com o falecimento de um de seus principais defensores, o projeto de lei morreu na praia.

Gina assentiu.

— Mas no começo deste ano o presidente entrou em cena— completou.

— Sim. Ele pediu pessoalmente ao senador Marsden que revivesse a Comissão McCready. Mas ele queria que a legislação incluísse não apenas diretrizes para a prática de medicina, mas também regulamentos em ética médica.

— E é por causa disso que vocês precisam de mim — disse Gina, cortando o monólogo de Blair. — Sou uma médica praticante, formada pela Tulane University e bem versada em questões de saúde pública. Vocês coletarão toneladas de testemunhos, muitos dos quais serão conflitantes. Precisarão de alguém capaz de separar o joio do trigo. Se o senador Marsden...

— Com toda franqueza, não compartilho do entusiasmo do senador em ter um médico a bordo — disse Blair, fitando Gina. —Acho que poderia causar confusão demais, talvez até dissensão. Portanto, o que você poderia dizer ou fazer que me levasse a mudar de idéia?

Gina sentiu a pele ferver por causa da forma como ele a olhara ao dizer aquilo. Preferiu ignorar.

— Acho que você precisa de todos os pontos de vista para delinear um plano bem balanceado. Posso prover o senador com uma perspectiva valiosa, que ele não está vendo agora, e à qual provavelmente tem pouco acesso. Os melhores generais sempre se mantêm informados das condições nas trincheiras. É isso que eu posso oferecer.

Blair olhou para o relógio.

— Veja só a hora. Já nos alongamos mais do que eu planejava. — Fechou a ficha de Gina e se levantou. — Muito bem. Obrigado, Dra. Panzella.

Caminhou até a porta e abriu—a para Gina.

— Conversarei sobre sua entrevista com o senador. Se ele decidir contratá—la, entraremos em contato. — Ele estava absolutamente inexpressivo, os olhos vazios. — Sabe como sair?

— Claro — respondeu Gina, forçando um sorriso.

Seu coração afundou quando a mensagem soou alto e claro: Não telefone para nós, nós telefonaremos para você.

Gina deixou o sorriso esvanecer enquanto se dirigia à recepção. A entrevista fora um pesadelo. Não podia imaginar como poderia ter sido pior. Qual era o problema com Blair? Será que ele se sentia ameaçado por Gina? Ou estava procurando alguma coisa nela? O que você poderia dizer ou fazer que me levasse a mudar de idéia? O que ele desejara dizer com mo? O que esperava que ela fizesse, levantasse a saia?

Ela estava cerrando os dentes de raiva. Um homenzinho com algum poder equivalia a um grande problema. Seus planos terminariam assim?

Gina teve o elevador só para ela. Encostou—se na parede e lutou contra a decepção. Certo, então ela provavelmente não entraria na equipe do dirigente. Preparara—se para isso — não para um fiasco como esse, mas para a possibilidade real que o senador realmente achasse que não precisaria dela. Havia seis outros membros — ou melhor, cinco: o deputado Lane morrera num acidente de carro fazia algum tempo.

Portanto, naquele momento havia cinco outros congressistas membros da Comissão de Diretrizes. Como o deputado Allard era a escolha óbvia seguinte, Gina já marcara uma entrevista com ele na manhã de quarta.

Até parecia que ela estava prevendo.

Saiu do elevador e dobrou a esquina, entrando no átrio. Foi quando ouviu uma voz de homem à sua esquerda.

— Desculpe—me, mas a palavra "Pizza" tem algum significado especial para você?

Gina sentiu um arrepio. Aquele era um nome que não ouvia desde a escola.

Um nome que não queria ouvir nunca mais.

Gina se virou. Ele de novo. Ou ainda. O louro de terno. Agora estava vendo em seu rosto algumas cicatrizes finas que não notara antes; eram lineares ao longo da fronte e desciam pela face esquerda. Estava se aproximando dela, olhando para seu rosto como uma criança debruçada sobre o livro Onde está Wally? Qual era o problema dele?

Gina então se apercebeu de algo familiar nele. Se imaginasse seu cabelo uns dez centímetros mais comprido...

Ele estendeu a mão.

— Deus, é você mesma. Não sei se você se lembra de mim, da época do ginásio. Eu sou...

O nome veio—lhe à mente.

— Gerry! — Ela segurou—lhe a mão. — Gerry Canney!

— Certo. Estou lisonjeado por você ter lembrado.

Mas como poderia esquecer? Capitão e zagueiro do time de futebol, capitão da equipe de natação, e, ainda por cima, aluno aplicado. Tivera uma queda enorme por Gerry Canney durante todo o tempo que cursaram o ginásio Washington—Lee na Arlington Avenue. Lembrou—se de que costumava ficar todos os dias à espera dele no corredor, depois da aula de Estudos Sociais, só para vê—lo passar. As cicatrizes em seu rosto tinham sido mudanças sutis em sua aparência, mas continuava estonteante.

— Está lisonjeado por eu ter lembrado de você?

— Eu estou lisonjeada por você ter lembrado de mim!

Ele sorriu.

— Sou um bom fisionomista. E quem poderia esquecer uma garota com um nome como Pizza?

Ele repetiu isso. Seria preciso cortar o mal pela raiz.

— E Gina, Gerry. Gina. Ele piscou.

— Peguei você. Acho que nunca soube seu nome verdadeiro. É Gina. Mas quase não a reconheci. Você está maravilhosa.—Ele piscou e meneou as mãos no espaço entre os dois, como se quisesse apagar as palavras.—Espere. Isso não saiu direito. Eu não quis...

— Tudo bem — ela riu, segurando—o pela manga.—Entendo. Não sou metade da garota que era. E você... da última que o vi, tinha enormes costeletas e cabelo tapando as orelhas.

Ele esfregou as faces bem barbeadas.

— Sim. Os anos setenta. Dá para acreditar que nos vestíamos daquele jeito? Mas me diga: o que tem feito da vida?

— Acabo de terminar meu período de residência.

— Você é médica? Parabéns! — Ele olhou o relógio. —Veja, estou esperando você aqui desde que entrou. Precisava certificarme de que era você. Mas agora estou atrasado para uma reunião e tenho de correr. Mas nos vemos de novo em breve.

— Seria ótimo.

— Que tal amanhã à noite? Está livre?

Ela percebeu que ele não se referia apenas a seu tempo.

— Amanhã? Não, eu pego o turno da noite às terças. — Ela iniciava um turno de doze horas em Lynnbrook às oito.

— Que tal quarta?

— Desculpe. Turno da noite de novo.—Mas Gina não queria que ele pensasse que o estava dispensando. — Talvez pudéssemos nos encontrar para jantarmos cedo antes de eu pegar no batente. Ou esperamos até sexta.

— Sexta está muito longe. Um jantar cedo seria melhor. Tem algum lugar de preferência?

— Escolha você.

— Certo. Eu escolho.

Ele tirou uma pequena caderneta de couro do bolso e lhe deu dois cartões e uma caneta.

— Anote seu número e ligarei quando pensar num lugar apropriado.

Gina escreveu o número do telefone e devolveu—lhe os cartões. Ele devolveu o de baixo para ela.

— Este é para você. Telefone sempre que testemunhar um crime federal. — Despediu—se com um aceno de mão. — Eu lhe telefonarei hoje à noite ou amanhã.

Ele começou a andar apressado através do átrio de mármore branco, na direção da saída. Gina olhou o cartão: Gerald Canney, Agente Especial, FBI.

Ela sorriu. Gerry, um agente do FBI? Surpreendente. Sempre imaginara que ele acabaria sendo um alto executivo em alguma multinacional. Quem teria adivinhado? E agora o ex—destruidor de corações do ginásio Washington—Lee queria sair com ela. Quem teria adivinhado?

Só gostaria que ele não tivesse dito seu apelido. Aquilo não era engraçado.

Pizza... quando ela ganhara esse apelido? Quando era caloura? Por volta da época em que seus hormônios tinham começado a fluir. Da noite para o dia estava inchada como um balão. Aquilo era horrível. Não cabia em suas roupas. Os seios estavam crescendo, o que era bom, mas a barriga, quadris e cintura também. Não mudara os hábitos alimentares, mas o corpo parecia ter— se tornado incapaz de queimar as calorias que absorvia. Em menos de um ano ficara obesa. Ela queria morrer.

O pai dela não considerou aquilo um problema. Dizer "Há mais de você para amar!" definitivamente não adiantava para amenizar sua angústia. A mãe entendia, e juntas iniciaram uma dieta, mas já era tarde demais. Os engraçadinhos da escola não puderam resistir a chamá—la de "Pizza" Panzella.

Ela mudou internamente também, tornando—se mal—humorada e reclusa.

Olhando para trás agora, depois de formar—se em medicina, Gina percebia que afundara numa depressão clínica. Dizia às pessoas que não se importava com seu peso ou como qualquer um a chamasse e, para provar isso, comia até estourar. Especialmente nas noites solitárias de quarta.

Especialmente chocolate. Pizza amava chocolate. Bolo de chocolate, rosquinhas de chocolate, bombons de chocolate com amêndoas e barras de chocolate. Deus, ela adorava barras de chocolate. E comer apenas a deixava mais gorda, e em conseqüência, mais deprimida.

Pizza perdeu a formatura e muitas outras atividades de segundo grau por causa de seu exílio voluntário. Os únicos momentos agradáveis naqueles dias sombrios tinham sido os livros que lera e seu trabalho de meio expediente no consultório do Dr. Lathram. Suas notas começaram a cair, mas não o bastante para impedi—la de entrar na universidade.

No verão que antecedeu a sua entrada na universidade, percebeu que tinha uma chance de recomeçar tudo. Os rapazes em Princeton nunca tinham ouvido ninguém chamá—la de Pizza. Jurou que nenhum deles jamais ouviria. Entrou numa dieta rígida — nem bulimia, nem fome, nem trocar um problema pelo outro. Apenas pouca gordura e restrição de calorias, mais um programa torturante de exercícios. Lembrou—se da fome constante, dos pulmões ardentes, das pernas doloridas, enquanto forçava o corpo a correr mais um quilômetro... só mais um. Mas quando se registrou em Princeton, Gina estava orgulhosa de estar apenas acima de seu peso. Segundo suas tabelas, seu peso alcançara o máximo adequado à sua idade, altura e sexo durante o primeiro ano. No terceiro ano de faculdade, estava ficando magra demais, de modo que começou a suavizar a dieta. Quando se formou, transformara—se na pessoa que sempre quisera ser: tinha seu bacharelado em biologia, estava a caminho da escola superior de medicina e gostava do que via no espelho.

Mantivera aquele peso durante os quatro anos da escola superior de medicina e os três anos de residência. Pizza Panzella estava morta.

Bem, quase. O fantasma de Pizza ainda a assombrava, e de vez em quando a arrastava até o balcão de chocolates de uma confeitaria. Nessas ocasiões, Gina cedia e deixava Pizza comer uma barra de chocolate. Mas apenas de vez em quando, e só uma.

E agora Gerry Canney estava convidando—a para sair. Estranho como as coisas na vida fecham o círculo.

Franziu a testa. Não ouvira falar qualquer coisa sobre Gerry ter—se casado?

Queria conhecê—lo—certamente não o conhecera no segundo grau — mas não estava interessada em jogos.

Pizza Panzella fora uma adolescente vulnerável.

Gina Panzella, era tudo, menos isso.

— Desculpe a demora—disse Gerry ao entrar no escritório de Marvin Ketter no prédio do FBI. Estava ofegante e suado porque fora correndo desde a garagem.—Levei um pouco mais de tempo do que pensara.

O que era verdade. Pizza... não.... Gina demorara mais do que ele previra para terminar seus negócios no Edifício Hart. E o tempo todo até aqui sua mente estivera concentrada nela, e não no senador Schulz.

Nossa, como estava bonita agora. A metamorfose de Pizza em Gina o fascinava. Lembrava—lhe de uma coisa que lhe acontecera quando criança.

Tinha ido passar um fim de semana fora e deixara uma lagarta num aquário seco. Ao voltar, encontrara uma belíssima borboleta voando dentro do vidro. Ele a deixara voar pelo seu quarto, observando—a, pasmado, durante horas antes de abrir a tela da janela para deixá—la passar.

— Bem, você teve a manhã inteira para fuçar a terra — disse Ketter. — Encontrou alguma minhoca?

Martin Ketter tinha dez anos a mais que Gerry. Os cabelos pretos e cacheados, que mantinha bem curtos, estavam começando a acinzentar nas têmporas. As sobrancelhas eram sua característica marcante —enormes e felpudas, como as de Groucho Marx, eram mais longas e espessas que o cabelo na cabeça. Com um bigode preto e um charuto, Gerry poderia juntar—se a Harpo e Chico. Pelo menos até que abrisse a boca. Groucho não tinha sotaque da Geórgia.

Ketter era supervisor de agentes especiais. Um degrau acima de Gerry, que queria o trabalho dele. Mas não pretendia chutálo nem fazê—lo parecer incompetente. Gostava de Ketter. Mas quando Ketter ascendesse na hierarquia, Gerry gostaria de ocupar o cargo dele. Não simplesmente como um movimento de carreira ou porque ele fora um agente de campo por tempo demais; havia outros motivos, mais importantes.

— Encontrei alguns petiscos, mas não sei se significam alguma coisa. E quanto mais descubro sobre o nosso garoto, menos gosto dele. Quero dizer, não parecia haver nada tão pequeno que ele não quisesse roubar.

— Tem um monte de gente assim lá em cima.

— É, começo a ver isso. Droga, eu tinha algumas ilusões sobre o que acontece lá no Capitólio, mas estou começando a achar que eu era um crédulo.

Ele aprendera mais do que gostaria sobre o tráfico de influências em Washington.

Anos atrás o Senado votara para reduzir a quantidade de jettons que cada membro podia coletar de particulares em um ano. Mas isso não impedia os senadores de aceitarem "acordos orais". Eles ainda voam para estações de veraneio, nas quais são hospedados em suítes palacianas, e comem e bebem do melhor durante dias — antes e depois de seu "discurso", que normalmente se restringe a uma conversa com assessores de grandes empresas. Depois voam de volta para Washington carregados de presentes.

O honorário de mil dólares pelo discurso? Isso era doado — muito visivelmente — para uma instituição de caridade.

As viagens com todas as despesas pagas e os presentes costumavam bastar para a maioria dos congressistas, mas não para o senador Schulz. Ele aceitava todos os convites que recebia, exigia honorários altíssimos, mas graciosamente doava cada centavo para uma igreja de sua cidade natal onde seu tio era pastor. A investigação de Gerry desvelara provas de que o pastor estava direcionando apenas um quarto dos donativos para a igreja e devolvendo o restante a Schulz.

Mas então Gerry ficou sabendo da conexão entre Schulz e o deputado Hugo Lane. Ambos eram mancomunados com lobistas de empresas automobilísticas japonesas. Uma megaempresa japonesa comprara uma mansão de oitocentos mil dólares em Palm Beach. Estava registrada no nome da empresa, mas seu uso destinava—se exclusivamente para Schulz e Lane. Sempre que os dois queriam um pouco de diversão sob o sol da Flórida, a mansão era deles. Simplesmente tinham de acertar entre si para não chegar lá ao mesmo tempo.

O deputado Lane morrera num acidente de carro — entrara numa ravina profunda em Rock Creek Park—duas semanas antes da morte de Schulz.

Haveria aí uma conexão? Talvez. Gerry estava de olho nisso. Até aqui não descobrira nada de relevante, mas continuava investigando.

— Uma coisinha interessante — disse a Ketter. — Encontrei o canhoto de um polpudo cheque, destinado à cirurgia plástica.

— Deixe—me adivinhar: tirado dos fundos da campanha de reeleição.

— Claro.

— E então, o que tem isso?

— Bem, para mim, ninguém que esteja pensando em se matar se dá ao trabalho de fazer uma plástica. Isso parece mais apropriado a quem esteja pensando no futuro.

— É possível. Ou talvez essa pessoa tenha feito a plástica porque estava muito insatisfeita consigo mesma, mas então descobriu que isso não a fazia sentir—se melhor, e mergulhou para a morte.

— Estraga—prazeres — murmurou Gerry.

— Deixe a adivinhação para os psicanalistas. Obteve algo concreto?

— Sim. Apareceu uma correlação estranha no banco de dados. E se eu lhe dissesse que tanto Lane quanto Schulz fizeram operação plástica neste verão?

Ketter deu de ombros.

— E daí?

— E se lhe dissesse que foi com o mesmo cirurgião?

— Mesma resposta. Esses Bons Companheiros vão ao mesmo dentista, à mesma cartomante, aos mesmos restaurantes, têm o mesmo treinador pessoal, e às vezes até as mesmas amantes. E então, qual é o problema de terem o mesmo cirurgião? Quem é o médico?

— DuncanLathram.

Ketter o fitou por um momento.

— Ah, entendo. Acho que já ouvi esse nome antes. E acho que foi você quem falou sobre ele. Ou estou errado?

— Não. Está certo.

— Parece que brigou com esse tal Dr. Lathram não tem muito tempo.

— Tivemos uma discussão. Só isso.

Muito mais que uma discussão, na verdade. Duncan Lathram se recusara a operar o rosto de Gerry depois do acidente de carro. Fora uma época muito difícil para Gerry. A pior. E a recusa de Lathram quase fizera Gerry perder a cabeça. Ainda remoía a dor daquela rejeição.

— Se lembro bem, você ficou realmente invocado naquela época.

— Olhe, o computador cuspiu sozinho a correlação. Não fui até lá procurando por isso. Mas deve admitir que parece um pouco estranho que um deputado e um senador morram cerca de um mês depois de uma cirurgia plástica executada pelo mesmo médico.

— Um em acidente de carro, o outro numa queda. Não estou vendo exatamente um padrão aqui.

— Nem eu. Só estou mencionando como curiosidade.

— Ótimo. Então basicamente não temos nenhum indício de sujeira na morte de Schulz.

— Nenhum.

— Certo. Então vamos bater a poeira e seguir em frente, sem envolver cirurgiões plásticos nessa história.

— Faremos isso.

Mas aquilo despertara a curiosidade de Gerry. Poderia não ser nada — não era nada — mas ficaria de olhos bem abertos, para o caso de algum outro paciente de Lathram acabar no necrotério. Só pelo prazer de fazer isso.