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F. Paul Wilson · Capítulo 20 de 36

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* 20

 

DIA DO DESCOBRIMENTO

 

No Dia do Descobrimento da América, Gerry e Martha foram recebidos de forma efusiva no feudo do clã Panzella. Gina sabia que as boas—vindas teriam sido mais discretas caso seus pais tivessem percebido que Gerry era mais que um velho colega de escola.

Gina contara antes aos pais que Gerry era viúvo. Isso provavelmente não era necessário, mas nunca se sabe. Papa tinha uma tendência a dizer o que lhe vinha à cabeça, ainda mais depois de ter bebido um pouco. Gina não duvidava que ele perguntasse a Gerry onde estava a mãe de Martha.

Papa estava ansioso por conhecer Gerry. Lembrava vagamente de seu nome do time de futebol do ginásio Washington—Lee, e estava intrigado com o fato de ter—se tornado agente do FBI. Mama, que quis saber todos os detalhes da viuvez dele, ouviu emocionada o relato de Gina.

Gina apenas não contou o que sentia por Gerry, a necessidade crescente de estarem juntos e a tensão sexual cada vez maior entre os dois.

Tudo correu de forma tranqüila. Papa e Gerry se afinaram rápido, e tio Fiore, um policial aposentado, queria saber como eram as coisas no FBI.

E Martha... bem, Martha encantou imediatamente todas as mulheres da família. Antes de Gina perceber, a menininha de cinco anos estava na cozinha, embrulhada num avental quase do tamanho dela, em pé numa cadeira de frente para o balcão, ajudando mama e tia Maria a fazer almôndegas e rechear raviólis.

Certa hora, ao passar por tia Terry e tia Ana, Gina ouviu um pouco da conversa que travavam em voz baixa:

— ... morta num acidente de carro. Uma tragédia.

— E ele está criando sozinho a menininha.

— E fazendo um bom trabalho. Ela não é um anjinho? Gina prosseguiu, sorrindo.

Estava torcendo para que durante a noite ficasse evidente que ela e Gerry eram mais que amigos. Soube que conseguira isso quando ouviu mama conversando seriamente com Gerry.

— E agora seu nome. Não tenho certeza se sei pronunciá—lo.

É com "i" no fim?

— Não. É com "e—y". "C—a—n—n—e—y. É irlandês.

Gina quase riu alto da reversão súbita de mama ao sotaque italiano. Ela nascera em Baltimore.

Mas Gerry ganhou um lugar no coração de mama comendo tudo que ela punha à frente dele — de lula recheada a ravióli — e repetindo. Como podia permanecer fria para com uma pessoa com muito apetite e gosto pela sua comida? E Martha... Martha até comeu uma almôndega, uma pequenina que ela mesma fizera.

Gina era cuidadosa com o que comia. Pizza Panzella acordara dentro de Gina e estava instigando—a a encher o prato, mas Gina não lhe dava ouvidos. Provou um pouco de cada prato, sempre deixando um pouco de cada um que experimentava.

Depois da sobremesa Gina viu Gerry num canto conversando compapa, tio Fiore e tio Dom. Percebendo que ela o olhava, Gerry levantou o copo para Gina e piscou um olho. Deus, ele estava deslumbrante. E amou a forma como ele estava se enquadrando, entrando no ritmo da festa, e não ficando assistindo de fora. Naquele momento, percebeu o quanto o queria.

Gina pensou se deveria alertá—lo sobre o que ele estava bebendo. Se aquilo era o que ela pensava ser, Gerry se arrependeria mais tarde. Mas por que ser uma estraga—prazeres? Era melhor deixálo se divertir.

Os pratos estavam lavados e empilhados, e a festa chegava ao fim quando Gina, Gerry e Martha caminharam de volta até o carro dele. Mama,Papa e alguns tios e tias ficaram parados à frente da casa, acenando para eles.

— Acho que vocês dois fizeram o maior sucesso—disse Gina. —Você se divertiu?

— Acho que me diverti demais — disse Gerry. — Ele entregou as chaves para ela. — Importa—se?

Parecia bem, perfeitamente equilibrado e com a voz clara, mas Gina pegou as chaves, satisfeita em ver que ele sabia admitir quando se excedia.

— Nem um pouco.

— Mama disse que eu deveria voltar e ajudá—la a cozinhar quando eu quisesse — disse Martha.

Gina teve de sorrir. A mãe dela devia ter amado Martha para mandar que a chamasse de mama.

— E sei que ela falou sério—disse Gina. — Faz muito tempo desde que uma menininha ajuda mama na cozinha.

Com uma pontada de dor, recordou todos os feriados que passara sentada diante daquele mesmo balcão, ajudando a mãe a preparar a comida. Tentou imaginar o quanto mama sentia—se abandonada pela filha que saíra de casa para tornar—se médica. Sem filhos homens, não teria nenhuma nora para colocar sob suas asas.

Será que ela sabe o quanto a amo?

E quando foi a última vez que lhe disse isso?

Não conseguiu lembrar. Aquilo a abalou. Tinha certeza que mama sabia, mas todo mundo precisa ouvir isso de vez em quando. Gina jurou passar a fazer isso com regularidade.

Por que não começar agora?

Ela voltou correndo para a porta e envolveu a mãe com os braços.

— Te amo, mama. Você é a melhor. — Gina beijou a mulher aturdida e então correu de volta para o carro. Olhando sobre o ombro, viupapa sorrindo e mama enxugando os olhos.

Depois de colocar o cinto de segurança em Martha, Gerry acomodou—se no banco do passageiro.

— O que era aquilo que seu pai estava servindo no final?

— Grappa—disse Gina.

— Eu estava bem até aí. Você sabe, sou irlandês. Podemos beber qualquer coisa que não nos mate. Mas aquele negócio...

— Grappa não vai matar você — disse Gina com um sorriso. — Mas se não está acostumado com ela, vai desejar que estivesse.

A hora de dormir de Martha passara fazia um bom tempo, mas ela estava acesa, falando sem parar sobre encher canelones com queijo e o quanto a lula era feia antes de mama limpá—la. Gina estava satisfeita por ela não ter vindo na Páscoa. Como Martha teria reagido à capozella? Se ela e Gerry ainda estivessem se vendo na próxima primavera—e torcia que sim —, Gina teria de preparar Martha para encontrar uma cabeça de ovelha na cozinha.

Martha falou sem parar até pararem em frente à casa deles, mas estava dormindo profundamente nos braços do pai quando chegaram à porta. Gina subiu e ajudou—o a colocá— la na cama.

— Lá embaixo, Gerry colocou os braços em volta de Gina.

Ela se aninhou nele.

— Obrigado, Gina — sussurrou. — Foi o melhor Dia do Descobrimento da minha vida.

— Não acabou ainda—disse Gina, e beijou—o.

Ele recuou e olhou—a por um segundo, e então se beijaram de novo, longa e apaixonadamente. Gina não queria que a noite acabasse ainda.

Os dois se jogaram no sofá, e não demorou muito até que estivessem desabotoando os botões um do outro, deixando cair suas roupas como peles velhas até que não havia nada entre as peles novas. E não precisaram de muitas preliminares porque Gerry já estava em guarda e Gina estivera excitada a noite inteira.

Ela não queria perguntar, mas se forçou a fazer.

— Não tenho de me preocupar com você, tenho?

— Como assim? Você quer dizer... não. Bem, houve duas mulheres. Ambas muito comportadas. Nas duas vezes achei que podia dar em alguma coisa mas estava errado. E agora... e quanto a você?

— Um cara durante a maior parte do meu período de residência.

— O que aconteceu?

— Vim para cá, ele ficou lá. Acabou.

— Bom.

E então ele estava em cima dela, cavalgando—a furiosamente, levando—a ao ápice... e deixando—a lá.

— Sinto muito—disse ele ao recuperar o fôlego um instante depois. — Faz muito tempo, e eu a queria tanto. Eu apenas...

Ela envolveu o pescoço dele e puxou—o mais para perto.

— Está tudo bem. Entendo. Haverá outras vezes. Fisicamente, estava frustrada. Aqui estava ela com Gerry

Canney, o homem de seus sonhos no ginásio, e agora seupróprio homem e com o pênis parecendo a ponto de explodir. Não imaginara que seria desse jeito. Achava que ele seria um amante perfeito e que agora estaria flutuando em nuvens de êxtase. Mas outra parte dela estava encantada. Sentira que ele era um homem direito e isso confirmava seu palpite. Se ele tivesse agido como um garanhão essa noite, Gina talvez ficasse preocupada com ele.

Gina pensou a respeito dos dois. Realmente sentia algo profundo por Gerry ou estava apenas querendo que ele preenchesse o vácuo deixado por Peter?

Não, ela decidiu. Isso é real. É algo que demorara muito a acontecer.

Enquanto estavam abraçados, Gerry passou os dedos sobre a barriga de Gina e encontrou uma cicatriz longa que corria desde a ponta do esterno até a esquerda do umbigo.

— Que é isto?

— O motivo pelo qual você jamais me verá num biquíni.

— Falo sério.

Contou que fora atropelada por um caminhão, que seu intestino ficara exposto e como Duncan o pusera de volta.

— Agora vejo por que você é tão devotada a ele. Acho que estou em dívida com Duncan.

— Porquê?

— Ele a salvou para mim. Deixe—me mostrar algumas das minhas cicatrizes.

Esta é minha apendicectomia...

— A minha é maior que a sua... — disse Gina, cantando.

E logo depois, enquanto comparavam cicatrizes, Gina notou que ele estava pronto novamente.

— Faz mesmo muito tempo, não é verdade?—perguntou Gina.

— Uma eternidade. Mas dessa vez ela assumiu o comando, cavalgando—o e controlando o ritmo. E quando atingiu o clímax foi como se o quaseorgasmo de antes houvesse ficado esperando na coxia e entrara em cena no último minuto. Ela gemeu alto, e Gerry levou a mão à sua boca para tampá—la. Gina mordeu a mão dele e pensou que ia desmaiar.

Mais tarde, quando estavam esparramados e exauridos no sofá, Gina viu que a mão dele estava sangrando.

— Deus, sinto muito. Veja o que fiz. Não foi de propósito.

— Sei disso. Eu só não queria que nada acordasse a Martha. Deus, ela esquecera completamente a Martha.

— Mas você disse que ela tem sono pesado.

— E tem mesmo. E provavelmente está dormindo como um anjo depois da festa desta noite. Ainda assim...

— Mesmo no calor da paixão, você não deixa de ser um pai protetor...

— Não é um chapéu que eu possa tirar quando bem entender. Espero que não tenha ficado ofendida.

— Nem um pouco — disse ela, beijando—o para ter certeza que ele entendera.—Isso apenas me diz alguma coisa sobre você... uma coisa boa.

Amava esse homem. Sentia—se tão à vontade com ele. Os dois compartilhavam um passado, e ela sentia que também possuíam valores em comum. Aqui estava algo que poderia realmente durar.

Com esse pensamento feliz e caloroso na mente, Gina adormeceu.

Estava quase vestida quando Gerry acordou. O dia nasceria a qualquer momento. Ele piscou com a claridade. Podia ver que ele estava com dor de cabeça.

— Para onde vai?

— Para casa tomar um banho. Tenho cirurgia hoje de manhã com Duncan.

— Pelo menos fique para o café. Eu posso...

— Acho melhor Martha não me achar aqui quando acordar.

— Talvez tenha razão. Mas não vou acordá—la tão cedo.

— Mesmo assim, preciso ir.

Os dois se abraçaram. Não queria separar—se de Gerry, ele não queria deixá—la ir. Ela queria passar a manhã com Gerry fazendo café e pão judeu e depois amor de novo e tomar banho com ele, e então, e talvez só então, pensar em assistir Duncan numa cirurgia plástica.

— Da próxima vez será na minha casa. Poderemos gritar à vontade. Lá no meu bairo, o Adams Morgan, ninguém repara nesse tipo de coisa.

Enquanto Gina voltava para casa, o sol despontou no horizonte, projetando a silhueta do Monumento de Washington, enquanto ela cruzava a Ponte Memorial de Arlington.

Mais uma vez ficou preocupada, imaginando se estaria apressando as coisas com Gerry. Mas não... Isso parecia certo.

Poderia ficar melhor que isso ? Estava trabalhando com Duncan Lathram, era assistente legislativa do senador Marsden e estava fazendo amor com Gerry Canney. Finalmente todas as peças de sua vida pareciam em seus lugares.

Não. Era impossível ficar melhor que estava.