Implante
* 7
GINA
— Cuidado agora—disse Oliver em tom suave, olhando por sobre o ombro de Gina, instruindo—a. —Assim. Vá com cuidado... cuidado...
Sem nenhuma notícia do escritório de Marsden ou de Gerry, Gina não tinha como evitar sentir—se sozinha nessa tarde. Assim, combinara passar algumas horas no laboratório de Oliver praticando a técnica de encher implantes. Aprenderia e ainda seria paga por isso.
Gina sentiu cheiro de alho no hálito de Oliver e imaginou o que ele comera no almoço. Pelo visto, nada de baixas calorias. Oliver tinha uma fraqueza por comida italiana e não se preocupava com os efeitos que ela causava em sua cintura. Devia ter sido talharim com molho de frutos do mar e muito alho...
Melhor esquecer os abusos dietéticos de Oliver. Ela precisava concentrar—se no que estava fazendo.
Gina introduzira uma agulha finíssima na extremidade de um dos implantes membranosos de tamanho médio de Oliver e agora o injetava com uma solução salina comum. Se isso fosse para valer, Gina estaria trabalhando sob condições rigorosas de esterilização e enchendo os implantes com o "molho secreto" de Oliver.
Olhando através da lente de aumento sobre a lâmpada fluorescente de exames, Gina observou a membrana tubular de um centímetro de comprimento inchar e esticar. Era como encher de água o menor balão do mundo.
— Está cheio agora—disse Oliver.—Sente a pressão de que lhe falei?
Não tinha sentido nada até agora—motivo pelo qual meia dúzia de membranas jaziam estouradas ao lado da bandeja. Mas dessa vez ela sentiu uma pequena resistência no êmbolo.
— Acredite se quiser, estou sentindo sim!
— Beleza! Agora é hora de fechar.
Gina reprimiu um sorriso ao pegar o cauterizador. Será que mais alguém na terra ainda dizia beleza ? Oliver tinha de ser o último.
Ele era uma espécie de enigma. Não parecia ter uma vida fora do laboratório. Nada de esposa ou família. Ou mesmo algo parecido, até onde ela sabia. Quando ele convidara a equipe para jantar, Gina saíra da casa dele conhecendo—o tanto quanto antes.
— Certo. Estou pronta.
— Sabe o que fazer. Apenas relaxe.
Gina vira Oliver fazer isso uma centena de vezes mas nunca chegara tão longe. Posicionou a ponta achatada do cauterizador sobre o ponto da perfuração, retirou lentamente a agulha e, finalmente, pisou no pedal arredondado próximo ao pé esquerdo. Um pequeno arco de centelha azul formou—se entre o cauterizador e o implante, queimando e coagulando a membrana proteica em torno da perfuração.
Ela observou através das lentes de aumento, esperando que uma gota de fluido se formasse, o que indicaria a necessidade de outro choque. Mas a membrana permaneceu seca. Ela selara a abertura.
Sucesso. Enfim. Um pequeno triunfo que dificilmente compensaria o fiasco no escritório de Marsden na segunda ou o incidente com Allard nessa manhã, mas que nesse momento significava bastante.
Gina olhou para cima e viu o rosto redondo de Oliver sorrindo para ela.
— Vai ser beleza ter alguém aqui que saiba encher essas coisas. Estou de saco cheio de fazer isso.
— Por que simplesmente não contrata um ou dois assistentes para fazer esse tipo de trabalho?
— Porque não há realmente muita coisa a ser feita neste estágio dos estudos. E eu gostaria de limitar o número de pessoas que sabem com o que estamos trabalhando.
— E exatamente com o que estamos trabalhando?
— Com molho secreto.
— Puxa, Oliver! Não acha que tenho direito de saber?
Ele pensou por um momento.
— Certo. É justo. Mas prometa ficar de bico fechado. Como esta solução não é patenteável, temo que alguém copie a fórmula \ e adquira os direitos sobre ela colocando—a no mercado antes de mim.
— Palavra de bandeirante — disse Gina.
— Tenho certeza que posso confiar em você — murmurou Oliver, como se estivesse percebendo isso naquele momento.
Tirou os óculos grossos com aro de tartaruga enquanto se sentava ao lado de Gina. Começou a falar, rápido, como se alguém tivesse aberto uma válvula. Gina percebeu que havia muito tempo ele devia estar morrendo de vontade de contar a alguém sobre o molho secreto.
— Você está familiarizada com o trabalho do Departamento de Biologia Celular e Estrutural da Universidade de Manchester, na Inglaterra?
— Não. Nem um pouco.
— Pouquíssimos clínicos estão. Certo, e quanto a cirurgia fetal?
Já viu alguma?
— Um pouco lá em Tulane. Não fazia parte de minha ronda, é claro, mas acabei adquirindo alguma informação por osmose.
— Perfeito. Então você sabe que um feto pode sofrer uma cirurgia no útero e nascer meses depois sem cicatrizes.
— Sim, lembro de ter ouvido os residentes de obstetrícia falarem alguma coisa assim sobre um parto de alto risco que eles haviam feito. O bebê sofrera a remoção da parede abdominal durante a décima sexta semana de gestação, mas nascera sem um único vestígio de incisão.
— Isso mesmo. Mas a cirurgia precisa ser realizada durante os cinco primeiros meses. Qualquer procedimento realizado depois deixa cicatriz, como aconteceria com qualquer adulto. Os biólogos celulares vêm estudando isso há anos. O que acontece lá dentro? Qual é a diferença? O que impede que ocorra o acúmulo usual de colágeno, formando as cicatrizes que todos conhecemos? Há alguns anos o pessoal da Universidade de Manchester chegou
a uma resposta.
Gina estalou os dedos. Ela lembrava alguma coisa... onde tinha sido?
— Algum tipo de fator de crescimento, não é?
Oliver bateu palmas.
— Excelente! O fator beta de transformação de crescimento, para ser mais preciso. Eles identificaram três tipos de fatores beta de crescimento, e descobriram que o terceiro, o beta 3, é reduzido vertiginosamente no final do segundo trimestre de gravidez. A molécula tipo três... eu a chamo de beta— 3... vem sendo sintetizada desde então e é o ingrediente—chave do molho secreto.
— Então esse é o segredo dos resultados incríveis de Duncan.
— Não — disse Oliver, meneando um dedo.—Duncan tem os olhos e as mãos que fazem a remodelagem. Mesmo sem uma gota de beta—3, seus pacientes teriam cicatrizes mínimas. Tudo que fiz foi encontrar uma forma de envernizar a emenda.
— Mas por que os implantes? Ele não poderia simplesmente cobrir as incisões com beta—3?
— Não adiantaria de nada. O beta—3 é necessário na fase final da recuperação. Lembra dos três estágios da reparação de ferimentos: inflamação, proliferação e remodelagem? O beta—3 faz seu trabalho no estágio três, quando o tecido da cicatriz se forma para substituir o tecido granuloso. No momento da sutura o beta— 3 não surte efeito. Você precisa de uma forma de liberação retardada.
— Entra em cena o implante. Oliver sorriu.
— Um caso clássico de sincronia. Lá estava eu, matando—me de trabalhar como psicofarmacologista na GEM Pharma durante o dia, testando antidepressivos em ratos dentro de caixas de papelão, enquanto trabalhava à noite em casa num sistema de liberação contínua de medicamentos. Na época o Norplant era a grande estrela, mas os implantes de Norplant tinham de ser removidos depois de cinco anos. Achei que poderia aperfeiçoar isso, desenvolver um implante que liberaria seu medicamento em doses iguais durante cinco anos, talvez mais, e depois se dissolveria. Grande idéia, não?
— A julgar pelo seu tom de voz, não deu certo.
— Não completamente. Desenvolvi uma matriz de proteínas cristalizadas que era macia e flexível, e que realmente se dissolveria sem deixar resíduos. Contudo, ela era impermeável. Não permitia que uma gota de qualquer coisa saísse através dela... isso só acontecia quando ela se dissolvia, e então todo o conteúdo era derramado nos tecidos circundantes. Tudo que eu conseguira era desenvolver uma forma muito cara e complicada de dar uma injeção em alguém. Fiquei terrivelmente desestimulado.
— E então entra em cena Duncan.
— Isso. Depois de seu... bem, depois que ele deixou a cirurgia vascular, ouvi falar sobre os resultados obtidos em Manchester com o tipo 3 do fator beta de transformação de crescimento e vi o quanto minha membrana, incapaz de liberação gradual, mas perfeita para liberação retardada, poderia ser usada para liberar o beta—3. A FDA autorizou que realizássemos testes clínicos, e os resultados têm sido extraordinários.
Gina tinha visto os pacientes que faziam seus exames pósoperatórios e de como apenas com uma lente de aumento era possível saber que tinham sofrido cirurgia. Subitamente Gina se deu conta do enorme potencial dos implantes de Oliver.
— Mas a cirurgia plástica é só a ponta do iceberg—disse ela. — Pense no que você poderia fazer pela cirurgia geral.
Oliver balançava a cabeça, animado.
— Claro. Os implantes teriam um valor fantástico nos casos de traumatismos, mas eles se tornarão rotina em procedimentos como histerectomias e apendicectomias. Algumas semanas depois de ser operada, você poderia usar um biquíni... Droga, você poderia ir a uma praia de nudismo — e ninguém saberia que você fora operada.
A mão de Gina subiu até a frente da blusa. Através do tecido, pôde sentir a extremidade superior da cicatriz que corria ao longo da barriga. A cicatriz de Duncan.
Biquíni?, pensou. Nunca comprei nem mesmo um maio decotado. Jamais considerei a possibilidade.
— Contudo, o maior benefício seria na pediatria, porque as crianças cicatrizam mais que os adultos —prosseguiu Oliver. — E algumas dessas cicatrizes podem causar inibições nas crianças, porque, dependendo de onde sejam, não esticam, enquanto o restante do corpo cresce.
E eu não sei?
— Isso parece maravilhoso.
— Será. E agora estamos começando a divulgar discretamente nossos resultados. Outros cirurgiões querem experimentar o implante. Todos os dias empresas nos ligam querendo licenciá—lo, e a FDA nos colocou no topo da lista de aprovações. E é apenas o começo. Duncan teve uma idéia inovadora de como aprimorar o implante, e estou trabalhando como louco no novo modelo aperfeiçoado. E... — levantou a mão e meneou o dedo indicador no ar. —E... alguém muito importante está bastante interessado no uso operatório dos implantes.
— Quem?
— Desculpe. Não posso contar. Pelo menos, ainda não.
Ela não queria, mas a forma como os olhos dele tinham brilhado de entusiasmo despertara sua curiosidade.
— Ora, vamos, Oliver. Você acaba de me contar sobre o beta— 3. Pode confiar em mim a respeito disso também.
— Não. Duncan me mataria. O segredo é dele, afinal. E é grande.
— Certo—falou Gina com seu melhor suspiro de decepção. —Acho que terei de esperar para ler nos jornais.
— Oh, querida. Espero que isso não aconteça. Mas tenho a impressão de que Duncan pessoalmente lhe contará quando for o momento certo.
— Falando em Duncan, você começou a me contar sobre Lisa, a filha que ele "teve". Isso significa o que estou pensando?
Oliver assentiu com tristeza.
— Ela acabara de fazer dezoito quando morreu, há cinco anos.
Da época em que trabalhava como funcionária administrativa no escritório de Duncan, Gina se lembrava vagamente de uma menção ocasional sobre seus dois filhos, um menino e uma menina, ambos mais jovens que ela.
— Há cinco anos... Eu estava na faculdade de medicina nessa época. Nunca soube. O que aconteceu?
— Uma queda. Ela não recuperou a consciência. Foi terrível. Duncan ficou arrasado. Foi a gota d'água para ele.
— Por quê? Aconteceu mais alguma coisa?
— Já falei muito. Se Duncan quisesse que você ficasse sabendo, tenho certeza de que lhe diria. Ele está tentando deixar isso para trás. — Oliver suspirou.—Ele deixou muita coisa para trás. Mas para o aqui e o agora, por que você não aprimora sua técnica enchendo mais algumas membranas? Depois vá para casa.
— Farei isso—disse ela, dando um tapinha no ombro de Oliver. — De uma coisa pode ter certeza, Oliver, esses implantes farão de você um homem muito rico.
— Oh, espero que sim.
— E o que fará com o dinheiro?
— Irei para o mais longe daqui que puder.
— Realmente? Para onde? Havaí?
Ele suspirou.
— Para qualquer lugar onde eu não precise ver Duncan desperdiçando seu talento como ele faz... embelezando figurões e jogando... golfe!
E então saiu apressado da sala, com o jaleco branco adejando atrás dele.
Gina permaneceu olhando para a porta, chocada.