Implante
* A Semana de 22 de Outubro
* 29
DOMINGO
Estava determinada a descobrir tudo sobre Duncan Lathram.
Gina ligou o motor quando uma mercedes preta parou no cruzamento, saindo da rua de Duncan. Não podia estacionar em frente à casa dele, ou mesmo no seu quarteirão. Duncan morava num condomínio de casas elegantes em terrenos de meio hectare em Chevy Chase. Ali, o pequeno Sunbird vermelho de Gina se destacaria como uma barca de lixo no Iate Clube Potomac. Uma das vantagens de se viver num bairro fechado era a segurança. Ladeada por pilares de tijolos aparentes, a entrada do condomínio de Duncan dava passagem para uma estrada secundária próxima a um pequeno shopping center. Gina ficara acampada no estacionamento do shopping durante a maior parte do dia anterior e toda a manhã de hoje, sem que ninguém a importunasse.
O dia anterior não resultara em nada de interesse. Duncan saíra de casa apenas uma vez, parando numa loja de bebidas, numa importadora de café, num posto de gasolina e numa loja de eletrônica. "Eletrônica Caliguire", dizia o letreiro na porta da frente. "Áudio, Vídeo, Sistemas de Home Theater, Miniparabólicas, Aparelhos Eletrônicos sob Encomenda." Gina lembrou de Duncan ter falado sobre sua miniparabólica. Ele devia tê—la comprado ali.
"Brinquedos de meninos", murmurara Gina.
De repente, deu—se conta: aparelhos eletrônicos sob encomenda. Para dissolver seus implantes, Duncan precisava de algum tipo de transdutor de ultra—som em miniatura. Alguma coisa pequena o bastante para que pudesse escondê—la sob as roupas e mirar contra sua vítima quando ela estivesse ao alcance. Algo que coubesse no bolso...
Deus! Opager de Duncan! O enorme e antiquado pager de Duncan! Gina lembrou que Duncan o estava segurando quando ela o vira com Allard, e como o aparelho tocara enquanto eles estavam conversando com o senador Vineent na sala de audiências do Congresso, pouco antes do senador Marsden pedir que todos fossem para os seus lugares. Alguns minutos depois o senador Vineent estava sofrendo um ataque diante das câmeras.
E se o pager de Duncan fosse grande não devido à teimosia de Duncan em trocá—lo por um equipamento mais avançado? E se o pager fosse um minitransdutor?
Será que Duncan poderia ter encomendado nessa loja, ou em alguma outra, um aparelho desse tipo?
A pergunta atormentara Gina o tempo inteiro que Duncan permanecera na loja, o que durou quase uma hora. Enfim, ele saiu e retornou para casa Gina considerou seriamente a idéia de retornar à loja de eletrônica para perguntar ao proprietário a respeito de transdutores disfarçados de pagers, mas então lembrou das palavras de Gerry: Pare de bancar a Nancy Drew.
Gerry... sentia falta dele. Queria que ele telefonasse.
Mas fora um bom conselho. Não apenas estava velha demais para ser a aventureira adolescente dos livros e filmes, como também não queria ser uma detetive. Ser uma médica de doenças internas já era o suficiente. E
além disso, se interrogasse os funcionários da Eletrônica Caliguire, eles poderiam telefonar para Duncan.
Era melhor restringir seu trabalho de detetive à tarefa de seguir Duncan.
Bela maneira de passar o fim de semana.
Agora já era a noite de domingo, e essa era a primeira vez que Gina via Duncan o dia inteiro. Ficara, inclusive, preocupada com a possibilidade de ele ter outra saída de seu bairro, mas passara em frente à casa dele uma hora antes, e avistara a mercedes estacionada no topo diante da casa em estilo colonial.
Então o rádio deu—lhe a razão mais provável para Duncan ter escolhido aquele momento para sair de casa. O jogo dos Redskins terminara. Eles tinham perdido. De novo.
Antes de sair do estacionamento, esperou para ver que direção Duncan tomaria. Independentemente do caminho que ele seguisse, Gina iria logo atrás. Não era louca—nem psicótica, nem mesmo neurótica — e não deixaria ninguém convencê—la disso. Duncan tinha segredos. Ele mentia a respeito de onde ia às tardes. Ela descobriria para onde ele realmente ia. Ele não seria capaz de espirrar sem que ela estivesse por perto para dizer Gesundheit.
Dessa vez não seria enganada.
Gina o observou tomar a direção sul. Deixou um carro ficar entre eles antes de segui—lo. Quando ele dobrou na East—West Highway, Gina soube qual era o destino de Duncan.
Com toda certeza, estava indo para o centro cirúrgico.
E agora? Ela não poderia entrar no centro cirúrgico e segui—lo até o escritório.
O escritório de Duncan... Em frente à janela do escritório havia um jardim de pedras com um laguinho e um monte de arbustos espessos. Talvez pudesse esconder—se ali para espioná—lo.
Encontrou uma vaga num estacionamento a meio quarteirão da clínica e correu de volta. Orientando— se pela luz na janela de Duncan, correu curvada pelo vão entre o centro cirúrgico e o edifício comercial vizinho e agachou—se contra o muro em frente ao jardim de pedras. De onde estava, os arbustos cobriam a janela do escritório de Duncan. Se ela pudesse dar uma olhada...
Olhem só para mim, pensou. Arrastando—me em jardins, espionando pessoas...
Isso não era Gina. E ela não jurara nunca mais bancar a Nancy Drew? Era esse o comportamento de uma pessoa de personalidade estável?
Talvez eu precise mesmo de ajuda.
O pensamento causou—lhe um arrepio. Gina balançou a cabeça, como se para afugentar as dúvidas. Precisava ver o que Duncan estava fazendo.
Separou os galhos de uma pequena conífera—pelo seu cheiro de gim, presumiu que fosse algum tipo de zimbro — e olhou através da parede de vidro para o escritório de Duncan.
Ele estava sentado à sua mesa. Gina se ajoelhou e continuou observando, torcendo para que ele não fizesse nada além de arrumar papéis. Começava a ficar frio ali no jardim.
Gina perdeu a respiração quando Duncan se abaixou para abrir a gaveta superior da mesa. Ela se inclinou para a frente, quase passando o rosto entre as folhas pontiagudas da conífera. Ele removeu a DTP da gaveta, sentiu seu peso na mão e em seguida levantou—se e começou a caminhar pela sala. Duncan passou algum tempo abrindo armários, levantando garrafas, tirando livros e papéis das prateleiras, analisando o espaço que eles deixavam, e em seguida colocando—os devolta.
— O que ele está fazendo? — perguntou—se Gina.
Parecia procurar alguma coisa.
Ou algum lugar.
Finalmente ele tirou um volume do tamanho do catálogo de medicamentos de uma prateleira alta, alojou o frasco de DTP no fundo e em seguida pôs o livro de volta no lugar.
Ele estava escondendo a DTP.
Gina estava estarrecida.
Por que ele tiraria o frasco da gaveta fechada para escondê—lo numa prateleira?
Talvez ele não precisasse mais dele. Ou talvez nunca o tivesse usado.
Mas por que o estava escondendo agora?
Merda! Por que nada disso faz sentido!
De repente o escritório ficou escuro. Duncan apagara as luzes. Gina se levantou e correu de volta até o carro. Ficou aliviada ao ligar o aquecedor. Ela observou o carro de Duncan sair da vaga e dobrar na East—West. Deu—lhe uma boa dianteira, e então o seguiu.
Quando ela o viu entrar novamente no condomínio, Gina virou para leste, na direção da Connecticut Avenue. Para Adams Morgan. Para casa.
Já brincara de Nancy Drew demais naquela noite. Em dois dias seguindo Duncan, Gina aprendera duas coisas: uma, ele gostava de passar seu tempo na Eletrônica Caliguire; duas, ele mudarão esconderijo de seu frasco de DTP.
Sem respostas. Apenas dois fatos que não faziam nada além de provocar mais uma série de perguntas. Não precisava de perguntas. Estava com perguntas até o pescoço. Merda, precisava era de respostas!
Talvez as conseguisse no dia seguinte. Quando Duncan saísse mais cedo para ir ao clube de golfe, Gina iria segui—lo como uma sombra.
Descobriria para onde ele realmente ia. Talvez fosse encontrar uma amante. Ou talvez seu destino tivesse alguma relação com o frasco de DTP. Com sorte, conseguiria riscar uma pergunta de sua lista.