Implante
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CIRURGIA
— Dra. Panzella?
Gina estava sentada diante de um terminal de computador completando um exame pré— operatório, avaliando as condições cardiopulmonares de um paciente e sua adequabilidade à cirurgia. Pelo menos era isso que devia estar fazendo. Na verdade, estava fitando a tela enquanto ruminava sobre o desastre do dia anterior no escritório de Marsden e aquele pequeno e oficioso...
Não pense nisso.
Olhou para cima. Uma jovem negra, de touca e máscara cirúrgica, cutucara—lhe a cabeça e ombro pela portinhola da sala de registros e estava olhando para ela, ansiosa.
— Ele está pronto para a assepsia — disse Joanna, a enfermeira cirúrgica.
— Já estou indo — disse Gina.
Ela salvou o arquivo para poder terminar o trabalho mais tarde, e subiu para a sala de cirurgia. Mesmo numa manhã VIP, com apenas um paciente muito importante, Duncan Lathram não gostava de esperar. Andou o mais depressa que pôde.
Não que ela precisasse ir muito longe. O nome Lathram Surgical Associates soava como um grupo médico multidisciplinar, mas na verdade era composto apenas por um cirurgião numa instalação em Chevy Chase.
Essa instalação era uma velha casa de pedras que já fora um banco, com um único pavimento e uma aparência um tanto gótica. Duncan Lathram e seu irmão Oliver, também médico, mas Ph.D. em farmacologia, haviam mantido a velha fachada, embora tivessem reestruturado e aparelhado o interior, transformando a casa num avançado centro cirúrgico. Este possuía uma suíte de operação de dois cômodos, uma ampla sala de recuperação com seis cubículos, uma sala de recuperação particular para clientes especiais e uma sala de exame e consultas, além do escritório de Duncan. A sala de registro, a sala de espera e o laboratório de Oliver ocupavam o subsolo.
Gina entrou apressada na sala de assepsia, vestiu o jaleco branco, enfiou os cabelos pretos e rebeldes numa touca descartável e se juntou a Duncan à pia. Os antebraços do médico já estavam cobertos por uma espuma marrom.
— Bom dia, Duncan.
Desde o primeiro dia de Gina no centro cirúrgico, Duncan insistira para que ela o tratasse pelo primeiro nome, afinal era agora uma médica completamente formada. "Chame—me de 'doutor' mais uma vez e está despedida." Mas ela precisava fazer um esforço consciente para dizer Duncan. Ele era o herói de Gina desde que tinha dez anos.
Hum... Preocupado esta manhã.
Observou—o com o canto do olho enquanto ajustava a temperatura da água com os pedais de controle e iniciava a lavagem de assepsia. Era assistente de Duncan Lathram na cirurgia—ainda não acreditava que isso fosse verdade. Simplesmente por estar ao lado dele, como naquele momento, Gina sempre sentia um leve formigamento na pele.
Estava trabalhando com Duncan fazia meses e ainda ficava impressionada com o quanto sua aparência era boa para um homem de 62 anos.
Impecavelmente limpo, com cabelos escuros e brilhantes acinzentando nas têmporas; olhos azuis penetrantes sobre um nariz generoso num rosto másculo e um tanto longo, que vincava profundamente quando ele sorria, o que não era freqüente. Cerca de um metro e oitenta, com a aparência saudável de um Gary Cooper ou um Randolph Scott maduro, fazendo mais o tipo vaqueiro que cirurgião plástico. Alto e tão magro, que se podiam discernir os ossos: um "corte de costela".
A imagem a fez sorrir e levou—a de volta para a infância, quando trabalhava na delicatessen e açougue de sua família italiana. Naquela época o pai dela costumava—e sem dúvida ainda devia mantêlo — rotular certos clientes com os nomes de cortes de carne ou de pratos de especialidade italiana. A Sra. Fusco, que sempre tinha de tocar em tudo, era uma calamari; o barrigudo Sr. Prizzi era um lombinho; a Sra.
Bellini, que sempre esquecia sua lista de compras em casa e nunca conseguia lembrar do que precisava, era uma capozella; e certa vez, quando o pai dela pensou que Gina estava na frente da loja, ela o ouvira perguntar a um dos açougueiros o que ele achara dos canelones da Sra. Phillips.
Gina adotou o hábito e começou a categorizar as crianças que conhecia como cortes de carne. Duncan Lathram definitivamente era um corte de costela.
Mas as mãos de Duncan não combinavam com o restante dele — dedos longos, ágeis e delicados que podiam executar milagres, iazerorigamis médicos com tecidos humanos.
Sentia—se estranha só de pensar nisso, mas o velho era sensual.
Onde estou com a cabeça? Ele é mais velho do que meu pai, pensou Gina.
Mas não havia como negar: Duncan Lathram era um homem atraente. Não que sentisse impulsos libidinosos em relação a ele. Deus, não. Mas de um ponto de vista puramente estético, era bonito demais para um velhote.
Deve ser nossa história, pensou. Percorremos um longo caminho. E tenho as cicatrizes para provar.
O grandão estava calado hoje. Duncan quase sempre tinha algo sobre o que falar. Um viciado em notícias. Lia todos os jornais locais, mais oBaltimore Sun e os tablóides sensacionalistas de Virgínia. Deixava—os espalhados pelo escritório todas as manhãs. Jamais perdia os programas MacNeil/Lehrer e Meet the Press.
E jamais falhava em encontrar alguma coisa que o tirasse do sério.
Duncan tinha duas listas de Coisas—Que—Me—Tiram—do—Sério: a Permanente e a Diária. Sempre tinha algo sobre o que falar.
Mas hoje não.
O silêncio começava a perturbar Gina.
— Ouviu sobre o senador Schulz? — perguntou Gina. Teve a impressão de que o nome provocou um calafrio no médico.
— Schulz? —A voz de Duncan veio macia, suavemente melódica. — O que tem ele?
— Disseram na TV que há rumores de que a causa da morte está sendo investigada.
Duncan começou a enxaguar a espuma cor de mel dos braços e mãos.
— De acordo com os boatos, Schulz pulou. E com razão. Ele era, em termos populares, mais ladrão que os outros. E suas sujeiras estavam vindo à tona. — Duncan meneou a cabeça com tristeza. —Vinte andares até o chão para bater com o rosto. — Suspirou.—Uma técnica extraordinária, todas aquelas horas de trabalho duro... que desperdício!
— Duncan!
— Bem, é verdade. Se eu soubesse que ele iria se defenestrar no futuro, não teria me esforçado tanto.
Gina pensou que ele estivesse empregando seu humor negro, tão freqüentemente beirando o mórbido.
Mas às vezes ele ultrapassava os limites.
Ele pressionou o cotovelo contra um disco de cromo na parede, e as portas da sala de operação se abriram.
— Rápido. Mais um grande caquistocrata nos aguarda.
Gina olhou para o relógio. Tinha ainda mais um minuto de assepsia pela frente. Enquanto sentia o jorro de água morna, lembrou de seu encontro casual com Gerry Canney. Imaginou se ele telefonaria. Não seria o fim do mundo se não ligasse, mas com toda certeza seria agradável se o fizesse. Repassou mentalmente as palavras obscuras que coletara para jogar sobre Duncan hoje, e em seguida voltou os pensamentos para o enigma que era Duncan Lathram.
Quando se conheceram, dezenove anos atrás, Duncan não era cirurgião plástico.
Aos dez anos ela acordou num hospital com tudo doendo. Arrastando—se pelo labirinto de seus pensamentos confusos, Gina alcançou a memória de estar competindo contra dois dos garotos da vizinhança, para provar que podia correr de bicicleta de forma tão rápida e ousada quanto eles. De repente estava no meio da Rodovia Lee com um caminhão guinchando e se aproximando velozmente dela. Lembrou dos olhos aterrorizados do outro lado do pára—brisa sujo, enquanto o motorista enfiava o pé no pedal e tentava desviar—se dela.
A dor empurrava as lembranças de volta para o fundo... dor e medo...
Onde estava a mãe dela e quem eram aquelas pessoas estranhas e agitadas à sua volta? Quem era o doutor alto debruçado sobre ela, pressionando dedos em sua barriga? Alguma parte profunda de seu subconsciente devia estar sentindo a vida escapar—lhe. Lembrou de ter perguntado ao médico se iria morrer, e do quanto ele parecera chocado por ela estar consciente. Mais do que tudo, lembrava do médico gigante ajoelhar—se ao lado da maca, aproximar o rosto a poucos centímetros do dela, apertarlhe a mão e responder: "Não, se eu puder fazer alguma coisa, e aqui quem manda sou eu."
Alguma coisa em sua confiança extraordinária acalmou—a. Gina acreditou nele, fechou os olhos e voltou para a inconsciência. O médico gigante era Duncan Lathram. Naquela época, Duncan Lathram era um cardiologista. Não um soldado da fortuna que passava seus dias extraindo veias varicosas, mas um herói com um bisturi, sem medo de enfrentar qualquer catástrofe vascular, e quanto pior o estado do paciente, melhor. Como no caso dela. O impacto com o caminhão rompera— lhe o baço e rompera a artéria renal. Duncan removera—lhe o baço e restaurara a artéria hemorrágica, salvando—lhe o rim e a vida.
Gina se lembrou de ter ficado perdidamente apaixonada pelo homem. Aos olhos dela, o Dr. Lathram tornou—se um semideus. Desde aquela época, passou a mandar—lhe cartões de Natal todos os anos. E quando fez dezesseis anos, foi trabalhar para ele como funcionária de meio expediente na sala de registros de seu consultório em Alexandria. Vira como ele trabalhava duro, passando quatorze a dezesseis horas no hospital e no consultório, e muitas vezes sendo chamado à sala de emergência à uma ou às duas da manhã, para restaurar artérias hemorrágicas ou danificadas por quase tudo, desde arteriosclerose até acidentes de carro e lutas de faca. Ele podia ser ríspido, egocêntrico e até arrogante de vez em quando, mas Gina não se importava. Afinal, os semideuses não eram assim? Sua vitalidade assombrava—a. A dedicação e o entusiasmo sem limites que Lathram nutria pelo trabalho haviam—na inspirado tanto que, ao se registrar em Princeton, Gina escolhera biologia como sua especialidade. O curso de sua vida fora traçado.
Onze anos depois, ao retornar para Washington como médica com formação completa, ficou chocada ao descobrir que Duncan Lathram não era mais o intrépido salvador de vidas que ela deixara para trás. Por algum motivo, ele se metamorfoseara num cirurgião plástico que devotava seus dias de trabalho a embelezar os ricos e poderosos da sociedade de Washington.
De herói a artista—ou algo próximo a um artista. O que acontecera com ele durante aqueles sete anos? Gina tentara juntar as peças, mas não chegara a lugar algum.
E só Gina parecia incomodada com a diferença. Faltava alguma coisa.
Duncan, que antes lutava contra hemorragias, agora combatia rugas. Se ele tivesse se especializado em barrigas flácidas em vez de reparos vasculares dezenove anos antes, Gina não estaria viva hoje. Portanto, a perspectiva de Gina diferia daquela dos ricos que corriam para Duncan pedindo—lhe que revertesse o relógio. Eles adoravam esse homem, que poderia ajudá—los a escapar do preço cobrado pela natureza, alimentação excessiva, seus genes e estilos de vida.
Duncan se tornara agora o deus de outras pessoas.
— Bom dia, Gina — disse uma voz atrás dela.
Sobre o ombro ela viu o irmão mais novo de Duncan, Oliver, trazendo uma bandeja de implantes para a sala de operações. Gina sorriu e acenou para ele.
Se Duncan era um corte de costela, Oliver era um rosbife: redondo e pesado, com uma camada protetora de gordura, tinha cabelos ralos e usava óculos de aro de tartaruga com lentes grossas. Também era mais gentil e sociável que o irmão mais velho. Um doce de coco. Nunca esquecia de mandar flores para todas as mulheres do escritório em seus aniversários. E quando o filho de Joanna foi preso por dirigir com imprudência, Oliver pagou a fiança. Todos o amavam.
Gina enxaguou e balançou as mãos. Entrou na SO—1 no exato momento que Marie, a enfermeira anestesista, disse: "Ele apagou".
Marie amarrou a máscara, enquanto Joanna a ajudava a colocar o avental e as luvas. A sala de operações podia ser menor que qualquer uma em Tulane, mas a perícia e o profissionalismo reunidos ali se equiparavam a qualquer centro médico terciário. O ambiente era inodoro e frio—o ar—condicionado mantinha—o assim. Duncan gostava de trabalhar sob as condições mais árticas possíveis.
Aproximou—se da mesa de operações, na qual um homem de meia—idade, em seus cinqüenta anos, estava deitado de barriga para cima, o rosto coberto, exceto pelos lábios, queixo e garganta, que estavam preparados para cirurgia. Parecia alguma coisa inumana, com a pele numa tonalidade marrom— amarelada devido à betadina e o queixo e garganta completamente marcados com as linhas que Duncan desenhara para guiar a cirurgia.
Gina estivera com aquele homem uma semana antes, quando levantara seu histórico pré—operatório e fizera o check—up físico: senador Harold Vincent. Outro membro da recentemente ressuscitada comissão mista.
Ficou abismada com a coincidência, mas apenas por um momento. Ora, desde que Duncan entrara na área da cirurgia plástica, metade dos políticos de Washington e as esposas tinham visitado sua mesa de operação, e a outra metade provavelmente estava na lista de espera. Não causava surpresa. Suas habilidades técnicas eram praticamente sem par. Duncan providenciava para que as pessoas que se consideravam VIP fossem tratadas com classe e sigilo absoluto, e, graças ao irmão dele, detinha a exclusividade de uma técnica inovadora que reduzia pela metade o tempo de recuperação.
— Pronta para começar, Gina? — perguntou Duncan. — O senador está ficando impaciente. Há um bando de lobistas com os bolsos cheios de dinheiro acampados em frente ao escritório dele. Não queremos deixá—los esperando, certo?
Joanna deu uma risadinha por trás da máscara.
Duncan fez a primeira incisão sob o queixo, seguindo com cuidado as linhas naturais de divisão do corpo, e em seguida iniciou a tarefa delicada de dissecar e retirar porções do músculo esticado —o platisma—que conferia ao pescoço do senador uma aparência fofa e envelhecida. O senador Vincent tinha uma quantidade particularmente grande de tecido excedente, o que lhe deixava com uma papada que tremia quando falava e sacolejava quando andava.
— O senador Impaciência aqui não podia esperar — disse Duncan, enquanto trabalhava.—Uma "emergência", ele me disse. Eu precisava fazer isto imediatamente. Alguém consegue imaginar qual era a emergência?
— Só pode ser TV— disse Marie, de seu posto sobre a cabeça do senador.
— Bingo! Alguém dê um charuto para essa mulher! Marie não perdeu a piada:
— Enquanto o oxigênio estiver correndo, não, obrigada.
— É a Comissão Mista de Diretrizes para a Ética e a Prática da Medicina, claro—prosseguiu Duncan.
Gina sufocou um gemido. Lá vamos nós outra vez. A Comissão Mista estava na Lista Permanente de Coisas—Que—MeTiram—do—Sério. Ele a odiava e tudo que ela se propunha a fazer. Duncan podia falar nisso durante horas. O assunto de hoje era particularmente incômodo para Gina, porque ainda não recebera nenhuma notícia do escritório do senador Marsden, e tinha uma entrevista marcada com o deputado Allard para o dia seguinte.
— Já vi o senador Vincent muitas vezes na TV—disse Gina, enxugando o sangue que começava a vazar da incisão.
— Claro. Na C—SPAN. Mas quem, além de nós dois, assiste à rede do Congresso americano? Este moço está de olho numa platéia bem maior.
Sucção. Aparições nos noticiários principais de todas as emissoras, e quem sabe, alguma cobertura ao vivo em horário nobre. E nosso auto—intitulado "Paladino do Trabalhador" quer parecer bonito para a nação. Pinça.
Gina olhou para Joanna, que revirou os olhos negros, enquanto punha a pinça na palma enluvada de Duncan. Ele está com a corda toda.
Está bem, Duncan tinha algumas fixações. Todo mundo tinha uma ou duas. A sua era com o tráfico de influências na política e a interferência do governo federal na prática da medicina. Mas mesmo com os resmungos dele, podia—se aprender alguma coisa.
— Grande paladino — prosseguiu. —Votou num aumento de trinta e um mil dólares para ele mesmo durante a recessão, para não mencionar o cartão de crédito coberto pelo governo. Passeme o hemóstato curvo. É aquele. E ei—lo aqui, o defensor do Decreto da Isonomia Salarial, do Decreto da Discriminação Etária nas Relações de Trabalho, do Decreto de Segurança e Saúde Ocupacional e do Decreto das Relações Nacionais de Trabalho, como ele nos fará lembrar sempre que tiver oportunidade. Mas o que ele não dirá é que detrás de portas fechadas ele votou contra o sancionamento de todos esses decretos. Sucção.
Ficou em silêncio enquanto fez outra incisão. Gina ainda ficava maravilhada com a graça e precisão de seu trabalho com o bisturi. Ele fazia aquilo parecer fácil. Gina sabia que não era. Nem em sonho.
— Mas estou grato por ser apenas o cirurgião plástico dele. —Levantou os olhos e piscou para Gina. —Imaginem o trabalho que um proctologista teria para soltar o rabo deste sujeito!
Marie deu uma risada.
— Como sempre — disse Duncan — as leis impostas para assegurar o jogo limpo entre os contribuintes não se aplicam à caquistocracia.
Gina não queria, mas se sentiu compelida a perguntar: — Muito bem, desisto! O que é essa caquistocracia sobre a qual você vive falando? Não achei essa palavra no dicionário.
— E não vai, a não ser que seja uma edição integral. A caquistocracia reflete a anomia de nossos tempos.
— Obrigada, isso ajuda muito!
— É o governo na mão dos indivíduos menos capacitados.
É a minha deixa para gastar um pouco meu vocabulário, pensou Gina.
— Está dizendo que os membros da caquistocracia primam pelo casuísmo?
Ela viu Duncan sorrir sob a máscara.
— Muito bem!
Marie se virou para Joanna.
— Maravilha! Agora nenhum dos dois fala nossa língua.
— Estou apenas aderindo à língua franca—disse Gina. Duas!, pensou ela.
Consegui empregar duas difíceis!
Os olhos de Duncan cintilaram quando se virou para Marie e Joanna.
— Casuísmo é a racionalização de assuntos da consciência, mas não sei se podemos presumir que os senadores Vincents da vida tenham uma consciência. — Ele levantou a mão enluvada. — O implante, Gina. O tempo urge.
— Oh, claro. Desculpe.
Joanna destampou a bandeja, revelando os implantes: cilindros minúsculos, lisos, brilhantes e ligeiramente curvos, parecendo salsichas de cachorro—quente. Cachorro—quente para uma bonéca Barbie.
Havia implantes de todos os tamanhos. Esses na bandeja eram os médios: com vinte milímetros de comprimento, talvez cinco milímetros de diâmetro, cada um cheio do "molho secreto" de Oliver, uma solução de enzima que promovia a cura, reduzia o edema e retardava a formação de cicatrizes.
Aqui estava o verdadeiro segredo da popularidade fenomenal de Duncan.
Tinha as melhores mãos do ramo, mas isso era apenas parte de seu apelo.
Os implantes faziam o restante, permitindo aos seus pacientes um tempo de recuperação mais breve, que lhes permitia voltar rapidamente à circulação para mostrar os novos rostos.
Obra—prima do irmão mais novo de Duncan, os implantes eram matrizes de proteínas cristalizadas que consistiam em magnésio e albumina. Quando Gina entrara na equipe, Oliver lhe mostrara as imagens seriais de ressonância magnética dos implantes depois da cirurgia. Cada imagem sucessiva mostrava uma membrana menor, à medida que o implante liberava as enzimas nos tecidos subcutâneos, reduzindo as marcas e os edemas pós—operatórios. A imagem final, algumas semanas depois da operação, não mostrava nada: depois que o implante fazia seu trabalho, os cristais dissolviam—se e as enzimas do corpo quebravam a albumina, reduzindo—a aos aminoácidos que a compunham; esses eram absorvidos junto com o magnésio pelos tecidos circundantes e finalmente entravam na corrente sangüínea, sem deixar vestígios.
Gina colocou um dos implantes na colher especial, estreita e oblonga, que Duncan mandara fazer sob encomenda depois que muitos implantes tinham sido rompidos por fórceps comuns. Ela depositou o implante gentilmente na incisão. Usando uma sonda, Duncan posicionou o implante onde queria, e em seguida fez sinal para Gina depositar outro. Quando os quatro tinham sido depositados na incisão, Duncan começou a trabalhar mais próximo da superfície.
— Ele já parece mais jovem — disse Gina. Certo, pensou Duncan, enquanto cortava um pedaço de tecido. É exatamente isso que quero fazer: deixar este desgraçado mais jovem.
Mas o que ele realmente teria gostado de fazer seria reestruturar as feições de Vincent de modo que refletissem o homem em seu interior. Até que ele não daria muito trabalho... Bastaria estreitar os olhos, levantar o nariz, alargar as narinas, inchar os lábios... e encontrar uma forma de fazê—lo dizer oink. senador Harold Leitão, potentado do chiqueiro.
Sorriu sob a máscara. Com tantos congressistas freqüentando sua mesa de operações, a essa altura ele já poderia ter mudado a face da política americana — literalmente.
Eu poderia ser o Dr. Moreau ao contrário. Em vez de transformar animais em homens, eu faria com que regredissem até os animais e répteis que emulavam. Eu poderia usar uma máscara e vagar pelos corredores do Capitólio como Duncan Lathram, o antiMoreau, médico diabólico da vingança, Fantasma do Edifício Longworth, flagelo do Senado.
Então eu aprenderia a dar gargalhadas insanas e estaria pronto para Hollywood!
Suspirou. Nada tão melodramático para o senador Vincent. Mas Duncan tinha planos definidos para ele.
Não se preocupe, senador. Sua vez chegará. Confie em mim.
Enquanto estava colocando os implantes finais, ouviu a voz de Gina mas não entendeu o que ela disse.
— Como?
— Perguntei o que exatamente tira você do sério em relação à comissão mista.
Os olhos pretos, pretos, de Gina se fixaram nele, como se a resposta significasse muito para ela. Sob aquela touca e máscara cirúrgicas estava uma beldade mediterrânea com cabelos escuros e lustrosos, lábios cheios, ossos malares proeminentes e pele impecável. A cintura era fina; o busto, perfeito.
Nem dava para comparar com a adolescente gorducha e cheia de espinha que trabalhara em sua sala de registros uns doze anos antes. Na verdade, quando ela aparecera em junho, oferecendo—se para trabalhar como médica em meio expediente, Duncan pensou em investigá—la para descobrir se se tratava de uma impostora.
O patinho feio retornara como um cisne. Um belo cisne preto.
Mas se, há vinte anos, ele tivesse chegado meia hora mais tarde naquela sala de emergência, Gina não estaria em lugar nenhum | agora. Aquele fora o maior feito de sua vida anterior: salvar alguém ; que faria uma diferença no mundo.
E ele amava a forma que ela começara a jogar palavras novas em cima dele. Um dia ela o superaria, mas não se importaria nem um pouco com isso.
Parece que fiz um favor a todos nós quando coloquei seu intestino de volta no lugar, Gina.
Não pela primeira vez, ele questionou sua mudança de campo, mas apenas por um segundo. Tinham feito essa escolha por ele. Não havia volta.
Mas aonde Gina chegaria com sua inteligência e a educação que conquistara arduamente?
— O que me tira do sério? — disse com lentidão, enquanto começava a reestruturar o platisma de Vincent. — Simplesmente não acredito na Comissão Mista de Diretrizes para a Ética e a Prática da Medicina. — Fez questão de enunciar o nome inteiro da comissão. Dizer simplesmente "comissão mista" não fazia justiça à prepotência de seu título. — Não gosto desse nome, não aprovo essa missão e considero seus membros uns trogloditas arrivistas, novos—ricos, tartufos e presunçosos.
Ele viu os olhos pretos de Gina enrugarem nas pontas.
Eu afiz sorrir.
— Ei, nada de evasivas — disse ela. — Diga—me o que realmente acha.
Ele gostaria de dizer—lhe a verdade, sobre o que tinham feito com sua vida e com sua família, mas isso não levaria a lugar nenhum.
Nunca lamentar, jamais explicar.
— Bem, sei que reviver a velha comissão McCready foi idéia do presidente.
Duncan se empertigou e interrompeu a sutura. Não confiava em si mesmo com um bisturi na mão e McCready na mente.
— Ai de mim! Como nosso querido presidente não conseguiu concluir seu programa nacional de saúde, está tentando ir à forra com a classe médica. Um projeto de lei sobre diretrizes médicas não seria bom o bastante, não seria amplo o suficiente. Não. Ele quer regulamentar também a ética médica.
Duncan fechou os olhos para controlar a fúria.
— Consegue acreditar nisso? Mark Twain disse que nos Estados Unidos a única classe criminosa definida é o Congresso. Ainda assim, esse bando de hienas vorazes está querendo impor diretrizes médicas a uma profissão que possui um código de ética desde os tempos da Babilônia.
— Nós também não somos perfeitos.
— Se tudo que você tem no coração é malícia, não perderá quatro anos na escola preparatória de medicina e três a dez anos em treinamento de pós—graduação, nem trabalhará centenas de horas semanais em troca de uma remuneração um pouco acima do salário mínimo, apenas pelo privilégio de contrair uma dívida obscena quando abrir seu consultório.
— Claro que não — retrucou Gina. —Você faz isso para trabalhar setenta horas por semana pelo resto da vida.
Duncan sorriu e sentiu os músculos relaxarem. Meu lindo cisne. É bom ter você por perto.
Ele acabou de ressecar e esticar o platisma. Hora de fechar. Ele pediu por linha cirúrgica numa agulha curva. Usando uma técnica subcutânea contínua, começou a suturar.
— De qualquer modo—disse ela — como o senador Marsden é o sucessor de McCready, ele foi chamado para presidir a comissão mista. Sabe alguma sujeira dele?
Por que se mostrava tão interessada?
— Na verdade, não — disse Duncan. — Mas ele não está em campo há muito tempo. Seja paciente. Você sabe o que a comissão vai fazer, certo?
— Realizar audiências públicas para obter informações que os ajudem a escrever o projeto de lei?
— Seu propósito declarado — a mando do presidente — é estabelecer padrões rígidos para a prática médica. Mas o que realmente farão será contar histórias de horror para o público, apresentar um monte de testemunhos parciais sobre os piores casos de negligência e má conduta que puderem encontrar, e pintar a profissão médica inteira como um cartel de bandoleiros inconseqüentes, perigosos e gananciosos que precisam ser postos no cabresto.
— Hum, não acha que está falando como um paranóico? Tenho bons motivos, pensou Duncan.
— Gina, até os paranóicos têm inimigos de verdade. Eles estão lá fora para nos pegar. Sei que parece paranóia, mas é a forma como vejo. Os políticos estão no fundo do poço em termos de confiabilidade perante o público... e querem desviar a atenção de sua relutância em policiar a si mesmos.
— Mas as comissões éticas deles vivem pegando políticos corruptos.
Duncan riu.
— Ética congressional—eis um oxímoro para você. Ela acontece naquelas raras ocasiões em que a imprensa descobre algum podre, quando eles estão encostados contra a parede e precisam fazer alguma coisa.
— Bem, gostemos ou não, acho que a face da prática médica no futuro será decidida nessas audiências. É por causa disso que eu gostaria de ser uma auxiliar na comissão. Tive uma entrevista no escritório do senador Marsden ontem de manhã.
Duncan ficou imóvel de repente, olhando para ela, e viu que Gina também o fitava.
Os intestinos de Gina estavam amarrados num nó górdio. Devia ter esperado Duncan acabar a incisão para mencionar aquilo.
Por que contei para ele? Provavelmente nunca conseguirei o emprego.
Duncan não disse nada enquanto terminava de fechar a incisão, sem deixar um único ponto na superfície. Apenas uma linha fina como um fio de cabelo ao longo da parte inferior do queixo.
Gina o vira fazer aquilo centenas de vezes, mas ele ainda a surpreendia.
Quando terminou, Duncan voltou a olhar para ela.
— Você o quê!
— Eu... tive uma entrevista com...
— Não dá para entender você. Tem uma mente brilhante, uma formação médica excelente e quer ser uma ratazana do Capitólio?
— Só em meio expediente. Eu só...
— Como podepensar em cooperar com aquela comissão?
— Alguém não tem de tentar fazer com que apurem os fatos corretamente?
— Fatos? Desde quando o Congresso se interessa por fatos? —Afastou—se da mesa e começou a tirar as luvas. — Pensei que estava trabalhando com uma médica, não uma candidata a ratazana do Capitólio.
Aquilo doeu — como um tapa no rosto.
— Duncan...
— Não dá para conciliar as duas coisas, Gina. Quando decidir de que lado está, me avise. — Jogou as luvas no chão e saiu furioso.
Gina temera que Duncan ficasse um pouco chateado, mas não esperara aquele tipo de reação. Ficou parada na sala de operações, repentinamente silenciosa, com Marie e Joanna evitando encarála.
Imaginou o que teria acontecido se tivesse mencionado seu compromisso com o deputado Allard na manhã seguinte. Como tinha sido, já sentia o chão abrir—se sob os pés.