Implante
* Semana de oito de Outubro
* 19
NO CAPITÓLIO
— Precisa aprender o jogo, Hugh.
Gina parou diante da porta fechada do escritório do senador Marsden. O dia inteiro sua mente estivera longe, concentrada apenas no resultado da análise do molho secreto de Oliver. Temia profundamente que houvesse alguma coisa incriminadora nele.
A espera a atormentava. Gina mal conseguia concentrar—se em qualquer outra coisa, mas o tom conspirativo naquele comentário despertou sua curiosidade. Sabia que o senador Kramer chegara para uma reunião. As vozes dos dois políticos não pareciam alteradas, mas ainda assim Gina pôde sentir uma tensão entre eles.
A voz do senador Marsden denotava apreensão.
— No dia que eu começar a pensar no Senado como um jogo desistirei de tudo.
— Eu também era todo certinho nos meus tempos de calouro — retrucou Kramer.— Mas eu aprendi. E se você quiser conseguir seus intentos nesta cidade, terá de aprender também. Se não aprender a fazer o jogo, vai afundar depressa.
— Não sou a favor da redução das taxas de importação no momento. Não acho que estejamos precisando disso agora.
— Sinto imensamente ouvir isso, Hugh. Porque é importante para meu pessoal.
— Então minha posição contra suavizar as restrições à importação afetarão seu voto no projeto de lei das Diretrizes?
— Oh, não colocaria isso dessa forma. Digamos que não decidirei nada até que seu projeto de lei saia da comissão.
— Estou entendendo.
— Uma mão lava a outra, filho — disse Kramer, subitamente informal. — É o que faz as engrenagens girarem. Meu compromisso é manter o pessoal da minha terra feliz e próspero.
— Que tal simplesmente colocar seu voto em alguma coisa porque é a coisa certa a fazer?
Gina ouviu uma cadeira arrastar no chão.
— Porque o certo para você pode não ser para mim. Conversaremos de novo, Hugh.
Não querendo ser vista com o ouvido grudado à porta, Gina voltou a andar.
Enquanto caminhavam até o refeitório do Senado no andar térreo do Edifício Dirksen, Gina contou a Alicia o que escutara. Os edifícios Hart e Dirksen eram anexos, mas as paredes do Dirksen eram de tijolo aparente e suas portas de carvalho, em contraste absoluto com a decoração anti—séptica do Hart.
— Não estou surpresa—disse Alicia. Pegou um pouco de salada de atum e uma Pepsi diet. — Muita gente no Capitólio acha que ele não fala sério.
E os que sabem que ele fala sério não confiam nele.
Gina escolheu peito de peru com molho e um Mountain Dew.
— Pode explicar isso?
Alicia olhou em volta em busca de uma mesa.
— Se ficarmos sozinhas eu conto os fatos verdadeiros.
— Fatos verdadeiros? Quer dizer, em oposição ao outro tipo?
— Exato.
Encontraram uma mesa num canto. Alicia se sentou com as costas para a parede e permaneceu observando a sala atentamente, enquanto conversavam.
— Antes de mais nada, você precisa saber que o senador Marsden irritou muita gente ao chegar na cidade com um prazo auto—imposto. Segundo ele, dependendo do quanto conseguisse, serviria apenas um mandato, e positivamente não mais de dois. Isso não é coisa que se diga aqui.
— O que há de errado com isso?
— Por que limites de mandatos é um assunto muitíssimo delicado nesta cidade. Os membros gostam de imaginar que foram eleitos para a vida inteira.
— Como podem? Os congressistas precisam se candidatar novamente a cada dois anos.
— Bem, como ouvi um membro dizer a outro lá nos anos oitenta: "Você precisa ser um grande panaca para perder este trabalho." Todo político eleito tem noventa e cinco por cento de chance de se reeleger.
— Uau.
— E lhe digo uma coisa, Gina: depois que chegam aqui, não querem mais sair. E quem pode culpá— los? Tornam—se parte do governo mais poderoso do mundo. E o mais caro. Cada congressista ganha mais de dois milhões anuais em salários e privilégios. Nenhum outro governo chega perto disso. E os poucos panacas que por algum motivo não conseguem ser reeleitos não voltam para casa... são contratados aqui como lobistas.
Chamam isso de febre do rio Potomac. Acho que não tem cura.
— Acha que o senador Marsden vai acabar contraindo essa febre?
— Talvez. Nunca se sabe. Acho que é sincero quando fala que não pretende permanecer aqui por mais de dois mandatos. Mas faço parte da minoria. O restante do Capitólio acha que isso é pose. Uma tática de parecer melhor que os outros para conseguir polpudos fundos mais adiante. Todos estão observando, esperando para ver se essa tática vai funcionar.
— Isso é repugnante — disse Gina. — Por que você agüenta isso tudo? Por que está aqui há tanto tempo?
Alicia encolheu os ombros. Seu sorriso foi tímido.
— Febre do rio Potomac. Nós auxiliares também não estamos imunes. Quem sabe? Talvez você acabe contraindo essa doença também. Talvez já esteja com ela.
Eu não, pensou Gina. Sou imune a esse tipo de coisa. De repente se sentiu insegura. Pelo menos espero ser.
Gina estava arrumando sua área de trabalho, preparando—se para dar por encerrado seu expediente como auxiliar legislativa e colocar o chapéu de médica. Mais um dia escrevendo relatórios sobre padrões de classificação e utilização. O mais frustrante é que nem sabia se alguém chegaria a lê—los. Também estava fazendo um relatório por iniciativa própria, usando o caso de Harriet Thompson como um paradigma do lado negativo das diretrizes de tratamento. Esperava que o drama de Harriet servisse para demonstrar o preço que se paga em vidas humanas quando as diretrizes são implementadas de forma mecânica.
E talvez no processo ela pudesse ajudar o Dr. Conway.
Alicia entrou esbaforida.
— Consegui um talvez do senador Hirsch—disse, enquanto passava.
— Só um talvez? —Aquilo surpreendeu Gina. Hirsch sempre parecia ter algo a dizer sobre política de saúde. —Achei que ele não perderia a chance de entrar na comissão.
Alicia reduziu o passo mas continuou andando.
— É uma comissão mista, não uma coisa permanente. Além disso, se Hirsh se comprometer conosco, poderá prejudicar sua posição nas outras comissões com as quais está envolvido. E essas comissões, sim, garantem polpudas verbas e de longo prazo.
Gina não conseguiu esconder sua irritação.
— Mas que merda! Tudo tem a ver com dinheiro?
— O senador Mark Hanna disse uma coisa que é bom guardar na memória quando se trabalha no Capitólio: "Há duas coisas importantes na política. A primeira é dinheiro... e não consigo lembrar qual é a segunda." E foi um deles quem disse isso. Mas o que realmente move este lugar é a influência. É a influência que gera doações para campanhas. E
são as doações para campanhas que ajudam os políticos a voltar para outro mandato.
— E assim você pode aumentar sua influência—completou Gina, sem entusiasmo.
Alicia riu e fez um sinal de muito bem para Gina.
— Está pegando o espírito da coisa!
— Tenho medo de estar — murmurou Gina, enquanto Alicia desaparecia no corredor. Nesse instante o telefone com o selo do Senado tocou. Era Gerry.
— O relatório chegou. Gina se levantou da cadeira.
— Achei que tinha dito que só chegaria amanhã!
— Sua lista ajudou. É muito mais fácil identificar compostos quando se sabe o que está procurando. Além disso, falei que era para alguém muito importante. Eles suaram bastante.
Mesmo nervosa, Gina não conseguiu conter um sorriso. Gostava mais desse homem a cada dia.
— E?
— E a análise combinou perfeitamente com a lista. Não há nada que não deveria constar ali.
Gina se sentou de novo, deixando—se afundar na cadeira. Sentiu—se subitamente fraca. Estava tão feliz que poderia ter chorado ali mesmo.
— Gina? Está aí?
— Sim — disse suavemente. — Obrigada, Gerry. Não sabe o quanto foi bom ouvir isso.
— Que tal jantarmos esta noite? Não é uma boa idéia?
— É uma pena, mas esta noite estou no Lynnbrook. — De repente ocorreu—lhe uma coisa. — Mas tive uma grande idéia. Por que não vem comigo à casa dos meus pais na terça à noite? É o Dia do Descobrimento da América, e papai sempre comemora. É uma loucura. Você vai adorar. E traga Martha. Vai haver muita massa e quase nenhuma carne.
— Estamos combinados.
Alguns minutos depois Gina estava a caminho do escritório do senador Marsden, sentindo como se todo o peso do mundo tivesse saído de cima de seus ombros. Duncan e Oliver estavam limpos.
Uma preocupação a menos.