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F. Paul Wilson · Capítulo 16 de 36

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* 16

 

FAMÍLIA

 

Gina estacionou na Arlington Avenue, em frente à casa de sua família, e fitou a fachada de tijolos aparentes. Durante os primeiros doze anos de sua vida a casa fora um cubo de tijolos de dois andares, ao lado de todos os outros cubos do pequeno projeto habitacional do pós— guerra.

Recordou de quando aprendera a andar de bicicleta pelo aclive suave da rua, das manhãs que passara observando o trânsito pela janela de seu quarto no segundo andar, e das tardes de primavera ajudando papa a catar dentes—de—leão no gramado. Papa e seu jardim, pensou Gina, olhando para a grama verde e bem aparada. Ainda era perfeito.

Quando papa expandiu seu açougue, transformando—o numa delicatessen especializada em comida italiana, começou a sobrar um pouco de dinheiro no orçamento. Assim, eles cercaram o jardim da frente, aumentaram os fundos da casa, ampliando a cozinha e o quarto do casal, e construíram uma varanda. Agora se transformara numa bonita casa, espaçosa e confortável. Os pais viviam ali havia trinta anos, e provavelmente planejavam viver outros trinta. Não gostavam de mudanças.

Gina balançou a cabeça. Mudança? Ambos tinham nascido na América. Papa estava com uns cinqüenta anos e mama fizera cinqüenta em abril último.

Mesmo assim, sob muitos aspectos, ambos ainda pertenciam ao velho mundo e à Itália. Em termos de comportamento, mal tinham entrado no século XX.

Até mesmo haviam—na prometido em casamento quando Gina tinha dois anos.

Graças a Deus, aquilo não era mencionado fazia muito tempo. Ela e seu pretendente tinham engordado durante a adolescência, levando as famílias a reconsiderarem.

Subiu os dois degraus da porta da frente e entrou sem bater. Sentiu um odor delicioso de alho sautéing. Como amava aquele cheiro!

O pai, que estava sentado diante da TV, saltou da poltrona. Era apenas dois centímetros mais alto que Gina, com ombros largos e braços musculosos. Tinha a cabeça ainda cheia de cabelos negros, mas pareciam mais grisalhos cada vez que Gina o via. Papa possuía a vitalidade de um rapaz de vinte anos.

— Gina! — Envolveu a filha nos braços de urso e girou—a.

— Como vai a minha pequena scungila?

Ela abraçou—o em torno do pescoço e beijou—lhe uma vez em cada face.

— Estou bem, papa.

Relaxou o abraço mas continuou segurando—a.

— Então, ser médica não bastava para você? Agora também é política?

— Eu não...

— Gina!—Eramama, limpando as mãos no avental enquanto saía apressada da cozinha. Mais beijos e abraços.

Era sempre daquela maneira. Gina vinha jantar em casa e tratar assuntos de família a cada duas ou três semanas, mas cada vez os dois agiam como se ela estivesse afastada havia um ano. Ela achava isso comum entre pais e filhos únicos.

Logo os três estavam andando pela cozinha, bebericando vinho e mergulhando pedaços de pão no molho de mama, rindo, recordando, falando sobre o futuro.

Era tão bom estar ali. Momentos como esse faziam—na querer visitá—los com mais freqüência. Ela amava o calor, a segurança. Ali Gina não tinha de provar nada, não corria o risco de estar cansada o tempo todo por precisar correr em quatro direções para fazer várias coisas ao mesmo tempo, tentando conferir sentido à sua vida.

Ali sua vida tinha um sentido.

" Mas sabia que o lugar era uma armadilha de veludo. Por mais que amasse os pais, sabia que ali ela enlouqueceria. A despeito de toda a correria e o estresse da vida que levava, Gina sabia que não gostaria de viver de outra forma.

Mas o motivo principal era que os pais ainda não a tinham aceitado desse seu modo de ser. Por mais que se orgulhassem dela, Gina sabia que viviam imaginando quando ela teria tempo para dar—lhes netos —bambinos para pularem em seus colos. Ela sabia que no fundo de suas mentes pensavam que a filha estaria melhor casada com um médico que sendo uma.

Um bom médico italiano, claro.

Sabiam alguma coisa sobre Peter mas nem imaginavam que ele e Gina tinham vivido juntos.

Deus do céu, Peter. Ela devia ter ligado para ele e lhe contado sobre o emprego novo. Seria a primeira coisa que faria quando chegasse em casa.

Peter... como podia ter esquecido?

Por volta de dez e meia Gina chegou em casa, entupida de comida e tonta devido ao vinho e o chianti especial que papa abrira para a ocasião.

Tomou um banho, escovou os dentes e seguiu direto até o quarto. Mas antes de se jogar na cama, discou para a CTI do Lynnbrook Hospital.

— Alô, aqui é a Dra. Panzella. Só quero saber como está a Sra. Thompson.

— Quem?—disse o atendente. Gina se sentiu enjoada de repente.

— Harriet Thompson. A paciente do Dr. Conway. Ela sofreu um hemotórax e estava num respira...

— Ah, sim. Aqui está. Desculpe, Dra. Panzella. Acabo de chegar. Ela faleceu há um pouco mais de uma hora. Às nove e trinta e quatro, para ser preciso. O Dr. Conway estava aqui.

Gina sentiu um aperto no coração. Disse um débil "obrigada" e desligou.

Socou o colchão. Porra, porra, porra! O atestado de óbito de Harriet Thompson provavelmente apontaria a causa mortis como falha respiratória devido a um hemotórax causado por complicações do fraturamento das costelas num tombo.

Mas não fora nada daquilo.

Na verdade fora morta pelo conselho do hospital, homens que não a tinham examinado e que nem mesmo a conheciam, mas que haviam tomado decisões a respeito de seu atendimento médico. Homens mais preocupados com a renda do hospital do que com os pacientes.

Harriet Thompson morrera de diretrizes médicas.

Gina puxou as cobertas e se enfiou entre os lençóis. O senador Marsden cansaria de ouvi—la falar durante o fim de semana.

Uma última coisa a fazer antes de dormir: telefonar para Peter.

Ele estava em casa, e acordado — afinal era uma hora mais cedo em Lousiana —, e ficou satisfeito em ouvi—la. Pelo menos ele estava no início. O tom de voz de Peter mudou quando ela lhe contou sobre o cargo no gabinete de Marsden.

— É isso realmente que você quer?

Começava a ficar farta dessa pergunta. A única pessoa que parecia estar completamente ao seu lado era Gerry.

— Você não imagina como eu gostaria que as pessoas parassem de me perguntar isso.

— Se está ouvindo isso com freqüência, talvez haja algum motivo por trás.

— Peter, não quero discu...

— Não nos damos bem juntos, Gina? Você conhece algum casal que se dê melhor que nós dois? Lembra das noites em que passeávamos pela cidade, bebendo vinho e ouvindo músicos de rua, e depois voltávamos para o apartamento e...

— Peter, por favor! —Aqueles tinham sido bons momentos. Momentos maravilhosos. —Já estou me sentindo solitária demais sem ter de lembrar disso.

— Estamos ambos solitários. Não é estupidez? Volte, Gina. Seu lugar é aqui. Você sabe disso.

Tão tentador, e se tivesse sido rejeitada pelo gabinete de Marsden nessa manhã, talvez agora estivesse com as malas abertas sobre a cama.

Mas...

— Sei que tenho uma oportunidade aqui e não posso perdêla. Jamais me perdoaria por isso. Você não consegue entender isso, Peter?

Houve um silêncio prolongado do outro lado. Quando falou, Peter estava com a voz embargada.

— Acho que chegamos ao fim, então. Torci para que você não conseguisse esse emprego no Senado, finalmente recobrasse a razão e voltasse para seu lugar. Para mim. Mas acho que isso não vai acontecer agora que está no gabinete de outra pessoa.

— Peter...

Gina se descobriu incapaz de falar qualquer coisa para tranqüilizá—lo.

Estava certo. Ela não tinhavisto que integrar o gabinete de Marsden significaria derrubar a última ponte de volta para Peter.

Estava acabado. Seu relacionamento vinha agonizando havia meses, mas essa noite, sem perceber, Gina declarara oficialmente sua morte.

— Sinto muito, Peter.

— Eu também. Adeus, Gina.

E então não havia mais ninguém na linha. Gina desligou o telefone sem fio, apagou a luz e puxou as cobertas até o queixo.

Deus, espero estar fazendo a coisa certa. Espero que isso tudo valha a pena.

Então os soluços e lágrimas começaram. Eram por Peter, mas talvez fossem também por Harriet Thompson. Fazia muito tempo não chorava antes de dormir. Desde os tempos de Pizza Panzella.

— Quê...?

Gina abriu os olhos. Escuro. E barulhento. Uma campainha tocando. Alto.

Quase em seu ouvido. O telefone. Atendeu—o e ouviu uma voz familiar.

— Gina? É Gerry. Descupe ligar a esta hora, mas estou numa fria.

Que horas são?

Ela olhou o relógio: 2:33

— Algo errado?—perguntou Gina. A tensão na voz de Gerry soprou a neblina do sono para longe.

— Fizemos uma pausa na investigação de um caso de seqüestro, mas terei de voltar logo.

— Que seqüestro?

— Não posso contar. Vamos escondê—lo da imprensa. Mas estou ligando porque a Sra. Snedecker não pode vir e estou sem ninguém para ficar com Martha. Assim, eu pensei...

— Estou indo.

Ele lhe disse como chegar ao prédio na Arlington Avenue. A ironia fez Gina sorrir. Havia algumas horas estivera a apenas alguns quilômetros dele.

Gina encontrou Gerryparado em frente aporta de entrada do duplex, chaves na mão. Aparentemente, ele se barbeara, vestira roupas limpas e estava em alerta e pronto para agir. Até mesmo naquela hora indecente Gerry estava com uma boa aparência.

Melhor que eu, pensou ela. Sabia que parecia desleixada — sentia—se desleixada em sua camisa de malha, jeans e capa de chuva — mas viera o mais rápido possível.

— Você é rápida.

Ele a beijou. Um beijo amigável na face. Sua voz saiu como de uma metralhadora:

— Não posso lhe dizer como isto é importante para mim. Jamais teria lhe pedido uma coisa dessas se tivesse outra pessoa a quem recorrer.

— Não seja bobo. Eu...

— Martha está no andar de cima. Ela tem sono pesado. É melhor você dormir também. Voltarei assim que conseguir me livrar, mas não sei exatamente quando.

— Fique calmo—disse Gina.—Ficarei o tempo que for preciso. Não tenho nenhuma cirurgia marcada para hoje.

Deu—lhe novamente um pequeno beijo—dessa vez nos lábios.

— Você é fantástica. Te vejo logo.

E então ele estava correndo para o estacionamento. Ao alcançar o carro, virou—se e gritou:

— Já ia esquecendo. Deixei alguma coisa para você sobre a mesa da cozinha.

Gina o observou sair com o carro. Em seguida, entrou e fechou a porta atrás de si. Gina balançou a capa de chuva, atravessou a sala e entrou na sala de jantar adjacente, cujo assoalho era coberto por carpete. A mobília era moderna e reluzente. O duplex de Gerry era bonito, limpo e funcional. Sem muita personalidade. Sem odores que identificassem a comida favorita dos moradores. Gina teve dificuldade de acreditar que alguém realmente vivia ali até chegar à cozinha. Era uma galeria de arte em literatura. Em todos os lugares para onde Gina olhava—as paredes, o quadro de cortiça, a geladeira — o aposento estava cheio de folhas de papel com desenhos de criança. Uma rebelião de cores. Martha parecia gostar de usar cada lápis de cera da caixa, e devia ser uma grande caixa. Contudo, seu gosto para cores não era exatamente tradicional. Num desenho havia pessoas verdes ao lado de árvores rosas em gramados amarelos sob céus cor de laranja, enquanto em outro o esquema de cores variava totalmente.

Uma pequena Van Gogh. Com um pai que obviamente amava cada rabisco que ela punha no papel.

Olhou a geladeira. Havia refeições congeladas no freezer. Exatamente o que ela esperava na casa de um pai solteiro.

Então lembrou o que Gerry dissera sobre ter deixado alguma coisa sobre a mesa da cozinha. Virou— se e não viu nada na mesa... apenas uma folha de papel. Reconheceu o que era antes de apanhála. Um atestado de óbito.

O nome Lisa Lathram estava datilografado na linha pontilhada. Gina notou que o atestador fora Stanley Metelski, médico legista da polícia de Fairfax na época do acidente. O que significava que a morte de Lisa fora considerada suspeita. Claro que sim. Em geral, a morte de qualquer estudante de dezoito anos era investigada.

Passou os olhos pelo atestado e parou na causa da morte.

Causa imediata da morte: hemorragia intracerebral.

Devido a ou como conseqüência de: fratura do parietal esquerdo do crânio.

Devido a ou como conseqüência de: overdose intencional de drogas.

Gina quase deixou a folha cair. Suicídio?

Subitamente abalada, deixou—se cair numa cadeira e inclinou—se sobre a mesa.

Deus. Pobre Duncan. Não era de admirar que ele não quisesse falar sobre aquilo. Devia ter pedido favores a um monte de gente para impedir que aquela última linha chegasse ao público.

Teria sido isso que o fizera terminar seu casamento, parar de clinicar e deixar de ser um especialista vascular de Virgínia para se tornar um cirurgião plástico de Maryland?

Ou haveria mais?

A overdose de drogas... por quê? A queda... obviamente o magistrado concluíra que ocorrera em conseqüência da overdose. Teria sido mesmo assim?

Gina pensara que o atestado responderia a algumas perguntas, mas apenas suscitara outras.

Levantando—se, deixou a folha de papel cair na mesa da cozinha e caminhou até a sala. Empurrou Lisa Lathram para o fundo de sua mente e puxou Martha Canney para a frente e o centro. Gina sentiu uma vontade súbita devê—la.

Subiu as escadas em silêncio. Havia dois quartos e um banheiro na parte de cima. Espiou o primeiro. No quarto ligeiramente iluminado Gina viu a cabecinha de Martha enquadrada pelo travesseiro e lençóis. Havia um monte de personagens Disney nas paredes e nas prateleiras. Gina se aproximou mais e puxou as cobertas até mais perto dos ombros da menina.

Ao se voltar, viu uma foto emoldurada sobre a penteadeira de Martha.

Pegou—a e inclinou—a na direção da luz.

Uma loura jovem e muito bonita. Embora andassem em círculos inteiramente diferentes durante o segundo grau, Gina reconheceu Karen Shannick. A falecida Sra. Gerald Canney. Mãe de Martha.

Como era bonita! Uma aparência clássica de moça americana. Casara com o americano clássico. E haviam tido uma filha. Uma vida de Família Walton até...

Pensou em Harriet Thompson, também falecida, mas que chegara aos setenta e oito anos. A pobre Karen talvez tivesse um terço disso quando morreu.

E era lamentável ela não ter conhecido melhor a bonequinha que trouxera ao mundo.

Às vezes a vida era realmente uma merda.

Gina fitou Martha por um momento e de repente compreendeu que aquela menina tinha apenas a Gerry. Essa pequena criatura era totalmente dependente dele, que era completamente responsável por ela. Procurou imaginar como seria aquilo.

Assustador. Muito assustador.

Recolocou a foto sobre a penteadeira, mas o suporte da moldura escorregou, e ela caiu no tampo da penteadeira.

Gina estremeceu. Não fora um ruído muito forte, mas soara como um tiro naquele pequeno quarto.

— Papai? Ai, não!

Gina se virou e ajoelhou ao lado da cama. Martha estava sentada, esfregando os olhos, ainda não completamente desperta. Olhou para Gina.

— Onde está papai?

— Ele precisou sair—sussurrou Gina.—Pediu—me que ficasse com você.

Lembra de mim? Gina? Do Taco Bell?

— Você é a médica.

— Certo. Você tem ótima memória.

Implante V 173

— Não pôde vir. Por isso estou aqui.

Estou fazendo isto certo?, perguntou—se Gina. Se Martha estivesse doente, Gina saberia exatamente o que fazer, mas como nunca tivera sobrinhos, não sabia se estava agindo de acordo. Fazêla dormir de novo parecia ser a medida mais acertada. Arrumou os lençóis.

— Por que não deita novamente e fecha os olhos? Estarei logo ali embaixo. Se precisar de qualquer coisa, basta chamar que virei correndo. Certo?

Martha não disse nada enquanto puxava os cobertores. Gina arrumou—os em torno dela e então, num impulso, abaixou—se para beijá—la na bochecha.

— Boa noite, Martha.

Enquanto Gina se levantou e se virou na direção da porta, ouviu um som de choro vindo da cama. Ajoelhou—se novamente.

— O que houve, Martha?

— Fico com... com medo quando papai não está aqui de noite. — Ela começou a chorar.

— Ele voltará logo, Martha—disse Gina, procurando confortála. — E se eu ficar aqui em cima com você?

Martha fungou e se sentou.

— Pode?

— Claro. Será divertido.

— Pode se deitar comigo? — Ela se arrastou para um lado de modo a deixar espaço. Seus temores pareciam ter evaporado. — Será como uma festa do pijama!

Gina hesitou, e então deu de ombros. Não havia muito espaço naquela cama tão pequena, mas e daí? Tirou os tênis e se enfiou entre os lençóis.

Martha logo se aninhou na curva do braço de Gina. Minutos depois estava dormindo.

Gina permaneceu ali, ouvindo o som leve da respiração de Martha.

Acariciou—lhe o cabelo macio e sentiu—se estranhamente feliz, em paz.

Paz... uma sensação estranha, entranhando—se nela como água morna numa esponja seca. Gina sentiu todos os motores que impulsionavam seu corpo e cérebro desacelerarem e finalmente se desligarem.

E junto com a paz veio uma necessidade ancestral, até hoje despercebida em meio ao fluxo de adrenalina de sua vida cotidiana.

Puxou Martha mais para perto. Era isso que estava faltando? Era a isso que se resumia tudo? Sentiu um nó na garganta. Uma criança minha? Deus, ano que vem entrarei na casa dos trinta...

Droga! Onde estavam minhas prioridades? O que era melhor que isso?

Gerry estacionou em sua vaga na frente da casa. A aurora prenunciava—se.

Ouviu um pássaro cantar em algum lugar entre as árvores.

Caminhou até a porta da frente. Sentia—se exausto. E aliviado. A operação daquela noite fora bem— sucedida. No último minuto o FBI convocara todos os agentes disponíveis—o seqüestrador cometera um erro — e eles tinham apanhado o filhinho dos Walter e o devolvido são e salvo aos pais. Gerry gostaria de ter ido comemorar com os rapazes, mas esse caso o deixara ansioso para retornar à sua própria filha.

E reforçara sua determinação em ser promovido para um posto com horário de trabalho regular. E logo.

— Gina?

Gerry entrou no apartamento e olhou em volta na sala vazia. Viu o casaco de Gina, mas onde estava ela?

— Gina? — Um pouco mais alto.

Lá em cima com Martha? Tinha de ser. Mas um medo irracional tomou conta de Gerry, fazendo—o galgar os degraus três por vez o mais silenciosamente possível, e correr até o quarto de Martha. Parou à porta, maravilhado com a visão de sua filha aninhada no braço protetor de Gina. Ambas dormiam. Banhados pela luz que começava a encher o quarto, seus rostos pareciam inocentes e relaxados.

Fora um risco pedir que Gina o ajudasse essa noite. Gerry não tinha como prever sua reação, mas sentira uma afinidade entre Gina e Martha durante seu primeiro encontro e, bem, estava morrendo de vontade de vê—la. E quem melhor para cuidar de uma menina que uma médica capacitada?

Mas isso?

Ficou ali parado, absorto pela perfeição da cena. Era como se o pequeno duplex, seu pequeno mundo e de Martha, tivesse mudado: por um instante, sua família fragmentada voltara a ficar inteira.

Percebeu que lágrimas corriam pelas faces.

Seu lugar é conosco, Gina.

Enxugou as lágrimas e teve de lutar contra o impulso de juntar—se a elas. Além disso, não haveria espaço naquela cama.

Assim, Gerry puxou a cadeira de balanço que Karen comprara para embalar Martha e ficou ali, observando as duas mulheres de sua vida até o nascer do sol.