Implante

F. Paul Wilson · Capítulo 12 de 36

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* A Semana de 24 de Setembro

 

 

* 12

 

GINA

 

Passara uma semana desde a entrevista, e Gina ainda não recebera nenhum telefonema do escritório do senador Marsden. As chances de um telefonema de Joe Blair pareciam quase nulas, mas Gina continuava torcendo para que o próprio senador intendesse. Durante toda a reunião com Blair, ela tivera a impressão de que ele apenas estava se dando ao trabalho de entrevistá—la porque seu chefe queria isso.

A espera estava afetando sua concentração. Tinha de resistir ao impulso de correr até a secretária eletrônica de hora em hora. As audiências da comissão de Diretrizes começariam em uma semana. O tempo estava cada vez mais curto.

Contudo, fiel à sua promessa, não estava esquecendo de pesquisar Lisa Lathram. A questão era como faria isso. Tinha a sensação de que Oliver revelara tudo que pretendia dizer, e ela não poderia perguntar nada disso a Duncan.

Será que a morte súbita da filha de um cirurgião proeminente da localidade teria merecido alguma cobertura jornalística?

Provavelmente. Ela telefonou para a Biblioteca Pública de Washington, e colocaram—na em contato com o responsável pela seção de periódicos. Ele foi muito prestativo, mas só conseguiu obter uma referência sobre Lisa Lathram: seu obituário, no exemplar de 17 de agosto do Washington Post.

Gina passou na sede da biblioteca, na G Street, e encontrou o obituário em microfilme.

Não havia ali nada que a ajudasse. Exceto pela menção dos parentes que ela deixara, o texto poderia pertencer a um anuário escolar.

Mas não desistiria fácil. Quando Gina deixara Washington para fazer a faculdade de medicina, Duncan era um respeitado cirurgião vascular de Virgínia com uma esposa e dois filhos; quando ela retornara de seu período de residência, encontrara um cirurgião plástico de Maryland, divorciado e com apenas um filho.

Alguma coisa acontecera naquele intervalo. Algo que virara a vida de Duncan de cabeça para baixo. A morte de Lisa? Talvez. Ou talvez isso apenas fizesse parte do todo. Talvez houvesse mais. E Gina decidira que descobriria tudo.

Enquanto estava na enfermaria Norte Três, Gina passou pelo quarto da Sra. Thompson e decidiu ver como ela estava. Enfiou a cabeça pela porta e viu a velha caminhando com dificuldade entre a cadeira e a cama. Ela tropeçou e teria caído se não tivesse se segurado na cabeceira.

Gina entrou no quarto, enquanto Harriet se acomodava novamente na cama.

— Você deveria ter chamado uma enfermeira antes de tentar uma coisa assim — disse Gina, enquanto a ajudava a deitar—se.

— Estou praticando. Preciso voltar para casa. Não quero arranjar problemas para o Dr. Conway.

Curiosa, Gina sentou—se na extremidade da cama.

— O que a faz pensar que ele está com problemas?

— Ouvi duas enfermeiras conversando. Elas falaram que o hospital estava implicando com ele por minha causa.

— Não se preocupe com o Dr. Conway. Ele pode cuidar de si mesmo.

Preocupe—se apenas em ficar mais forte.

— Não se preocupe. Estou ficando forte o bastante para ir para casa logo. Pode contar com isso. Muito em breve.

— Bom para você — disse Gina. — E lembre—se: chame a enfermeira quando precisar se levantar. Se cair e quebrar a bacia nunca sairá daqui.

— Isso não vai acontecer. Não serei mais um fardo para ninguém. Estarei fora daqui antes do que você imagina.

— É assim que se fala.

Gina gostou da determinação da velha senhora. Talvez as coisas não saíssem tão mal para o Dr. Conway, afinal.

Uma tempestade de setembro castigava a cidade quando Gina entrou em seu apartamento, quase se arrastando. Já eram quase oito e meia da manhã.

No caminho até o quarto notou que a lâmpada indicadora de mensagens da secretária estava piscando. Devia ser Gerry de novo. Ela e ele vinham brincando de esconde—esconde telefônico desde aquela noite no Taco Bell. Seus horários não coincidiam. Quando ele ficava livre, ela estava no plantão noturno. Mas os dois tinham conseguido se encontrar na última sexta, quando Gerry cumprira sua promessa de levá—la para sair para "um restaurante de verdade".

E aquela fora uma noite deliciosa. Um pequeno restaurante francês na Massachusetts Street. Bom vinho, boa comida, ótima conversa. Falaram sem parar, bebericando café até o maitre informar—lhes que estavam fechando. Ela descobrira que Gerry Canney não era apenas um pai dedicado, mas também um dedicado agente do FBI.

Bocejou. Sentia—se cansada. Essa não era forma de viver. O restante da cidade estava acordando e começando o dia, enquanto o dela estava terminando. Com sorte não precisaria assistir Duncan hoje.

Sentou—se à janela observando a chuva bater contra a vidraça, e em seguida verificou sua correspondência. A maioria, panfletos destinados ao "Morador" e os jornais médicos que tinham descoberto seu paradeiro.

A pilha incluía duas cartas, ambas de recrutadores de pessoal procurando por clínicos ou médicos de família para ocuparem vagas na atenção primária. Ela recebia meia dúzia de ofertas por semana.

Cansada da agitação da cidade?Precisa de uma mudança de cenário?

Para falar a verdade, sim.

Mude—se para a ensolarada Nevada.

Continuou lendo. Um novo super—hotel em Las Vegas estava abrindo uma clínica para seus dez mil empregados.

Não, obrigada.

A outra carta fazia segredo sobre a localização precisa, mas garantia um salário inicial de 120 mil dólares anuais mais benefícios como o quinto membro de um grupo de médicos de família "localizado a apenas noventa minutos da praia, das montanhas e da capital".

Gina pensou no salário inicial de 120... seria bom. Havia anos a profissão vinha precisando de médicos na atenção primária, provavelmente porque eles ocupavam o nível mais baixo em prestígio e renda. Mas a expansão dos planos de saúde criara uma demanda súbita por clínicos gerais. Mais de 2.300 dólares por semana, provavelmente por menos horas de trabalho do que ela tinha agora. Tentador.

Mas ainda não.

Colocou as cartas no colo e olhou para a rua, observando as folhas amarelas rodopiarem na água da vala em direção à 18 Street Estaria se enganando? Essa idéia de entrar na Comissão de Diretrizes seria um grande erro? Peter estaria certo? Será que estava desperdiçando seu treinamento fazendo avaliações pré—cirúrgicas nos pacientes de Duncan enquanto poderia estar atendendo aos seus próprios?

Talvez. Mas isso não duraria para sempre.

Falou silenciosamente para a cidade do outro lado da janela.

Sei que parece que estou dando nós em pingos d'água, pessoal, mas acreditem em mim: realmente sei aonde quero chegar. O único problema é que a corrente não tem estado a meu favor. Mas não se preocupem. A maré vai mudar.

Pelo menos ela rezava por isso.

Estou ficando deprimida, pensou Gina. E como não estaria? É uma manhã fria e úmida, trabalhei a noite inteira, minha energia está em seu nível mais baixo e sinto—me exausta.

Definitivamente, não é o melhor momento para tomar decisões importantes.

Jogou as ofertas de emprego e as propagandas na cesta de papéis e colocou os jornais num canto para folheá—los depois. Em seguida, apertou o botão da secretária eletrônica. Seria bom ouvir a voz de Gerry.

Mas em vez de Gerry, a voz era de uma mulher desconhecida.

— Srta. Panzella. Aqui fala do gabinete do senador Marsden. O Sr. Blair pediu—me para informar— lhe que o senador deseja entrevistá—la pessoalmente amanhã, às quatro da tarde. O senador não poderá marcar outro horário, caso a senhorita não chegue a tempo. Por favor, telefone para confirmar se comparecerá.

Ela deixou um número e um ramal.

Gina pôs a fita para tocar novamente. Só encontrara Joe Blair uma vez, mas era capaz de sentir o cheiro dele naquela mensagem. "Senhorita." — incapaz de chamá—la "doutora". O horário arbitrário e a impossibilidade de remarcar. Ela quase podia ouvir sua voz: Obedeça ou morra, Panzella.

Sentiu que ocorria alguma espécie de conflito de poder. O que poderia ser? O senador escolhendo novos assessores e seu chefe de gabinete sendo hostil com estranhos? Aquilo poderia gerar uma atmosfera tensa.

Ela queria ser apanhada no meio dessa situação? Ter Joe Blair contra ela e precisar desmascará—lo para fazer as coisas de seu jeito?

Ela adoraria isso.

Com um sorriso determinado, Gina pegou o telefone e digitou o número.

Depois de confirmar a entrevista, retornou para a janela e olhou para a Kalorama Road.

Estão vendo, pessoal? Eu não disse? A maré está mudando.