Implante

F. Paul Wilson · Capítulo 13 de 36

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Implante

* 13

 

 

DUNCAN

 

— É espantoso—disse o senador Vincent. Mesmo isolado na sala de exames de um médico, ele falava como se estivesse discursando. — Eu já tinha ouvido dizer o quanto a sua cirurgia curava rápido, mas não imaginara que seria tão rápido até começar a ver com meus próprios olhos. É

realmente espantoso.

Duncan se conteve para não fazer nenhum comentário sobre a vaidade de Vincent e continuou verificando, com a lupa iluminada, as incisões finíssimas sob o queixo do senador. Sim, o beta— 3 estava fazendo seu trabalho. Ele fora operado havia apenas uma semana e, a despeito de algumas equimoses quase invisíveis, virtualmente todos os traços da cirurgia tinham desaparecido.

Pena que eu não tenha podido fazer a reversão para porco. Isso você realmente acharia espantoso.

Em algum momento depois da cirurgia, Vincent fizera permanente no cabelo, e agora os fios saíam enroscados da cabeça, fazendo—o parecer um poodle de comercial de TV.

Duncan recuou, examinou a garganta de Vincent pela esquerda e em seguida a direita.

— Puxa, como meu trabalho é bom! Vincent riu, tenso.

— Então acho que estarei seguro na TV na semana que vem.

— Oh?—Duncan comentou com toda ingenuidade que pôde reunir.

—Pronunciamento para a nação?

— Não. Mais importante. As audiências. Sobre o projeto de lei das Diretrizes.

— Semana que vem? Não sabia que começariam tão cedo.

— Sim. Estamos mais apressados, agora que estamos sem Lane e Allard. A primeira audiência será na quarta—feira.

Estão de olho em algum alvo específico? perguntou—se Duncan. De quem será a vida que vocês arruinarão desta vez?

— Sabe, nunca estive numa dessas audiências—disse Duncan, lentamente.

—Acha que poderia conseguir que eu assistisse à seção inaugural?

O senador Vincent coçou a cabeça.

— Não sei. É uma entrada muito disputada. E a sala de audiência não é tão grande assim...

— Bem, tenho outros pacientes na comissão que podem me conseguir isso.

Não tem problema.

— Outros pacientes?—perguntou o senador, seu tom variando entre o indignado, devido à insinuação de Duncan de que alguém na comissão teria mais influência que ele, e o curioso, porque queria saber quem mais fizera plástica para as audiências.—Quem são eles?

Duncan meneou um dedo.

— Não, não, não. Você sabe que essa informação é confidencial.

— Sim, é claro. Mas se você realmente quer um lugar, Dr. Lathram, terá um. Amanhã meu diretor legislativo ligará para você. Não tem problema.

— Obrigado, senador. Eu sabia que podia contar com você. Parece que será um grande espetáculo. E aposto que você será um dos maiores astros desde o primeiro dia.

Aliás, eu garanto isso.

Mais tarde, Duncan passou no laboratório de Oliver. Ele precisava descer até o Hospital Geral de Washington para operar a pequena Kanesha Green, mas primeiro queria checar o progresso do irmão no último avanço do implante.

Encontrou Oliver sentado com vários implantes vazios numa bandeja à sua frente. Deu a Duncan um que rolou para a frente e para trás em sua palma. Era leve como uma pena.

— Quando o novo modelo poderá ser colocado na gordura subcutânea sem dissolver?— perguntou Duncan.

Oliver deu de ombros.

— Como posso saber? Em seis meses, dois anos. Ou nunca. Ainda não testamos esses novos implantes. Teremos de fazer estudos em animais.

Mas Duncan, francamente, ainda nem mesmo terminamos os testes clínicos nos implantes comuns e aqui está você pedindo para que eu trabalhe num tipo inteiramente novo!

— Precisamos pensar no futuro, Oliver. Se pararmos de inovar, outros se apoderarão de nosso trabalho e nos passarão para trás.

— Mas por que este novo modelo? Pensei que a idéia básica era um implante que dissolvesse logo depois da cirurgia.

— Porque prevejo um tempo quando poderei querer um implante que dissolva quando eu ordenar que ele faça isso. Por exemplo, em casos de traumatismos com ferimentos amplos e profundos, a liberação prematura de beta—3 seria contraprodutiva.

Precisava escolher as palavras com cuidado. Oliver era brilhante mas não tinha a menor idéia do que havia por trás da insistência de Duncan por um implante que se dissolvesse ao comando; e nenhuma pista sobre o que Duncan já fizera com o modelo atual.

Duncan jogou o implante vazio ao ar e pegou—o.

— Mas você acha que seria possível uma destas coisas permanecer na camada de gordura durante alguns anos?

— Creio que sim. Mas não consigo imaginar por que alguém desejaria que ela ficasse assentada ali durante tanto tempo. O momento em que sua dissolução seria benéfica já teria passado.

Não exatamente, pensou Duncan. Não se estivesse cheia da substância certa e escondida nos tecidos da pessoa certa.

— Só estou imaginando—disse Duncan. Oliver franziu os olhos.

— Mas você mencionou restauração de traumatismos. Está pensando em voltar a ser um cirurgião de verdade?

Duncan riu.

— Está se referindo à cirurgia vascular? Deus do céu, não. Por que eu desejaria voltar a trabalhar vinte e quatro horas por dia e ter de levantar da cama todas as noites para atender chamados de emergência?

Para quê? Que bem isso faria a mim?

— Você é um grande cirurgião, Duncan. Deveria colocar seus talentos para os melhores fins. Isso não faria bem apenas aos outros, mas também a você.

Comovido com a preocupação do irmão, e temendo que Oliver visse alguma coisa em seus olhos que não deveria, Duncan desviou o olhar. Oliver era uma boa alma, o homem mais decente do mundo. O prestativo, assíduo e dedicado Oliver. Sua presença conciliadora e seus comentários gentis funcionavam como um bálsamo para a alma de Duncan.

E ele também me admira.

Em momentos como esse, Duncan se odiava por usar a descoberta de Oliver para fins que deixariam o irmão horrorizado. E o próprio Duncan vivia aterrorizado com a possibilidade de que, caso suas maquinações fossem trazidas à luz, a personalidade radiante e indefectível de Oliver fosse maculada.

Mas isso não me impedirá, não é verdade?

Mais uma vez se perguntou o que faria se Oliver descobrisse tudo. Ou Gina. Do que ele seria capaz para se proteger?

— Por que voltar à cirurgia vascular me faria bem, Oliver?

Sabe o que aconteceu quando eu estava na cirurgia vascular. A mesma coisa pode voltar a acontecer. Por que eu deveria me expor de novo?

Olhe para mim agora. Estou com menos horas de trabalho e não preciso atender chamadas no meio da noite... quem já ouviu falar de uma cirurgia de emergência para barriga flácida? Estou ganhando muito mais com metade do esforço.

— Você nunca ligou para dinheiro.

— O público sim.

— E naquela época você salvava vidas.

— Mas enquanto eu estava salvando ou melhorando todas aquelas vidas, fui apedrejado publicamente por ganância. Lembra daquela época, Oliver?

Lembra?

Oliver assentiu.

— Lembro.

— Agora estou me enchendo de dinheiro apenas para ressuscitar a vaidade da nobreza local, e ninguém diz uma palavra. Ninguém levanta um dedo.

Vivemos numa sociedade notável, Oliver. Uma sociedade notável.

Que mundo, pensou Duncan, lutando para conter a lava que jorrava de seu peito, descendo pelas tripas. Que mundo maldito. Oliver o fitava.

— Não devia ter deixado que o desanimassem, Duncan.

— Ora, ora, Oliver. Já falamos sobre isso milhares de vezes. Deixar a cirurgia vascular foi uma decisão minha. E foi a melhor coisa que fiz na minha vida.

— Mas você poderia ter escolhido outro campo cirúrgico no qual tivesse realmente valor.

— Mas você descobrira essa nova membrana, Oliver, e logo depois os ingleses apareceram com o beta—3. A cirurgia plástica era a escolha perfeita.

Na verdade, ele decidira jamais lidar novamente com planos de saúde privados ou governamentais, ou com qualquer mistura dos dois. A cirurgia plástica tinha sido mesmo a melhor escolha. Apenas alguns raros planos de saúde cobriam cirurgias plásticas, e Duncan podia limitar seus pacientes aos que queriam fazer a cirurgia e excluir os que precisavam.

— Se esse é o caso — disse Oliver —, então eu gostaria de jamais ter desenvolvido esta membrana.

Duncan pôs a mão no ombro do irmão.

— Jamais diga uma coisa dessas, Oliver. Esses implantes vão transformar muitas vidas. Pessoas do mundo inteiro e mães de crianças que ficariam com cicatrizes horríveis pelo restante de suas vidas abençoarão seu nome. E quanto a mim, estou em paz com o passado. Acredite em mim, Oliver. Estou em paz. — Duncan olhou as horas. — Epa. Está na minha hora. Tenho de chegar a tempo no clube.

Oliver ainda parecia decepcionado.

— Você não pode jogar golfe hoje, Duncan. Está chovendo.

— Pôquer, Oliver — disse ele, cutucando as costelas do irmão. Quando chove, jogamos pôquer. Quer vir comigo?

— Não — ele suspirou, voltando para os implantes. — Tenho trabalho a fazer.

Por um momento Duncan ficou tentado a dizer ao irmão aonde ele realmente estava indo. Aquilo bastaria para Oliver ganhar o dia — ou melhor, o ano. Mas o querido Oliver era um tagarela. Ele diria a todos que quisessem ouvir que o irmão não era o desgraçado de coração frio que fingia ser. Ele era um santo disfarçado.

Não, Oliver teria de continuar desapontado com o irmão que admirara um dia. E Duncan rezou para que Oliver jamais descobrisse como seus implantes estavam sendo usados.

— Vejo você amanhã.

Duncan atravessou correndo o estacionamento sob a chuva, entrou em sua mercedes e ligou o motor. Mas em vez de colocar o carro em movimento, ficou parado olhando para o volante.

Estou em paz com o passado. Confie em mim, Oliver. Estou em paz.

Como as mentiras saíam fácil agora. O que era paz? Ele não tivera nenhum momento de paz desde que descobrira Lisa caída na sala em meio a uma poça de sangue.

Se ao menos...

Luzes fortes nos olhos de Duncan trouxeram—no de volta ao presente. O

sol aparecera entre as nuvens. Ele balançou a cabeça para espantar as lembranças e deu a partida na mercedes.

Se aquilo não tivesse acontecido, hoje eu teria uma boa vida. E teria continuado bem se o presidente não houvesse ressuscitado o maldito projeto de lei das Diretrizes. Aquilo fez tudo voltar — a dor, a raiva.

Tudo por culpa do presidente.

Mas ele ainda pagaria por isso. Sua vez estava chegando.