Implante

F. Paul Wilson · Capítulo 8 de 36

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Implante

* 8

 

 

DUNCAN

 

Duncan segurou o queixo da menininha entre o polegar e o indicador.

Levantou—lhe a cabeça, abaixou—a, e por fim girou—a para a esquerda e para a direita.

Seu nome era Kanesha e tinha seis anos. Ela não olhava diretamente para Duncan e a mão subia o tempo todo até o canto esquerdo da boca, onde flutuava como um beija—flor sugando néctar. Só que ali não havia nada doce ou bonito como uma flor, apenas uma camada grossa de tecido cicatrizado.

Apele era da cor do leite achocolatado; os olhos, grandes e de um marrom profundo, cor de caputino. Tinha dentes alvos e um sorriso que seria lindíssimo, não fosse aquela cicatriz fundindo os lábios nos cantos, partindo em dois todos os sorrisos.

Estava cheirosa, os cabelos penteados, e as roupas tinham sido passadas e engomadas. Kanesha e a mãe tinham—se vestido de acordo para a visita ao médico.

Duncan gostava daquilo, não simplesmente porque demonstrava respeito pelo médico, mas também por eles mesmos. Algumas das pessoas que o visitavam na clínica tinham cortado relações com todas as espécies de sabão, mas ele não ligava. Que droga, afinal, era uma clínica pública!

Certo. A clínica maxilobucofacial ocupava um canto do quinto andar de um dos prédios mais antigos do Hospital Geral de Washington. As poltronas e os acessórios da sala de espera eram puídos mas limpos; a sala de exame cheirava levemente ao detergente usado para limpar os balcões; a tinta amarela das paredes estava descascada e a mesa de exames precisava de um estofamento novo, mas a equipe era eficiente e, mais importante, eles se importavam com o que faziam.

Duncan se virou para a mãe de Kanesha. — Quando aconteceu isto, Sra. Green? Na ficha de inscrição não constava o nome de nenhum marido para Cindy Green, uma mulher jovem, com vinte e poucos anos, que provavelmente fora pouco mais que uma menina quando tivera Kanesha. De acordo com a ficha, ela trabalhava como garçonete. Era muito bonita, o rosto arredondado e lábios cheios. Duncan estudou aqueles lábios. Aboca de Kanesha seria exatamente como a da mãe, não fosse pela deformidade da cicatriz.

— Há uns quatro anos e meio. Quando ela tinha dezessete meses. Foi tão rápido que nem vi quando aconteceu.

Quantas vezes ele ouvira essa frase? Mas manteve neutro o tom de voz: — As crianças são agitadas nessa idade, não é mesmo?

— Num minuto ela estava sentada no chão brincando com pratos e panelas.

Virei—me para limpar a pia e ouvi o grito. Olhei para ela e Kanesha...

—A voz da mulher embargou. — Estava desmaiada e saía fumaça da boca. Eu sabia que os dentes dela estavam crescendo, mas nunca imaginei que Kanesha poderia morder um fio elétrico.

— Acontece com mais freqüência do que se imagina.

O que era verdade. Obviamente, acontecia mais com crianças negligenciadas, mas ele não achava que esse era o caso de Kanesha.

Apenas um daqueles acidentes trágicos.

Quase trágicos, na verdade.

Duncan poderia consertar.

Estava visualizando as incisões agora... desgrudar o tecido cicatrizado, restaurar a boca até a amplitude total, everter um pouco de mucosa para os lábios...

Não seria a primeira vez que reconstruiria um rosto de criança queimado por eletricidade. E não seria a última. Kanesha tinha sorte. Ela sobrevivera sem danos cerebrais, e a mãe se importava com ela. E agora tinha a ele.

Uma vergonha não poder usar o beta—3 nela, mas uma clínica pública não era lugar para um protocolo experimental. O hospital não aceitaria arcar com as responsabilidades, e Duncan não podia culpá—los. Quando um paciente de clínica pública ouve a palavra "experimental", pensa logo em Frankenstein e teme que alguém o use como cobaia.

— Pode consertar o rosto de minha filha, Dr. Duncan? Quando vi o que o senhor fez pelo pequeno Kennique...

— Quem?

— Kennique LeFave... o senhor sabe... a bochecha dele estava toda...

— Oh, sim, claro. — Que nomes as pessoas inventam hoje em dia! Mas ele lembrava do menininho de três anos que ano anterior caíra de uma janela, rasgando a face direita até o osso. Aquele fora um desafio de verdade.

— A mãe dele não faz outra coisa além de elogiar o Dr. Duncan. Foi assim que decidi trazer Kanesha para o senhor. Acha que pode... ?

Duncan assentiu.

— Será um pouco trabalhoso, mas sim, acho que podemos deixá—la como nova.

Os olhos da mãe fixaram—se intensamente nos de Duncan.

— Pode? Pode mesmo?

— Estou percebendo uma gota de descrença?

— Não, apenas...

— Sorria para mim — disse Duncan.

— Quê?

— Vamos. Sorria.

A mãe sorriu. Um sorriso adorável, ainda que forçado. Duncan se inclinou para a frente e segurou— lhe o queixo como fizera com Kanesha.

— Quero dar à sua filha um sorriso como o seu.

— Pode fazer isso? — sussurrou a mãe.

Sim, ele podia. Estavam na era dos milagres. E ele era um milagreiro.

Mas ainda assim... nunca prometa muito. E melhor dar—lhes mais do que esperam.

— Depende um pouco de Kanesha. Nem todos têm a mesma recuperação.

Portanto... um sorriso como o seu... isso bastaria?

O novo sorriso foi suave e hesitante, mas, dessa vez, sincero.

— Bom! — Ele pressionou uma campainha na parede. Uma enfermeira negra entrou. — Marge, veja se podemos encaixar Kanesha para uma operação de restauração facial... lado esquerdo dos lábios superior e inferior...

para quarta de manhã.

— Semana que vem? — perguntou a mãe.

— Cedo demais?

— Bem, não, eu apenas...

— Ela já tem essa cicatriz há muito tempo, não acha?

A mulher olhou para ele, fitando—o nos olhos, procurando neles algo que lhe desse coragem.

— Sim — disse, enfim. — Tempo demais.

Quando Marge as levou para fora, Cassie Trainor entrou na sala e ficou atrás de Duncan. Uma loura alta e com um belo corpo, usando um uniforme sob medida para maximizar o efeito dos seios voluptuosos. Quarenta e poucos anos, formosa e sensual. Cassie pousou as mãos nos ombros de Duncan e começou a massagear com os polegares os músculos da parte de trás do pescoço.

— Como está o Dr. Duncan hoje?

Duncan fazia todos na clínica referirem—se a ele como Dr. Duncan. Era uma alcunha legítima que escondia o nome Lathram. Não queria que todos soubessem que Duncan Lathram fazia trabalhos de caridade. Como explicaria que a mesma pessoa que se recusava terminantemente a fazer acordos com companhias de seguros e a realizar cirurgias plásticas necessárias, estava fazendo operação plástica de graça em crianças pobres?

Estava farto de dar explicações.

— Estou bem, e isso está uma delícia.

— Então, o que vai fazer depois de sair daqui? Está pronto para pagar aquela bebida que vive me prometendo?

Duncan tentou evitar que os ombros ficassem tensos. Vinha evitando Cassie fazia meses. Logo depois de seu divórcio ele e Cassie haviam tido um pequeno caso. Muito quente. Mas, como dizia a canção, não tão quente que não pudesse esfriar. Ela era uma enfermeira excelente e muito desinibida sob as cobertas. Ele lembrou de uma noite quando...

não, agora não era o momento de lembrar disso, não com os dedos dela massageando—lhe os ombros. Eles tinham acabado seguindo seus próprios caminhos, mas de vez em quando Cassie parecia gostar de avivar a velha chama. Duncan sabia que havia muitas velhas chamas no passado de Cassie. E chamas demais eram inquietantes nos dias atuais, quando o sexo livre deixara de ser um passatempo agradável para se tornar um assunto sério, um assunto perigoso, que requeria pesquisa e checagem de antecedentes, especialmente com alguém com um histórico tão variado quanto o de Cassie Tuainor.

Ele odiava que uma coisa básica e maravilhosa como sexo tivesse se tornado uma fonte de paranóia e ansiedade, uma nova seita religiosa com rituais de purificação e eucaristias de borracha.

Merda. Merda de mundo fodido.

Sexo descompromissado era o único tipo de relacionamento para o qual tinha disposição ultimamente, e sexo descompromissado era como uma roleta—russa. Não dispunha de tempo nem sentia vontade para investir num relacionamento duradouro, e não queria procurar um, não depois do que acontecera com seu casamento.

O que acontecera a ele desde o divórcio? Para onde fora sua paixão pela vida? Afastara—se de todos os velhos amigos. Mas não de forma consciente. Nem mesmo se apercebera do processo até estar consumado.

Agora passava tempo demais sozinho, mas isso não o incomodava. Não reconhecia esse homem preocupado e isolado no qual se transformara.

Talvez Lisa não tivesse sido uma aberração. Talvez aquilo fosse de família.

Independentemente do motivo, percebia que se tornara um homem que temia a intimidade mais que a solidão.

Mas pelo menos agora poderia contar a verdade a Cassie.

— Adoraria, mas vou jantar com meu filho.

— Que pena. Com quantos anos ele está?

— Fez vinte e um no mês passado. — Lisa teria feito 23 na última primavera, já estaria formada havia um ano. — Ele está começando seu último ano de faculdade. Vamos àquele restaurante italiano novo em Georgetown.

— II Giardia? Duncan riu.

— Não tem graça. II Giardinello. Chamaria você para vir conosco, mas vamos conversar sobre o futuro.

— Entendi. Muito bem. Quem sabe na próxima.

— Pode estar certa que sim.

Enquanto Cassie se afastava, Duncan observou o tecido branco do uniforme deslizar para cima e para baixo sobre as nádegas arredondadas. Quase mudou de idéia e chamou—a de volta. Em vez disso, olhou o relógio.

Estava quase na hora de pegar Brad na casa dele.

A casa...

Fora sua também. Agora pertencia apenas a Diana. Queria saber como ela podia morar lá, caminhar pela sala onde...

Duncan esfregou os olhos e se levantou da cadeira. Quando seu relacionamento com Diana finalmente ruíra, ele não sustentara uma ação de divórcio. Deixou Diana ficar com o que ela queria, concordou em pagar—lhe uma generosa pensão e, obviamente, providenciara para que Brad tivesse tudo de que precisava. Amava o filho, queria permanecer junto dele e, mais do que tudo, queria poupá—lo do espetáculo de ver seus pais brigando na justiça.

E Duncan ficou com... o quê?

O que sobrara para mim?

Ele e Diana ainda se falavam, mas apenas em assuntos neutros e práticos, jamais em nível pessoal. E jurou nunca pisar naquela casa outra vez.

Custava a se recuperar, e às vezes nem isso. Não havia implantes cheios de beta—3 para a alma.

Esse fora o motivo que o fizera estar na saída oeste do Capitólio na manhã do dia anterior. Tentando se curar equilibrando a balança, fechando o círculo, impondo uma simetria ao caos que se tornara sua vida. Só então essa raiva cancerosa cessaria sua metástase incansável e lhe permitiria seguir com sua vida.

Sozinho na sala, Duncan deu uma gargalhada. Sua vida! Que vida?

A cabeça de Marge apareceu à porta.

— Dr. Duncan... tudo bem?

— Tudo bem, Marge.

Isso é que é motivo para rir, pensou, acenando para Marge sair. Nada estava bem.

Ontem de manhã... mais um fracasso. Por que nada jamais era simples? Por que as coisas não podiam seguir conforme o planejado?

Nenhum dos dois outros experimentos tinham saído como ele esperara.

Lane e Schulz, ambos mortos, um num acidente de carro, o outro num mergulho de vinte andares.

E ontem... Allard deveria ter perdido a cabeça na frente das câmeras, e não rachado o crânio nos degraus do Capitólio. Duncan não pretendera causar—lhe danos físicos. Droga, qualquer assassino contratado poderia fazer isso. Fora até lá preparado para ver Allard mortalmente embaraçado, terminantemente humilhado, politicamente arruinado. Queria ver o fim da credibilidade dele, e não quase o fim da vida.

Merda! Tanto planejamento inútil. Agora Allard era apenas vítima de uma perigosa queda, um objeto de simpatia, e não de ridículo.

Duncan se admirou com sua própria frieza, mas apenas por um momento.

Guardava ainda algumas emoções no coração, mas não podia dar—se ao luxo de desperdiçá—las com homens como o deputado Allard.

Allard, pelo menos, estava vivo.

Da próxima vez... da próxima vez ele acertaria.

Duncan esfregou os olhos. Seus planos eram de pagar na mesma moeda, e não matar ou aleijar. Queria devastar as carreiras, casamentos e reputações daqueles homens. Queria deixá—los vivendo entre as ruínas.

Morte em vida.

Como a minha.

Embora seu propósito não fosse matar aqueles políticos, as fatalidades não tinham lhe incomodado pessoalmente. Afinal, Lisa estava morta por causa deles, e ela valia dez, vinte, centenas deles.

A presença de Gina no dia anterior representara outra complicação, uma daquelas coincidências perversas que um dia poderiam expor o que ele estivera fazendo.

A possibilidade de que alguém descobrisse tudo lhe causava arrepios.

Acusações de assassinato, um julgamento que seria um verdadeiro picadeiro, e depois o cárcere. O escândalo... o que isso causaria a Brad? Seu filho era uma das poucas coisas importantes que haviam sobrado na vida.

Faria qualquer coisa para evitar isso. Qualquer coisa.

Mas onde estava o risco, realmente? Tinha uma toxina virtualmente não rastreável, e um método de liberação absolutamente invisível. O único que seria capaz de deduzir o que estava acontecendo seria Oliver, mas seu irmão vivia atarefado e quase não percebia o que acontecia fora do laboratório. O único outro risco real seria alguém como Gina. Alguém que conhecesse os pacientes, soubesse sobre os implantes, e fosse inteligente o bastante para juntar as peças.

Por mais remota que fosse, a possibilidade o assustava. E que dilema terrível isso causaria. O que faria se fosse Gina quem descobrisse?

Teria de encontrar uma forma de neutralizá—la. Não poderia permitir que ela...

Balançou a cabeça para desfazer o encadeamento de possibilidades. Isso não aconteceria. Vincent fora o penúltimo. Mais um e então Duncan fecharia esse capítulo de sua vida.

Mas o último seria o grandão. O maior de todos.