Implante
* 9
MARTHA
Gina estava protelando para chegar em casa. Não queria ouvir mais nenhuma má notícia. E, quando se tratava do Capitólio, nenhuma notícia era considerada ruim. O golpe de misericórdia seria um recado de Gerry dizendo para ela esquecer os planos para o jantar; ou, pior ainda: nenhum recado de Gerry.
Pelo amor de Deus, pensou, algo tem de dar certo esta semana!
Assim, Gina saiu do metrô na estação do zoológico, caminhou pela Calvert Street e atravessou a Ponte Duke Ellington até o bairro onde morava.
O bairro Adams Morgan às vezes era descrito como perigoso, outras como eclético, mas na maioria das vezes era considerado um lugarzinho esquisito. Gina adorava a área. Um grande triângulo na descida da colina na direção de Círculo Dupont, cercado pela Calvert Street e pelas Flórida e Connecticut Avenues, onde se poderia encontrar jóias étnicas, arte popular e música de vanguarda, enquanto se sentia os aromas exóticos dos restaurantes típicos, que rivalizavam com as Nações Unidas em termos de diversidade. Onde mais na capital seria possível encontrar um restaurante argentino entre um requintado restaurante francês e um bistrô caribenho? E até mesmo restaurantes etíopes. Quem já ouvira falar de restaurantes etíopes? E havia três na vizinhança.
Gina passou um tempo folheando livros numa livraria africana, tateou alguns tecidos guatemalenses, experimentou sapatos turcos e finalmente decidiu que já protelava o bastante. Prosseguiu a pé até seu prédio, uma construção antiga na Kalorama Street, entre a Columbia e a Eighteenth Streets. O prédio era pintado de azul—celeste e tinha uma torre no lado que dava para o sopé da colina. Gina finalmente chegou ao seu apartamento no terceiro andar.
A imobiliária anunciara o apartamento como "mobiliado". Gina achava que "não desmobiliado" teria estado mais de acordo com as leis de defesa ao consumidor. A mobília fora envernizada tantas vezes, que o tipo da madeira sob todas aquelas camadas de tinta era um mistério. Gina suspeitava que o verniz era a única coisa que mantinha juntas algumas das peças. Mas o apartamento era limpo, e adorava sua janela de frente, com vista para a rua. Ela comprara um novo colchão e acrescentara alguns toques pessoais — um tapete amarelo brilhante e suas três reproduções das Ninfetas de Monet. Ainda tinha planos de tornar o lugar mais aconchegante, talvez com cortinas novas. Assim que tivesse tempo.
Gina foi direto até o quarto. A secretária eletrônica ficava sobre a mesinha—de—cabeceira, apertada ao lado do abajur. A lâmpada indicadora de recados estava piscando. Um bom começo.
O primeiro telefonema era de sua mãe, perguntando quando Gina jantaria novamente com a família.
— Em breve, mãe — disse em voz alta.—Em breve. — Seu horário não lhe permitia muito tempo livre, mas jurara visitar sua velha casa na Arlington Avenue pelo menos duas vezes por mês.
A voz seguinte foi de Gerry.
"Oi, Gina. É Gerry. Olhe, quanto ao nosso jantar... Bem, as coisas não saíram exatamente como eu planejava."
Fantástico. Qualé a desculpa?
"Mas eu gostaria de encontrá—la esta noite de qualquer jeito. O único problema é que teremos de fazer um programa um pouquinho mais popular do que eu planejara. Será que podemos nos encontrar num... bem... num Taco Bell? Tem um na Connecticut. É uma longa história, e explicarei tudo a você quando nos encontrarmos. Se nos encontrarmos. Sinceramente, estou torcendo por isso. Mas se não puder, eu entenderei. Apenas me avise se não puder ir. Do contrário, nos vemos às seis. Hasta la vista."
Gina apertou o botão de repetição. Sim, ouvira direito: Taco Bell. Ela gostava dessa cadeia de fastfood, mas um Taco Bell não constava em sua lista de lugares adequados para encontrar uma velha paixão de ginásio.
Veja o lado bom da coisa: pelo menos ele não lhe dera o bolo.
Mas um Taco Bell?
Gina estava à procura de uma vaga de estacionamento em meio ao fluxo de trabalhadores de Washington que voltavam para suas casas em Maryland. A Connecticut Avenue era mais residencial em sua extremidade norte — ali as lojas alternavam—se com prédios baixos e um ocasional edifício comercial, todos ladeados por carvalhos e olmos magníficos. A avenida ficava apenas a cinco ou seis quilômetros do Capitólio, mas parecia outro país.
Encontrou uma vaga em frente ao Taco Bell, do outro lado da rua, e desligou o motor.
E agora?
Sondou a multidão na calçada em torno da fachada da loja. Nenhum sinal de Gerry. Não sabia como identificar o carro dele. Não gostava da idéia de entrar apenas para ficar plantada num lugar, esperando. Na verdade, não estava gostando de nada disso. Onde estava a esposa de Gerry, se é que ainda tinha uma? Por que um Taco Bell? E por que tinha ido?
Calma, Panzella.
Cinco minutos observando o fluxo contínuo de corpos de todas as raças e idades, entrando e saindo pela porta, e nada de Gerry.
Muito bem. Vamos acabar com isso.
Gina entrou e olhou em volta. A decoração desse Taco Bell não era tão carregada em motivos country quanto a da filial da Louisiana Avenue; as paredes eram em tijolo cru, mas o balcão de atendimento, a máquina de refrigerantes, as cabines e as mesas obedeciam ao estilo padrão dos restaurantes de fastfood. Nada genérico quanto aos aromas, entretanto. O ar recendia a alho e especiarias. Percebeu que estava com fome.
Gina ouviu chamarem seu nome, virou—se, e avistou Gerry acenando do outro lado de uma divisória. Ele se levantou. Mas enquanto se aproximava da mesa, Gina viu que não estava sozinho, outra mulher ocupava o assento à sua frente. Uma loura adorável, com cabelos curtos e grandes olhos azuis. Tinha cerca de cinco anos de idade e estava comendo um taco com metade do tamanho do braço.
— Sinto muitíssimo — disse Gerry. —A babá tinha planos inadiáveis para esta noite. Esta é minha filhinha, Martha. Martha, diga alô para Gina, quero dizer, para a Dra. Panzella.
Martha acenou e sorriu com a boca cheia de migalhas.
— Martha é vegetariana — disse Gerry. Gina olhou para ela.
— Está brincando.
Ele levantou a mão direita, palma estendida.
— Verdade. Juro. Eu poderia impressioná—la dizendo que se trata de uma postura ética, mas na verdade acho que Martha não gosta de carne. Nunca gostou. Ainda bebê, costumava cuspir a papinha quando estava com muito gosto de carne.
— Mas ela come tacos?
— Burritos de feijão. Ela simplesmente amaburritos de feijão... com molho verde e porção dupla de queijo. Não é, Martha?
Alourinha olhou para cima e assentiu vigorosamente. Era óbvio que estivera prestando atenção a cada palavra.
— Mas sem alho — acrescentou Martha com uma voz esganiçada.
Gerry sorriu para a filha.
— Certo. Sempre sem alho. Por isso que estamos aqui. A Srta.
Chatinha—para—Comer tem um paladar muito limitado, de modo que não vale a pena levá—la a outro lugar. Espero que você não se importe. Prometo que compenso depois.
Gina fora apanhada completamente de surpresa por Martha, mas estava encantada pelo elo caloroso que parecia haver entre pai e filha.
— Não seja bobo. Estou feliz por você tê—la trazido. Na verdade, sinto—me honrada em conhecer Martha.
— Que bom. O que posso trazer para você? "
— Que tal dois burritos de feijão com queijo extra—Ela piscou para Martha — mas sem alho.
Martha sorriu e contorceu um lado do rosto numa tentativa grotesca de retribuir a piscadela. Gina riu e sentou—se em frente a ela.
— Você é doutora de verdade? — perguntou Martha, inclinando a cabeça para o lado. Suas bochechas eram rosas em flor, a pele, impecável.
— Sou sim.
— Você dá injeções?
— De vez em quando.
— Não gosto de injeções.—Ela levantou dois dedos.—Eu levei duas injeções para poder entrar no jardim de infância!
Que fofura. Tão relaxada e à vontade com uma desconhecida. Era evidente que gostava de pessoas, e isso era muito indicativo sobre sua vida familiar.
— As injeções existem para não ficarmos doentes. Ela deu de ombros.
— Mesmo assim, de vez em quando eu fico! Gina foi salva pela volta de Gerry.
— Trouxe—lhe um refresco. Depois de muita pesquisa e experiências, eu e Martha determinamos que a comida do Taco Bell desce melhor com um refresco.
Oba! — exclamou Martha, levantando o copo. Gerry bateu de leve seu copo contra o dela, e então Martha se virou para Gina, olhando—a com ansiedade. Gina bateu o copo contra o de Martha. Feito o brinde, todos beberam.
— Desculpe, mas aqui eles não têm nada com octanagem mais elevada—disse Gerry.
— Como terei de brincar de médica daqui a duas horas, Mountain Dew tem toda a octana de que preciso.
Gina observou Gerry se sentar novamente ao lado da filha. Ela viu a semelhança entre os dois—o mesmo cabelo louro, olhos azuis, nariz e sorriso. E a forma como ela sorria para Gerry... o sorriso de uma menina que amava o pai.
Gina estava intrigada, talvez até fascinada. Estivera ansiosa por esse encontro porque seria uma forma de amarrar uma das pontas soltas de sua vida. Era uma coisa com que sonhara durante todo o ginásio: sair com o maioral do campus — se era possível chamar aquilo de uma "saída". Mas Gerry era muito mais do que ela esperara. Era caloroso, franco e um pai dedicado. Ela gostava disso. Gostava muito. Queria saber mais a respeito dele. A mera distração que ela esperara encontrar ali estava se abrindo para algo novo.
Entre mordidas e bebericos, Gina e Gerry puseram em dia as mudanças em suas vidas desde o ginásio. Gerry lhe contou sobre ter—se juntado ao FBI depois de se formar em criminologia pela UVA, mas não mencionou ter—se casado ou de onde viera Martha. Gina precisou reunir toda a força de vontade para não perguntar. Gerry ouviu, com atenção e sorrisos de estímulo, Gina contar sobre sua formação, mas estremeceu ao ouvir o nome Duncan Lathram.
— Você trabalha para Lathram? O cirurgião famoso?
— Ele não é famoso. Apenas seus pacientes.
— Sim. E você precisa ser uma celebridade para ser tratado por ele.
Gina ficou intrigada com o súbito tom de hostilidade na voz dele.
— Todos os dias ele trata de pessoas das quais ninguém nunca ouviu falar.
Gerry se inclinou sobre a mesa e apontou para as leves cicatrizes no rosto.
— Ele não me aceitou.
— Como foi isso?
— AVM — Ele olhou rapidamente para Martha. — Conto em outra hora.
Acidente em veículo motorizado. Isso explicava as cicatrizes.
— Mas quem trabalhou em você fez um excelente serviço.
— O Dr. Hernandez é um dos melhores. Mas o primeiro a quem procurei foi Lathram e ele nem mesmo me recebeu para uma consulta.
— Duncan só pega certos tipos de casos.
— A seguradora estava pagando a conta. O problema não era dinheiro. Por que ele não me ajudou?
Gina ficou tentada a responder. Porque ele não opera ninguém que precise dele. Só realiza cirurgias estéticas, e quanto mais supérfluas e narcisistas, melhor. Nada de cirurgias reparadoras. Mas como Gina poderia explicar algo que nem mesmo ela entendia? Melhor evitar o assunto.
— Não sei, Gerry. Ele tem algumas idéias pessoais a respeito de quem aceita como pacientes.
— E alguns de seus pacientes vêm tendo muito azar ultimamente.
— Está se referindo ao deputado Allard? Gerry se empertigou no assento.
— Aquele sujeito que sofreu uma queda hoje de manhã? Nos degraus do Capitólio? Ele também era paciente de Lathram?
— O que você quer dizer com "também"?
Gerry não respondeu de imediato. Seus olhos fixaram—se no nada. O que estava pensando? E como o FBI sabia quem era e quem não era paciente de Duncan? E por que se preocupariam com isso?
A mente de Gerry estava a mil por hora. Seus olhos desfocaram a imagem de Gina à sua frente, concentrando—se na foto dasfajitas de frango atrás dela.
Allard também era paciente de Duncan Lathram. Aquilo somava três... três pacientes de Lathram que haviam sofrido acidentes fatais ou quase fatais nos últimos dois meses. O que poderia...?
— Gerry?
Ele balançou a cabeça para se livrar das especulações e se concentrou em Gina novamente.
Deus, sentia—se atraído por ela. Gostava daqueles cabelos negros, dos olhos marrom— escuros... e amava a forma como a boca se curvava nos cantos quando ela sorria. Jamais notara nada daquilo quando era uma adolescente obesa. Mas nunca olhara muito para Gina quando ela era Pizza Panzella.
Aquilo fazia parte da atração. Os dois tinham uma história juntos. Ele a conhecera nos Maus e Velhos Tempos quando não passava de uma garota obesa, e novamente, agora, quando era magra e capaz de virar a cabeça de qualquer homem.
Mas ele não a conhecera naquela época, não realmente. E decerto não a conhecia agora. Mas sentia que ela possuía muita força interna e confiança, e aquilo era tão sensual quanto seu exterior.
Ela se refizera. Havia decidido como queria ser, quem queria ser, e se tornara essa pessoa.
E agora essa pessoa estava esperando por uma resposta.
— Dois políticos influentes morreram no mês passado. O deputado Lane e o senador Schulz. Ambos eram...
— Pacientes de Duncan Lathram. Sei disso. Mas as mortes foram acidentais. Certo?
— É o que parece, até agora.
— Como sabe que ambos eram pacientes de Duncan?
Gerry estreitou os olhos e disse "tenho meus meios...", enquanto a mente planejava o próximo passo, calculando o quanto deveria contar—lhe.
— Estou falando sério, Gerry.
Ela pareceu irritada. Por quê? Lathram era apenas seu chefe. Ou representava mais que isso?
— Foi simplesmente algo que cruzou com nossas investigações.
— Ouvi falar sobre as investigações. Por quê?
— Dois figurões políticos morrem violentamente num espaço de algumas semanas? O FBI investiga. Se houver uma conexão, queremos ser os primeiros a saber.
— Oh, acho que faz sentido — disse ela, recostando—se no assento.
— O acidente de Allard não foi fatal, mas ele não vai estar envolvido com política por um bom tempo.
— Como assim?
— Parece que ele não tem dito coisa com coisa desde que chegou ao hospital.
— Mesmo?—disse Gina, franzindo a testa.—Deve ter sido algum tipo de síndrome de pós— concussão. Pobre coitado.
— Deve ter sido isso.
— Três acidentes... dois fatais... e todos pacientes de Duncan Lathram.
Desculpe—mas—o—doutor—não— trata—de—traumatismos Gerry gostaria de saber quais seriam as outras ligações dos três homens com o bom doutor.
— Com licença, papai.
Gerry olhou para o lado. Martha o empurrava com o quadril.
— Aonde acha que está indo, mocinha?
— Preciso de outro refresco.
— Acha que consegue se virar sozinha? Ela revirou os olhinhos.
— Pa—pai!
— Certo, mas beba só um copo.—Ele se levantou do banco para deixá—la passar. — Tem dinheiro?
Mais uma vez os olhinhos azuis reviraram.
— As doses extras são grátis, papai!
— Certo. Eu sabia disso.
Sentou—se outra vez, mas não tirou os olhos da filha, enquanto ela caminhava até a máquina de refrescos. Ela sabia exatamente o que fazer, e metade de sua diversão em ir ali era segurar o copo sob o dispensador de gelo, deixar os cubos caírem nele, e em seguida enchê—lo novamente na torneira de refresco. E assim ele a deixava fazer isso sozinha. Mas Gerry ficou atento para a menina e para todo mundo ao seu redor. Se alguém causasse o mínimo transtorno a Martha, Gerry saltaria até ele como um pit buli sobre um filé.
— É uma bonequinha—disse Gina.
— Se é — replicou, nunca tirando os olhos dela.
— Você não falou sobre a mãe dela.
Olhou para Gina, e então de volta para a máquina de refrescos.
— Lembra—se de Karen Shannick? A loura alta?
— A líder de torcida? Claro.
— Bem, ela também cursou a UVA. Começamos a namorar firme na faculdade e nos casamos depois da formatura. Martha nasceu um ano mais tarde.
— Ainda estão juntos?
Ele apontou para as cicatrizes no rosto e começou a falar rápido, de modo a contar a história toda antes de Martha voltar.
— Foi o pára—brisa que fez isso. Uma noite chuvosa na Rota 50. Um caminhão surgiu à nossa frente, formando um ângulo de noventa graus. Eu estava dirigindo. Karen estava ao meu lado, e Martha no assento de bebê, atrás de mim. Derrapamos direto contra o caminhão. Martha ficou bem, meu rosto virou hambúrguer e Karen... Karen não resistiu.
Com o canto dos olhos, Gerry viu Gina levar a mão à boca.
— Deus! Eu sinto muito! Não tanto quanto eu senti.
— A parte realmente triste é que Martha não lembra da mãe. Temos fotos, mas isso é tudo que Karen é para Martha. Eu queria...
Sentiu um nó na garganta. Karen costumava ser mais cuidadosa que ele.
Naquela noite ela estava usando cinto de segurança. Gerry estava sem o seu. Ainda assim, Karen estava morta, e Gerry, vivo.
Não era justo.
Ele viu outra vez o carro derrapar pelo asfalto molhado, desgovernado, suas mãos agarradas ao volante, enquanto ele pisava fundo nos freios, observando a traseira do caminhão agigantarse na janela do passageiro antes de arrebentar o vidro do lado de Karen...
Não era justo.
Depois daquilo, ele descera até o fundo do poço, e seu rosto cortado apenas aumentara o sofrimento. Martha não o reconhecera e gritava sempre que o via. Parecia o monstro de Frankenstein. E o Dr. Duncan Lathram se recusara a tratar dele...
Ele piscou e viu Martha correndo de volta segurando com as mãos seu copo plástico cheio de refresco até a borda. Ela jamais beberia aquilo tudo, mas e daí? Tinha ido até lá e enchera o copo sozinha.
— E assim Martha e eu estamos nos virando sozinhos — disse ele, enquanto ajudava a menina a sentar de novo. — E tentando passar juntos o máximo de tempo que meu horário permite.
O que representava muito menos que ele gostaria. Mas o que poderia querer, sendo agente federal? Porém, esperava que isso não durasse muito tempo. Assim que lhe oferecessem um cargo de supervisor de agentes especiais, ele aceitaria—independentemente de onde fosse — para trabalhar em horário comercial e poder estar mais tempo com a filha.
Agora ela passava a maior parte do tempo no jardim de infância e depois na escola da Sra. Snedecker. Graças a Deus pela Sra. Snedecker.
Alisou a franja loura de Martha e arrumou o prendedor de cabelo de Minnie. Incrível o quanto aprendera. Sabia dar banho em Martha, ensaboar os cabelos com xampu, lavar roupas, passar vestidos, comprar calcinhas. A mãe dele ajudara muito, mas no ano passado o coração dela parara de vez.
E assim, sobraram apenas Gerry e Martha. E Deus sabe como estava feliz por tê—la. Ela preenchera um pouco do vácuo que Karen deixara em sua vida. Ele ficou em pedaços, mas precisou se reerguer por Martha.
Ainda tinha Karen. Ela o visitava em seus sonhos. Gerry lhe perguntava como ele estava se saindo com Martha mas ela jamais respondia.
Como ele estava se saindo?
Martha sorriu para ele e o beijou na testa.
— Mas já falamos muito de mim — disse a Gina. — O que estava fazendo ontem de manhã no edifício Hart? Ali não é exatamente ponto de encontro de médicos.
Gina contou sobre sua luta para poder colaborar com o projeto de lei das diretrizes, a entrevista desanimadora com o chefe de gabinete do senador Marsden e seu encontro abortado com Allard.
— Todo esse treinamento médico, e você quer trabalhar para os políticos?
Ela riu.
— Você está falando como Duncan!
— Bem, talvez ele tenha razão.
— Não é tudo que quero fazer. Apenas uma parte. E vou conseguir. Farei tudo que quero. —Ela balançou os cubos de gelo no copo. —Acho que também vou beber outro.
Gerry pegou o copo de Gina e começou a se levantar.
— Deixe que eu...
— Obrigada—disse ela, tirando o copo da mão de Gerry— mas talvez queira outro sabor.
Gerry a observou caminhar até a máquina de refrigerantes e observou a maioria dos outros homens seguirem—na com o olhar. Sim, Gina Panzella definitivamente valia uma segunda olhada. Até uma terceira.
E vou conseguir. Farei tudo que quero.
A determinação irrascível nos olhos tornava—a ainda mais atraente. Uma mulher que se fizera sozinha. De uma garota que só podia ser descrita como uma baranga, para uma mulher com possibilidades ilimitadas.
— Martha — sussurrou ele — tenho a impressão que estou ficando apaixonado.
Martha não olhou para cima.
— Devem ter sido os feijões na comida.
Gerry riu alto.
— Mas não se preocupe—disse Martha.—Podemos falar sobre isso com Gina.
Ela fará você se sentir melhor. Ela é médica.
— Não, não—disse Gerry, pressionando gentilmente um dedo sobre os lábios da menina.— Não vamos contar nada disso a Gina. Pelo menos por enquanto.