Isso Só Acontece Comigo

Dayana Araújo · Capítulo 10 de 38

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Isso Só Acontece Comigo

Capítulo 10

Pós-festa

O despertador insiste em tocar. Dou um bocejo e me levanto… do meu tapete?!

Aos poucos assimilo os acontecimentos da noite anterior.

Uma festa.

Garotos e garotas seminus.

Gogo boys dançando para mim.

Um cara misterioso.

E por último, mas não menos relevante, depois que tudo acabou, coloquei numa caixa todos os presentes que o Edu me deu e bati às três da manhã na sua porta, jogando os objetos mais altos e velozes que pude. Ainda fiz um strip-tease e saí gritando nos corredores:

“Olha só o que você perdeu”

***

Depois de arrumar minha casa e colocar tudo no eixo. Deito supercansada no sofá junto com a Mari. Comentando tudo sobre a festa, cada detalhe e principalmente sobre os gogo boys.

─ A melhor parte foi o strip-tease que você fez para o Edu, a songamonga vai morrer! ─ sorri de um jeito divertido.

─ Ainda não entendo o que ele quer aqui. ─ digo intrigada.

─ Pois é. Mas se ele quer guerra, já sabe que estamos prontas para isso.─ levanta indo para cozinha, pega uma garrafa de água e coloca em um copo para beber.

─ Mari, por que você não vem morar aqui? Agora que estou sem emprego, seria uma boa. ─ chego na cozinha e ela termina de beber sua água.

─ Ah, Cléo! Queria muito, mas sabe como é. Você não aguentaria os meus pretendentes! ─ dá uma piscadela.

─ Safada! ─ sorrimos.

─ A vida é engraçada né, amiga?

─ Por que diz isso?

─ Porque antes eu me sentia para baixo, traída. Depois de ontem, sinto que é o momento certo de seguir em frente. ─ suspiro confiante.

─ Assim que se fala! ─ ela ergue a mão para que eu bata com a minha em sinal de cumprimento pelo que acabo de dizer.

─ E ser solteira não é tãão ruim assim.

─ É o que eu digo: “antes só do que mal acompanhada”. ─ pego duas taças no meu balcão americano e despejo meu vinho tinto em cada uma delas. Erguermos elas para cima e fazemos um brinde à nossa solteirice!

Tim. Tim!

─ Somos meio doidas em dar uma festa com essa bagunça toda antes do Natal, será que isso não é pecado? Seremos castigadas? ─ coloca o copo de lado.

─ Ih, olha quem fala! Nem vem dar uma de puritana, Dona Mariane Leão. ─ ela dá um meio sorriso.

─ É sério.─ fica triste de repente. ─ Minha mãe dizia isso.

Silêncio.

Natal sempre é uma data comemorativa de pesar para a Mari. Bom, ela pode passar com sua família, que se resumi à sua mãe; mas a velha é meio problemática, queria que a minha amiga casa-se de véu e grinalda e ainda fosse virgem.

Quando ela tinha 17 anos, engravidou de um de seus paqueras. Por incrível que pareça, minha amiga queria muito esse bebê. Sou testemunha viva disso. Mas a louca, altamente psicopata, quando soube disso, fingiu concordar com a gravidez e as costas da Mariane, colocava pequenas doses nos seus sucos de antibióticos, para que minha amiga tivesse um aborto.

A pobrezinha não sabia de nada, até que um dia a Mari passou muito mal e soube de toda a história através de um médico do hospital que a consultou e depois dos resultados de exames de sangue. Foi uma tristeza de dar dó! Ela se auto titulou órfã! E foi viver sua vida sozinha, entregues nesse mundão de Deus.

─ Não fica assim amiga. ─ a abraço.

─ Nem vai dar para ir hoje para o Natal com uma família de verdade, como a sua. ─ deixa uma lágrima escorrer. ─ Tenho plantão.

─ Estarei sempre com você. Independente de fisicamente ou não. Família também se ama à distância. ─ tento animá-la, não desejo que minha amiga fique penosa.

─ Tem razão. ─ enxuga a lágrima.─ Vamos logo fazer o prato da ceia, para levar para tia Drica.

Mari é uma grande amiga. As pessoas podem julgá-la de inúmeros nomes pejorativos. Mas falam isso porque não conhecem a verdadeira Mariane Leão. Uma pessoa de coração grande, que sinto que mesmo não termos laços sanguíneos, ela é muito melhor que ser alguém da minha família.

***

Passamos a tarde fazendo arroz branco com passas a molho champanhe. Fazemos também torta de frango com creme de milho por cima. Uma delícia por sinal. Insisto por tudo para que minha amiga me diga quem é o cara misterioso, porém, não sei o que ele fez, porque calou direitinho a boca da minha amiga, que se fecha em sete chaves. Nos despedimos e ela vai chateada fazer seu plantão no hospital.

Visto um vestido vermelho de mangas longas e rodado. Faço uma maquiagem leve, com apenas rímel e um batom rosa pêssego (que nunca pode faltar!) Desço com o prato de comida na mão, indo para o estacionamento. O clima natalino é bastante intenso no prédio onde moro. Luzes e mais luzes nas portas das casas; guirlandas, laços vermelhos, a cada pessoa que vejo, dou um sorriso e desejo “Feliz Natal”. Fico tão curiosa em saber quem é aquele cara que me chamou atenção na festa, que começo a reparar os rapazes do local onde moro.

Pego o elevador e há dois homens já dentro. Olho para eles, um tem barriga bem saliente, possui os olhos dele e está piscando para mim. Será… que? Antes que me precipite, me lembro que é o Thiago, que tem problema de tique-tique nervoso e come da mesma fruta que eu.

Descartado.

Assim que as portas do elevador abrem, vou direto para o estacionamento. Reparo em um homem que conversa com o porteiro do prédio, enquanto caminho. Observo sua postura e tom de voz é bastante parecido com o Mascarado, mas tiro o cavalinho da chuva, assim que vejo uma mulher chegando próximo a ele e dando um beijo na sua boca e um olhar furioso para meu lado.

Descartado 2.

Cumprimento o porteiro, o senhor Joaquim. Que sempre é um senhor simpático. Desde que mudei para cá, sempre me trata bem. Desejo Feliz Natal e ele me saúda da mesma forma. Me pergunta o que carrego no prato. Retiro a toalha e ele me pede um pedaço. Não acho nada de mais lhe oferecer um pratinho, tenho certeza que mamãe não ficará uma fera com isso. Ele pega sua mochila e ao abrir, percebo uma máscara branca muito conhecida em sua bolsa. Será? Ai, meu, Deus!

O cara que quase beijei na festa é meu porteiro do prédio de 51 anos, casado e pai de dois filhos?!