Isso Só Acontece Comigo

Dayana Araújo · Capítulo 32 de 38

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Isso Só Acontece Comigo

Capítulo 32

Revelação

Minha boca fica seca. Está tanto tempo aberta que nem sei se consigo fechá-la. Não acredito no que eu acabo de ouvir. Vários indícios surgem na minha mente. Aqueles olhos, aquela boca. A barriguinha saliente. O fato de eu ter contado a ele sobre Soraya e o Mister M saber disso. Como eu não associei os fatos? Como fui cega a ponto de achar… Ai, Jesus! Eu dei em cima do meu porteiro! Meu porteiro! Seu Joaquim deve estar se gabando, achando que está com a bola toda e que não precisa usar mais a pílula azul. Não! Não pode ser. A voz de mamãe se repete diversas vezes:

“Ele não é príncipe e sim um sapo”

O sonho com Cyndi Lauper pedindo para escolher um dos dois e complementar:

“Você pode ter os dois, se quiser”

─ Sinto muito, Cléo. Se não sou o que você deseja. ─ ele baixa a cabeça, triste.

─ Esse tempo todo você estava do meu lado. ─ dou um sorriso sarcástico. ─ Quem deve sentir muito sou eu. Por ter sido tão burra assim. Qual sua? Por que não me falar quem você é de verdade?

─ Eu vou me retirar. Deixar vocês dois se resolverem sozinhos. ─ seu Joaquim sai de cena e eu e Marcos ficamos nos encarando no estacionamento do condomínio. Nossa sorte que não tem ninguém ali.

─ Desculpe se fui grosso com você no começo. Mas é difícil entender uma menina que grita na fila do cinema que não gosta de homens e me olha com repúdio. ─ seus olhos estão úmidos.

Ai, Meu, Deus! É ele. O cara na fila do cinema. É ele com quem a Mari falou. É por isso que eles dois se conhecem. Foi tudo tramado ali e eu não percebi nada. Devia ter prestado mais atenção no rosto dele. Ao mesmo tempo me sinto com raiva e pena por ter tratado ele daquele forma. Mas mesmo depois disso, por que mesmo assim ele insistiu em mim? A louca psicótica que grita no meio do cinema e o ignora? Por quê? Por que alguém faria tudo isso? Minha cabeça dá voltas e voltas, perante meu silêncio, Marcos continua suas explicações.

─ Você deve estar pensando por que mesmo assim quis me aproximar você. ─ arregalo os olhos e ele está certo com sua suposição. ─ A primeira vez que eu te vi, Cléo, eu estava com meu pai no hall do condomínio e você estava acabando de se mudar, estava com um senhor mais velho, presumo que seu pai. ─ assinto e ele continua. ─ Te ajudei a pegar algumas coisas, mas você nem me notou. Meu pai fez até as nossas apresentações, contudo, você estava muito animada com o apartamento e não prestou atenção em mim. Mas o que eu queria, né? Que uma garota bonita como aquela perto de um cara assim. ─ se menospreza. ─ Não. Claro que não. Depois vi você passear com alguns caras e namorar, e eu continuava apenas olhando. Encarando a garota que eu queria nos braços de outro. Quanto te vi no dia do cinema eu me aproximaria de você, porém você fez aquele escândalo todo e recuei. Mas pela força do destino, entramos na mesma sessão e enquanto todos assistíamos ao filme, eu apenas pensava no porquê você ter agido daquele jeito. O que tinha acontecido de tão mal para você desistir dos homens. Não perdi tempo e chamei sua amiga para conversarmos, você passou por nós e nem prestou atenção. Contei à Mari tudo que sentia e como você já sabe, eu já era o Mister M. Prometi a ela que se me ajudasse poderia fazer qualquer coisa e ela me pediu para conhecer alguém famoso, assenti e sua prima Jaque sorriu dizendo que isso não era possível e eu insisti dizendo que sim. Porque eu tinha influências no meio da música. As duas se entreolharam, talvez não acreditando tanto em mim assim, mas minha história de ser apaixonado por você, as convenceu a pelo menos tentar marcar um encontro entre a gente. Assim coloquei no papel o meu número e mais tarde no telefone revelei à Mari quem eu era e ela não acreditou. Tive que me encontrar com ela depois e mostrar a máscara, e alguns itens que pertence somente o DJ famoso. Ela me prometeu que continuaria com o plano e que já tinha um jeito de marcar o nosso primeiro encontro, que como você sabe, foi naquela sua festa. Tive que te ver com aqueles caras se jogando e quase enlouqueci de fúria, entretanto, a Mari me acalmava e dizia que era só uma brincadeira e que você estava passando por uma fase muito difícil e precisava daquilo. Na época, ela não me falou o que era, talvez por respeito a vocês, coisa que você mesma revelou depois a mim, como Marcos.

Depois de todo esse discurso, ele respira fundo, talvez aliviado e passa a mão em seus cabelos, nervoso. Eu não sei o que falar, o que fazer. Minha cabeça está confusa diante de todo este relato. Abro e fecho a boca diversas vezes, mas não sai nada. Marcos me encara esperando respostas.

─ Você mentiu para mim. Como quer construir um relacionamento com alguém na base de mentiras? ─ finalmente consigo falar e o encaro. Marcos olha fundo nos meus olhos e se aproxima.

─ Ei! Você não está em posição de me cobrar a verdade aqui. ─ cruza os braços e me toco do que ele está falando. Do acordo com Soraya.

Viro o rosto. Engulo seco. Não quero olhar para ele, nem saber seus motivos. Sei que não lhe contei a verdade, quer dizer, contei. Sem saber que ele era o Mister M. Porém ele foi muito pior que eu! Bem pior!

─ Cléo, escuta, eu… ─ não termina a frase.

─ Eu fui enganada. ─ dou um sorriso nervoso e viro o rosto em sua direção. ─ Eu sou muito idiota mesmo. Devia ter percebido.

─ Cléo, escuta! Caramba! Você não sabe como foi horrível te ver com aqueles caras, como meu coração partiu em mil pedaços. Como foi te ver todo esse tempo e não ter coragem de mostrar o meu verdadeiro eu. ─ ele chora, nunca imaginei em vê-lo nesta situação, há desespero na sua voz, angústia e decepção consigo. ─ Eu posso ter uma boa grana, mas olha para mim! Olha bem para mim! ─ exalta-se e se rebaixa. ─ Eu não sou nenhum daquelas caras da sua festa. Não sou bonito nem musculoso. O tempo todo eu vi você gostar de caras assim. Seria pálio com eles? Me diz Cléo! ─ ele se aproxima de mim, nossos rostos ficam próximos um do outro. ─ Fala Cléo.

─ Acha que me importo com isso?! Que eu sou uma garota fútil? Talvez eu tenha até sido, O.k., mas se me conhecesse de verdade, saberia que eu mudei! Pelo visto nós dois não sabemos nada um do outro. ─ elevo a voz, nervosa.

─ Você não sabe como é difícil ser o Marcos. As mulheres olham para mim com nojo! Por ser gordo, separado e ter uma filha para criar. Mas o Mister M, não. Ele, todas as o olham com desejo. Ele é diferente. Já eu… ─ limpa uma lágrima e continua. ─ Sabe o que a minha ex mulher fez antes de me deixar? ─ permaneço impassível e ele continua seu discurso. ─ Ela me traiu com meu melhor amigo. Sabe o que ela falou para mim? Que eu era um gordo nojento. Que quando nos fazíamos amor, ela imaginava outro homem porque eu lhe dava ânsia de vômito. Porque suas amigas riam de mim. Pois o marido delas, eram fortes, sarados e sabiam lhe satisfazer como nunca. E eu era uma zero à esquerda. Que ela só fazia consumir meu dinheiro. Ela não liga nem para nossa filha! A nossa filha! Que não tem nada a ver com isso. ─ começa a rolar pequenas lágrimas no meu rosto diante da situação.

─ Acha que sou igual a ela?! A Cléo antiga poderia ser assim. E sabe o que isso resultou? Vários hematomas no meu coração que demoraram para cicatrizar. Eu só pensava em beleza sim. Admito. Mas eu vi que não adianta ser uma casca bonita com conteúdo vazio. E sabe quem me mostrou isso? ─ me aproximo dele. ─ VOCÊ! Eu comecei a gostar do seu conteúdo, não da sua casca. ─ as lágrimas dele rolam mais em sua face. ─ Mesmo não sabendo como era seu rosto, eu me apaixonei pelo que tem aqui. ─ coloco a mão no seu coração. ─ E aqui ─ ponho a mão na sua cabeça.

─ Eu fui um covarde. ─ abaixa a cabeça e uma pequena gotícula de água percorre sua face e cai no chão.

─ Ainda bem que admite. O dia que te contei o que estava acontecendo, ali mesmo você podia ter me falado.

─ Eu tentei. Mas fomos interrompidos, lembra?

Me recordo da cena e vem na minha mente o momento que ele me contaria alguma coisa no parque Dona Lindu, porém minha prima surtada apareceu. Assinto e agora rola na minha face uma pequena lágrima.

─ Às vezes a gente comete um erro achando que é um acerto. ─ Marcos filósofa. Balanço a cabeça nervosa.

─ Eu preciso ir. É coisa demais para minha cabeça. ─ não posso mais ficar ao seu lado, preciso descansar aquelas informações que me afligem.

─ Ao menos pode me dar uma abraço? Só um. Sei que não é o melhor momento, mas… ─ o abraço forte. Enquanto ouço seu coração bater acelerado com meu. Ele me aperta mais ainda como se não quisesse me perder. Me solto dele e nos olhamos por uns instantes.

─ O que acontece com a gente?

─ Isso só o futuro poderá nós dizer.

─ Antes de ir, permita te entregar uma coisa; quero que você leia. Não agora. Só quando estiver sozinha. ─ me estende um papel branco, dobrado. Respondo que sim com a cabeça. Pego o papel das suas mãos geladas e nervosas encerrando nosso diálogo.

─ Adeus.

─ Prefiro dizer até logo. ─ não respondo.

Eu preciso me tranquilizar o mais rápido possível. Saio do estacionamento e subo as escadas chorando, Seu Joaquim pergunta o que aconteceu, mas não respondo, corro depressa e abro meu apartamento nervosa. Enxugo minhas lágrimas e respiro fundo. Aquilo mexeu comigo, todas aquelas palavras, aquela dor, estão me perfurando por dentro.

Me dirijo à cozinha e abro a geladeira e procuro pelos meus analgésicos prediletos:

Chocolates.

Devoro um por um. Sem ao menos sentir o seu sabor direito. Espero que eles acalmem meu coração.

Mi chega balançando o rabinho, se aproximando de mim. Aliso sua cabeça.

─ O que eu faço, Miúcha? ─ ela me olha com ternura e pôs suas patinhas no meu colo. Ficamos por um bom tempo consolando um a outra até que meu celular toca. Era o Bernardo, dizendo que amanhã viria aqui com o dossiê completo da Soraya. Respiro aliviada. Finalmente me livraria das maldades da minha prima. Não vejo a hora de jogar na cara dela os seus segredos. O que me deixa bastante curiosa para saber quais.

Falando em interesse, pego o papel que o Marcos me deu do bolso da minha calça jeans. E leio baixinho:

“E não adianta nem me procurar. Em outros timbres, outros risos. Eu estava aqui o tempo todo. Só você não viu”