Isso Só Acontece Comigo

Dayana Araújo · Capítulo 5 de 38

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Isso Só Acontece Comigo

Capítulo 5

Visita surpresa

Acordo sete horas da manhã. Vejo Mari no sofá ainda com a garrafa de bebida nas mãos. Mi está dormindo no tapete da sala, com a barriga para cima e provavelmente tendo algum sonho canino.

Levanto com uma baita dor de cabeça. Não sou acostumada a beber, então, qualquer gota de álcool já me deixa de ressaca. Escovo os dentes, tomo banho e preparo um café preto bem forte; e dois mistos quentes, para mim e para minha amiga. Enquanto me delicio com minha refeição, Mari acorda e vem direto para cozinha.

─ Bom dia! ─ murmura animada demais para meu gosto. Minha amiga nem sabe o que é ressaca. Para o seu organismo, álcool é o mesmo que água.

─ Bom dia, senhorita! ─ a respondo sorridente.

─ Tomarei banho e depois quero conversar com você sobre nossa programação de solteiras! ─ seus olhos brilham de expectativa.

─ Só espero que nessa programação não tenha nada incluído em ficarmos nuas na praia de Boa Viagem! ─ minha amiga sai aos risos.

Uma pequena bola de pelos de quatro patas entra em cena.

─ Já tá com fome, Mi? ─ ela coloca as patinhas brancas no meu colo. Com os olhinhos pidões fita a comida que saboreio. Reparto o pão e dou um pouco a ela. Meu santo! Ela nem mastiga a comida e já está em cima de mim de novo!

─ Agora já chega! ─ levanto e vou ao armário, retiro sua ração e despejo na sua vasilha de comida. Ela devora em poucos segundos.

─ Bicth! ─ Mari acaba de sair do toalete, ainda está com os cabelos molhados e balança um papelzinho com alguma coisa escrita.

─ Que é isso? ─ puxo o papel de suas mãos, analiso com cuidado e não contenho o riso com que está escrito ali.

Programação das solteiras: Mari e Cléo

Sexta-Feira: Farra com a Cléo

Sábado: Falar mal do Edu e fazer macumba para que o pinto dele caía.

Domingo: Festa de Boas vindas à solteirice.

─ Palhaça! ─ resmungo e minha amiga solta uma gargalhada.

─ O que é festa de boas-vindas à solteirice? ─ franzo a testa e imagino muitas loucuras orquestradas pela Mari.

─ Ah, todo mundo faz despedida de solteira antes de se casar, por que não se pode fazer uma festa para comemorar a recém-liberdade que se adquira após um pé na bunda? Sou um gênio! Pode admitir. ─ fala orgulhosa.

─ Doida! ─ ela joga os cabelos para trás e senta-se à mesa, comigo.

Eu e Mari temos um gosto em comum: amamos seriados!

Sei que isso é mais coisa de adolescente, mas não ligamos. Adoramos: The originais, Greys Anatomy, Drop dead diva, The Walking Dead, Once upon time, American Horror Story e Grimm.

─ Qual será hoje? ─ balanço três DVDS de seriados diferentes.

─ Diário dos vampiros! Quero ver o gostoso do Damon em ação! ─ minha amiga fita o DVD maliciosa.

Sorrimos. Entro na cozinha e preparo uma coisa que segue a segunda colocação de preferidos da minha vida: BRIGADEIRO!

Despejo na panela o Leite Moça junto com achocolatado e margarina. Pego uma colher de pau na gaveta e começo a mexer o doce.

─ Vem logo! Vou dar o play, viu? ─ Mari está na sala toda agoniada.

─ Espera aí, apressada! ─ reclamo enquanto finalizo o chocolate.

Minha amiga além de doida, era uma impaciente. Muitas vezes ela perdeu oportunidades na vida por causa de sua pressa. Teve uma vez que um ator global chamou ela para sair e só porque o cara estava demorando dez minutinhos de nada, ela foi embora! Vê se pode?

Outra vez estávamos no trânsito e ela saiu desembestada do carro e foi caminhando a pé para faculdade, só porque teve um acidente por conta da chuva e tivemos que esperar. Ela saiu correndo e na primeira esquina que virou, um vento soprou forte no seu vestido branco, que a fez parecer em um daqueles filmes de Marilyn Monroe.

─ Mariane Leão! Isso demora, sabia? ─ protesto.

Depois de alguns minutos, o brigadeiro fica pronto. Pego duas colheres e me dirijo com a panela à sala, percebo que minha amiga está muito à vontade deitada no tapete, babando por Damon Salvatore.

─ Cachorra! ─ dou língua para ela, que retribui.

─ Ah, você demorou demais! ─ argumenta.

Sento no chão. Colocando a panela em cima de uma almofada e dando à Mari uma colher para que ela possa devorar.

─ Brigadeiros são melhores que homens! ─ dou uma boa colherada do chocolate que se derrete na minha boca.

─ Nem sempre! ─ ela pisca o olho para mim.

Somos interrompidas por Miúcha, que late impaciente em frente à porta e pula feito milho de pipoca dentro da panela.

─ Que foi, Mi? ─ me aproximo dela, que continua latindo.

A campainha toca e resolvo abrir a porta. Dou um grito assim que vejo quem é.

─ JAQUELINE! ─ abraço minha prima e demoro longos segundos para soltar. A saudade que sinto dela era grande demais e não me policio com demonstrações de afeto.

Mari levanta depressa e a abraça também.

─ Vem, entra! ─ minha amiga pega sua bolsa e entramos todas juntas. ─ Bela hora de aparecer, hein, dona Jaqueline! Logo agora que o gostoso do Damon aparece de toalhinha! ─ Mariane reclama e faz um bico.

─ Vocês continuam com esse vício de séries? ─ ela cruza os braços, duvidosa. Balançamos a cabeça afirmativamente e Jaque sorri.

Estou feliz com a visita. Jaqueline é a única prima da minha família que tenho uma ligação. As outras só me dirigem a palavra se tiver um doutorado em Harvard. Jaque não.

Talvez tenha sido porque estudamos juntas no começo do ensino médio e ficamos mais próximas. Ela é o tipo de pessoa que fala com você sem se importar com seu status social e muito menos sua aparência. Tem um estilo hippie, usa saias longas, florais, possui cabelos loiros e olhos cor de mel intensos.

Os pais delas, o tio Beto e a tia Catarina, infelizmente morreram em um acidente. Uma grande perda. Lembro de mamãe chorar bastante e de eu ter me trancando durante horas no quarto de tristeza. Os dois eram gente boa, não mereciam ter morrido daquele jeito.

Desde da partida deles, Jaqueline foi cuidada pela sua vó paterna. Por isso no final do ensino médio nos distanciamos. Ela havia se mudado para outro bairro. Ainda mantínhamos contato pela internet. Foi aí que soube que ela faria um intercâmbio na Espanha e provavelmente concluiria seus estudos lá. Foi assim que ela conheceu o Fabrício e os dois se apaixonaram. Depois disso, a Jaqueline não quis nem a pau voltar para o Brasil e como ela já era maior de idade, sua vó quase nada pode fazer. Apenas ir lá verificar se era isso que ela queria e se o rapaz era um bom moço.

─ Como está sua vida, prima? Conta tudo! ─ estou ansiosa para saber todos os detalhes. Ela balança os cabelos loiros e dá um bom suspiro.

─ Meninas, ser casada é tudo de bom. É ótimo saber que tem alguém do seu lado para compartilhar os momentos. Claro que de vez em quando tem uma briga ou outra, mas… Ah, o Fabrício é ótimo! ─ olha sonhadora para nós. ─ É sério, dona Mariane! ─ Mari faz um cara de nojo.

─ Bitch, please! ─ Jaque balança a cabeça diante do bordão da minha amiga.

─ Ela continua com essa frase de efeito? Mesmo depois de termos quase a espancado? ─ minha prima estudava conosco quando Mari começou com seu apelido “carinhoso”.

─ Agora pior do que nunca! ─ sorrimos e Mariane revira os olhos.

Minha prima continua a conversa:

─ Ele é o tipo de cara que me entende apenas com um olhar. Nossa sintonia é incrível quando estamos juntos. Além disso, o Fabrício faz questão de participar da minha vida, dos meus sonhos e do nosso futuro.

Miúcha chega de mansinho e se apoia no colo da Jaqueline, lambe seu rosto e parece sorrir. Sua boca aberta e os dentes bem à mostra me faz concluir isso. Essa cachorra às vezes aparenta ser gente.

─ Ah, Mi! Quando tempo! Como tá linda! ─ Jaqueline dá um beijo rápido na orelha da minha cadela. ─ Mas e você, Cléo, como anda? Fisicamente você não aparenta estar bem.

─ Bom, o de sempre, fui chifrada, abandonada e enfim meu destino é esse! ─ dramatizo.

─ Ah, isso é horrível! ─ minha prima fala horrorizada.

─ Não se preocupe. Tenho uma boa ideia para acabar com o desgraçado! ─ Mari dá uma risada diabólica.

─ Você como sempre perversa, hein! ─ Jaqueline dá um tapa de leve na perna da minha amiga.

─ Bom, prima… ─ pego nas suas mãos, emocionada. ─ Não quero falar mais disso, quero aproveitar cada segundo dessa sua visita. Depois você desaparece para Espanha e eu não te vejo nunca mais.

Sorrimos.

O dia passa e nem percebemos. A conversa está tão boa que eu não quero que acabe. Jaqueline conta sobre sua vida na Espanha e como ela adora sua loja de biquínis brasileiros que faz bastante sucesso.

Quando pergunto sobre os espanhóis, Jaque nos relata que os do bairro onde ela mora são sempre gentis e bonitos; eu e Mari quase fazemos as malas para ir logo para lá. Caímos no sono lá para meia-noite, depois de assistir Once upon time e delirar pelo personagem do “Gancho”. Aqueles olhos claros e cabelos pretos me fazem dormir muito bem naquela noite.