Isso Só Acontece Comigo
Capítulo 21
Correndo só.
Nem pude ver.
Que o tempo é maior.
Olhei para mim.
Me vi assim.
Tão perto de chegar.
Onde você não está… “
Me encosto mais no seu peito sentindo um cheiro de um perfume amadeirado, forte, porém gostoso. Os olhos castanhos por trás da máscara branca, parecem nervosos. Olha para o lado e outro e não consegue me encarar.
Outros casais se formam na pista. Minha amiga está muito animada no outro lado, com o bonitão alto. Ela faz alguns gestos com as mãos e me incentiva de longe para que eu o beije. Enquanto isso, ele fica rente ao meu corpo e suas mãos apertam minha cintura.
“Se eu disser, que foi por amor.
Não vou mentir pra mim.
Se eu disser deixa para depois.
Não foi sempre assim.
Ele não é um cara musculoso, pode ser gordinho, mas é tãão aconchegante! Posso passar minutos, horas ali. Não me incomodo. Portanto que eu sinta sempre essa sensação de segurança e carinho que ele me passa.
─ Cléo? ─ levanto o rosto e nossos olhares se cruzam.
─ Sim? ─ a música chega ao fim.
“Tentei dizer…
Mas vi você …
Tão longe de chegar.
Mas perto de algum lugar.
Não penso duas vezes e o beijo.
Capítulo 21
Feliz ano novo!
Passo no banco e retiro da minha conta os três mil reais que a Soraya depositou. Mari e eu chegamos em casa jogando as notas pelo meio da sala e ficamos gritando: Estamos ricas! Estamos ricas! Estamos ricas!
Minutos depois…
Estamos pobres. É incrível como hoje em dia três mil reais parecem nota furada de um real. Depósito mil reais na conta da Jaqueline. Sei que convertendo a euros aquilo não dá em quase nada. Mas, pelo menos, faço alguma coisa. Algumas horas se passam e minha prima me liga agradecida falando que dará para comprar as fraldas do bebê e pagar uma ou duas contas. Uma salva de palmas para inflação!
Pois é. Porém, antes disso, vou com minha amiga jogar na cara da síndica, as taxas atrasadas e as contas de luz e água. Ela me olha desconfiada e com semblante horrorizado sobre a procedência do dinheiro e como ele surge tão rápido, respondo que não é da sua conta e o que importa que está tudo ali sem tirar um centavo.
Aposto que imagina que me junto com os gogo boys e faço shows por aí, mesmo que fosse, não justifica os questionamentos que ela faz. Assim que se certifica que está tudo certo, contrariada, ela me pede desculpas e agradece. Sei que ela deseja que eu vá embora, porém não dou esse gostinho!
Corremos para o bairro do Pina fazer algumas comprinhas no shopping Rio-mar. Mesmo estando um dia à véspera de ano novo, o lugar permanece com um ar de sofisticação. Não há ninguém desesperado, nem correndo, apesar de estar lotado.
As pessoas passam ali como um dia normal. Atribuo isso à enorme extensão do lugar e seus quatro andares gigantes que faz qualquer um se perder ali. Não falarei nos vendedores. Quer dizer, vou! Eles só podem ser modelos vindo da passarela de Milão. Mesmo sem você querer comprar nada, automaticamente você entra na loja só para uma vez na vida ficar diante daqueles deuses gregos.
Mari e eu entramos em uma boutique ou outra e ficamos boquiabertas. Minha amiga chega até a pegar o telefone de um!
***
Estamos em uma fila do “Mc Donalds” gastando os últimos dez reais que me sobram com um delicioso Ovomaltine. Aguardamos nossa vez na fila enquanto paquero o atendente colocar o conteúdo na casquinha e murmuro para que abuse do chocolate, ele dá um sorriso e acena positivamente.
Recebo o meu em um pote médio, recheado de sorvete de baunilha com pedaços de chocolate e calda do mesmo sabor sambando nas bordas e com aquele pozinho gostoso que é o Ovomaltine. Mari também pega o seu. Nos sentamos em um dos bancos da praça de alimentação e conversamos sobre minha terrível situação em relação à Soraya.
─ Precisamos daquele vídeo, Bitch! ─ minha amiga fala enquanto leva a boca uma boa colherada de sorvete.
─ Só assim acabo com essa agonia. Pela primeira vez, devo admitir, odeio a internet! ─ com a colher de plástico, raspo a calda de chocolate que está no fundo da casquinha e degusto.
─ E o pior que se ela jogar isso na rede, é provável que se transforme em um viral. Você sabe como existem tarados por aí. ─ minha amiga faz uma careta incomodada com sua própria conclusão.
─ Sei bem. O que me intriga é ela saber de tudo sobre mim. ─ fico pensativa por uns instantes.
─ Inveja Bitch! Pode crer. Li em uma coluna de fofoca que aquele marido dela vive se metendo em casas de prostituição. Ela deve ser mal-amada. ─ minha amiga deduz.
─ Provavelmente. ─ dou uma boa colherada do sorvete, Mari e eu soltamos: Huuum! E brincamos de soltar os cachorros, assim como Ana Maria Braga faz em seu programa depois de comer algo que a agrade.
Gargalhamos.
─ Mari… ─ me recupero dos risos e começo a conversa como quem não quer nada. ─ desde da noite passada estou com uma pulga atrás da orelha sobre a tal recompensa que a Mari receberia. Não posso deixar de mencionar o fato.
─ Sim? ─ ela finaliza a sobremesa e joga no lixo próximo e me encara.
─ Sabe, ontem eu e o Mascarado estávamos dialogando… ─ ela sorri e dou tapa leve nos seus ombros pela expressão cínica que ela me lança.
─ Conversando? Ih, nem sabia que conversar agora era tocar nos lábios um do outro. ─ me cutuca.
─ Mari! ─ a repreendo, tentando fazer com que ela não mude o rumo da conversa. ─ Por que tanto silêncio em não me dizer o nome do Mascarado? Ele me disse que você teria uma recompensa … ─ levanto a sobrancelha esquerda esperando a resposta. Mari dá um largo sorriso.
─ E você não acredita que sua amiga só quer juntar os dois pombinhos por simples boa vontade de vê-los felizes? ─ ela faz um cara de sonsa.
─ NÃO! ─ digo sincera.
─ Poxa! Magoou. Mas quer saber? Não é só por isso, não. ─ balança a cabeça confirmando minhas suspeitas sobre essa bondade toda da minha amiga e ela continua. ─ Seu futuro namorado tem contatos muitos bons, suficientes para me juntar com o baterista Dennis Lenson! ─ se abana.
Arregalo os olhos. Sei bem que minha amiga tem uma certa tara por homens famosos. Mas o Dennis Lenson? Será que ela não está sonhando demais, não? O cara é um supergato do momento. Com cabelos cacheados, parecendo um querubim, olhos tons de mel, um pouco magrelo, porém que leva à loucura todas as jovenzinhas desta década. Toca, dança e atua. Ele faz parte de uma boy band chamada os Sem nome e Sem vergonha. Dá vontade de rir só de escutar as pessoas pronunciando. Porém, ele ficou mais famoso depois de atuar em uma novela das oito em um canal de T.V popular.
─ Ué, não era eu que roía ossos de cachorros? ─ cutuco-a.
─ Esse cachorro é de raça, não vira-lata como o seu. ─ ela me dá um fora e continua. ─ aliás, vira-lata é um elogio para aquele sacana do Edu. ─ mostro a língua para ela e minha amiga sorri satisfeita por ter vencido o diálogo.
─ Mas como é que ele tem o contato de um cara famoso desses? ─ franzo a testa, mudando o assunto e em dúvida do que o Mascarado possa ser.
Antes que a Mari responda minha pergunta, um grupo de jovens se aproximam onde estamos sentadas, respondendo todas as minhas dúvidas. Eles estão uniformizados com camisetas pretas com um slogan ” Grande show da virada”. Oferecem panfletos para mim e minha amiga. Pego um sem prestar atenção. Depois que vejo o sorrisinho de Mari para o papel, olho atentamente as imagens e letras que estão escritos:
Grade Show da virada!
Com o famoso DJ que vem conquistando o mundo:
Mister M!
Embaixo das palavras tem uma foto do cara misterioso que vem mexendo comigo ultimamente. O terno, as calças pretas sociais e a máscara branca completavam sua imagem no panfleto.
Então era por isso que ele se veste desta forma e nunca tira a máscara? Caramba! Fico boquiaberta por muito tempo e totalmente sem reação diante deste fato. Um DJ? Eu tenho um cara famoso desses lá no prédio e não sabia? Mister M? O seu Joaquim?
─ Ei! Morreu? ─ minha amiga sorri.
─ Mari é… ─ coloco as mãos na boca, perplexa.
─ O Mascarado! ─ ela responde.
─ Não posso perder esse show da virada por nada!