Isso Só Acontece Comigo
Capítulo 11
Feliz Natal família Fernandes!
A avenida Boa Viagem está um caos. O trânsito parado. Uma forte chuva inicia naquela hora. É realmente muito estranho, pois período de inverno aqui em Recife começa no mês de maio. Mas com esse tempo doido, quem confia?
Ligo o som em alguma estação de rádio, para tentar relaxar em meio àquele estresse todo. Uma música dançante e romântica invade o ar. Acho superoriginal a melodia. Descubro depois, pelo locutor que é uma composição de um tal Mister “M”. Chego até a rir. Imagino aquele mágico famoso que gostava fazer apresentações no programa do Gugu fazendo as pessoas dançarem.
O trânsito finalmente fica livre. Passo, prestando um pouco atenção nos grandes restaurantes. Cheios de luzes brilhantes e decoração extravagante para chamar atenção dos clientes. Observo igrejas, onde as pessoas provavelmente devem estar louvando o nascimento de Jesus. Finalmente chego ao Derby, onde a prefeitura capricha na decoração.
Luzes contornam a praça do local, onde há um lindo presépio. Não deixo de perceber os corais que se apresentam no quartel. Com músicas natalinas e pessoas na plateia aguardando ansiosas as apresentações. Um enorme árvore feita de garrafas pets está no local. Me dá uma vontade de assistir, porém escuto meu celular vibrar. Dou uma rápida olhada em quem é, para não me perder na direção.
“Mamãe”
Entendo que provavelmente ela deve estar desesperada achando que não vou.
Entro na Caxangá, quase tenho um ataque de pânico. A avenida está totalmente alagada. Parece cena do próximo longa da Lagoa azul. Só falta ali o Noé e sua arca para embarcar na próxima viagem. É difícil entrar na rua. Já que aparenta ser uma piscina natural.
A chuva graças a Deus dá um tempo. Mas mesmo assim fico com medo de estragar minhas roupas e sapatos, diante daquela lama e água suja. Paro na frente da casa e pego a comida e destravo o carro para descer. Dou um salto-mortal para fugir da enorme poça ali na frente. Quase derrubo o prato de vidro que carrego na mão.
A casa da mamãe é a mais chamativa da rua. Visto que hoje em dia, as pessoas mal ligam para esta data. Lembro da minha infância de ver meus vizinhos enfeitarem com afinco suas casas. Com pisca-piscas de diversas cores. Até fazíamos uma competição da casa mais bonita. Porém, agora, os tempos são outros. Somente mamãe e uma vizinha do lado ornamentam suas residências. Dona Drica pôs tantas cores de luzes na frente daquele lar que chega a doer a vista.
Segurando o pratinho em uma mão, com a outra toco a campainha.
─ Finalmente!─ ela pega meu prato e vai à cozinha.
Entro na casa, onde tem uma linda árvore-branca de Natal e alguns presentes embaixo. Me dirijo à cozinha, e a mesa quadrada, marrom, está repleta de comida. Minha tia Lio já está mastigando um pedaço da coxa do peru; murmura alguma coisa quando chego, mas só consigo prestar a atenção nas partículas de farofas que caem do canto da sua boca. Ela é sempre assim, onde há uma boca livre lá vai minha tia marcar presença.
Vovó está em uma cadeira de balanço, cochilando. Usa um vestido floral e um coque. Sua cabeça pende para o lado e ouço sua respiração alta. Me aproximo dela e toco de forma delicada seu braço. Ela desperta de repente.
─ Dizem que és mensageiro da MORTE! ─ acorda assustada e provavelmente tendo sonhos apocalípticos.
─ Vovó, sou eu, Cléo! ─ dou um sorriso e ela estreita os olhos, pega os óculos que está na mesa e me visualiza.
─ Ah, Cléo! Minha netinha. Que saudades! ─ esbanja alegria.
─ Eu também. Na última vez que vim aqui, a senhora estava dormindo.─ puxo uma cadeira e sento ao seu lado. Mamãe vai à sala ligar o som e coloca CD de músicas natalinas.
─ Ah, aqueles malditos remédios! Falei poucas e poucas para aquele neurologista de uma figa! Nunca mais engulo um pedaço sequer daquilo. ─ sorrio. Vovó é muito teimosa!
─ Onde estão o resto? ─ questiono mamãe, que retorna à mesa. Sentando-se.
─ Você ainda pergunta? ─ ela revira os olhos.
Natal sempre é símbolo de paz, amor e harmonia, mas na minha família é anúncio de uma terceira guerra mundial. Isso devido ao fato que meus entes queridos não se dão bem. Só para ter uma noção: ano retrasado meus tios meteram facada um no outro por conta de um pedaço de panetone. Ano passado tivemos que correr para hospital, pois a vovó chegou até a falecer, porém ressuscitou no milésimo de um segundo.
─ Qual foi desta vez? ─ pergunto curiosa, pensando que eles devem ter jogado bomba atômica uns nos outros.
─ Ah! Suas tias estavam brigando qual era a filha que ganhava mais dinheiro e acabaram saindo daqui aos tabefes umas com as outras.
─ Menos eu. ─ tia Lio finalmente se pronuncia, depois de se limpar com guardanapo, retirando o óleo de gordura que fica no canto da sua boca.
─ A senhora não conta, tia. Não tem filhos.
─ Se tivesse, acha que eu seria como elas?
─ Provavelmente.─ mamãe e eu falamos uníssonas.
Abro a garrafa de vinho que está na mesa. Coloco o líquido em cada taça das pessoas presentes. Enquanto dialogamos despreocupados, desce um garoto de uns vinte anos pelas escadas de madeira da casa da mamãe. Causando estranhamento em todos. Ele tem uma cara de moleque, olhos pretos e um cabelo estilo Justin Biber. Todos esperam explicações da dona Drica, que nada fala, apenas diz seu nome, que é Lucas. Damos um “Feliz Natal” e ele dá um “valeu”. Já o acho mal educado. Mas se conheço mamãe, provavelmente deve ser um desses garotos de orfanato que ela quer faz caridade para tentar tirar sua alma do purgatório.
Depois nem ligo.
Jaque e Fabrício finalmente aparecem. Chego até a me levantar e cumprimentá-los. Fabrício é um homem que exala masculinidade por onde passa. Se é que me entendem. Barba para fazer, topete discreto, um porte alto e atlético. Muito educado me felicita. Jaque está linda, em um vestido longo, com abertura na coxa, a estampa azul com desenhos de flores combinam muito bem com ela.
Sentamos e começamos a comer.
─ Cléo, soube que ficou desempregada. ─ Fabrício inicia a conversa, colocando uma boa garfada da minha torta e da Mari em sua boca e me surpreendo com seu português fluente.
─ Sim. E está muito difícil de arranjar outro. Quando chego na agência de trabalho, as pessoas correm de mim como se tivesse uma doença contagiosa. ─ ele dá um sorriso divertido. Acho que já sabe da história toda.
─ Eu e Jaque conversamos e queríamos te pedir para trabalhar conosco, na Espanha. ─ tomo um bom gole de vinho e chego até a tossir.
─ Ih, seus lindos, valeu mesmo. Mas com todos os defeitos do meu país, prefiro ficar aqui. ─ os dois abaixam a cabeça com um semblante triste. ─ Sinto muito. ─ tento confortá-los. ─ Porém não consigo me ver trabalhar em outro lugar.
─ Tudo bem, então, prima. Mas qualquer coisa estamos aqui.─ Jaque argumenta.
A campainha toca, anunciando que mais alguém marca presença me nossa festividade.
─ Quem será? ─ mamãe levanta-se e vai chateada atender.
Ao abrir a porta…
─ Soraya! Que milagre é esse?
Ela entra com sua incrível capacidade de deixar o lugar onde ela pisa mais negativo. Com seus cabelos negros, longos, na cintura, e sua franja reta, quase cobrindo seus olhos escuros. Soraya vai dando o ar da graça na cozinha. Solta uma fumaça de cigarro no ar, fazendo todos terem um ataque de tosse.
─ A que devo essa visita? ─ mamãe tampa o nariz. Ela odeia cheiro de cigarro.
─ Eu a convidei. Fiquei muito feliz que vocês se resolveram na festa.─ Jaque dá uma piscadinha e a encaro séria sem entender nada.
─ Não sei do que está falando Jaqueline. ─ falo com cara de poucos amigos.
─ Eu sei que vocês não se davam bem. Por isso, chamei Soraya para sua festa de solteira. Para tentar apaziguar os mal-entendidos. Deu certo?
Engasgo. Soraya? Na minha festa? Não sei o que essa víbora fazia lá. Odeio a Soraya desde sempre. Meu ódio com ela nasceu quando ela me empurrou de um escorrego quando tinha dez anos, me fazendo cair de cara em um monte de areia e ainda me fez comer cocô de gato. E, quando tinha doze anos? Ela colocou um escorpião no meu quarto, fazendo soltar todos os tipos de gritos histéricos que um pré-adolescente pode dar. Fora o dia que encontrei uma boneca de vodu com meu nome estampado cheio de agulhas.
Jaque continua dando um enorme sorriso, achando que fez uma obra de caridade a nós duas.
─ Graças à Jaqueline, eu tenho isso aqui, Cle.o.ni.ce. ─ joga a bituca de cigarro no chão e pisa com seus saltos pretos, altos. Mamãe faz uma careta, diante de tamanha mal educação.
Ela se aproxima de mim e balança um aparelho celular com ar triunfante. Ao me deparar com o conteúdo que ela me mostra, fico totalmente boquiaberta ao ver me ver pelada, correndo nos corredores, gritando para o Eduardo:
“Olha só o que você perdeu!”
─ Eu sei que se isso cair nas mãos erradas … ops! Já caiu. Pode dar uma imensa confusão. Já imaginou no youtube? ─ dá uma risada maquiavélica.
Jaqueline balança a cabeça discordando da atitude.
─ Mas eu … imaginei que tivessem ficados amigas. Achei que estava aproximando as duas. ─ minha prima murmura triste e negando com a cabeça.
─ Pobre menina ingênua. ─ debocha. ─ Mas como hoje é Natal, tenho uma proposta a fazer. Topa sair com seus ex-namorados por 10 mil reais?