Isso Só Acontece Comigo
Capítulo 14
De volta para casa
─ Miúcha! Você deve estar faminta, hein! Que maldade deixar você no Natal sem comer. ─ abro a porta do apartamento e minha cachorra começa a pular e me babar toda. Ela balanço o rabinho como se não estivesse com nenhuma raiva de mim por tê-la deixado passando fome. Os cachorros têm um senso de pureza incrível. Ainda não acredito como tem gente por aí que faz maldade com esses pobres animais, eles realmente são feitos para ser o melhor amigo do homem.
─ Vamos para cozinha. ─ retiro do armário a ração da Mi e despejo na tigela de plástico vermelha, coloco generosas porções de comida me desculpando pelo esquecimento de deixá-la sozinha aqui. Em poucos segundos não sobra um grão para contar a história.
Incrível que ao chegar em casa, aquele clima gostoso de Natal se desfaz. Não há guirlandas, árvore, nem sequer um pisca-pisca. Também pudera, sem grana não comprei enfeites para tal celebração. O máximo que poderia fazer pelo meu lar com meu dinheiro mísero era comprar meias (usadas e talvez furadas) e pendurar na janela na esperança que o Papai Noel lesse meus pedidos dentro delas. Ô vida!
Desperto do meu devaneio ao escutar o som da campainha. Escancaro a porta e não tem ninguém. Fecho em seguida. Provavelmente são os pirralhos do 403. Desde que eles viram a Mari dançando funk, enquanto a porta estava aberta, vivem me perturbando.
Novamente aquele som de volta.
Retornando ao local, olho para os lados, nada. Até que encontro um bilhete perto do meu tapete.
Já descobriu quem é o Mascarado que você dançou outra noite?
Levo um susto ao ler aquelas palavras. Procuro por alguém no corredor, mas não há. Fecho a porta e volto ao meu apartamento. Tenho uma ideia insana. Pego um bloco amarelo que está em uma das minhas escrivaninhas e puxo a folha e começo a escrever.
Se for você, por que não começa me contando? Sou muito curiosa. rs
Empurro o papel para o lado de fora. Para minha surpresa, a campainha volta a tocar.
O que eu estou fazendo? Voltando a ser uma criancinha do primário?
Abro o bilhete e sorrio.
Ih, curiosidade matou o gato!
Rabisco a minha resposta, empurrando a página para o lado de fora.
Então, já estou morta faz tempo! rs
Segundos depois…
Não se preocupe. Mais cedo ou mais tarde, você descobrirá. Já tem uma pista. Eu moro no mesmo prédio que você.
Escrevo de volta.
É uma pista muito rasa, não acha? Que tal me dar mais?
A campainha toca novamente.
Hum. Não sou o que você espera. Sou gordo, ronco e tenho chulé. Você aguenta?
Gargalho.
Talvez. Depende se suas qualidades superam seus defeitos.
Levanto de supetão e abro a porta com força. Mas vi apenas crianças brincando no corredor. Meninos e meninas jogando amarelinha e outros brincando de pique-esconde.
O Edu chega a abrir a porta me dando um “oi”. Fecho-a na mesma hora.
Espero mais por alguns minutos. Até que…
Primeiro: você tem que me conhecer para saber. A hora ainda não é agora.
Escrevo de volta.
E quando será?
Escuto passos vindo em direção ao meu apartamento.
No momento certo. Agora preciso ir. Tem alguém vindo em direção à sua casa. Beijos!
Ainda estou ajoelhada no chão, espiando atrás da porta. Mas para minha surpresa, quem vem na direção da minha residência, não era uma pessoa, na verdade era alguém altamente perturbada: Soraya!