Isso Só Acontece Comigo
Capítulo 9
Bem-vinda à solteirice, Cléo!
Edu está boquiaberto à frente. Dou um sorriso sarcástico. Ele quer jogar, então vamos às regras! Chega de chororô, de lamentação! Agora, é ele quem dança miudinho.
Tiro minha roupa e fico de lingerie preta, de renda.
─ Cléo… ─ ele olha para minhas curvas, se lembrando, com certeza, dos nossos momentos.
─ Tchau, Edu! Sinto muito, não posso convidá-lo. ─ fecho a porta. Gargalhando alto. ─ Me dá isso aqui! ─ puxo uma taça de bebida de um dos garçons que circula pela minha sala. Um monte de pessoas se aproxima de mim, assim que percebem que entrei.
─ Ei! É a nova solteira do pedaço! ─ um rapaz negro, musculoso, aponta para mim.
─ Um brinde à Cléo! ─ levantam as taças, me deixando ruborizada. Mas confesso que gosto da atenção.
O DJ volta a animar todos. Com os embalos da música:
“Titanium”
─ Bitch! ─ Mari me abraça. Ela está usando um baby dolls rosa com preto de bolinhas e uma máscara branca na cabeça. ─ Está massa, não é? ─ dá uma piscadinha e suga pelo canudo uma bebida estranha que está na sua taça.
Algumas meninas usam biquínis ou lingeries, outras usam camisolas, pijamas e fantasias de diversos personagens. Me espanta a Mari não estar nua na pista.
Minha sala está cheia de luzes coloridas que saem de pequenos globos que estão apoiados na estante. Em uma mesa, próxima ao sofá, alguns salgadinhos e petiscos fazem parte da alimentação da galera. Um balde de gelo com “ices” mergulhados, completam as bebidas.
Começo a nem ligar para mínimos detalhes e me embalo pela dança frenética e todos parecem bem agitados. Vejo Miúcha com uma camisola rosa e com laços na cabeça a se movimentar para lá e para cá. Obra de Jaqueline e Mari, aposto!
Meu celular toca na minha bolsa, que deixei esquecida no sofá, assim que entrei. Só escuto o barulho porque havia acabado de terminar uma música e o DJ pergunta à galera qual canção eles gostariam que tocassem em seguida.
─ Alô? ─ saio da sala e vou ao banheiro, trancando a porta, para abafar o som, que agora vinha com tudo.
─ Cléo?! ─ a voz conhecida me chama.
─ Jaque? Por que você não está aqui? ─ me intrigo pelo fato dela não ver o resultado de sua obra junto com minha amiga.
─ Cléo, meu marido chegou lá na casa da tia. E, aliás, a festa é para solteiras, esqueceu? ─ do outro lado da linha ouço risadas.
─ Só por causa disso te perdoou. ─ faço beicinho.
─ A Mari te dará uma surpresa à meia-noite. Fica esperta, hein! ─ mais sorrisos e um adeus de despedida.
Meia-noite? Surpresa?
Antes que eu a interrogue, ela desliga. Fico morta de curiosidade para saber o que elas estão aprontando por trás de mim.
Saio do banheiro e vou para minha sala novamente, colocando o celular na bolsa. Mal dou dois passos e Mari me intercepta.
─ Cleozita! Coloca essa camisolinha sexy preta. ─ me estende a peça de roupa. Visto e só neste momento me dou conta da gravidade de estar realmente apenas de calcinha e sutiã para lá e para cá, e o mais engraçado: é que não fico com vergonha. Mas talvez a Mari pensa que eu estou, por isso me entrega o vestuário.
─ Por que as máscaras? ─ estou curiosa.
─ Ah, foi uma ideia que vi na internet. Li uma matéria em um site e achei interessante! ─ cochicha no meu ouvido.
─ Eu não conheço metade dessas pessoas, Mariane.─ falo preocupada.
─ Ih, menina! Isso é porque tá escuro! Eles são nossos vizinhos daqui do prédio. Olha… ─ ela aponta ─ vizinhos do 406, 407, 409. ─ eles acenam para mim e retribuo o cumprimento. Olho para esquerda e avisto uma garota de camisola roxa com máscara na cor preta no rosto. Acho que me lembra alguém. Cabelos pretos, franja no rosto…
─ Mari, quem é aquela ali? ─ aponto e vinco minha testa, desconfiada.
─ Deve ser alguma amiga da Jaqueline. Ela disse que convidaria uma. ─ sinto que há algo muito errado naquela moça.
─ Vamos aproveitar a festa! ─ minha amiga me puxa alheia à minha preocupação.
Dançamos nos achando a próxima “Beyoncé” do pedaço. Rebolando de um lado para outro, pegamos bebidas de um garçom que passa próximo a nós. Fazemos várias coreografias. Até que DJ anuncia que é meia-noite.
─ Pessoal! ─ Mari eleva a voz em mil decibéis e todos param. ─ Queria que vocês dessem uma salva de palmas para a melhor amiga do mundo. Esta pessoa linda que não quero ver sofrer nunca mais! ─ uma onda de assobios e aplausos surge a seguir.
─ Cléo! Cléo! Cléo! ─ gritam. Nunca me senti tão bem! Minha amiga realmente sabe como elevar a autoestima de qualquer um.
─ Agora prepara-se, Cléo! Para minha surpresa.─ sorri divertida.
Quando menos percebo, as luzes são apagadas e uma fumaça vem do lado do DJ, que agora toca uma música bem íntima de quem faz strip-tease:
“Snap ─ Rhythm Is a dancer”
O garçom que antes me servia, larga as bandejas de lado e rasga a sua blusa branca. Ouço muitas meninas gritarem:
“Aaaaaaah”
“Gostoso”
Meu queixo cai. Ele exibe músculos bem trabalhadas na academia com certeza. Sua pele é negra e seu olhar bem safado. Mexe seus membros insinuantes e as meninas gritam, jogam dinheiro. Minha residência agora está parecendo O clube das mulheres.
Entre olhares insinuantes e dancinhas coreografadas, ele rasga a calça preta que sai com facilidade. O deixando de cueca branca. Puxa uma cadeira e me pega pelo braço de forma delicada e sussurra no meu ouvido:
─ Senta. ─ obedeço. E o observo dançar para mim. E aí, é que a coisa começa. A porta é aberta e mais dois rapazes entram. Um bombeiro e um policial; de músculos muitos mais avantajados do que o do garçom. Eles vêm devagar em minha direção, quase em câmera lenta. Cada um me entrega uma rosa e agora parece que os três disputam minha atenção.
O policial é moreno, com ombros largos e cabelo raspado, usa um óculos ray-ban. O bombeiro tem cara de menino, rostinho lavado, pele alva e um cabelo espetado. Aos poucos eles tiram peça por peça.
Babo na cadeira. De vez em quando eles rodeiam onde estou; chegando próximo ao meu rosto. O bombeiro é mais ousado e chega até a me beijar. Porém o policial é ainda mais, pede que eu tire a calça dele com a boca.
─ Tira! Tira! ─ um pequeno grupo de pessoas gritam.
Faço exatamente o que ele pede. Os três se aproximam onde estou sentada e solicitam para que eu levante. Circulam cheirando meu pescoço, beijam minha nuca. Fico pasma com a ousadia desses meninos. Mas bem que estou gostando.
“Você não sabe como você fica sexy com essa camisolinha”─ o garçom sussurra com uma voz grossa.
“Linda demais”─ o policial me puxa por trás embalando numa música envolvente.
Depois o bombeiro me leva para dançar com ele e morde minha orelha, fazendo-me arrepiar.
─ Já chega! ─ Mari chega acabando com a farra.
Ligam-se as luzes e os gogo boys soltam:
─ Aaaah! Agora que a festa estava boa.
─ Tem uma pessoa especial que esperou até agora, meninos! E eu devo um favor a ela. Obrigada por tudo! ─ minha amiga dá olhar quarenta e três para os garotos, que se vestem e saem do apê soltando beijos para mim.
─ Menina! ─ ela me pega pelas mãos. ─ Como você está quente!
─ E quem não ficaria, hein, amiga? ─ me abano.
─ Tem uma pessoa aqui querendo sua atenção, Cléo! ─ Mari puxa um rapaz um pouco barrigudo, com máscara branca nos olhos, com calção preto, os cabelos castanhos claros, curtos e de sorriso contido. Ele parece envergonhado. Claro, diante daqueles deuses do amor, ele não é nada. A barriga dele está saliente e têm alguns pelos ali que acho supernojento.
─ Oi, Cléo. ─ diz baixando a cabeça.
─ Oi. ─ respondo meio a contragosto.
─ Posso dançar esta música com você?
Aos poucos uma canção que adoro começa a tocar.
“Hoje a noite não tem luar
Eu estou sem ela…
─ Legião ur…
─ … urbana! É! Isso expressa algumas coisas que ando sentindo desde que te conheci. ─ nossos corpos se encostam e começamos a nos embalar pela letra, alguns casais dançam também. Vejo a Mari agarrada com alguém de longe.
─ Eu sei que não sou bonito. ─ vejo que aqueles olhos são familiares, castanhos claros, quase mel. ─ Mas gosto de ser romântico. ─ sorri tímido.
─ De onde você me conhece? ─ o questiono.
─ Prefiro não dizer. ─ fica quieto por uns instantes.
“Lua de prata no céu. O brilho das estrelas no chão.”
Ficamos dançando para lá e para cá. Nossos corpos próximos parecem que entram em combustão, tamanha a eletricidade que emana dos poros. Olhares que damos um ao outro são intensos e dizem mais que qualquer palavra.
Subitamente me sinto atraída por ele de uma forma que nem eu sei explicar direito. Quero conhecê-lo, saber mais do homem que está provocando essas sensações. Desejo tirar sua máscara, mas ele balança a cabeça em negativa e respeito sua decisão. Olho pela janela da minha casa, a lua está linda lá fora, cheia e brilhante, como se soubesse o que significa aquela letra do Renato Russo.
“O mundo pertence a nós.”