Isso Só Acontece Comigo
Capítulo 8
Quem é vivo, sempre aparece
Estou nervosa. Pobre da minha prima que só queria passar o Natal com minha família altamente louca e perturbada e agora está gastando rios de dinheiro comigo. Primeiro com roupas e saída ao shopping, agora com uma festa que eu nem sei o que será. As duas ficam cheias de segredinhos e me mandam para uma casa que não queria ir tão cedo: a moradia da mamãe.
Toco a campainha inúmeras vezes, até ela aparecer:
─ O bom filho a casa retorna! ─ respiro fundo e entro.
Dona Drica está com o cabelo curto, estilo Joãozinho, com luzes na cor chocolate. Veste uma saia abaixo do joelho, preta, e uma camisa de tecido fino, branca. Ela está muito bem para uma coroa de seus lá quarenta e tantos anos.
Mamãe continua me encarando. Sento no sofá; ela também.
─ Aconteceu alguma coisa? Faz anos que você não vem aqui! ─ me fita desconfiada.
─ Mãe… aquele dia do celular. ─ mordo os lábios ao tentar me justificar. Ela cruza as pernas.
─ Ah, sei muito bem que você fez aquilo de propósito. Mas por mais que você ache que não te amo, só falo aquelas coisas para vê se você consegue enxergar a realidade.
─ Desculpa, mãe. ─ não sei por que, mas começo a chorar. ─ Aquele rapaz é um idiota! Não era nada do que eu pensava.─ mais lágrimas. ─ E agora ele é meu vizinho junto com aquela mulher barbada do circo.
─ Quem ele pensa que é? Olha filha, juro que eu vou lá agora dizer uns bons desaforos.─ ela arregaça as mangas levantando do sofá.
─ Não, mãe! ─ imploro, porque sei que ela é capaz disso.
─ Tem razão.─ analisa melhor. ─ Podemos sequestrar a velha da mãe dele e jogar em um barranco. O que você acha?
Isso é horrível. Porém mesmo assim, sorri.
─ Talvez podemos vender a desgraçada para o circo de soleil? ─ estreita os olhos com sua ideia e sorri.
─ Mamãe!!!!!!!!!!!!!!!!
Realmente, Dona Drica se preocupa comigo. Ela pode ser neurótica, ter uma casa cercada de plantas, ser um pouco exagerada, mas ela é minha mãe.
─ Tive uma ideia! Para melhorar esse seu ânimo, vou preparar um bolo de chocolate especialmente para você! ─ caminha para cozinha. A acompanho e preparamos juntas o alimento. Eu, entregando os ingredientes: trigo, margarina, ovos, leite e achocolatado. Ela, colocando tudo aos pouquinhos na batedeira.
─ Cadê a vovó? Senti falta dela. ─ questiono. Nunca mais vi Divina e acho suspeito ela não estar aqui.
─ Dormindo. Depois dos remédios ela ficou com excesso de sono.
Vovó é uma figura; infelizmente ela está sofrendo de dores de cabeça crônica. O médico atribuiu isso às noites mal dormidas, já que minha vó só descansava quando raiava o dia, assistindo filmes do fim do mundo, na TV a cabo.
Ela adora assuntos que envolvem apocalipse. Divina é uma ex professora de história. Quando jovem, quis participar de escavações no Oriente Médio. Segundo ela, a resposta do fim do mundo está no Egito. Mas infelizmente ainda não pôde realizar este sonho.
Colocamos a massa na forma e esperamos. Enquanto isso, mamãe abre a geladeira e mostra uma avalanche de comida que ela já preparou para a noite de Natal, que será amanhã. Pergunta pela ingrata da Jaqueline ─ palavras dela e não minhas. ─ Falo que ela está fazendo uma festa surpresa na minha casa e esse é o motivo de estar ali. Mamãe faz bico e reclama algo como:
─ Só assim para você aparecer aqui em casa.
Sorrio.
Quando dá o tempo certo, ela tira o bolo e despeja em um pírex redondo. Esperamos esfriar e pegamos uma lata de leite condensado e colocamos cada uma em sua fatia. Saboreio aquela delícia devagar. É incrível como chocolate reage bem com meu organismo. É como se ao engoli-lo todas as tristezas do mundo desaparecesse. Como se a vida de preta e branca ficasse colorida.
Meu celular vibra, emitindo o som de mensagem, me tirando do estado êxtase que me encontro.
“Vem logo! A festa começou!”
─ Mamãe… ─ termino a última garfada naquele bolo delicioso. Coloco o prato na pia e me dirijo à Dona Drica. ─ O dia foi ótimo. Sinto muito pela ausência dos últimos tempos.
─ Coração de mãe sempre perdoa. ─ dá uma piscadinha.
─ Tenho que ir agora. ─ levanto e mamãe me dá um beijo na testa, que retribuo. Antes de partir…
─ Filha! Espere! ─ ela desfaz a posição que estava e sobe as escadas, retorna pouco tempo depois com uma bola de cristal nas mãos. ─ Quando fui visitar a sua prima, em Madrid, conheci algumas ciganas e elas me ensinaram a prever o futuro através da bola de cristal.
─ Ah… mãe! Fala sério! ─ digo descrente.
─ Por favor, deixe tentar com você! ─ suplica.
Resisto por um bom tempo. Até ela vir choramingando dizendo que sou uma filha ingrata que não a ama.
─ Mãe! A senhora às vezes inverte os papéis, não se esqueça que eu sou a filha!
Dona Drica é meio esotérica. Gosta de mapas astrais, horóscopo, cartas e desde que me conheço por gente, ela jura que tem o dom da adivinhação.
─ Tá bom. Como isso funciona? ─ ela me leva para um dos quartos vazios do andar de cima. Coloca o objeto na mesa redonda com uma toalha branca estampada. Pede para que direcione meu rosto para a bola de cristal.
─ Mamãe isso é ridículo! Esse povo é charlatão! ─ por incrível que pareça, quando me aproximo do objeto, ele começa a ficar com cristais diferentes e nuances de cores que não entendo. Mamãe olha surpresa e sorridente.
─ Sabia! Sabia! ─ bate palminhas.
Ih, que coisa estranha!
Minha boca fica seca e quando tiro meu rosto do objeto, ele volta ao normal.
─ Filha! Filha! ─ ela estala os dedos, sorridente. ─ Consegui! ─ fico meio espantada com esse alvoroço todo. ─ Você está perto do grande amor da sua vida, ele é diferente dos outros, talvez ele seja um sapo e não um príncipe, mas você precisa enxergá-lo com os olhos do coração. E será hoje, filhota! ─ ela vê isso tudo em fumaça estranha? Meu Deus! Será que aquilo era efeito de drogas?!
─ Mãe! ─ balanços seus braços, preocupada. ─ Pelo amor de Deus!
Não diga que a senhora é usuária dessas drogas novas, por favor!
─ Que drogas! ─ ela solta os braços.─ Está duvidando de MIM? ─ eleva a voz.
Respiro.
─ Não, mãe. Eu acredito.─ finjo para evitar mais dramas como da vez do telefone e finalmente ela me deixa sair.
***
Ouso subir pelas escadas, em vez de pegar o elevador. Quando começo a caminhar para meu apartamento, vejo no corredor Michele e Eduardo muito íntimos com palavras melosas:
“Você é o amor da minha vida”
“Você também”
“A mulher que eu precisava”
“Teremos filhos em breve, meu amor”
Ecaaaaaaaa! “Que casalzinho sem sal e sem açúcar”.
─ Melhor, Cléo? ─ Michelle se dirige a mim e sai com risinhos.
Não respondo.
─ Ei! Cléo! Que música alta é essa?
Ignorei-o. Pego minhas chaves que estão no bolso da calça e quando abro a porta… me deparo com garotas seminuas e homens quase pelados de máscaras. Um DJ está no fundo da minha residência animando a festa com músicas de “David Guetta”.
─ Ei! É a Cléo! Não pode entrar assim, hein! É a festa do cabide. Tire a roupa! ─ um rapaz mascarado comenta.
Edu está na porta do seu apartamento. Não tenho dúvidas do que faço.