Isso Só Acontece Comigo
Capítulo 18
Apaguem a fogueira!
Minutos depois, uma equipe de bombeiros chega ao meu apartamento. Alguns vizinhos saem correndo para fora, por conta do cheiro forte de fogo e do alarme de incêndio que é ativado e faz um barulho tremendo de ser escutado até do outro lado do mundo. Enquanto isso, fico no corredor, aguardando a resposta dos bombeiros e se minha residência é habitável, se não for, vou dignamente morar debaixo da ponte.
─ Nós conseguimos apagar grande parte do incêndio; ainda bem que chegamos a tempo. Mas por enquanto, é bom que você fique na casa de algum parente. ─ um deles me aconselha na porta do meu lar.
─ Por quê? ─ olho para Miúcha que parece debochar da minha cara, abrindo a boca mostrando bem os dentes, como se sorrisse. Tudo sua culpa! ─ penso.
─ Bom, é por precaução, pode aparecer outros focos de incêndio. É para sua segurança. ─ reforça. A síndica está parecendo um dragão na minha porta, as bochechas estão estufadas e qualquer momento sai fogo daquela boca e fumaça das narinas.
Respiro fundo.
─ Nunca vi alguém trazer tanta confusão como você. ─ ela bate as pernas, impaciente.
─ Bom… ─ o bombeiro volta a conversar. ─ Amanhã checaremos se está tudo ok.
─ Obrigada. Posso ao menos retirar meus documentos e roupas? ─ ele balança a cabeça afirmativamente e o agradeço mentalmente por me livrar de um possível desentendimento com aquela mulher. Ela me estreita os olhos e levanta a cabeça enquanto entro na residência sendo escoltada por um dos bombeiros. Por mais que Luíza me dê nos nervos e não ser nada agradável ver meus móveis cheirando a churrasquinho, fico preocupado com uma única coisa que todo viciado nesse entretenimento ficaria:
Meus livros!
Posso perder tudo, menos a coleção de livros da Marian Keyes. Eu dei meu rim, pâncreas e fígados por eles. Porém ao abrir a raque, constato que pela glória do senhor, eles estão intactos. Nada os atingiu. Se tivesse acontecido alguma coisa com eles, eu seria capaz de mandar Miúcha para carrocinha!
Coloco meus preciosos na minha bolsa, junto com uma muda de roupas e meus pertencentes e saio do local. A encarregada do condomínio murmura alguma coisa, porém ao passar por ela meus tímpanos ficam surdos e não ouço o que diz. Seguro Miúcha no colo e observo meus vizinhos me analisando, alguns ainda com roupa de dormir, entretanto, nem por isso deixam de espionar o que havia acontecido e mesmo depois de saberem, não foram embora até me ver saindo do local. Os vejo, porém não olho para o lado e desejo que nenhum deles venha falar comigo, só que um em especial, assim que me vê, faz questão.
─ Cuidadosa você, hein! ─ solta um sorriso divertido. Filho da mãe!
O ignoro e vou para um lugar bem rente dali: a casa da Mari. Ela mora em um bairro bem afastado da praia, devido ao aluguel astronômico que se paga para morar por ali. Porém, ainda moramos perto, já que para Mari é vantajoso o bairro, pois seu trabalho é próximo da localidade.
Minha amiga reside em um apartamento simples, de apenas três andares, com as paredes descascadas e o chão cimentado. Mesmo com toda essa simplicidade, acho o lugar bacana, bem arejado, sem vizinhos fofoqueiros. A maioria trabalha altas jornadas e quando chegam em casa só querem saber de dormir.
Chego na recepção com mala e cuia. O porteiro me enche de regras chatas do apartamento não permitir animais. Choro. Suplico. Conto toda a história dramática do que Miúcha fez; narro até o casamento repentino da minha mãe e que não queria ser obrigada a ir para lá e minha amiga é minha solução; minha cadela também me ajuda, sobe na bancada do homem e começa a fitá-lo com seus olhos tristes e balançar o seu rabo repetidas vezes. E ela sem falar, o convence mais do que eu e meu discurso. O porteiro me libera para subirmos. Olho para minha cadela e sussurro:
“Era o mínimo que você podia fazer”
─ BITCH! ─ antes de bater à porta, a Mari abre de supetão como se nos aguardássemos. Ela arregala os olhos e parece surpresa.
─ Amiga, eu preciso de um… ─ paro a frase ao ver que ela esconde alguma coisa atrás da umbral.
─ Ah, só um segundo. ─ fecha a limiar e abre de novo, saindo dali, um moreno alto, bonito e sensual.
Ela ajeita os cabelos, dá uma olhada fenomenal para o rapaz, que beija sua mão e sua boca delicadamente e sai. Mas para minha incrível surpresa, outro rapaz, musculoso e de cabelos cacheados também se retira do apê da minha amiga. Este também dá um beijo em sua boca. Fico paralisada na porta e arregalo os olhos ao imaginar o que aquela doida estava fazendo com aqueles dois.
─ Tá bom. O que foi isso? ─ entro no seu apartamento.
─ Meu personal trainer e meu professor de dança. ─ fecha a porta e dá um largo sorriso.
─ Ah, Mari. Você é uma danada mesmo. ─ brinco.
─ Com muito orgulho! ─ diz sorridente.
─ Ei, Mocinha! Se comporte. ─ solto Miúcha no chão e ela sai em disparada latindo. ─ Não me faça passar vergonha! ─ ouço outro latido.
─ Está me desafiando? ─ ela mostra os dentes.
─ Ora … sua! ─ levanto e Mari me intercepta.
─ Relaxa, deixa a Mi brincar. ─ entendendo isso, ela sai em disparada correndo para lá e para cá.
Sento no sofá branco da Mari. Coloco minha bolsa ali mesmo. E conto toda história. Deixo minha amiga a par dos últimos acontecimentos, já que não nos vemos desde de seus plantões que vivem a cansando. Falo sobre a síndica nariguda e sua implicância comigo, e o desastre de hoje na minha casa. Minha amiga arregala os olhos e abre a boca para cada detalhe que narro.
─ Cleozita! Miúcha é virada mesmo, hein! ─ ela sorri pela traquinagem da minha cadela.
─ Isso é o de menos, lembra-se da Soraya? ─ desconverso.
─ Sei, sim. A que se casou com deputado? ─ Mari franze a testa, não entendendo aonde quero chegar.
─ Pois é, ela anda me ameaçando com um vídeo daquela comemoração. ─ olho cabisbaixa.
─ A nossa festa? Como? ─ eleva a voz mediante a surpresa.
─ Jaque com aquela inocência dela, a chamou para nossa comemoração. ─ reviro os olhos.
─ Caramba! Era aquela garota que você ficou desconfiada? ─ ergue a sobrancelha.
─ Provavelmente. ─ respiro fundo.
─ Eu sempre disse que esse discurso da Jaqueline de paz e amor um dia colocaria alguém em uma furada. ─ ela balança a cabeça, concordando com sua própria afirmação.
─ É. E quem ficou na furada fui eu. Ela está me obrigando a sair com meus ex-namorados. ─ bufo.
─ Quê?! ─ minha amiga se assusta com aquela informação.
─ Isso mesmo. Em troca ela me paga pelos encontros e diz que está sendo “bondosa” ─ faço uma careta ao pronunciar a palavra e continuo ─ … comigo e se não cumprir, a louca joga aquele vídeo no youtube. E eu tô lascada!
─ Para tudo! Precisamos de chocolate para assimilar todos esses acontecimentos! ─ sorrio. Ela vai à sua cozinha e traz de volta, duas trufas; uma de licor, outra de napolitano. Conheço bem aquelas embalagens coloridas.
─ Cacau Show! ─ estende a de napolitano para mim. Como devagar, para saborear aos poucos daquele gostosinho que está dançando na minha boca, se derretendo.
─ Olha, amiga… ─ ela mastiga e fala de boca cheia. ─ Sei como acabar com essa mulher.
─ Como? ─ franzo a testa.
─ Precisamos descobrir um segredo cabeludo dela. Uma coisa que você possa ameaçá-la e não ao contrário. ─ ela rói as unhas, ansiosa, sobre o que podemos investigar.
─ Claro! Como não pensei nisso antes? ─ dou um tapa na minha testa.
─ Sou um gênio. ─ ajeita a blusa com orgulho.
─ Convencida! ─ ela sorri.
─ Depois do ano novo, vamos perseguir a perua. E encontrar alguma coisa que possamos usar contra ela! ─ como é bom ter a Mari como amiga!
─ Você é a melhor amiga bitch de todas!
─ Oh, obrigada, Cléo. Adoro elogios. ─ sorrimos.