Isso Só Acontece Comigo

Dayana Araújo · Capítulo 31 de 38

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Isso Só Acontece Comigo

Capítulo 31

Contratada

Recuperada, volto para meu velho apê. Miúcha me recebe com pulos e lambidas na bochecha. Parece que alguém sentiu saudades!

Não consigo abaixar para pegá-la, pois minha coluna dói e aparenta ser atacada por um tsunami.

Me deito na cama e jogo a bolsa de lado e procuro alguns medicamentos receitados pelo doutor para que melhore, o encontro e tomo a seco, sem água. O que mais quero é dormir e acordar sem toda essa aflição. Fico de barriga para cima e aguardo o sono chegar, pode ter sido loucura ou já estou no sono REM, mas juro que Mister M vem ao meu quarto e me beija.

***

Quando desperto, toco os meus lábios, incrédula, por ter sido um sonho. Dos bons! Nossos rostos estavam tão perto e pude sentir até seu cheiro amadeirado. Ai! Minha imaginação anda cada dia mais real do que ilusória. Primeiro Cyndi Lauper, agora o Mascarado na minha casa.

Suspiro e levanto, deixando meus devaneios para quando for dormir. A primeira coisa que faço é algo que martela na minha cabeça desde do hospital: tirar o santo Antônio da água. Apesar de que, a simpatia diz ao contrário. Não sei se aquilo foi sonho ou real. Acho que só com o tempo descobrirei.

 

Meu celular toca e o retiro da minha bolsa atendendo.

─ Alô?

─ É a senhorita Cleonice? ─ uma voz feminina fala do outro lado.

─ Sim. ─ estranho o fato de quem me procura.

─ Bom, lembra que você enviou o seu currículo para livraria Cult?

─ Ã-ham. ─ presto mais atenção.

─ Estou precisando de alguém com seu perfil. ─ fico estática. ─ Senhorita? Esta aí?

─ Sim. Me desculpe, pode continuar. ─ me recupero do choque. Livraria Cult? Me ligando? E falando sobre o meu currículo?

─ Você poderia vir hoje às 15:00 horas para uma breve entrevista?

─ Claro! Onde? ─ corro apressada para minha escrivaninha para pegar o papel.

─ Anote o endereço, é na rua…

A telefonista me dá as orientações de como chegar no local. Escrevo a localização e o ponto de referência. Sorrio de orelha a orelha.

Nunca gostei de ficar parada. E esses meses em casa sem ter o que fazer, a não ser virar capacho da minha prima, estão me matando.

Não imagino receber uma proposta de emprego tão cedo. Por meses achei estar queimada com qualquer vínculo empregatício. Mas pelo visto os anjos estão ao meu lado. Ou será que…? Olho para imagem de Santo Antônio e ela pisca. Cruz credo!

***

Já são 13:00 horas. Preciso deixar tudo muito organizado, imprimo meu currículo na minha impressora e pego uma pasta transparente azul e coloco o papel lá. Dou uma analisada no meu guarda-roupa. Separo uma blusa branca e preta de mangas. Uma calça alfaiataria, escura, sapatos altos, fechados. Pronto. Deixo-os separado na minha cama para usá-los mais tarde. Tomo um banho bem quentinho de ducha. Ligo o som, adoro escutar músicas no banheiro.

“E aí querido ouvinte, mais uma música de balada do DJ que está fazendo sucesso no Brasil, Mister M! Logo mais entrevista exclusiva, escutem o novo ritmo” – fala o locutor.

Desligo o chuveiro e passo a escutar uma batida romântica e envolvente, ao mesmo tempo dançante, também é uma letra bacana cantada por uma voz masculina e sensual.

“Curtiram? Agora uma entrevista fresquinha com o Mister M.”

Escuto atenta.

“Então… Mister M, boa tarde, seja bem-vindo à nossa rádio Pernambucana.”

“Boa tarde. Eu que agradeço o convite.”

“Como começou sua carreira? De onde tirou que deveria se vestir como um dançarino do clube das mulheres?” ─ gargalhadas.

“Bom ─ um sorrisinho. ─ Devido à minha aparência, recebi imensas recusas de gravadoras. As pessoas pensam que só são os cantores que sofrem com isso, mas afirmo que os DJs também. Queria ser como David Guetta. Ele é DJ e tem muitos CDS gravados por aí. Mas queriam que eu ficasse nos bastidores. Que só fizesse as músicas e tchau, não era esse o meu objetivo. Mostrei a eles que estavam totalmente errados. Enfim, coloquei uma máscara e me vesti elegante e gravei um vídeo com as minhas habilidades. Ninguém sabia quem eu era e fiz sucesso na internet e agora minhas músicas tocam em todas as rádios do Brasil.

“Então, temos um Clark Kent aqui, senhoras e senhores” ─ o locutor faz gracinha.

“Mais ou menos. Gosto disso, pois tenho mais privacidade assim. No dia a dia, vivo normal, como todos os outros.”

“E as mulheres? Aparecem muitas na sua vida?”

Paraliso.

“Estou em uma fase que gostaria de ficar sossegado com uma pessoa só.”

“Olha só, alguém aqui está querendo casar ou é impressão minha?”

Uma enorme risada.

“Talvez. Falta a noiva.”

Me enrolo em uma toalha e vou à sala escutar melhor. Me sento no sofá.

“Quem seria ela?”

“Por enquanto é segredo. Mas se ela estiver ouvindo, saiba que a garota com quem dancei ao som de Leandro e Leonardo.”

Coço meu pescoço. Minha pupila se dilata. Estou sonhando ou ele está insinuando um casamento comigo?

“Bom, por enquanto é só. Voltamos logo mais”

***

Está tudo pronto. Verifico várias vezes se minha roupa fica adequada, o que falo, o que faço. Repito um discurso centenas de vezes no espelho e finalmente desço as escadas e vou em direção ao destino.

Ao chegar na imensa livraria, meu coração dispara. Ver aquelas centenas de livros nas prateleiras faz com que meus olhos brilhem e meu cérebro torcer para que aquilo seja meu ambiente de trabalho.

Subo o primeiro andar e sou recepcionada por um rapaz de barba, que é o gerente do estabelecimento. Direciona-me a uma sala fechada, de ar-condicionado e pouco movimento. Ele me faz perguntas e anota tudo em pedaço de papel. Fico extremamente nervosa, contudo, acredito que me saio bem.

Rezo para que meu ex chefe, Paulo, o possuidor dos rancores, não fale de mim para ele e coloque tudo a perder. Porém, para minha sorte, ouço uma palavrinha mágica que espero há tanto tempo.

─ Está contratada! ─ pisco os olhos várias vezes tentando assimilar se o aquele rapaz simpático diz é realmente verdade.

─ Sério? ─ arregalo os olhos, levantando-me da cadeira onde estou sentada.

─ Acha que brincaria com isso, senhorita? Você tem o perfil que queremos. É simpática, gosta de ler. Formada em administração, tem cursos na área de eventos, isso irá ajudá-la e muito como assistente de eventos. Você nem pode imaginar o tipo de pessoa que ocupava esse lugar. A garota antiga era uma completa sem noção. Acredita que ela fechava reuniões que nada tinha a ver com a livraria? ─ ele chega mais próximo falando baixinho. ─ Ilícitos.

─ Caramba! ─ fico impressionada como alguém tem a capacidade de jogar uma oportunidade dessas fora.

─ É o que dá fazer “arrumadinho”. Sobrinha do patrão, sabe. Chegou uma hora que não aguentamos mais.

─ Que tenso!

─ Pois é.

─ Então, quando começo? ─ digo muito animada, afinal, faz tempo que eu não trabalho e não vejo a hora de entrar no pique novamente.

─ Disposta?! Gostei de ver. Começaremos segunda, pode ser? ─ levanta da cadeira e aperta minha mão.

─ Claro. Muito obrigada pela oportunidade! ─ sorrio e ele abre a porta para que eu passe, saio mais alegre que criança quando ganha um brinquedo novo.

Deus do céu! Tudo está entrando nos eixos. Nem acredito! Finalmente me sinto útil novamente. Não vejo a hora de começar meu novo trabalho. Só de pensar nos acessos a lançamentos e escritores famosos, meu coração samba dentro das minhas carnes.

Dirijo alegremente até a minha residência e quem encontro no estacionamento? Seu Joaquim. Ele não me escapa. Tiro a limpo essa história de Mascarado agora! Desço do carro e me aproximo dele com um sorriso de orelha e orelha, está mais que na hora de resolver isso. Não me importo dele ser velho e ter filhos. Talvez esteja separado da mulher, para está dando em cima de mim (espero!).

─ Menina Cléo! ─ sorri.

─ Pode parar com essa conversa. Não precisamos mais desses fingimentos.

─ Do que está falando? ─ sua testa enruga mostrando descrença no que falo.

─ Eu já sei que você é o Mascarado. Nem vem que não tem. Sei da nossa diferença de idade, mas… ─ escuto alguém se aproximando e me chamando, mas não dou ouvidos, preciso falar tudo às claras. ─ Mas não me importo, sério mesmo!

─ Cléo… ─ a voz está mais próxima e eu não me mexo.

─ Tudo que você fez por mim, suas declarações, seu jeito doce de falar comigo, me tirou do fundo do poço. Você me mostrou o caminho da felicidade e não quero mais abrir mão disso. Estou contigo para o que der e vier. ─ os olhos de seu Joaquim arregalam-se e ele falo algo, mas não deixo. ─ Já chega disso. Não quero mais máscaras, segredos. Nada. Eu quero você Mister M.

─ Cléo! ─ a voz está do meu lado e percebo que é o Marcos, não me importo, ignoro e me aproximo de Seu Joaquim, que está com o rosto vermelho e afrouxa sua gravata preta.

─ Eu sou apaixonada por você Mister M! ─ me aproximo do porteiro e tento dar um beijo, ele recua.

─ Cléo! Eu não sou Mister M! ─ grita, antes que uma catástrofe aconteça.

─ Como não? Eu vi a máscara na sua bolsa. Esses seus olhos, sua barriga saliente, essa sonoridade de voz.

─ Claro que você viu. Mas a máscara é do meu filho, por isso que você está confundindo as coisas. ─ fico estática. Agora eu não entendo nada.

─ E quem é seu filho?

─ Sou eu, Cléo.

Viro o rosto e encaro o Marcos. Agora sim, ele ganha toda a minha atenção.