Isso Só Acontece Comigo

Dayana Araújo · Capítulo 36 de 38

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Isso Só Acontece Comigo

Capítulo 36

Casamento forçado

─ Você está linda.

Depois de Soraya apontar uma arma para minha cabeça, visto o vestido branco com véu e grinalda que ela me obriga. A altamente psicopata, inventa um casamento forçado comigo nesse galpão velho. E diante do revólver que está na minha frente, nada posso fazer. A não ser aceitar. Temo pela minha vida.

─ Não dizem que ver a noiva antes do casamento dá azar? ─ cutuco a onça com vara curta.

─ Eu faço a minha sorte. ─ balança a arma calibre 32.

Ela usa um vestido branco, de mangas compridas e de poucos detalhes. Não está com a grinalda na cabeça. Se me dissesse tempos atrás que isso aconteceria, provavelmente eu daria uma gargalhada alta e diria que não teria chance nenhuma de isso ser verdade.

Sempre atribuí às implicâncias da minha prima a pura inveja que ela tinha de mim. Mas nunca imaginaria que ela tinha um amor doentio e viraria uma assassina.

Temo diante da situação. Uma imensa vontade de chorar vai e vem. Porém, tento controlar ao máximo para enganar Soraya. Para que pense que estou de acordo com aquilo tudo. Quando por dentro, temo acabar como o deputado Sílvio.

Jesus, Maria e José, santo Antônio e todos os santos, me tirem dessa!

Os capangas fortões estão na porta do quarto; assim que saio junto da altamente perturbada, me lançam um olhar ameaçador.

─ Vamos, querida. ─ ela me puxa pelo braço. ─ Eles só estão aqui para impedir que ninguém estrague nosso momento. ─ saio daquele quarto indo para o centro do galpão, onde ontem fizemos a nossa refeição à noite. Antes, havia uma mesa e cadeiras ali, hoje não há nada, a não ser um padre que está quase se mijando nas calças por ter uma arma mirada na sua cabeça.

─ Vocês?! ─ olho assustada diante de dois traíras que eu conheço bem.

─ Surpresa? ─ a pessoa me dá um sorriso de deboche.

─ Muito. ─ ele se aproxima de mim. Enquanto a garota continua apontando para o sacerdote. Soraya sorri cinicamente e fala com seres imagináveis. Essa mulher não está nada bem!

─ Olha a cara dela Rebeca, Cris? Cris disse que você está muito pálida e que isso está tirando sua beleza. ─ murmura para mim. Olho ao redor e só vejo dois quadros velhos com quem a louca conversa.

─ Bom, como podemos ver… ─ ele faz uma pausa e lança um olhar de desprezo para Soraya. ─ Nossa querida amiga não está em condições de explicar nada; tomo a liberdade de contar uma historinha para você. ─ trinco os dentes, diante de tamanho ódio. ─ Soraya, como você já sabe, tem dinheiro suficiente para comprar o que quiser. Depois de seu show na empresa, o nosso chefe me demitiu também, junto com a Michelle. ─ franzo a testa. Não fiquei sabendo desta informação. ─ Estava meio sem grana e bem… sua prima soube do nosso envolvimento e me procurou. Contou tudo o que faria. Não hesitei; ela me pagou para morar perto da sua casa. Te seduzir de novo e te fazer de boba pela segunda vez. ─ gargalha. ─ E olha que você quase caiu no papo furado que nós armamos. ─ isso explica muita coisa. Explica o porquê Edu deixou Soraya me filmar, quando apareci na sua casa pelada. O motivo de Soraya sempre saber o que acontecia ou não quando estávamos juntos. Tudo faz sentido agora.

─ Somos bons atores, amor. ─ Michele pronuncia, fuzilo-a com os olhos.

─ Larga de ser trouxa. Que nem pintado de ouro eu te queria, encosto! ─ minha cabeça ferve. Esse cara tá se achando demais!

─ Olha só quem amanheceu bravinha. ─ toca no meu rosto, desvio.

─ Nem em um milhão de anos ficaria com um idiota como você. Eu realmente devia ter te dado uma boa lição. Perdi meu tempo com um imprestável, quando poderia estar com alguém que realmente vale a pena.

─ Está falando daquele gorducho que você fez aquela cena no banheiro? ─ debocha. Cerro meus punhos. ─ O que ele te oferecerá? Banhas por quilo? ─ Soraya continua com seu comportamento esquisito. Agora falando com o chão do local, pensando que é meu tio.

─ O que ele me dará é algo que um homem como você, nunca me deu:

Amor verdadeiro.

Ele sorri de escárnio. E eu continuo:

─ Você nem tem do que falar. Olha só para mulher que você escolheu para ser seu par. Felizmente somos pessoas que não ligam para as aparências. ─ ele me fita com ódio. Michele mais ainda. ─ Quem fala o quer, ouve o que não quer. ─ digo triunfante.

─ Já chega! Comecem essa cerimônia! Ou eu mato todos vocês. ─ Soraya se desperta do transe e nos assusta. Aponta a arma para todos nós, decidida.

─ Queremos um aumento da nossa parte do acordo, não se esqueça, querida, que também temos um revólver! ─ Michele grita. O padre continua trêmulo e ouço ele rezar um pai nosso e três ave-marias.

─ Não esqueça que eu tenho capangas. ─ Os brutamontes se aproximam e mostram ao Eduardo dois fuzis. Ele na mesma hora sabe onde é seu lugar.

─ Não fale mais em dinheiro, já dei a vocês o suficiente para ficarem bem por um bom tempo. Trouxeram o que eu queria. ─ aponta a arma para o sacerdote. ─ Agora saiam por bem ou por mal. ─ ouço um momento de silêncio entre ambos, Troca de olhares que dizem tudo. Desconfiança, ambição e no caso da Soraya, loucura.

─ Sairemos sim. ─ Eduardo se pronuncia.

─ Baixe a arma, queridinha. ─ Soraya fala com Michele. Que bufa e depois é obrigada a recuar pelo seu namorado.

─ Ótimo. Agora saiam! Que há uma celebração para acontecer. ─ Soraya não escuta, mas o Eduardo resmunga baixinho:

─ Isso não fica assim. ─ Os dois saem de fininho sendo acompanhados à força pelos capangas que não são nadas delicados.

─ Onde estávamos?! ─ aponta a arma para o padre, que se pergunta por que aquilo está acontecendo com ele.

─ Deixe de lamúrias, clérigo. Comece logo com isso! ─ os capangas voltam e cruzam os braços em uma posição de intimação ao reverendo.

─ Estamos aqui para celebrar a união de Soraya Bitencourt com Cleonice Fernandes. ─ o padre inicia, mesmo a contragosto.

─ Espere! Não teve marcha nupcial. Me recuso a começar sem a música! Ei! Vocês! ─ se refere aos cúmplices. ─ Liguem o som que entraremos de novo.

Voltamos à estaca zero. Colocam a música “Some like you” da Adele. Juro que essa melodia é linda, mas para mim parece canção para meu enterro. Caminhamos lentamente até chegar de frente para o padre. Soraya sorri de um jeito perturbado, por vezes me assusto achando que ela é o palhaço “Bozo” diante de tanto batom vermelho que rodeia aqueles lábios.

─ Estamos aqui para celebrar a união…

─ … vai logo com isso! ─ ela aponta o revólver para a cabeça do pobre sacerdote.

─ Eu vos declaro…

─ … LOGO!

─ Mas nessa situação, o que devo falar? Marido e mulher, ou mulher e mulher? ─ Soraya olha zangada para o reverendo que está em uma completa dúvida.

─ CASADOS! ─ minha prima quase estoura os tímpanos de todos presentes.

─ Bom, então, Eu vos declaro casados. Pode beijar a… ─ ela o encara transfigurada diante da sua outra dúvida em falar noiva ou noivo, acho que até o diabo tem medo dessa mulher.

─ Noiva. ─ o padre completa e abaixa a cabeça. ─ quando Soraya tenta tocar meus lábios e eu indo ao sentido contrário. Uma claridade e um empurrão na porta do galpão, nos assusta.

─ Parados! Polícia!