Isso Só Acontece Comigo

Dayana Araújo · Capítulo 22 de 38

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Isso Só Acontece Comigo

Capítulo 22

O show da virada

Papai incrivelmente se lembra que existo. Me liga à tarde me desejando feliz ano novo. Não entendo nada, pois estou no ano velho. Ele dá uma risada fenomenal e diz que está no Japão. Pergunto como anda seu casamento e ele me questiona sobre o meu padrasto. Argh! Ao falar esta palavra “padrasto” não cabe nem um pouco naquele menino de fraldas, de 19 anos, mais novo que eu, estudante do último ano de ensino médio. Ele está mais para um irmão mais novo, pentelho, que minha mãe resolveu criar. No fim, nos despedimos e ele me enche de promessas que voltaria para o Brasil. Ouço isso desde meus 15 anos de idade. Então, nada de esperanças!

***

Finalmente retorno ao meu cantinho. Respiro aliviada por isso. Não que eu não gostasse de ficar com a Mari, todos os dias que estive ao seu lado, minha amiga foi uma excelente anfitriã e me deixou à vontade, porém, não tem nada melhor do que estar em sua residência, o lugar que você se sente mais seguro e confortável.

Abro o meu apartamento e ainda está com aquele cheiro de fumaça. Observo a cozinha e as paredes estão escuras, pretas, descascadas. Respiro fundo. Preciso de uma reforma!

Limpo tudo que posso e tomo um banho demorado de ducha; me esfrego ao máximo, a fim de tirar toda sujeira acumulada do ano que se ia. Chego até a tomar banho de mel com rosas, dizem que atraí amor.

Saio do banheiro e troco de roupa. Visto meu vestido dourado, de alças e costa nua. Com a finalidade de romper o ano desejando muito dinheiro na minha vida. Estou precisando! Faço um trança nos meus cabelos ruivos. Esfumo meus olhos com sombra preta, dando um destaque no visual. E, claro, não pode faltar o meu batom! Desta vez passo um na cor morango nos lábios.

─ Queria te levar Mi, mas você sabe que não se comporta. ─ falo com Miúcha que está todo encolhida em um canto da sala por causa dos fogos de artifício.

Despejo a ração na vasilha, para ela não passar fome. Em outra tigela, coloco sua água. Verifico se não tem nada com que ela possa acabar e resultar em uma tragédia: como derrubar o prédio inteiro. Graças a Deus não tem.

Respiro fundo. Especialmente aquela noite estou muito mais nervosa porque encontraria o Mascarado. Depois do nosso beijo, que a propósito, me fez se arrepiar dos pés à cabeça e imaginar se todos são assim, porque se for, quero esse homem do meu lado, para já! Não nos encontramos mais e como se não bastasse, ele ainda me faz ficar mais apreensiva com um bilhete que deixou debaixo na minha porta de manhã bem cedo:

Quero te ver bem linda hoje à noite. Tenho uma coisa para te contar. Me aguarde!

Do seu apaixonado, Mascarado.

Meu coração faz mais tum do que eu posso escutar. Será que finalmente estou perto de saber quem ele é de verdade? E mais: será que finalmente terei um relacionamento saudável e feliz? Eu desejo muito que sim.

Assim que volto à realidade, olho para o relógio e os ponteiros marcam sete da noite e o show de abertura já deveria ter começado. Não quero perder. Me apresso e pego minha chave, abro a porta, dando de cara com o meu “querido” vizinho bem à frente.

─ Cléo? ─ me observa quase babando.

─ Oi… Edu! Como está? ─ pergunto por educação.

─ Bem. ─ ele responde sorridente. ─ Onde vai passar o ano novo? ─ me olha de cima abaixo.

─ Na praia.

─ Eu também. Se importa se eu ir? É que…

Lá estou eu na areia fervilhante de Boa Viagem, com Eduardo do Vale, meu ex namorado. Ligo imediatamente para Soraya avisando que isso seria o segundo encontro. Ela bufa e diz que está em Copacabana e que nem morta viria para o Recife. Respiro fundo e digo que tiraria fotos para comprovar.

─ O show vai começar, Cléo! ─ Mari faz cara de revoltada por ter deixado o Edu vir. Ela odeia o fato de romper o ano com alguém daquela “espécie”, como ela o chama, e por isso, me puxa ríspida e sai rapidamente para mais próximo do palco. Edu nos segue apressadamente.

Há muitas pessoas, de diferentes classes sociais. A grande maioria veste branco. Outras estão com roupas brilhosas e de diferentes cores. Difícil é caminhar livremente na praia. Alguns chegam até a fazer acampamento na areia, com barracas grandes e pequenas que ocupam o espaço que poderíamos estar. Outros montam mesas redondas no calçadão e reúnem pessoas e se cumprimentam amigavelmente, provavelmente são vizinhos ou família para terem tanta intimidade.

Ficamos próximos ao palco. Que tem uma imensa extensão. Alguns músicos testam o som, seus equipamentos e conversam com o apresentador do show. Têm dois telões gigantes ao lado do palco, com a intenção de fazer com que todos não percam nenhuma apresentação.

─ Atenção, praia de Boa Viagem! ─ o mestre cerimônias inicia a abertura do show.

Gritos e mais gritos. Pessoas alegres, pulando e batendo palmas.

“Ô Mister M! Cadê você? Eu vim aqui só para te ver!”

─ Calma. Só dez minutos, pessoal! O nosso DJ está se aprontando. Aguentem firme! Enquanto isso, curtam as nossas músicas locais.

Uma orquestra surge no palco, deixando a multidão eufórica. Passistas de frevo começam a frevar. Passos de tesoura, dobradiça e agachamento.

As bailarinas estão lindas! Com uma saia estampada de lantejoulas com a bandeira de Pernambuco. A parte de cima também é um pedaço da bandeira, só que o top tem mais brilhos que a de baixo. Elas dançam divinamente e fazem lindos passos com a sombrinha de frevo.

Mari e eu tentamos acompanhar. Mas o máximo que conseguimos fazer foi o passo da tesoura. Edu só balança o corpo para lá e para cá. Assim que a música acaba, sinto algo vibrando na minha bolsa. Constato que é meu celular. O abro e me deparo com uma mensagem:

“Você está tão sexy com essa trança”

Olho ao redor à sua procura e não encontro. Como ele sabe meu telefone? Fito Mari e ela dá um sorriso cínico.

“Gostou? Onde está? Não estava nos bastidores?” ─ digito.

“Oh! Descobriu meu segredo?”

“Não é tão difícil assim, quando se é tão famoso. rs”

“Verdade. Vou indo linda, se prepare para o maior show que você já viu”

Fico tão entusiasma que não me toco da proximidade de Edu, olho para o palco, atenta, à procura da pessoa que desejo tanto estar ao seu lado.

─ Cléo? ─ ele se aproxima mais.

─ Hum … ah … oi! ─ mal o olho, estico minha cabeça e fico na ponta dos pés analisando o palco.

─ Estava pensando… ─ para no meio da frase com receio.

─ … em quê? ─ grito, enquanto observo se o meu pretendente aparece de vez.

─ Você quer voltar comigo. ─ o Mascarado entra em meio a gritos da multidão. Posso enxergar um pequeno sorriso do seu rosto. Mas paro de ver, assim que o Edu sussurra:

“Eu te amo”

E me beija. Um beijo roubado, claro.

─ Enlouqueceu? ─ o empurro levemente. Olho para o palco e vejo um certo DJ, parado, nos observando.