Isso Só Acontece Comigo
Capítulo 15
Altamente perturbada!
Soraya mal entra no meu lar que minha cadela avança para cima dela. Ela sacode Miúcha para os lados, enquanto Mi range forte e parece não querer largá-la. Ela é uma detectora de pessoas ruins, fez isso com o Edu e não errou.
Olho a cena esperando que minha cachorra dê um fim naquele ser humano que é minha prima, mas isso não acontece. Depois de inúmeros palavrões de Soraya e difamações à cadela, Miúcha a larga e late forte a seu lado.
─ Cachorra idiota! ─ olha com nojo para Mi.
Quero matá-la! Ninguém fala mal da Miúcha na minha frente. A contragosto e para encerrar o fim daquela visita desagradável, tiro minha cachorrinha de cima dela e coloco-a na casinha, que fica na varanda. Tranco a porta e falo com a esposa do capeta.
─ Só lembrando… na minha casa mando eu. Não ameace a Miúcha, faço ela arrancar suas tripas. ─ trinco os dentes.
─ Para alguém que está sendo ameaçada por mim, você está muito petulante. ─ senta-se no meu sofá com um olhar desdém.
─ O que quer? ─ cruzo os braços.
─ O encontro será hoje. Faça-o sair com você. Será no restaurante Amuleto. ─ pega minha agenda e anota o endereço. Me dá o papel e sorri triunfante. ─ Se não for queridinha, um certo vídeo circulará pela internet e você sabe, não se tira essas coisas da noite para o dia! ─ sorrio. Tenho uma ótima ideia para aquele encontro, que ela nem imagina.
─ Adeus, priminha. ─ coloca um óculos preto quadrado e sai.
***
Coloco um vestido florido, tomara que caía, justo, com comprimento mini. Calço minhas sandálias rasteiras e capricho na maquiagem. Um esfumado nos olhos. E um batom na cor rosa bebê. Faço um babyliss no meu cabelo. E me olho no espelho confiante. Estou pronta. Agora vamos à guerra!
Saio do meu apartamento e vou em direção ao alvo. Toco na campainha. O indivíduo me atende e me fita com o maior ar de desejo. Pelo amor de Deus! Alguém avisa que ele vai casar!
─ Senhorita? ─ ele morde os lábios. Percebo que há uma barriguinha saliente ali, mas continua bonito, devo admitir.
─ Sabe… queria me desculpar com a maneira que venho me comportando ultimamente. Edu, não foi muito legal o que andei fazendo. ─ isto faz parte do meu plano. Eu queria mesmo que ele se ferrasse!
─ Eu também. Queria te pedir desculpas pelo lance com a Michelle. ─ baixa a cabeça e depois volta a olhar para mim.
─ Então, queria saber se você quer esquecer o passado e aceitar como pedido de desculpas ir para o restaurante Boteco furado.
Mudo de planos. Direi à Soraya que insisti por tudo, mas que ele não quis de jeito nenhum sair comigo para aquele restaurante que ela indicou. O que eu quero com isso? Fazer o Edu nunca mais olhar na minha cara. Esse boteco vende comidas extremamente gordurosas, conhecendo o meu ex, ele tem um hábito alimentar saudável, provavelmente dirá não. Sorrio triunfante.
─ Proposta estranha … bom, eu vou.
Ih, ferrou!!!
***
A noite está bem fria. Meus pelos estão arrepiados e cruzo os braços constantemente para me aquecer. Meus cabelos balançam-se com o vento da maresia e devo tremer um pouco, pois no caminho, Eduardo se oferece muitas vezes para que aceite seu casaco. Putaqueopariu! O cara está muito gostoso. Que cavanhaque é este, aí? E estes olhos? Tão … Ei! Que é isso? Dou um tapa no meu rosto a fim de tirar minha consciência safada de cena.
─ Que foi? ─ olha para minha face desconfiado.
─ Nada. Um mosquito. ─ sorrio meio torto.
Tento me controlar ao máximo perto do Eduardo, mesmo depois de tudo, ele ainda consegue causar um frisson dentro de mim. Tudo nele é convidativo para a perdição. Os olhos, a boca fina e até por estar um pouco cheinho ele ainda tem seu charme. Preciso me monitorizar ou boto meus planos por água baixo. Respiro fundo e jogo meus pensamentos pecaminosos em uma parte distante do meu cérebro.
Finalmente chegamos no local. Ao entrarmos, Edu abre a porta de vidro para que eu posso passar. O lugar é bem chinfrim. A fachada com letras se dissipando, quase não dando para enxergar o nome. As paredes caindo aos pedaços. Sem ar-condicionado. Garçons sem uniformes que podem muito bem ser confundido com clientes.
Sentamos em uma das mesas de plástico e um funcionário mal-humorado nos atende. Eduardo quase tem uma briga com ele exigindo mais educação. Sorrio. Estou estragando sua noite. Isso é bom. No acordo da minha prima, não tem nada sobre o Eduardo não querer sair comigo, mesmo que eu implore por isso.
Depois das devidas reclamações, outro garçom nos atende. Com um tratamento diferente do anterior, meu ex se dá satisfeito e solicita a refeição. Pede bolinhos de bacalhau com acompanhamento e me pergunta o que desejo, requisito ao funcionário anéis de cebola sem guarnição e muito menos líquido para beber. (isso tinha a ver com meu plano) E, levando em consideração a qualidade do restaurante, se eu morrer, que se dane acordo!
─ Como vai o casamento? ─ puxo conversa.
─ Bem. ─ ele analisa o cardápio e avisa ao garçom que pode ir, sem mais solicitações.
─ Bem? Nossa! Achei que Michelle Bigo… Quer dizer… A Michelle, fosse a mulher da sua vida e tudo mais. Pensei que teria mais entusiasmo nesta frase. ─ o cutuco.
─ Relacionamentos não são mar de rosa, Cléo. Às vezes existem problemas a serem enfrentados.
Coisa estranha. Engraçado que não é isso que vejo nas suas postagens no facebook, muito menos naquela declaração de casamento na minha porta, que diga-se, foi muito de mau gosto da parte dele, mas enfim, não que esteja espionando, nem nada, uma colega minha curtiu e comentou sua postagem, então, apareceu lá no meu feed de notícias.
“Michele é o amor da minha vida.”
Oi?
“Contando os dias para a cerimônia.”
Coitado!
“Nunca encontrei ninguém assim, eu nasci para você e você para mim”
Pobre Edu. Ele acha que é da linhagem das peludas do circo.
O garçom vem a seguir me tirando das minhas divagações. Ao ver os anéis de cebola, mudo de ideia, desejo comê-los com algo a mais para completar o meu plano. Peço mostarda e derramo abundantemente na comida, deixo-a quase nadando de tanto líquido que despus. Meus dedos ficam sujos e lambo-os sem nenhum pudor.
─ Você está bem? ─ Eduardo me olha intrigado.
─ Tô. ─ jogo uma generosa quantidade de anéis de cebola na minha boca. ─ Tô ótima! ─ a mostarda escorrega pelos cantos, enquanto falo de boca cheia. Edu balança a cabeça, sorrindo.
─ Você anda muito estranha, Cléo. Venho te observado nesses últimos dias. ─ levanta a sobrancelha esquerda, em sinal de dúvida.
Nesse momento, coloco seis rodelas de anéis na boca. Minha bochecha está parecendo um balão de gás hélio que a qualquer momento pode explodir e… explode, caindo salpicos de condimento no rosto do Edu e o deixando constrangido e me fitando ferozmente.
Ele pega o guardanapo à disposição e limpa seu rosto sério e não me dirige mais a palavra. Um silêncio sepulcral invade e o que vejo são os olhares curiosos das pessoas em plantão, por eu ter praticamente cuspido no rosto do meu acompanhante.
Poucos minutos depois do episódio, Soraya chega no ambiente quebrando o clima embaraçoso e me lembrando do meu objetivo naquele lugar. Ela me lança um olhar furiosa e caminha para os fundos do local, sentando-se em uma das mesas. Envio um SMS para ela explicando o motivo de ter trocado de restaurante.
Dá poucos segundos e meu celular toca:
“Ser corno ou não ser. Eis a minha intuição”
Música de alerta mensagem.
Edu gargalha, esquecendo-se do acontecido que construiu uma muralha entre nós, ao ouvir a canção provavelmente se lembra do par de chifres que me colocou.
“Dê em cima dele! O que pensa que está fazendo parecendo um godzila aí nessa mesa? Este lugar é precário, mas tem Wi-Fi, não se esqueça a qualquer momento…”
Digito de forma debochada uma resposta para ela.
“Bom, estou saindo com ele, era isso que tinha no acordo. Nos encontrarmos e ser a mesma Cléo de antes, ah, sempre fui assim com meu extinto… palhaça com ele.”
“Faça-o beijar você. AGORA!”
Ótimo! Com o bafo de enxofre que eu estou, é o momento certo.
─ Edu… ─ ele me fita amedrontado perante meu comportamento desta noite e presta atenção no que falo. Engulo outro pedaço de bacalhau que está no meu prato. ─ Eu queria te dizer uma coisa.
─ Pois, não? ─ franze a testa.
─ Chega mais … próximo. ─ ele fica perto de mim com certo receio.
─ Mais… ─ sua face está rente a minha e nossos lábios quase se colam.
─ O que você quer falar?
─ Isso! ─ pulo em cima dele, afogando-o com um beijo de um bafo mais fedorento de todos os tempos.
Quando o solto…
Ele está com falta de ar. Chamo os garçons para me ajudar com meu ex. Edu ainda tenta respirar com dificuldades, busca o oxigênio que parece faltar. Os homens do restaurante se aproximam dele e tentam à força fazê-lo colocar para fora, seja o que for que o impende de respirar, as tentativas são em vão. Ele começa a ficar roxo e arregalar os olhos e em seguida cai duro no chão.