Isso Só Acontece Comigo
Capítulo 6
Mais deprê impossível!
Acordo antes das meninas. Estou sentindo novamente aquela tristeza. Escovo meus dentes, tomo um banho e preparo um café rápido, com cereais e leite gelado, contudo, a sensação não passa. Uma vontade de chorar, gritar e me afundar na cama por dias.
Não sou o tipo de pessoa que fica em casa com os pés para cima esperando um milagre. Sempre corro atrás das minhas coisas, principalmente no quesito profissional. Com minha demissão, não tive meus direitos trabalhistas recompensados; e desde que saí de lá, procuro emprego em todas as agências, cheguei a fazer alguns testes e o que recebo de resposta é isto:
“Senhorita Cleonice, sinto em lhe informar, mas seu perfil não se enquadra na nossa empresa. Desejamos sorte nas suas próximas conquistas.”
Embaixo tinha um gritante P.S:
“Quem sabe a senhorita não tenha mais sorte como figurante do programa Casos de família, hein? Pelo que eu soube você tem perfil.
É isso. Meu chefe me queimou com todas as agências do universo. Quase todas as respostas que estava esperando das empresas são semelhantes a esta, sempre com uma gracinha sobre o fato de eu ter armado o maior barraco com o Edu e não quererem confusão em suas empresas. O que é um absurdo! Só por causa de um pequeno deslize, todos me crucificam na cruz.
Paulo, meu chefe, deveria me agradecer de pé junto pelas coisas que fiz por ele todo tempo que estive naquela organização. Ele já se esqueceu de quem foi que teve a ideia brilhante da fusão com a outra empresa de logística que salvou a pele dele? Ele já deslembrou de que descobri quem o estava roubando? Ele também se olvidou da reunião importantíssima com clientes internacionais e a única que falava espanhol era eu? Pelo visto sim.
Odeio o Paulo! Com todas as minhas forças. Nunca me senti tão humilhada na minha vida. Não sei nem o que fazer, já que na minha própria área de atuação eu estou queimada. Talvez devesse vender pipoca no sinal. Mendigar. Pedir auxílio bolsa família. Ou ir para o programa do Sílvio Santos atrás de aviõezinhos.
É por isso que acordei tão arrasada assim, estava sentindo que mais uma bomba estouraria nas minhas mãos. Estou acabada. Sem namorado. Sem emprego. Sem mais nada na minha vida.
Me dirijo à geladeira na maior velocidade possível, atrás de meus chocolates, reviro as gavetas e não encontro nada. Vou aos armários e também zero. Estou desesperada, como se estivesse em abstinência. Então, resolvo procurar qualquer coisa que tem cacau em sua composição e açúcar. Acho um pacote de granulados escondido atrás de alguns potes de margarinas. Abro a embalagem e com uma colher começo a comer desesperadamente; eu sou um fracasso. Papai não teria orgulho de sua filha universitária. Mamãe diria mais palavras horríveis a mim. E eu também falaria palavras ofensivas a mim mesma, porque não suporto admitir que a menina sonhadora que jurava que abriria uma empresa, se encontra em uma situação deprimente como esta.
O granulado acaba e vou ao refrigerador atrás de outros e acho. Minha tristeza é tão grande que preciso desabafar. Pego meus CDS retrógrados e coloco no DVD e seleciono a opção karaokê. Pego o microfone e desatino a cantar. Miúcha me acompanha nos agudos, latindo:
Au. Au. Au. Au.
─ “Pense em mim. Chore por mim. Liga para mim, não, não, liga para ele. Para ele. Não chore por ele… Vamos pegar o primeiro avião em destino à felicidade, a felicidade, para mim é você.”
As meninas se levantam com caras amassadas e cabelos bagunçados. Ficam intrigadas na sala com a cena que se desenrola à frente, eu e minha cachorra, fazendo Karaokê às nove da manhã.
─ “Há muito tempo te amo, te amo, te amo…”
Continuo a cantar sem nem ligar para as bocas entreabertas da minha prima e minha amiga.
─ “Pense em mim, chore por mim, liga para mim…”
Mi agora late mais ao meu lado.
─ Ela tá mal.─ Mari deduz.
─ Coitada. O que foi aconteceu? ─ Jaque não entende o que há, mas sei que minha amiga sabe.
─ Ela comeu GRANULADOS! ─ olha de relance para as embalagens vazias no chão e eu confirmo.
─ A situação está ruim. ─ Mari me olha com piedade.
─ O que isso quer dizer? ─ Jaque cruza os braços e me encara receosa.
─ Ela tá no fim do poço. ─ minha amiga chega a uma conclusão.
Elas continuam seus diálogos como se eu não estivesse presente e sim estivessem falando de alguma de suas parentes debilitadas, arrumando estratégias para me tirar o microfone das minhas mãos.
─ Eu estou ouvindo! ─ olho para elas e volto a cantar, porém de nada adianta. As duas conversam como se eu tivesse algum problema de surdez.
─ Precisamos fazer alguma coisa.
─ Acho que um salão de beleza cairia bem.
─ Roupas novas.
─ Um dia no shopping.
─ Com as amigas.
─ E um bom cinema.
Enquanto canto o refrão com todas as minhas cordas vocais, Miúcha continua me acompanhando como minha fiel seguidora. É por isso que amo esta minha cachorra! Nos dias tristes ou felizes ela sempre está comigo.
─ “Quero fazer você feliz. Vamos pegar o primeiro avião… ” ─ não termino de cantar, pois Mari tira a tomada do DVD e da televisão e grita categórica:
─ Vamos sair! AGORA!
***
─ Abra os olhos, Cléo!
A cabeleireira roda a cadeira giratória e me posiciona de frente ao enorme espelho do salão. O reflexo me faz ver a Cléo fracassada para trás. Minhas sobrancelhas não estão mais de lobisomem, meus cabelos deram adeus às pontas duplas e fios ressecados. Parece que em frente a esse vidro é outra mulher. Inacreditável!
─ Uau! ─ toco meus longos cabelos, que só aparei dois dedos, pois adoro meu cabelão.
Olho para a maquiagem e está belíssima. Minha pele parece de porcelana com o efeito da base, as bochechas estão rosadas e meus olhos estão com delineador preto, destacando meu olhar. Insisto por um batom, pois estou me sentindo nua, facialmente. A profissional concorda e passa um gloss de cereja nos meus lábios.
Dou um belo sorriso. Minha autoestima se eleva. Me sinto mais segura depois dessa transformação. As meninas ficam para lá de felizes, provavelmente esse é o objetivo delas também. Mari agradece a todos do salão e paga no seu cartão de crédito, devido à minha atual situação financeira, não tenho dinheiro nem para pagar a manicure daqui, o que é uma vergonha.
Depois do salão de beleza, as meninas compram algumas peças de roupas para mim. Jaque passa no cartão duas blusas de manga, nas cores rosa e violeta. Mari passa no dela, duas saias; quase que tenho um ataque ao ver o comprimento delas! Mas minha amiga me convence que depois que eu der um jeito nas minhas pernas cabeludas, eu ficaria muito bem usando-as.
Nos três passamos a tarde inteira conversando, tomando sorvete e por último indo ao cinema. Já na fila para comprar os ingressos, as meninas sorriem e olham para mim. Não estou entendendo o motivo da graça até que Jaque comenta:
─ Sua mudança já está fazendo efeito! ─ cutuca meu braço sorrindo.
─ Estão te engolindo com os olhos, amiga! ─ Mari aponta para um rapaz acima do peso que está na fila do outro lado me observando.
─ Fala sério! ─ faço um bico de indignação.
─ É por que ele é fora do padrão? E não têm aqueles ossos de cachorro que você costumava roer? ─ ela ironiza referindo-se ao Edu.
─ Vamos parar né, Mari! ─ cruzo os braços.
─ Tá bem. Fui longe demais, desculpe. Mas sei lá, adoraria que um homem me olhasse do jeito que esse aí tá de olhando.
─ Sem olhar para o corpo dela, né? ─ minha prima olha para ele e em seguida para mim, analisando.
─ E ele parece apaixonado. Isso é olhar de gente apaixonada. ─ continua Mari.
─ Concordo plenamente. Talvez ele já conheça a Cléo. ─ minha prima franze a testa. ─ Talvez mesmo… Você não o co… ─ não deixo Jaqueline terminar a frase, estou irritada com as duas por ficarem me jogando em cima de homens que não conheço.
─ NÃO! Agora chega!
Faço uma cara emburrada e já não vou com a cara desse rapaz por ficar me encarando. Agora as duas discutem sobre o meu preconceito em flertar com alguém fora dos padrões e que eu só quero gatões de músculos e bem acentuados; minha prima argumenta que é por isso que eu me dou mal. Santo Deus! Tudo isso por causa de uma paquera de um rapaz na fila do cinema e que sabe Deus quem é! Fico pê da vida com essas duas e encerro aquela conversa falando bem alto que eu odeio todos os homens. Isso faz com que o cara pare de me olhar e fique a fitar o chão, desolado. O restante das outras pessoas me observam como se estivesse de frente a uma desequilibrada.
Jaque sorri pelo meu mico e pega no meu braço e compramos os ingressos para assistir nosso filme, alheia aos olhares curiosos que nos são lançados.
A sorte das meninas que o filme é de comédia, sorrio bastante durante o longa e esqueço o episódio da fila, onde elas me condenaram.
Assim que as luzes acendem, todos se levantam e saem do local. Por coincidência do destino, o rapaz da fila está na mesma sessão que a nossa, nem reparo muito nele e acho que o cara fica com medo de falar qualquer coisa comigo, assim que seus olhos encontram os meus, ele abaixa a cabeça.
Desço as escadas com as meninas e por acaso o rapaz tem o atrevimento de dar um papel embrulhado à Mari, com certeza ele deduz que ela é minha amiga. Nem ligo, ando depressa como se nada estivesse acontecendo.
Enquanto as garotas ficam para trás conversando, saio da sala e nem sinal das meninas. Resolvo ir ao banheiro retocar o gloss, assim que saio, as vejo olhando de um lado para o outro, provavelmente me procurando.
─ Tô aqui! ─ corro em direção delas. Assim que chego próximo às garotas, as advirto. ─ Nem venham me jogar para cima daquele cara!
─ Ih, quem disse que a gente fará isso? ─ Mari ergue a sobrancelha e minha prima sorri.
─ Assim é melhor. ─ balanço a cabeça em acordo.
─ Não sabe o que está perdendo! ─ minha amiga lança um olhar furtivo e canta “Gordinho gostoso” com coreografias e tudo, fazendo minha prima rir e até eu.
Saímos do cinema e fomos direto para minha casa. Enquanto subo as escadas, as garotas se divertem com o mico que eu havia pagado. Narram minha cara de olhos arregalados e nervosos gritando: não gosto de homens! Tento não sorrir, porém elas contando o fato, me fez me ver de forma extremamente engraçada.
Pego a chave do meu bolso para abrir o apartamento. Noto várias caixas de papelão no corredor, presumo que alguém se mudou para o apartamento da frente. Fico curiosa em saber quem será meu novo vizinho ou vizinha, contudo, só o(a) conheceria na manhã seguinte.