Isso Só Acontece Comigo

Dayana Araújo · Capítulo 28 de 38

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Isso Só Acontece Comigo

Capítulo 28

Apresentando:

Mariah!

Paro em frente ao salão Fashion Hair. Demoro horas no trânsito infernal da Caxangá para chegar até aqui. Com gritos de motoristas e buzinas ensurdecedoras. Mas no fim, cá estou eu.

O salão é de avenida com letreiro rosa bem escandaloso. Na frente, há um pequeno estacionamento. Um pavor entra dentro do meu corpo ao me lembrar que em instantes volto ao passado. Porém aí também me recordo no tipo de pessoa doente que está em minha vida e que faz de tudo para acabar com restante dignidade que me resta.

Abro a enorme porta de vidro do lugar, sendo recepcionada com frio do ar-condicionado. Meu olhar e o de Bernardo se cruzam e ele me reconhece de imediato. Assim que vê, para e vem em minha direção. Ele está muito, mas muito diferente.

Uma camisa branca em V.

Uma calça justa. Muito justa!

Reboladas fenomenais.

Uma sobrancelha muito bem-feita.

Gritos loucos com as clientes.

─ AAAAH! Que é isso? Fizeram uma macumba para mim, bicha louca! ─ se refere ao outro cabeleireiro que provavelmente é seu assistente.

─ Bernardo… ─ me aproximo.

─ Xi! ─ coloca o dedo na minha boca. ─ Jamais fale esse nome, amapô! Nunca! Never! Jamé! Agora é Mariah Hilton. ─ dá uma jogada de cabeça para o lado.

Sorrio ao vê-lo fazer isso. Bernardo fala de um jeito muito engraçado. Com uma voz mais aguda do que me lembro. Desde que minha prima me deu o endereço de seu trabalho, pensei seriamente como ele me receberia e o que eu diria. Não sabia de seus gostos atuais, contudo, resolvi arriscar e trazer uma coisa que nunca falhava quando éramos namorados. Espero que dê certo.

─ Esquece o passado. Não estou aqui para isso. Muitas pessoas indicaram você a mim. Não resisti a curiosidade e vim aqui me certificar se é você mesmo e também quero saber se teria meu amigo de leitura de volta. ─ balanço a sacola da livraria.

─ Bicha louca não me mata! ─ corre para meu lado olhando cada um dos livros e solta gritinhos. Incrível que depois de tantos anos ainda funciona.

─ Ai, meu, Deus! Quanta coisa boa… ─ vasculha um por um, maravilhado. ─ Senta ai na bancada, que vou te recompensar com um bom corte de cabelo! ─ dá a sacola a seu assistente e atende uma cliente que já espera na cadeira giratória.

Assinto. Não estou esperando por isso. Mas seria bom de início para começarmos essa volta. E pelo que vi em revistas e internet, Bernardo realmente é bom. Chegou até fazer vários cabelos de celebridades e artistas locais e todos ficaram muito bonitos e bem tratados, pelo que pude ver pelas fotos.

O meu ex continua falando uma linguagem pouco conhecida por mim. Não deixo de rir, do modo que ele as pronuncia. Sento em um dos bancos de espera, em que outras clientes próximas a mim também aguardam.

Pego uma revista de moda que há em um dos bancos. Começo a folheá-la, página por página, não muita atenta ao que diz os artigos. Estou com minha cabeça mais preocupada com o que acontece daqui para frente. Começo a prestar atenção no homem que já pronunciei ser o amor da minha vida. Lembro de nossas conversas, risadas e beijos. A lembrança do dia da formatura vem à tona. Aquela humilhação em que passei também não foi esquecida. Se ele tivesse me contato a verdade antes de tudo aquilo, talvez hoje podíamos ser amigos. Mas respiro aliviada. Não daria certo mesmo.

─ Cléo, você é a próxima.─ o auxiliar me direciona a uma cadeira preta, alta. Há um grande espelho na minha frente, com recortes de alguns modelos de revista e atores globais.

─ Quero cortar só uns dedinhos. ─ fico receosa, pois já havia feito uma transformação.

─ Mona! Uns dedinhos não fazem mudanças! ─ fala com um tom de voz afetado.

─ Tá. Mas nada radical demais. E não me deixe com cabelos curtos. ─ choramingo. Ele revira os olhos.

Parece Edward, mãos de tesoura. Corta meu cabelo como uma obra de arte. Com primor e cuidado. Um desfiado de lá, de cá. Vejo meus fios caindo no chão. Me desespero. Mas quando ele acaba fico boquiaberta. Meus fios estão desfiados. Fazendo com que acentue com meu rosto, o ruivo parece até que está mais ruivo. E o comprimento continua milagrosamente o mesmo.

─ Oh. Meu. Deus. ─ estou chocada e balanço meus cabelos diversas vezes para ter certeza que não é um truque. Que ele fica bonito assim sem mudar o tamanho.

─ Belo, não? Com a bicha é assim, mulher entra bonita, sai linda! ─ gira a cadeira, para que eu olhe de todos os ângulos. E parece orgulhoso.

─ Pronto! Agora está na sua hora! ─ o funcionário sai me empurrando para fora. Talvez esteja com ciúmes, sabendo que tivemos alguma coisa.

─ Espera aí, quero seu cartão, Ma… Mariah ─ quase não sai. ─ ele vem em minha direção com uma feição triste.

─ Eu sinto muitíssimo, Cléo. Por tudo.─ começa a chorar, toco em suas mãos. ─ Você era legal, cheguei a pensar que eu até gostava de você. ─ mais choro e pega um lencinho de papel e enxuga as lágrimas com cuidado.

─ Mas… foi amor à primeira vista com aquele garoto. Foi complicado assumir aquilo tudo. Eu que devia te dar todos os presentes do mundo.

─ Confesso que não foi nada fácil superar aquilo tudo. Enfrentei uma barra enorme. Fiquei em depressão. ─ falo com pesar e sendo bastante sincera.

─ Eu sei! Eu sei! Se eu estivesse na sua pele teria ficado do mesmo jeito. Me perdoa, anjo? ─ beija minhas mãos.

Olho para ele e pareço compreender seu desespero, minha psicóloga sempre diz que não é só eu que estava sofrendo, que da parte dele também havia uma grande dor em esconder o que não era por tanto tempo. Porém, mesmo que não quisesse perdoá-lo, há outras coisas em jogo. Minha reputação.

Sorrio para não chorar, diante daquela situação dramática em que me encontro. Respiro fundo. Não tem como continuar com raiva dele com aquele seu jeito destrambelhado e sua cara chorosa que parece estar em uma novela mexicana.

─ Como prova do meu arrependimento, você terá cortes de cabelo grátis para todo sempre!

─ Cortes de cabelos grátis? É uma proposta irresistível! ─ ele me olha por uns instantes e acrescenta:

─ E… uma vale-compras de R$300,00 reais nas lojas Feminina! ─ aumenta sua oferta.

─ Nas lojas femininas?! Tem como não perdoar? ─ o abraço.

─ Aliás, eu preciso da minha amiga literária de volta. ─ cochicha no meu ouvido. ─ Ando lendo uns eróticos maravilhosos; têm uns bofes que Jesus misericordioso é de ler se abanado! ─ sorrio e a feição triste dele se desfaz e dá lugar a um rosto mais alegre. ─ Olha, que tal comemorarmos essa volta, hein? Abriu uma boate nova na cidade. Vamos comigo? ─ ele propõe.

Não recusei. É a oportunidade perfeita de executar o plano.