Isso Só Acontece Comigo

Dayana Araújo · Capítulo 16 de 38

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Isso Só Acontece Comigo

Capítulo 16

Susto!

Gente do céu! Será que produzi um bafo químico? Matei o meu ex?

Na verdade, não.

Eduardo é levado em uma ambulância do Samu, por uma possível intoxicação alimentar. O restaurante é fechado. Soraya dá um jeito de sair logo dali antes que algum jornalista intrometido a reconheça. Peço para me darem notícias do pobre coitado. Dou meu número ao enfermeiro, que promete me informar sobre o estado de saúde do meu ex.

Assim que tudo se resolve, saio dali e vou para minha casa e quando chego, reparo em mil contas que deixam debaixo da porta. Deito no sofá; olhando uma por uma. Conta de luz, água, parcelas atrasadas do carro, um aviso que entraria no SPC, taxa de condomínio, fatura do meu cartão de crédito, um alerta que cortarão água e luz.

Respiro fundo tentando não me estressar. Minha vida sempre dá um jeito de ficar pior do que ela já é. Analiso minha situação e vejo que preciso mesmo arrumar um emprego com muita urgência ou necessito fazer tudo que minha prima deseja para poder receber a grana que ela prometeu do seu acordo.

Ao pensar nela, reflito no porquê Soraya fazer essas coisas, não faz o mínimo sentido, se bem que se tratando de uma pessoa sádica como ela, esse tipo de situação de alguma forma deve funcionar em sua mente doentia.

Miúcha está fazendo rodeios no centro da sala e me desperta de meus pensamentos e concluo que ela quer fazer suas necessidades. Se eu a deixar por muito tempo fazendo isso, daqui a pouco teremos outro em um hospital.

─ Tá bom mocinha, vamos para praça! ─ ela me convence.

Saio da sala e vou ao quarto. Coloco um short, blusa de alça e um tênis confortável. Pego a coleira da Mi e descemos pelas escadas. Neste pequeno percurso, encontro a síndica do prédio. Uma velha de 1.50, nariguda, de cabelos grisalhos e uma arrogância que não tem tamanho. A mulher me odeia desde que soube que tive uma festa regada a gogo boys. Alegando que isso não é permitido no condomínio e que todos tinham reclamado. Pura mentira. A grande maioria estava na festa e creio que ela inventou isso porque não foi convidada.

─ Senhorita Fernandes! ─ me intercepta com uma pose autoritária.

Paro no meio das escadas. Minha cadelinha já está latindo e querendo atacar a mulher.

─ Quieta! ─ ela late um pouco mais e depois para.

─ Senhorita Fernandes, não esqueça de comparecer a última reunião do ano do prédio. Será às 14:00 horas. Espero que possa ir, já que anda com certas pendências em nosso domicílio. ─ me estende um papel com todas informações sobre o tal encontro.

Saio bufando dali. Antes de irmos para o parque Dona Lindu, vou à pracinha de Boa Viagem. Onde há uma igrejinha azul e inúmeras barraquinhas com todos os tipos de comida. Bolos, tortas, comida japonesa, pastéis, coxinha. E também um restaurante sofisticado, com ambientação de elementos bem nordestinos. Próximo, há uma lanchonete de comidas naturais. Mas o que eu quero é a tapioca de leite condensado. Desde que voltei da casa de mamãe, fiquei com saudades da comida da vovó.

Me dirijo à barraquinha e peço a moça que capriche bastante no doce. Fico esperando alguns minutos, enquanto ela coloca a massa de mandioca em formas redondas para assar. Depois de pronta, nem espero esfriar, devoro aquela massa deliciosa que não troco por nada. Miúcha como sempre está com a língua para fora para eu dar um pedaço a ela. Reviro os olhos e deixo um pouco cair no chão, enquanto aquela esfomeada ainda me olha como quem deseja mais.

─ Agora é só meu, viu! ─ ela arregala os olhos e pende a cabeça para o lado, em um nítido apelo para minha pessoa, porém não caio em sua farsa inocente, dou língua como uma criança e saímos dali.

Caminho pela feirinha de artesanato querendo comprar cada roupa, bijuteria e lembrancinha. Porém recordo da minha terrível condição financeira e tiro meu pensamento consumista de lá com muito sacrifício. São tantas coisas lindas e por um preço camarada que é impossível resistir, mas resisto!

Atravesso a avenida. As nuvens estão bem carregadas, indicando que iniciaria ali uma chuva. Os ventos bagunçam meu cabelo e sinto meus lábios salgados por estar próxima à maresia. Porém mesmo assim, preciso daquela corrida tanto como Miúcha desejava fazer suas necessidades; que já fez.

Pego do bolso da minha calça uma sacola plástica e tiro o resíduo. Jogo a bolsa no lixo mais perto. Miúcha por um motivo desconhecido sai em disparada pela avenida. Percebo depois que toda essa pressa era porque ela vai fazer amor i love you com o cachorro mais rente. Não descrevo a cena, pois é digna de filme pornô canino.

Enquanto a observo (com muito nojo diga-se de passagem) não presto atenção nas pessoas ao meu redor e quando dou alguns passos à frente para ficar mais próximo de Mi e certificar que ela não foge, esbarro em uma criança. Que ao analisá-la melhor, a vejo chorando porque a fiz derrubar seu sorvete.

─ Ei! Olha por onde anda! Você quase… ─ uma voz masculina me recrimina, porém não termina a frase.

─ Desculpe. Não foi minha intenção. ─ digo constrangida pelas lágrimas que caem daquele ser tão pequeno.

─ Olha só o que você fez! ─ o homem me olha furioso. A garotinha lastima ainda mais.

Santo Deus! Cadê o:

“Perdoa para ser perdoado”

Que homem grosso!

─ Olha menininha… ─ me direciono à pequena, não estou nem aí para aquele crocodilo que está ao seu lado. ─ Posso te comprar mais dois sorvetes como pedido de desculpa, você aceita? ─ ela balança a cabeça afirmativamente e sorri. ─ Vamos ali? ─ pego sua mãozinha e me dirijo ao quiosque.

Mi sai da sua dança do acasalamento, com a língua para fora e corre em minha direção. Fica ao lado do godzila, que alisa sua cabeça. E me aguarda enquanto compro dois sorvetes de casquinha, um de baunilha e outro de chocolate para a garotinha. Que sorri na mesma hora satisfeita, lambe os dois ao mesmo tempo e suja um pouco sua boca, limpo-a com o guardanapo e o homem que está com ela me observa curioso e de braços cruzados, Miúcha, traidora, não faz nada para espantá-lo dali, o que é muito estranho, acredito que seu faro de detectar pessoas ruins anda falhando.

─ Você é gulosa, hein! ─ ela é tão fofa, parece uma boneca de cabelos negros bem cacheados, olhos de jabuticaba. Usa um vestido rosa claro, com alguns enfeites no seu cabelo.

─ Eu adoro chocolate! ─ degusta mais ainda a sobremesa.

─ Eu também. ─ sorrio ao ver que ela se lambuza à vontade, caindo pingos do sorvete em sua roupinha.

─ Qual o seu nome? ─ puxo conversa.

─ O meu é Emily. E o seu? ─ me olha curiosa.

─ O meu é Cléo. ─ o troglodita fica parado, bufando.

─ Vamos, Emily! ─ ele pega a mão da menina e sai em disparada.

─ UM OBRIGADO NÃO CUSTA! ─ grito enquanto ele vai embora com a menina.

─ ERA SUA OBRIGAÇÃO! ─ responde. Affe! Essa gente anda muito mal-humorada hoje em dia! Não custa nada me agradecer e ser tudo resolvido como um pedido de desculpas gentil de minha parte.

Bufo e balanço a cabeça em negativa, olho para o mar e o observo para tentar me acalmar. Tomo uma água de coco, enquanto Miúcha fica repousando em meu colo, cansada. Penso tanto na minha vida. O que será que eu fiz de errado para tudo acontecer comigo? A que ponto cheguei? Sendo chantageada por uma prima surtada, por conta de um vídeo. Como sairei dessa furada já que estou nas mãos de uma pessoa tão maligna e poderosa como Soraya? Quero ter uma bola de cristal, como mamãe, para adivinhar realmente o meu futuro.

Falando nela, será que ela acertou? Aquele rapaz de máscara que dançou comigo era realmente a pessoa ideal a estar do meu lado? Lembrando disso, me recordo dos poucos minutos que fiquei ao lado dele. Foi rápido, porém, suficiente para dizer que ele mexeu comigo. Seu perfume, seu olhar carinhoso, sua declaração contida na música, fiquei tão alegre por saber que alguém por aí me ama. Tanto que me fez despertar curiosidade sobre quem seria ele.

Sua identidade permanece um mistério para mim. Já sei que ele mora no mesmo prédio que eu, falta saber sobre sua fisionomia, o que faz da vida, há quanto tempo está apaixonado por mim. Suspiro me lembrando daqueles olhos apaixonados, que chegam a brilhar, tenho a impressão que já encontrei com aquelas íris antes, mas não me lembro onde.

Antes que eu possa pensar em mais alguma coisa, meu relógio dá um apito e quando olho já são 14:00 horas. Estou atrasada. Levanto do calçadão e puxo minha cadela junto a mim. Corro desesperada como se estivesse em uma maratona São Silvestre. Por isso chego rápido ao condomínio. Subo em direção ao meu apartamento e só dá tempo de colocar a Mi lá. Desço rápido, pois já são 14:20 pm. Entro na sala atrasada, pedindo licença pelas pessoas que já estão sentadas, tento procurar um lugar, a síndica me segue com os olhos enquanto discursa.

─ Com licença, tem alguém aí? ─ pergunto a um rapaz apontando para a cadeira ao seu lado, que está vazia.

Quando ele vira o rosto.

─ Você?