Isso Só Acontece Comigo
Capítulo 26
Meu plano número 2
─ Mari, você vai me ajudar? Diz que sim! ─ suplico depois de lhe contar meu plano.
─ Cléo, é muita loucura! ─ fala abismada.
─ Conto com você para isso. Por favor! Eu e o Marcos… ─ antes que termine, ela me interrompe.
─ QUEM?! ─ quase estoura meus tímpanos.
─ Marcos, meu vizinho. É uma longa história, Mari. Depois te conto tim tim por tim tim sobre ele.
─ Huuuuum ─ ela solta de forma debochada.
─ Huuuuum o que? ─ sorrio, sei bem o que ela está insinuando com esse tom de voz.
─ Tô vendo que se o Mascarado não cuidar, tem quem cuide, hein! ─ ouço uma sonora gargalhada por trás do telefone.
─ Mari! ─ a repreendo.
─ Mas você sabe quem é o meu favorito, né? ─ me alfineta.
─ Amiga, foco! Vamos nos concentrar no meu plano.─ desconverso.
─ Tá saindo de fininho, que eu tô ligada, mas só dessa vez eu deixo, viu? Depois quero saber dessa história! ─ desta vez é ela quem me adverte.
─ Tá bom. Mas e aí, topa ou não? ─ cruzo os dedos na esperança que ela aceite.
─ O que eu não faço por você, Cleozita? Dou um jeito de sair daqui o mais rápido possível. ─ comemoro animada. ─ Mas esses empregados me acobertam mesmo? E o que eles ganham com isso? ─ de repente sua voz soa apreensiva. Trato de tranquilizá-la narrando os fatos e mostrando que minha prima má tem mais inimigos do que pensamos.
Conto a história toda sobre eu ligar para tia Lio, pedindo informações sobre os empregados de Soraya. E para quem não sabe, tia Lio, além de ser uma boa comilona sabe da vida de tudo e todos e me detalhou cada empregado daquela casa que eu poderia entrar em contato.
Hoje de manhã saí como uma detetive, ou foragida da lei, com óculos escuros, cabelos presos em um lenço e me esgueirando em becos (para ninguém nos ver) interrogando os meus possíveis aliados para meu plano.
“Eu a mataria se eu pudesse, mas sabe como é gente rico. Você não tem noção o que ela pode fazer. Uma vez fui obrigada a limpar os ânus dos cachorros alemães dela. ÂNUS! Tem noção da gravidade? Fiquei quase um ano sem conseguir olhar direito para minhas mãos e não associar à cena.”
A empregada relatou seus dramas e eu apenas assenti horrorizada.
“Aquela diaba me fez ir ao ginecologista e me passar por ela para fazer um exame. Para provar para o marido que não tinha gonorreia. Acredita?”
Balancei a cabeça negativamente e ganhei mais outra cúmplice.
“Podemos matá-la e jogá-la no esgoto, no lugar que ela merece.”
Neguei a possibilidade do jardineiro e agradeci a sugestão; fiz isso porque estava com medo do sujeito, que olhava para minhas pernas o tempo todo e sorria sem sua dentição. E cuspindo a cada cinco segundos. Só me conformei que ele aceitou de imediato e saí dali antes que o pior acontecesse.
” Aquela mulher é o cão, se não for, deve ser mulher dele. Não é possível existir um ser humano tão horrível como aquele.”
A cozinheira murmurava suas lamentações e fumava uns dois cigarros ao mesmo tempo, me fez engasgar diversas vezes e quase esqueci a existência dos meus pulmões. O que me alegrou foi que ela também aceitou.
Quando cheguei em casa, procurei respirar o máximo de oxigênio que eu pudesse. Cheguei à conclusão que a fumaça também apagou a existência das minhas narinas. Pois nem senti o fedor dos excrementos de Miúcha e nem outro odor parecido.
“Uma vez ela me obrigou a comer os cocôs dos cachorros porque eu não pronunciei corretamente a entrada de um casal de amigos na residência.”
Quase vomitei.
“É claro que topo. Quero ver ela se ferrar mais do que tudo nessa vida”
O mordomo assou o nariz e dei leves batidas nas suas costas lamentando o ocorrido”
“Claro que topo, mas não rolará uma invasão? Ela tem umas joias maravilhosas, que eu já vi usar diversas vezes. Talvez pudéssemos aproveitar a deixa.”
A babá dos cachorros sugeriu.
“Não será possível.” ─ murmurei séria.
“Nem os talheres?”
“Não.”─ aumentei o timbre de voz.
“Os objetos da casa?”
“Também não.” ─ quase gritei.
“Os papéis higiênicos bordados a ouro?”
─ Existe papel higiênico bordado a ouro? ─ dessa vez ela ganhou minha atenção.
A mulher confirmou. Dei de ombros e encerramos a conversa. Saí de lá segurando firme minha bolsa, pois ela tinha colado um bom olho gordo nela. Agradeci à solidariedade de ajudar e apertamos as mãos selando um pacto. Só quando cheguei em casa constatei que meu anel anelar tinha sumido.
─ Credo Cléo! E mesmo assim você os acha confiáveis? ─ depois de narrar a história, minha amiga se pronuncia e volto ao presente.
─ Bem, alguns são bem estranhos, mas eles têm tanto ódio da naja como nós. Acredito que por ora, arriscamos. Pelo menos, na parte que falei que ferraria a cobra, eles foram bem sinceros com seus ódios mortais com a altamente perturbada.
─ Seja o que Deus quiser! ─ Mari suplica aos céus e também entrego aquela missão a eles.
Dou a ela as instruções e peço que anote o endereço da casa. Segundo o mordomo, o deputado Sílvio não se encontra, assim facilita a entrada da Mari. Mesmo assim, ele orienta que ela se fingisse de empregada. Finalizo a ligação e desejo boa sorte para nós.
***
Subo alguns andares e bato na porta do vizinho. Marcos me atende com um sorriso no rosto, abre um pouco a limiar e noto por um breve segundo, alguns objetos valiosos ali, T.V de última geração, pinturas de arte e candelabros de cristais, o resto não vejo. Com o que será que ele trabalha? Antes que eu espione mais, Marcos fecha a umbral e me encara.
Veste uma camisa longa, creme, de linho e uma calça jeans um pouco folgada, porém jeitosa. Sua barba mais rala do que o habitual dá um pouco de charme à sua fisionomia. Seu cabelo com gel, destaca seu topete. Ele está até bonitinho.
─ Pronto?
─ Nasci pronto. ─ ele gargalha, mostrando seus dentes alinhados e bonitos.
Dou a ele as últimas orientações sobre como seria, ele balança a cabeça atento a cada instrução. Emily aparece na porta e com uma voz manhosa e dotada de afeto, murmura que seu pai é o sapinho mais lindo da lagoa.
Ele sorri e pega a garotinha pelos braços, a abraçando em seguida e dando um beijo em sua testa e respondendo que ela também é a sapinha mais linda do planeta.
Diante da cena, não deixo de sorrir e ficar emocionada com o amor daqueles dois. Emily volta para casa e uma senhora rechonchuda fica com ela. Não sei por que, mas a menção a palavra “sapo”, me faz recordar de mamãe e sua profecia.
“Ele não será um príncipe e sim um sapo.”
Será que Marcos estava na minha festa? Não. Eu lembraria com certeza. Impossível!
***
Eduardo está sentado tranquilamente em uma das cadeiras do restaurante. Mexe uma ou duas vezes em seu celular, olha para os lados com certeza à minha procura… que encontra. Nos encaramos e ele não entende nada ao me ver. A boca fica entreaberta, ele engole seco e se ajeita no assento. Também pudera! Eu uso um vestido arco-íris, tomara caia, cabelo liso, muito liso na chapinha. Uma sandália alta, rosa choque, de 14 centímetros. Uma bolsa de couro tingida de vermelho. Uma maquiagem de tirar o emprego do Patati e Patatá. Faço uma listinha de coisas que o meu ex odeia em uma mulher. Estou executando o Top five neste exato momento.
Se vestir exageradamente.
─ Ãh… oi ─ ele faz uma careta.
─ Oi. ─ digo sorrindo, com um batom vermelho vivo nos lábios.
Todos no restaurante observam nossa mesa. Soraya está em uma atrás, me ameaçando com palavras que não posso decifrar pelo distanciamento que nos encontramos uma da outra.
─ Você hoje deu uma exagerada, não? ─ coça a cabeça.
─ Foi mal. É que minhas roupas estão todas na máquina e enfim, não tenho aquelas que secam rápido e meus sapatos… ─ dou uma pausa e pego a taça com água que estava sobre a mesa e engulo tudo e continuo explicando: ─ Minha cachorra comeu algumas partes, não os sapatos, sabe, mas os pedaços dos sapatos, Miúcha sabe como ninguém fazer isso. Uma vez Edu…
Top 4: As falastronas
─ Ela saiu pegando minhas calcinhas da gaveta e roeu, sabe, como rato, não como uma cachorra. Bom, uma vez pedi a um pai de santo benzer a Mi, mas ele disse que nem isso tinha jeito.
Ele balança a cabeça em negativa e faz uma vez ou outra uma careta.
Top: 3 As mal-educadas
Coloco o pé na mesa; me esparramo na cadeira.
─ Eu estou com cólica, sabe. ─ O vejo ranger os dentes. Em seguida o garçom pede para que por gentileza que eu tire os pés de lá. Edu me olha preocupado.
─ Cléo, por favor! ─ retiro.
Top 2: As que falam bem do ex –namorado.
Pego o cardápio.
─ Uh! Meu ex, Bernardo, adorava esse prato. ─ encaro as letras miúdas. ─ Maminha ao molho tinto, vamos pedir! Ah, ele adorava com batatas, a gente dava um na boca do outro, era bem romântico. Gostava também dessa sobremesa de mousse de maracujá. Às vezes chegávamos a usar esses doces… você sabe! ─ pisco o olho.
─ Não. ─ diz firme e irritado.
Top 1: As atrasadas
─ Dá licença, vou ao banheiro. ─ ele não fala nada, apenas olha para os lados, aguardando mais uma atitude estranha de minha parte, que não demora a chegar.
─ E aí, Marcos, preparado? ─ me aproximo do meu vizinho e ex troglodita.
─ Sim! ─ ele está em frente a limiar, aguardando as instruções. Me olha sorrindo e parece se divertir muito com tudo aquilo.
Abro a porta do banheiro e entramos. Ouço alguém lá fora falar alguma coisa, contudo, não entendo.
Fechamos com chave e começamos a nos agarrar, um beijo e outro, com tiração de vestido, blusa, por aí vai. O Mascarado que me perdoe! Tenho certeza que quando eu contar os motivos que estou fazendo isso, ele terá que me entender. Se bem que não tenho certeza se estamos somente fingindo…
─ Tem certeza que ele vem? ─ diz ofegante.
─ Tenho ─ olho no relógio de pulso. ─ Quinze minutos para ele vir. Ele odeia esperar, o conheço bem.
Mais pegação. E devo admitir que estou gostando da pegada do ex chatonildo.
─ Bando de tarados! Sem vergonhas! ─ uma senhora de idade avançada sai de um dos banheiros e com uma bolsa de mão bate nas nossas cabeças. Ficamos de olhos arregalados com o tamanho do susto que levamos ao saber que há mais alguém ali. Não esperamos por isso.
─ Você disse que estava vazio! ─ falo irritada para o Marcos, enquanto a tiazinha nos bofeteia e diz que chama a polícia.
─ Foi o que eu pensei.─ Marcos coloca suas mãos no rosto, na tentativa de evitar levar mais uma bolsada. ─ a idosa abre a porta e sai gritando pelos corredores do restaurante que têm dois sem vergonhas se agarrando dentro do banheiro. Não demora muito para o Eduardo juntar dois mais dois e nos descobrir.
O que acontece é o seguinte:
1. Edu entra sem nenhum escrúpulo dentro do banheiro e dá
um soco no Marcos.
2. Enquanto eu fico na dúvida em defender meu vizinho ou
me cobrir com as mãos as partes do meu corpo, pois estou seminua.
3. Vários curiosos colocam suas cabeças dentro da umbral,
murmurando palavras nada delicadas como:
─ Ela faz… a cobra subir! A cobra subir! A cobra subir… ─ inúmeras gargalhadas de homens machistas.
─ Aqui é um ambiente de família, seus depravados! ─ uma senhora religiosa e com o terço nas mãos começa a rezar o credo.
Depois que toda a briga e exposição gratuita que passamos, o gerente nos dá a permissão de nos recompor e expulsa os curiosos do banheiro. Saímos do toalete e do restaurante, censurados com imensas vaias. Porém, ao sair de lá e colocar meu pé na rua e escutar Eduardo falar uma palavrinha mágica…
─ NUNCA MAIS FALE COMIGO! ─ grita nervoso e bate a porta do seu carro agressivo e sai em disparada. Sei que valeu a pena!
Dou um pulinho e faço um gesto de yes!
─ Você é doida! ─ Marcos ataca o botão da blusa que permanece aberto. Toco no seu queixo, no lugar que acabou de levar um soco, avaliando sua situação. Está bastante vermelho e parece inchado. Faço menção em levá-lo ao hospital, porém ele diz que não precisa se preocupar, pois não é nada.
─ Respondendo à sua pergunta: completamente! ─ ele me encara e gosto do jeito que ele me analisa, com ternura nos olhos.
─ Mais doido sou eu em me meter nessa furada. ─ sorrio. Ele também.
─ É uma pena não poder entrar mais nesse restaurante, já vim aqui, a comida é ótima. ─ um garçom chega a sair e nos enxotar até da rua!
Corremos.
***
A noite está agitada. Andantes caminham para lá e para cá, jovens passam com carros em alta velocidade e alguns trabalhadores esperam na parada sua condução. Eu e Marcos vamos para um ponto de táxi, não quero esperar o transporte público e desejo chegar rápido em casa, coisa que ônibus nenhum me proporciona. Um veículo passa por nós e assobio, Marcos e eu entramos. Misteriosamente Soraya não me procura. Também não a vejo na saída do restaurante. Ai. Meu. Deus!
─ A Mari! ─ lembro. Disco o número nervosamente e Marcos franze a testa não entendendo minha preocupação.
─ Mari, e aí, deu certo? ─ falo em um só fôlego.
─ Aqui quem está falando é o policial Fred, quem deseja falar com ela? ─ levo um susto com aquela frase.
─ Ãh … Eu sou uma amiga dela. O que aconteceu? ─ pigarreio.
─ Sua amiga foi presa!