Isso Só Acontece Comigo

Dayana Araújo · Capítulo 7 de 38

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Isso Só Acontece Comigo

Capítulo 7

O novo vizinho

O som de um rock pesado me desperta. Coloco minha almofada no ouvido, mas de nada adianta. Levanto, querendo fuzilar o bendito que me acorda com esse barulho dos infernos. Espio o quarto ao lado, Mari e Jaque continuam dormindo como duas anjinhas. O sono dessas duas é de pedra.

Vou ao banheiro, tiro a roupa e me deixo guiar pela água bem quentinha do meu chuveiro. Pego meu sabonete de cheiro de morango e esfrego na minha pele. Em seguida, faço uma rápida depilação nas pernas.

Saio do toalhete com enorme vontade de me arrumar. Me dirijo ao quarto e abro meu guarda-roupa. Coloco um vestido curto, azul, com flores estampadas. Pego o secador e começo a secar meus cabelos molhados. Faço um make básico. Pó, blush, rímel e batom e vou à cozinha.

Pego minha cuscuzeira e outra vasilha; lavo-as e preparo o cuscuz. No recipiente de plástico, coloco a massa e misturo com sal; um pouco de água e uma colher de margarina. Ligo o meu home teacher e sintonizo em uma frequência da rádio e surge uma música que adoro: “Mirrors, de Justin Timberlake”

Mariane e Jaqueline levantam-se. As duas acordam com umas caras amassadas e se aproximaram do balcão da minha cozinha americana. Dão um “bom dia” e se aconchegam na mesa, pegando cada uma um prato e esperando o cuscuz ficar pronto.

Quando a massa já está fofinha, desligo o fogo. Cada uma pega seu prato e tira um pedaço. A fumaça é nítida. O cuscuz está bem quente. O que é ótimo para comer com manteiga que se derrete pelos cantos. Devoramos em poucos segundos!

Tomamos um pouco de leite gelado e assim que terminamos a refeição, colocamos os pratos na pia, cada uma lava o seu. Quando acabamos de enxugá-los, minha cigarra começa a tocar. Temi que fosse mamãe na porta para me dar sermões sobre ter desligado o telefone na cara dela. Mas quem dera que fosse.

Quando abro a limiar…

─ Cléo! ─ ao ver quem é, fecho-a na hora.

Como alguém tem essa cara de pau?

Minha cachorrinha acorda e late sem parar. Mi tem um dom de cheirar homens que não prestam de longe! Roo as unhas freneticamente.

Pelo amor de Deus! Isso não está acontecendo. Por favor!

─ Sabe, acho que joguei pedra na cruz, só pode! ─ concluo abalada.

─ Menina! Que babado! ─ Mari coloca as mãos na boca. Ela também vê aquele ser plantado na minha porta. O que me dá mais alívio de saber que realmente eu não imaginei.

─ Cléo! ─ Jaque pega minha mão e paro com meu estado traumático.

─ Como ele pôde? Ele sabe muito bem que moro aqui! ─ choramingo.

─ Filho da mãe! Amiga, pode deixar viu! ─ Mari toma partido.

─ Que você estava pensando, Mari? ─ Jaque e eu olhamos para ela curiosas.

Somos interrompidas com um apertar nervoso da campainha e desta vez resolvo abrir.

─ Cléo! Que cara é essa? Não vai me dar as boas-vindas? ─ ele sorri como se nada tivesse acontecido.

─ Como é?! ─ olho espantada para o tamanho do seu cinismo. Minha irritação é tão grande que dou um tapa no rosto dele.

─ Que é isso, Cléo?! ─ toca na sua face, chocado, por que eu não sei, ele sabe que sou capaz de tudo.

─ Que é isso digo eu! Que porra é essa, Edu? Queria o quê depois de tudo que você fez eu te perdoaria? Ficaria rindo? Que ficássemos coleguinhas e corrêssemos de mãos dados para o fim do arco-íris? Que espécie de ser humano é você? ─ minha cabeça ferve e sei que se essa conversa não acabar, será pior do que da última vez.

─ Cléo, se você deixar eu explicar… eu… ─ fecho a porta na cara dele e as meninas aplaudem minha coragem.

Só o que faltava! Um ex namorado, ao qual odeio profundamente, morando de frente para minha casa e ainda tendo a cara de pau de agir como se nada tivesse acontecido.

Vou à cozinha e as garotas me seguem. De repente aqueles sentimentos que prometi guardar em um lugar bem escondido vem à tona. Pego umas trufas da Cacau Show (que comprei no shopping ontem, para deixar no estoque.) e devoro a de morango, cacau, café e maracujá. Quase tenho uma overdose de açúcar.

Eduardo.

Ex namorado.

Me traiu com uma das minhas amigas.

Agora.

Meu vizinho.

Coço meu pescoço e pisco os olhos repetidas vezes.

─ Vamos dar um jeito nele, Jaque? ─ Mari está com sua feição endiabrada.

─ Vamos! ─ as duas saem da cozinha e vão para algum lugar da casa. Enquanto eu assimilo todos os fatos. Miúcha continua com cara de serial killer na porta. Me direciono à sala, procuro na raque algo que, com certeza, está por trás disso. ─ Achei! ─ pego o objeto que está perto da TV. ─ lá está ele com cara pacífico. Com roupa de freire e uma cara ingênua. ─ Isso é culpa sua, Santo Antônio! Semana passada tinha acendido uma vela e pedido um amor das antigas de volta. Na verdade estava falando de um garoto que conheci em uma festa de São João, quando tinha 13 anos; e olha só o que ele me traz? ─ Viu o que fez? ─ olho para imagem que parece querer dialogar comigo. ─ Que é isso, Santo Antônio? De tanto ouvir preces, ficou surdo agora?

Jaqueline e Mari entram na sala com um enorme sorriso no rosto, me estendem um papel. Rapidamente vou à cozinha e coloco o santo de cabeça para baixo em um copo com água. Quero ver ele fazer mais gracinha dessa vez! Retorno a sala e as meninas nem percebem o que eu tinha feito, talvez por estarem alegres demais com seu plano.

─ Agora ele verá só! ─ minha amiga sorri maléfica.

─ Que é isso, garotas? ─ reconheço o papel da Mari. Dois itens estão riscados e um está com a palavra: URGENTE! ─ Não. Sério, gente. Eu não tenho grana!

─ Quem falou que você paga?! Nós duas fazemos questão! ─ elas apertam as mãos e praticamente selam um pacto.

Pisco várias vezes meus olhos ao ouvir uma grande serenata sendo pronunciada no corredor.

Quando abro a porta:

Alguns de meus vizinhos estão sorrindo e chorando. Com um grupo de atores vestidos com roupas da década de 30, cantam a música do “Roberto Carlos” e no final um certo vizinho olha para “amada” e pede:

─ Quer casar comigo, Michelle?

Não tenho mais dúvidas!

─ Me dá a porra desse papel! ESSA FARRA COMEÇA HOJE!