Isso Só Acontece Comigo
Capítulo 34
Surpresas
─ Cléo, pode vir aqui um instante? ─ a minha superior me chama, abrindo a porta da sua sala.
Comecei a trabalhar na livraria Cult. E admito: amo tudo isso! Tenho acesso aos lançamento de livros em primeira mão. Sem falar nos eventos dos autores. Semana passada a Marian Keyes esteve aqui! Marian Keyes! Dá para acreditar? A livraria lotou. Fui uma das primeiras a pedir que ela autografasse todos os meus livros. Chorei feito boba e ainda tiramos fotos! Beijinho no ombro! Saímos em colunas de jornal e a própria autora divulgou o evento nas suas redes sociais.
Posso surtar de novo?
A Marian Keyes !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
─ Algum problema, Beth? ─ chego à sua sala. Beth é a organizadora de eventos da livraria. E eu sua assistente. Ela tem cabelos volumosos, cacheados e óculos vermelhos, quadrados.
─ Você conhece o Marcos? ─ ela cruza as pernas e me fita seriamente. Arregalo os olhos surpresa pela aquela pergunta, porém mesmo assim respondo afirmativamente um pouco desconfiada. Aonde ela quer chegar com isso?
─ Não faça essa cara de espanto. Eu e Marcos somos amigos de longa data e sei tudo sobre vocês. ─ nunca imaginaria que Beth conhece o Marcos. A vida realmente te surpreende. ─ Sei que não somos amigas. Somos só colegas de trabalho e você chegou agora aqui. Mas deixe-me te dar um pequeno conselho: você é nova, tem muita coisa pela frente. Te digo uma coisa. ─ ela levanta-se da cadeira e vem em minha direção. ─ Quando a vida nos dá a oportunidade de ser feliz, a gente agarra com todas as forças, senão, a oportunidade vai embora e não volta nunca mais. Não deixe esse garoto fugir de você. ─ olho para ela constrangida. Sei que o que Beth diz é verdade. Mas fico um pouco incrédula por ela saber de tudo isso. ─ Eu também sei que ele é o Mister M. ─ arregalo os olhos. ─ Ele me conta tudo. Sendo bem honesta, ele só quis ser o Mister M para provar para todo mundo que ele deu a volta por cima. Que ele estava em uma parte superior que sua ex esposa. Contudo, depois que ele passou a ser o Mascarado, ele perdeu sua essência, deixou de ser o Marcos. Faça ele ser o Marcos de novo. Ele merece alguém como você. Vocês merecem ter um final feliz.
***
Toco a campainha diversas vezes, mas ninguém aparece. Fico um pouco preocupada. Desde que eu e Marcos nos desentendemos semanas atrás, não o vi circular pelo prédio. Será que ele mudou de endereço?
Depois de tanto esperar, desisto. Dou meia volta e vou em direção ao elevador. Aperto o botão repetidas vezes, para que ele pare naquele andar. Quando as portas se abrem, entro em choque. É o senhor Joaquim junto com a Emily. Fico amarela, azul, todas as cores da bandeira do Brasil. Não queria ver tão cedo o meu porteiro, isso me recorda do mico que paguei e de quase o ter o beijado achando que era o Mister M.
Enquanto eles saem do elevador, abaixo a cabeça e fico sem saber o que fazer. Não sei se entro ou se o encaro. Mas não preciso tomar nenhuma atitude, Emily vem em minha direção correndo, me dá um abraço apertado e um beijo na bochecha.
─ Cléo! ─ a abraço de volta, enquanto seu Joaquim nos observa.
─ É você mesma que estávamos procurando. ─ ele coloca sua mão no meu ombro, enquanto me solto dos braços da delicada Emily.
─ Eu? ─ respondo incrédula.
─ Você. ─ fico um pouco nervosa; será que a esposa dele deve estar vindo atrás de mim para me fritar em uma churrasqueira e dar para os cachorros comerem? Mas não é isso que sai de seus lábios.
─ Meu filho está muito abatido. Fica pensativo por muito tempo. Mal fala, mal come. Nunca o vi assim, Cléo. Ele deve gostar muito de você. ─ entristeço com seu relato. Acho que demorei muito para tomar uma decisão e nesse meio tempo o fiz sofrer mais. Me sinto péssima. Emily demostra agora um semblante preocupado e me encara por uns instantes, em seguida começa a conversar comigo.
─ Papai está muito triste, Cléo. Eu sempre achei que ele gostava de você. Desde quando ele me mandou ficar entregando na sua porta aquelas cartinhas. Só não falei nada porque ele me pediu segredo. E depois ficou agindo como se não se importasse com você. Eu não entendi muito, mas um coleguinha meu da escola, o Gabriel, sempre me diz que adultos são estranhos mesmo. ─ ela faz uma careta engraçada.
As cartas! Então foi assim que ele estava me enviando naquele dia. Lembro das crianças no corredor brincado. Só não recordava de ter visto a Emily. Talvez porque ainda não a conhecia e não tinha parado para prestar atenção.
─ Então era você? ─ ela balança a cabeça confirmando.
─ Sou muito esperta. Eu entregava e corria para brincar com os meus amiguinhos. ─ se gaba sorrindo e eu também.
─ Muito mesmo. Me enganou direitinho. ─ bagunço seus cabelos negros cacheados.
─ Faz um favor para mim, Cléo? ─ ela volta a conversar.
─ Qual? ─ me abaixo, ficando do seu tamanho.
─ Faz meu pai voltar a sorrir? ─ seus olhos brilham na esperança que eu cumpra o que ela me pede.
─ Faço sim. ─ respondo meio trêmula diante de tanta doçura desta garotinha.
─ Jura de coração? ─ sorrio com aquela doçura de menina.
─ Juro. Palavra de escoteira! ─ levanto a palma da minha mão, em um gesto de confiança.
─ Agora me diz: onde ele está?
─ Ele foi ver o sol se pondo lá na praia de Boa Viagem. É para lá que ele vai quando quer pensar. ─ é Seu Joaquim que responde.
─ Então, eu vou até lá. ─ me levanto da altura que estou.
─ Boa sorte a você dois. Espero do fundo do coração que dê tudo certo. ─ agradeço com um pequeno aceno e ele me dá um sorriso sincero e leva Emily para casa.
***
O sol se pondo é a coisa mais linda de se ver. Há muito tempo não paro para prestar atenção em uma imagem tão bela. Ver o céu se transformar em um tom alaranjando, como se acompanhasse o sol em sua partida, é lindo e apaixonante. A correria do dia a dia faz a gente esquecer o que é realmente importante. Como as pequenas coisas que o nosso criador faz para nós.
Caminho na areia à procura do Marcos, olho para o mar, quiosques e não o encontro. Depois de quase desistir, avisto perto de umas pedras, observando a imagem linda que tem na nossa frente.
Está de blusa branca e uma bermuda jeans e um olhar perdido. Mas ao me aproximar mais, vejo uma mulher loira perto dele dizendo palavras murmuradas, penso que é sua ex, mas não é. Talvez Marcos tenha partido para outra. Meu coração se aperta ao imaginar isso, porém, mesmo assim, entendo seus motivos, eu só o fazia sofrer. Ele tem direito em investir nela.
Dou meia volta e acredito que Marcos percebe minha presença e me alcança pegando levemente no meu braço, me fazendo fitar seus olhos castanhos intensos.
─ O que faz aqui? ─ mostra-se surpreso.
─ Vim te procurar, mas vi que já tem companhia, não quero atrapalhar. ─ caminho para o lado oposto, mas ele me cessa.
─ Ah, Cléo… ─ me olha com misto de ternura e piedade.
─ Não! Por favor. Sem lamentações. Desejo que você seja muito feliz. ─ quero evitar que ele me explique quem é a fulana e o que faz ali.
─ Cléo, eu e a… ─ não deixo ele terminar.
─ Chega Marcos. Eu vou indo, não precisa me explicar nada. ─ quando viro as costas, a mulher nos alcança correndo nas areias da praia.
─ Ei! É você que é o grande amor da vida do meu irmão? ─ viro e a encaro.
─ Como? ─ faço uma cara de espanto. Ela não parece nada com o Marcos. Tem cabelos lisos, loiros, estatura mediana. Somente seu olhar é daquele tom castanho intenso que conheço bem. E eu já a vi em algum lugar. Da noite que eu fui ao endereço que Emily me deu, quando estava desesperada para salvar a Mari. Avistei ela e o Marcos trocando carinhos e na época achei que era sua namorada. Sabia que ela não era estranha.
─ Olha, leva essa mala sem alça. Não aguento mais ouvir esse lamento de vocês. Ele está me impedindo de sair com meus amigos, pois, todas as vezes me pede companhia, para não ficar sozinho e eu perco a oportunidade de ficar com todos os homens gatos desta cidade. ─ sorri.
─ Jéssica! ─ Marcos a repreende, mas não faz nenhum efeito.
─ Graças a Deus que você apareceu. Vou dando no pé e ficar sozinha, finalmente! ─ ela eleva as mãos para os céus, agradecendo ao Divino e sai.
─ Vocês não se parecem.
─ É porque ela é filha somente do meu pai. O velho deu umas puladas de cerca por aí.─ Seu Joaquim? Quem diria, hein! ─ Achou que eu já estava em outra? ─ ele estreita os olhos e sorri divertido.
─ Bem… eu… ─ fico nervosa e envergonhada ao mesmo tempo.
─ Fica tão linda com ciuminho. ─ ele se aproxima de mim e deposita um beijo na minha testa e sorri com meu constrangimento.
─ Não foi bem assim. ─ tento parecer superior.
─ Ah, foi sim. E quer saber? Adorei. ─ mexe nas mechas dos meus cabelos e me dá seu olhar intenso que tanto me perturba.
Ficamos em silêncio, apenas falando com os olhos. Dizemos tanta coisa na última vez que nos vimos. Coisas que nos magoaram, nos machucaram. Mas agora, depois que a poeira abaixou. É como se estivéssemos nos conhecendo naquela instante. Como se toda as mentiras e intrigas ficassem para trás.
Sei disso, pelos olhares que damos um ao outro. Marcos parece enxergar minha alma e eu a dele. Quero dizer tanta coisa e acredito que ele também. Meu coração acelera. O silêncio que paira sobre nós me deixa aflita. Eu não sei o que falar agora. Então, depois de uma longa pausa, Marcos inicia o diálogo.
─ Desisti de ser o Mister M. Já comuniquei a todos que o grande DJ do momento deixará de fazer suas apresentações.
─ Por que fez isso? ─ o encaro.
─ Porque não quero ser mais ele. Quero ser eu. Entende?
─ Sim. ─ digo compreensiva. Concluo que ele não querer viver mais atrás de máscaras. ─ Sinto muito por não ter te notado. Entendi o que você quis dizer.
Silêncio.
─ Você me perguntou o que será de nós. Possa responder? ─ me atrevo a tomar uma decisão. Espero que ele concorde com que falo.
Marcos balança a cabeça.
─ Acho que o nosso futuro é estar ao lado um do outro. ─ ele abre um enorme sorriso.
─ Ah, Cléo! Como eu esperei por esse momento. ─ me agarra pela cintura com pressa. Nos olhamos e aos poucos seus lábios se tocam nos meus e me entrego ao beijo, que por horas é calmo e tranquilo, por outro é urgente e apressado.
─ Isso é real? ─ ele me pergunta ofegante. Encostando sua testa na minha.
─ Claro que é. ─ respondo com os olhos brilhando e coração acelerado diante de tanta paixão.
Marcos inicia os beijos, sua língua dança junto com a minha e eu não quero que ele pare, mas ele trava e me dá um sorriso maroto. Em seguida, beija meu pescoço, mordendo minha orelha e apertando minha cintura de forma possessiva; o que me causa arrepios. Beijo de volta da mesma forma que ele faz comigo e ouso até mais. Marcos dá um longo suspiro.
─ Vamos sair daqui antes que a temperatura esquente. ─ sorrimos.
Andamos pela areia e de vez em quando dando umas paradinhas para um beijo ou outro e nos admirando. Apreciando agora o verdadeiro Marcos e a verdadeira Cléo. Sem máscaras, sem mentiras, juntos nos completávamos de forma verdadeira, sensível e libertadora.
─ Oficialmente minha namorada.
─ Oficialmente meu namorado. ─ olho bem fundo nos seus olhos e ele responde com um sorriso:
─ E ELA É A MAIS LINDA DO BRASIL! ─ grita no meio da praia me fazendo vergonha. Algumas pessoas nos olham curiosas.
─ Para bobo! ─ murmuro, dando um beijo casto em seus lábios.
─ Que cena mais linda. ─ alguém se aproxima de nós com os braços para trás como se escondesse algo.
─ Soraya? ─ digo incrédula. O que ela está fazendo aqui?
─ É uma pena eu estragar isso. ─ aponta um revólver para a cabeça do Marcos.
─ Soraya, por favor, pelo amor de Deus!. ─ entro em desespero. Transeuntes que passam e percebem a ação, gritam assustados.
─ Achava mesmo priminha que eu deixaria você ganhar assim tão fácil? ─ Marcos fica estático. Analisando a situação e se pode sair dela.
─ O que você quer? ─ olho para ela horrorizada, temendo que aconteça algo ruim.
─ Se você vir comigo, não estouro a cabeça do seu namorado e revelo o que quero. ─ continua apontando a arma. Respiro fundo.
─ Eu vou.
─ NÃO! ─ Marcos segura meu braço, suplicante. ─ Não vá. ─ Soraya continua com a mão no gatilho. Alguns segundos depois, dois brutamontes se aproximam de nós. Os dois são capangas dela e seguram também uma arma cada.
─ Trouxe um reforço para que ninguém tente uma gracinha. ─ olha para o meu namorado.
─ Não precisamos disso. Eu vou com você. Só deixe o Marcos em paz, tá bem? ─ um sorriso diabólico surge de seus lábios.
─ Tudo bem. ─ ela retira a arma da testa do meu namorado e sorri triunfante.
Me aproximo dela, me rendendo para sabe lá o quê que ela quer me contar. Os fortões me agarram com força, enquanto vejo o Marcos correndo em nossa direção, gritando o meu nome. Mas eles são muito mais rápidos e me colocam em uma van. Depois disso tudo…
O que vejo é escuridão.