Isso Só Acontece Comigo
Capítulo 25
Presságio
O salão é brilhante, com um globo girando, e fazendo diversas luzes brancas se espalharem no local. De um lado está o Mascarado, do outro, Marcos, ambos sorriem para mim, e no canto mais afastado do palco de um metro de altura, aparece Cyndi Lauper. Com um vestido espalhafatoso, uma jaqueta preta, de couro, e cabelos cortados de um lado e outro não.
Ao encará-la, subitamente olho para mim, também estou com um vestido chamativo, branco com bolinhas e com brincos grandes de argolas. Parece que sou transportada para outra década. Isso só pode ser um sonho. Marcos e o Mascarado continuam sorrindo, ambos não se aproximam. Cyndi me chama com a mão e fico rente a ela que começa a cantar
“Time after time”
Estou com lágrimas nos olhos, acho esta música linda e muito cabível a tudo que ando vivendo.
Me aproximo do palco e subo.
Os cabelos da Cyndi estão em um tom alaranjado excêntrico, típico dela. Cara a cara nem acredito na pouca distância entre mim e alguém que venero. A banda toca a melodia em harmonia. Traduzo mentalmente uma parte da letra da música:
“Às vezes você me imagina,
Estou andando à sua frente,
Você me chama,
Mas eu não consigo ouvir”
É o que eu penso sobre o Mascarado, ele pode ser qualquer um e eu não posso ouvi-lo, nem enxergá-lo e inexplicavelmente isso também está acontecendo no sonho, ele só sorri, nem se mexe, ou fala. Marcos também. E agora minha cabeça dá voltas, Cyndi deixa a música só na capela e finalmente fala comigo.
“Você terá que escolher”
“Você fala português?”
Me impressiono com a Diva pop falando perfeitamente minha língua.
“Querida, nos sonhos tudo é possível. Mas voltando, você tem que escolher um deles, ou os dois se preferir …” ─ dá um sorrisinho.
“Isso é fácil, eu escolho o Mascarado.”
“Tem certeza?”
Dou uma gargalhada.
“Cyndi, Marcos nem é uma alternativa, nem sei o que ele está fazendo aqui.”
“Se ele está aqui, é porque você desejou que estivesse”
“Impossível. Você mais do que eu entende que homens como Marcos, grosseirão e chatonildos não têm vez.”
Ela dá um grande sorriso.
“Cléo, ele pode te ajudar mais do que você pensa. Parece ser uma boa pessoa.”
“Sem chances, Cyndi.”
“Ele te deve um favor. Acho que você pode utilizar disso para conhecê-lo melhor, que tal fazer um ciuminho ao Edu e acabar com os planos da endiabrada da Soraya?” ─ ela pisca.
“Até você?! Conhece a minha prima do mal?”
Ela apenas assente e volta para o seu microfone terminando a música. Olho para o Marcos e as palavras de Cyndi gritam dentro da minha mente.
“Ele te deve um favor”
“Que tal fazer um ciuminho ao Edu?
Eu posso pedir uma coisa ao Mascarado! Porém não sei onde ele mora, nem tenho seu telefone, ele é inviável, Marcos não. Junto todos os fatos daquele sonho louco e tenho uma incrível ideia. Se meu vizinho topar, acabo com os planos da minha prima do mal.
Cyndi começa a tocar outra música e fico dançando no palco, o Mascarado se aproxima e ela apenas dá um sorriso cúmplice. Continuo dançando no maior estilo “anos 80′′. Mister M finalmente sobe no palco em câmera lenta, fecho os olhos já esperando o beijo, porém antes que aconteça, eu desperto! Droga! Na melhor parte!
***
Acordo sorrindo. Cyndi Lauper cantando para mim e me dando conselhos? Só pode ser um sonho. Não nego que depois penso porque meu cérebro cogita a hipótese de Marcos ser uma opção de escolha, não sinto nada por ele, certo que ele foi bem fofo no parque se desculpando e se oferecendo para qualquer coisa que eu precisar, mas … Sei lá! Sem chances.
Contudo, já que ele mencionou o fato de me dever uma, quero saber se ele topa fazer uma baita loucura que está na minha mente. Temos tão pouco de convivência e já ir pedindo um tipo de coisas dessas. Porém, se minha ídola pop falou, mesmo que em sonho, quem sabe não pode ser uma possibilidade?
Visto uma blusa branca bem folgada e uma calça legging. Calço meus tênis e resolvo caminhar, o que está fazendo muito bem para minha saúde e até minha autoestima. Desço as escadas rapidamente e no percurso cogito a hipótese de falar com Marcos, mas pelo horário, ele pode estar ocupado, deixo para depois da caminhada.
Por uma incrível coincidência, encontro justamente com ele no portão do condomínio. Não só com ele. Uma mulher está a seu lado. Ela é morena, de roupas apertadas e com a alça do sutiã caindo; juro que minha intenção é abaixar a cabeça e passar pelos dois como se nada estivesse acontecendo, porém ao ver a briga e as gesticulações exageradas da mulher, fico paralisada no hall, esperando que aquilo acabe logo.
Coisa que meus vizinhos também estão fazendo, alguns levantam a hipótese de ir lá pedir para abaixarem a voz, outros dizem que em briga de marido e mulher ninguém mete a colher. Esta última me fez recordar que ele é casado. Meu Deus! Como Cyndi Lauper me aconselha a ir atrás de um homem casado? Tá certo que foi um sonho e Cyndi nunca me viu mais power ranger, mas não minto que sinto uma pontadinha de amargura.
Sou muito burra mesmo, se ele tem filha, com certeza deve ter esposa. Mas para minha alegria, escuto uma das vizinhas dizer que era a ex e que eles terminaram faz tempo. Sinto um alívio imediato, por que não sei, porém meu contentamento é interrompido pela gritaria da mulher.
─ Você é um gordo xexelento mesmo! Acha mesmo que fico com aquela pentelha no fim de semana? ─ Marcos responde baixo e com gestos em mãos, pede para ela se acalmar, porém, acho que ao ver a plateia crescendo a mulher grita mais. ─ Cuide dela você! A ideia foi sua de ter uma filha, eu concordei porque na época queria te agradar, antes de ser essa poça de banhas que você é agora. Duvido que alguma mulher te queira, imprestável!
Alguns caras se aproximam e tiram sarro do Marcos. Tudo bem que ele é um chato, mas ninguém tem o direito de humilhar alguém daquela forma e ainda mais em público. Onde está a educação daquela mulher?
Marcos tenta acalmá-la e chamá-la para subir, porém ela sempre recusa e faz mais um escândalo. Diante da falta de atitude de alguém, me revolto ao escutar um cara do meu lado que diz que concorda com ela e suas gritarias que o “banhudo” não pega ninguém.
Não sei o que me dá na cabeça que vou em uma velocidade máxima até aqueles dois e parece que naquele dia eu engoli inúmeras pílulas de sem sem-vergonhices para dizer o que digo.
─ Ele dá mais no coro do que você pensa, querida. E é bom falar baixo e parar de insultar o meu namorado! ─ agarro Marcos pela cintura, ele olha abismado para mim. Não sei se a plateia do condomínio escuta, tanto faz, pouco me importa o que pensam.
Não sei se foi minha sonoridade de falar claro em bom tom ou se foi a surpresa da mulher ao saber que Marcos pode sim arranjar outra. Sei que ela levanta as mãos, como sinal de rendição e dá um sorriso de deboche.
─ Como quiser, vou indo, antes que atrapalhe o casalzinho. E não fico com ela, ouviu bem? ─ pega um óculos escuros da sua bolsa e coloca em seu rosto e parte. Marcos fita o hall do condomínio e suas bochechas avermelham-se, acho que ele constata a vergonha que passou.
─ Obrigada, Cléo. Não esperava isso de você. ─ fala com sinceridade.
─ Por que deixa ela fazer isso? ─ ignoro o que ele acaba de dizer e o confronto.
─ Porque não grito com mulher. ─ diz cavalheiro. ─ Mas vou impor limites nisso. Para mim já chega! E além do mais, Melissa gosta de aparecer, como você bem viu. E tudo isso porque pedi para tomar conta da Emily no fim de semana, já que tenho que resolver algumas pendências do meu trabalho e ninguém da minha família poderá ficar com ela. Ficarei em casa mesmo. ─ diz derrotado e colocando as mãos na cabeça.
─ Que absurdo! ─ me indigno.
─ E olhe que desde que ela nos abandonou, eu nunca pedi para ela ficar com a Emily.─ seu semblante é triste.
─ Eu me ofereceria, mas é que tantas coisas estão acontecendo na minha vida. Que não sei te dizer se ela ficaria bem ao meu lado. ─ bufo pela minha inutilidade.
─ Imagina, Cléo! Não precisa se incomodar, não era nada demais, eu posso dar conta. ─ suspira.
─ Você parece abatido com a presença dela, ainda a ama? ─ ele gargalha.
─ Ah, Cléo! Se soubesse as coisas que ela me fez, não faria esta pergunta. Mesmo que eu gostasse me obrigaria a não gostar, ela não merece o amor de ninguém, nem meu nem da minha filha. Esperava que, pelo menos, ela amasse a Emily, mas novamente quebrei a cara ao imaginar isso.
─ Quem ama de verdade não faz esse tipo de coisa e mesmo que a pessoa seja fora dos padrões, a gente só consegue enxergar com os olhos do coração. ─ murmuro com um ar apaixonada.
─ É mesmo? ─ ele levanta a sobrancelha e dá um sorriso de lado.
─ É. Eu por exemplo, estou gostando de um rapaz como você.
Marcos olha para entrada do condomínio e vê poucas pessoas, mas, mesmo assim, ainda estão lá, curiosas sobre a nossa conversa.
Estamos plantados no portão como duas estátuas e aí que ele sugere que saíssemos dali. Eu me esqueci da minha caminhada, quando ele nota minha roupa e meu tênis se oferece a ir comigo, andando pelas avenidas e calçadas.
─ Defina um rapaz como eu. Estou curioso para saber que a Cléo adoradora de homens bonitões e musculosos faz com um rapaz como eu. ─ dá um sorriso sarcástico.
─ Adoradora de musculosos? Cara! Você parece minhas amigas. ─ não me chateio com sua conclusão, acho até engraçado o modo que ele fala.
─ Te vi algumas vezes com alguns, no seu apartamento, não pense que eu estava te vigiando, mas às vezes eu passava por você e via. ─ ele ruboriza.
─ Incrível como não te notei. ─ estranho sua declaração.
─ Não sou uma pessoa de ser notada mesmo. ─ diz com pesar.
─ Desculpe. ─ abaixo minha cabeça envergonhada. Entendo o que ele quer dizer e isso me entristece.
─ Não precisa. Eu que tenho que te pedir, você parece ser uma pessoa legal e eu aqui te julgando. ─ seus olhos brilham ao me observar, eu paro um pouco e o analiso, quase me perdendo naquelas íris castanhas, em seguida chacoalho minha cabeça e o respondo.
─ Já tô acostumada com isso. Tenho os meus defeitos e não nego que um homem bonito e sarado chama muito minha atenção e como você viu era esse tipo que eu andava por aí. Tive muitos ficantes, mas só dois namorados e todos seguem esse padrão. Mas agora as coisas mudaram.
─ Por que você disse que era o seu tipo? No passado? ─ se mostra curioso.
─ Como te disse, eu estou apaixonada por um rapaz fora dos padrões e como te falei no parque, eu não sei quem ele é, porque ele usa uma máscara quando me encontra. ─ não sei o que ele fez, porém eu só consigo falar a verdade quando estou ao seu lado.
─ Sério? No maior estilo fantasma da ópera? Esse cara tem problemas. Toma cuidado para ele não ser casado, um psicopata, um foragido da justiça e por isso cobrir o rosto. ─ fala preocupado e ao mesmo tempo sorrindo.
─ Não! ─ sorrio. ─ Creio que não. Ele é o Mister M.
─ O DJ? ─ fala alto, abismado.
─ Sim. ─ respondo sorrindo com sua surpresa.
─ Caramba! Quando vocês se acertarem não se esqueça de apresentá-lo a seu amigo aqui. Sou um grande admirador do trabalho dele. ─ nós dois gargalhamos.
─ Pode deixar que não esqueço. ─ chegamos na orla e agora esperamos o sinal abrir, para passar para o outro lado da avenida.
─ Mas por que ele? Nem o conhece. ─ Marcos retoma nossa conversa.
─ É difícil te explicar, sabe. Mesmo não sabendo como é seu rosto, eu sinto como se o conhecesse há tempos, quando estou perto dele é como se todas as luzes de todos os prédios se acendessem, como se borboletas flutuassem no meu estômago e como se tudo ficasse ainda mais colorido. ─ ele faz uma careta e me diz que sou muito piegas.
Gargalhamos e o sinal de trânsito fica verde. Permitindo atravessarmos a avenida e ir para o calçadão da praia.
No percurso da caminhada conto ao Marcos cada detalhe do que está acontecendo na minha vida, narro até com um pouco mais de drama, para quem sabe sensibilizá-lo com minha situação.
Ele fica a par da minha festa, dos gogo boys, nesta parte ele faz uma careta e soca o ar, não entendo sua reação, porém continuo narrando os fatos. Conto do que fiz na frente da casa do Edu e ele começa a sorrir me chamando de louca e digo também que essa travessura me levou a ficar comendo miudinho nas mãos da minha prima altamente perturbada.
Marcos sorri e diz que minha vida daria uma boa novela mexicana. Será que se eu mandar o script para papai ele envia aos estúdios da Televisa?
Depois de darmos umas quatro voltas no calçadão, indo e voltando, finalmente chego na parte que quero. Narro a Marcos que estou estragando com tudo que Soraya manda eu fazer, a fim de acabar com seus planos loucos e aí solto a pérola do meu plano em que o envolve. Marcos arregala os olhos e fala inúmeros nãos, que é muito decente para fazer esse tipo de coisa com alguém, vulgo dizer, Edu. Mas aí conto da minha galhada fenomenal e rapidamente ele topa.
─ Será que dá certo? ─ me encara.
─ Torço que sim. Não vai amarelar, vai? ─ fico com medo dele dá para trás.
─ Não sou homem de amarelar. ─ diz firme.
─ Gosto assim.
Marcos dá um lindo sorriso e instantemente meu coração acelera e não entendo o porquê. Isso só acontece quando estou com o Mascarado e este não é o caso. Talvez seja porque Marcos se parece com ele, na fisionomia e principalmente o olhar. Um olhar sincero do mesmo tom castanho.
Deve ser por isso que eu estou desse jeito. Só por isso!
Me recordo do meu sonho e penso se Marcos pode ser uma possibilidade. Chacoalho a cabeça, tirando de longe esses pensamentos. Lógico que não. Óbvio que não!
Voltamos para casa e nos despedimos no pé da escada, ele vai na frente, pois parece que a tia que toma conta de Emily saiu, deixando-a sozinha. Ele soube porque a criança ligou avisando. Rapidamente e muito preocupado, apressa-se. Antes de ir, me conta que dá uma bela bronca em sua irmã quando a vê. Acho lindo o carinho que ele tem pela filha. Poucos homens têm aquela dedicação.
Ele parece segurar a barra, firme e forte. Não deixa a mãe se virar sozinha e faz parte do crescimento e aprendizado da criança. E também pelo que vi hoje, acho que Emily só pode contar com ele, pois aparentemente sua mãe parece não se importar com ela. O que é uma pena. A garota é extremamente inteligente e especial.
Entro no meu apartamento e bem rapidamente tomo um suco de manga. Em seguida, pego minha lista telefônica e meu telefone. Disco números de contatos de pessoas que possam me ajudar e para minha sorte ao terminar cada ligação, percebo que elas podem sim. Eu vou contra-atacar Soraya e será quando ela menos esperar.