Isso Só Acontece Comigo

Dayana Araújo · Capítulo 13 de 38

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Isso Só Acontece Comigo

Capítulo 13

Explicações

Depois da nossa parente má ir embora, os olhares de todos voltam para dona Drica e o menino de fraldas aguardando explicações. Vovó cruza os braços e ajeita os óculos em desconforto com toda a situação. Tia Lio não fecha a boca e é capaz de ter entrado e saído mosquito de lá sem ela perceber. Jaque e Fabrício estão murmurando um com outro, possivelmente sobre o que Soraya acaba de dizer. Eu, apenas fito minha mãe e espero ela se pronunciar sobre o que está acontecendo.

─ Mamãe, acho que a senhora nos deve explicações! ─ cruzo os braços, levantando da cadeira.

─ E você dizendo que era um filho de sua amiga, hein! ─ vovó fala com tom irritado, perante a mentira da minha mãe. E olhe que ela mora aqui e também não desconfiou de nada.

Drica fica apreensiva e demora um pouco para responder.

─ Bem … eu contaria! ─ Lucas continua abraçado com ela.

─ Vocês não aceitariam. ─ chora. ─ Olhem só a cara de vocês agora!

─ Eu só quero que saibam, que eu amo muito a Drica. Não pensem que por conta da diferença de idade, isso impede alguém de se amar. Nunca encontrei ninguém como ela. Foi amor à primeira vista. Não consegui resistir. ─ dá um olhar romântico para minha mãe.

─ Nos conhecemos quando eu ia para escola… ─ Lucas inicia as explicações sobre o relacionamento deles para nós. ─ Um dos meus amigos tinha esbarrado na Drica sem querer e fez com que ela derrubasse suas compras; rapidamente fui ajudá-la. Nossos olhares se cruzaram e senti algo diferente. A parti dali, passei a ir no mercado em que ela ia para ver se aquela linda mulher passava. Consegui falar mais com ela, carreguei suas sacolas e conversarmos. E aí… o cupido nos pegou!

Quase durmo depois tanto mel que foi colocada nesta conversa. Os dois ainda fazem juras de amor e trocam beijos ardentes. Ainda não consigo engolir tudo aquilo. Faço uma careta. Não admito que um pirralho daquele possa ser meu padrasto.

─ A parte do casamento é que eu ainda não entendi. ─ vovó estreita os olhos e os dois param de se beijar.

─ Essa é a melhor parte! ─ mamãe toma rumo da conversa. ─ Quando completamos seis meses de namoro…

─ Seis meses?! Esse tempo todo a senhora escondeu isso de mim? ─ falo irritada.

─ Eu posso acabar de contar, Cléo? ─ me olha ameaçadora.

Me calo.

─ Então… O Lucas me chamou para conhecer o jardim da casa do seu avô. Quando cheguei lá, estava tudo armado. O juiz da paz estava próximo a uma linda árvore, algumas cadeiras estavam postas no espaço do jardim. Lucas estava de smoking. E eu por sorte, estava vestida adequadamente, pois esse safadinho… ─ aperta as bochechas do moleque, que sorri. Preciso de uma sacola para vômitos! ─ Me disse que seria aniversário de bodas de prata dos seus avós.

─ Te enganei direitinho, hein, amor! ─ ele sorri. Mamãe dá um beijo rápido nele.

─ Então… nós casamos! ─ finaliza sua história sorridente enquanto nós não conseguimos disfarçar nossas reações de surpresa.

─ Ótimo! Realmente estamos no fim dos tempos! ─ diz Divina.

***

Acordo no meu quarto antigo. As paredes são rosas com pôsteres de cantores. A cômoda, a cama, são as mesmas. Aquele cheirinho de mofo invade o ar. Livros de Machado de Assis estão na prateleira. Memórias Póstumas tem o capítulo marcado. A minha coberta é de poesias de Drummond. Como fui burra em passar tanto tempo sem vir aqui. Minha essência está neste lugar, não posso fugir disso.

Lavo meu rosto e escovo meus dentes rapidamente, pois sinto um cheirinho de uma comida familiar. Troco de roupa mais veloz que posso e desço as escadas quase no desespero para chegar a tempo de degustar a iguaria.

─ TAPIOCA! ─ sento na cadeira, eufórica. Vovó sorri.

Apesar de ultimamente não falar coisa com coisa, minha vozinha não perde o seu dote culinário. Seus quitutes e doces continuam com o sabor de sempre e posso dizer que até melhores! Minha prima e seu marido estão já à mesa e tia Lio com certeza madrugou. Ela é a primeira a quase pular feito Jack Chan em cima da tapioca de queijo e coco que vovó acaba de fazer.

─ Huuuum … delícia, hein, vó! ─ falo assim que termino a minha de leite condensado.

─ Obrigado, minha netinha. Quem quer mais? ─ todos levantam os pratos.

Lucas e mamãe continuam no clima de tô-nem-aí-para-o-que-vocês-pensam. O melhor é quando ele veio me pedir ajuda na matéria de português, que está em recuperação. Reviro os olhos e falo que ainda não tenho cara de professora de ensino médio. Mamãe só faltou pegar uma colher de pau e me bater.

─ Não podemos denunciar aquela tal de Soraya? ─ Fabrício me lembra do inferno que enfrentaria.

Bufo.

─ Você sabe quem é o marido dela? ─ ele balançou a cabeça negativamente. ─ É o deputado Sílvio. O cara é metido com tudo que é de ruim que você pode imaginar. ─ o coloco a par do assunto.

─ Verdade. ─ mamãe concorda.

─ De vez em quando ele até aparece no “Jornal Nacional” como suspeita de queima de arquivo de algumas pessoas. Mas claro, ninguém nunca teve prova contra esse cara. São apenas “suspeitas” ─ faço aspas com os dedos.

─ Sem falar que a própria Soraya pode ser comparada com o capeta. A mulher já fez cada uma nesses últimos anos que prefiro nem contar. ─ tia Lio faz cara de drama.

─ Eu realmente sou culpada disso tudo. ─ Jaqueline começa a chorar. ─ É tudo culpa minha.

─ Não, prima. ─ seguro suas mãos.

─ Amor, sem estresse! Isso fará mal ao bebê. ─ todos olham espantados para o casal.

─ Bebê?! ─ falamos ao mesmo tempo.

─ Contaríamos depois do jantar. ─ Fabrício vai ao banheiro e volta depois de alguns segundos e com um pedaço de papel higiênico em mãos dá para minha prima assoar o nariz.

─ Obrigada, amor. Mas agora … eu estou acabada! Como sustentarei esse bebê? ─ volta a chorar, agora nos braços do marido.

─ Eu mal entrei na família e já vou ser titio. ─ o pirralho intrometido fala. Eu e vovó quase o matamos com os olhos. Mostrando que não é hora apropriada para seus comentários.

─ Jaque, assim que pegar a grana daquela psicopata, te darei uma parte, sei que convertendo para euros será bem menos. Mas já serve de ajuda.

─ Obrigada, Cléo.─ me abraça e para de se lamentar.

─ Obrigada mesmo. ─ Fabrício faz um sinal positivo com a cabeça e sorri.

***

A tarde passa gostosa. Todos nos reunimos no sofá, assistindo filmes antigos. Claro que o cover do Justin Biber quis que fizéssemos partidas de videogame. Provavelmente deseja também que brincássemos de amarelinha. Pergunto quem queria filme ou videogame, a maioria levanta a mão para filme.

Bem feito!

Apesar das tribulações, todos parecem ter se esquecido de todas as coisas ruins da noite passada. Minha prima já mostra um sorriso no rosto, sendo paparicada por Fabrício, que alisa sua barriguinha. Vovó de vez em quando cutuca mamãe e seu novo “marido”.

Sorrio. Adoro a teimosia da minha vó, que assim como eu, não está engolindo aquela historinha da sessão tarde.

Faço pipoca salgada com queijo ralado por cima. Particularmente adoro comer desta maneira. E minha família também. Após o fim do filme, vovó nos conta histórias da sua infância no sertão. Começa com o relato de lobisomem que assombrava as meninas da sua cidade. E também narra a do papa figo. Confesso que esta última me dá um medo que nem Stephen King consegue. Um homem que come fígados de crianças é de arrepiar!

Às sete da noite, Jaque e seu marido se despedem de nós.

─ Fica com a gente! ─ choramingo.

─ Não posso. Agora que chegará o ano novo, preciso entrar com o pé direito resolvendo todas as pendências. ─ ela alisa meu ombro como consolo.

─ Então, não deixe de me ligar. Posso te passar um planejamento estratégico e um bom plano de negócios. ─ ela balança a cabeça afirmativamente. Fabrício segura as malas, já colocando no táxi que os espera lá fora.

─ Precisamos ir. ─ diz lacrimejando.

Ficamos nos olhando por instantes como se prolongássemos o tempo para que ele parasse para nós. Difícil ter alguém de sua família que você gosta tanto morar tão longe e ver só de vez em quando. Não tive sorte mesmo, as pessoas que amo moram distantes e as que não quero próximo moram perto (isso é para você Soraya e companhia)

Nos abraçamos, já sentindo a saudade que nos apertaria.

─ Apesar de tudo, tia, a comida estava uma delícia! Principalmente o peru. ─ agradece minha prima, fazendo mamãe estufar o peito de orgulho e se sentir a Ana Maria Braga.

Fabrício nos dá um abraço sincero e promete que se recuperará. Agora eles têm um bom motivo para isso. Ficamos todos na porta de casa, esperando o táxi partir e dá o nosso Adeus.